C.A.S.U. [Em Revisão]
5 Primeira voz: O passado que espreita o presente
Notas iniciais
“Encanta-me ver as asas azuis da borboleta
Que se eleva e cruza o céu
Uma bela cena de um alfa casual e ordinário
Não tem nenhum significado especial,
Mas é como se houvesse uma indireta escondida
E se você for capaz de encontrá-la, algo deve mudar.”
Equilíbrio era a palavra com a qual definia meu estado de espírito. Eu estava pleno, nada poderia mudar isto.
A manhã estava em sua metade, porém eu e Shisui treinávamos desde seu início. Lutar com ele sempre foi algo motivador, pois nossos poderes se equiparavam deixando a vitória nas mãos daquele que possuía a melhor estratégia, além disso, existiam as apostas. Por algum motivo meu amigo gostava de apostar comigo, não importava muito o prêmio, na verdade qualquer coisa servia como tal, o que me fazia pensar que ele apenas queria se divertir com aquilo.
— Fazia tempo que você não lutava tão focado — exprimiu satisfeito se equilibrando no galho de uma árvore. — Acordou decidido a me dar trabalho? — zombou com um sorriso e saltou rapidamente em minha direção.
Defendi o golpe com o antebraço e revidei acertando o ar, segundos depois aparei sua espada com a kunai e forcei uma brecha que me permitiu desferir um soco contra seu estômago e descobrir que não passava de um bunshin. Ouvi o lago se agitar e permaneci parado concluindo que o som não passava de uma distração e o ataque viria de outra direção. Logo uma shuriken cruzou o ar e atrás dela, Shisui surgiu com um katon que varreu a grama tendo sua trajetória finalizada quando colidiu contra o meu.
— Eu poderia aceitar um empate, mas o problema disso é quem pagará a aposta.
— Então vamos continuar por mais algumas horas até que um de nós vença — rebati certo que ele discordaria.
— Um empate é justo. Não me leve a mal, mas não quero ficar o dia inteiro com você.
Voltamos ao distrito exatamente na hora do almoço e Shisui não pensou duas vezes em aceitar o convite de minha mãe. Ocupou seu lugar à mesa, comeu e elogiou a comida de tal forma que provocou enormes sorrisos nela, e o ciúme de Sasuke.
— Já chega, não acha? Ou quer aproveitar o momento para descobrir quantos elogios têm em seu dicionário?
— Além de irmão, você também é um filho ciumento. É infantil, não acha? Para alguém da sua idade... — Shisui implicou.
— Eu, ciumento? Ah, por favor!
— E qual o motivo do incômodo?
— Nenhum exagero é bom, apenas isso. Você já expressou seu gosto pela comida, não precisa repetir infinitamente — finalizou seriamente como se afirmação anterior não fosse pertinente.
Minha mãe que se divertia assistindo o diálogo lembrou a Sasuke de seu compromisso fazendo-o esquecer da implicância com Shisui. De imediato, ele se levantou rumando para o quarto como se o tal compromisso possuísse grande relevância. A atitude prendeu minha atenção e a pergunta que passeou por meus pensamentos foi respondida em seguida.
— É a despedida do Time Sete. Eles resolveram fazê-la quando souberam que seu irmão foi admitido na Polícia de Konoha. Você não sabia?
— Ele não me contou.
— Ora, aquele garoto... Bom, seu pai o admitiu na última semana, devido a isso será mais difícil os quatro irem a uma missão juntos, então o Kakashi resolveu reunir o time para comemorar a admissão do Sasuke.
— Isso não parece do feitio dele.
— Segundo seu irmão, ele está ficando velho e sentimental, por isso cedeu à ideia de Naruto e Sakura. Vou ver se Sasuke precisa de alguma coisa, mesmo que não diga, sei que está ansioso e desse jeito não vai encontrar nem o que estiver colado em sua testa — pronunciou com um risinho deixando a sala e a mim nas garras de um Shisui extremamente impregnado pela essência da arte em importunar pessoas.
— Essa cara estranha é por que o seu irmão é mais popular do que você? Não devia se surpreender afinal ele troca mais que uma frase e um silêncio com as pessoas — alfinetou.
De fato minha expressão tinha relação com Sasuke. Eu lembrava muito bem das palavras que ele usara para falar sobre a dupla com a qual iria comemorar sua conquista mais tarde, o significava que algo estava, no mínimo, errado.
Decidi deixar o assunto guardado até ele voltar do encontro com seu antigo time, não queria prolongar a enorme demora dele em se arrumar. Por sorte, o compromisso era as seis, o que ainda lhe dava três horas para gastar além das outras duas que escorreram pelo tempo enquanto se aprontava.
— Sasuke! — O gritou veio do lado de fora, porém atingiu meu cérebro tamanho o volume.
Era previsível que ele seria ignorado e sabendo disso, gritou novamente ainda mais alto que antes. Como resultado, a sala de minha casa abrigou Naruto, e Sakura que se dividia entre demonstrar vergonha pelo acontecido e lançar olhares enviesados ao amigo escandaloso.
— Pare de encará-lo desse jeito! — Ela sussurrou irritada segurando o braço de Naruto com força.
Eu sustentei o olhar observando a raiva se condensar no semblante que aos poucos se avermelhava pela emoção se acumulando em sua pele.
— Você deve estar bem feliz com a sua vidinha!
— Por que não estaria?
A réplica ascendeu sua ira e explodiu na acusação.
— Desgraçado! Como você pôde fazer isso com ela? — A voz tremeu da mesma forma que o punho cerrado. — Como pôde ficar noivo daquela... — interrompeu-se abruptamente. — Depois de tudo, escolher aquela... — A palavra parecia engasgada em sua garganta e Naruto se dividia entre cuspi-la e guardá-la.
Sakura o repreendeu recebendo por um segundo a intensidade do olhar que ele dirigia a mim.
— Vou esperar lá fora — disse a ela engolindo o nó da raiva.
Um pequeno silêncio se apresentou sendo rapidamente cortado pela garota.
— Não entendo por que ele está agindo assim com você — exprimiu baixo como um pedido de desculpas. — Ele apenas diz que tem seus motivos, mas não os explica. — Suspirou. — É tão estranho ver o Naruto desse jeito. A forma que olhou para você... É como se não fosse ele.
Os motivos que antes eu acreditava ter relação com a garota de cabelos róseos pareciam estar a léguas de distância dela e próximos de uma fagulha de desconfiança que prometia a combustão. O “ela” e o “aquela” aludiam a pessoas que não deveriam ser mencionadas numa mesma frase e por alguma razão seus nomes se mantiveram presos na boca do Uzumaki.
— Isso parece angustiá-la.
— Não é angústia, é só... preocupação. Naruto tem se fechado ultimamente. Às vezes fica calado como se estivesse perdido em seus pensamentos, dispensa nossa companhia para ficar sozinho sempre dando alguma desculpa e, além disso, adquiriu antipatia por você sem mais nem menos... Queria entender o que está acontecendo. — Sakura confessou.
Eu pouco me importava com o comportamento dele, no entanto minha consciência começava a soprar que deveria me atentar a isto.
Com Sasuke e meu pai fora de casa, tornei-me o expectador de minha mãe enquanto ela realizava as tarefas domésticas. Sua tranquilidade e esmero junto ao canto suave que expressava tornavam o simples momento em algo precioso. Fiquei ali a observando calmamente estender os lençóis e prendê-los num ritual só dela e que eu havia esquecido o quanto assisti-lo, mesmo que calado, nos aproximava.
— Vai dizer que ficar me olhando é o melhor que tem a fazer? — indagou com um sorriso terminando de pôr o último pregador.
Ela sentou ao meu lado esticando as pernas e depois as mãos para enfim relaxar.
— Faz tempo que não ficamos sozinhos assim... — disse satisfeita. — Gosto de conversar com meu filho mais velho apesar de ele preferir o silêncio.
Eu o mantive.
— Acredito que Aya desistirá. Ela sabe que não conseguirá fazê-lo aceitar o casamento — iniciou o inesperado assunto.
— Está disposta a isso.
— Ainda que afirme com todas as letras e pareça convicta do êxito, ela teme a rejeição e está ciente de que isto a aguarda. Suas opções são: manter um casamento de aparências e afogar a frustração nos braços de outro correndo o risco de ser exposta diante do clã ou manter sua honra intacta abrindo mão do noivado.
— Não creio que ela abdicará facilmente.
— Itachi, não há escolha. As alternativas a levam a derrota. Aya só precisa escolher como irá perder — pontuou serenamente, em seguida, puxou-me pela mão sorrindo. — Venha, vou cozinhar algo especial para nós dois.
Depois de alguns minutos, abandonei as curtas sentenças e mergulhei numa longa conversa com minha mãe que incluía inúmeros temas bobos apreciados por ambos. Eu vi a felicidade resplandecer em seu rosto e fiquei admirado ao notar que sua razão era minha companhia.
À noite quando meu irmão retornou do encontro com o Time Sete, fui esclarecer minha suspeita.
— Divertiu-se com seus amigos? — indaguei.
— Teve uma hora que o clima ficou muito melancólico, pensei que terminaria num rio de lágrimas, mas o Kakashi sensei deu um jeito. Exceto isso, eu me diverti.
— Pensei que não gostasse deles.
— Itachi, você está louco? Naruto é meu amigo desde que me entendo por gente, Sakura desde que entramos no mesmo time e o Kakashi... Por que estou explicando isso?
— “Naruto está sempre competindo comigo, estou cansado disso, e a Sakura você sabe. Ela é apaixonada por mim. E foco é justamente o problema. Sakura o mantém em mim e não na luta.” — repeti com exatidão.
— Eu disse isso?! — questionou incrédulo. — Quando... Ah, lembrei! É mentira.
Sustentei o olhar esperando a explicação.
— Você precisava sair de casa para esvaziar a cabeça, por isso quando vi que minha tentativa de ajudá-lo seria um fracasso, usei a primeira ideia que apareceu.
— Tudo o que disse foi uma mentira para me convencer?
— Exceto a parte que Sakura era apaixonada por mim.
Chamei-o com um gesto da mesma forma que fazia quando ele era criança.
— Você nunca vai perder essa mania? — revirou os olhos se aproximando. — Ai! — resmungou ao receber um merecido peteleco.
— Não volte a mentir para mim.
— Olha quem fala... — rebateu esfregando a testa.
A cerimônia estava marcada para as dez da manhã. Em frente à sede da Polícia de Konoha, as famílias se aglomeravam a fim de pegar os melhores lugares. O número de novos ninjas policiais era pequeno, no entanto isto não diminuía a importância do evento. Minato estava presente como das outras vezes, há alguns anos ele começara a participar da solenidade e desde então nunca mais deixou de prestigiá-la. Era um dos símbolos da harmonia entre o clã Uchiha e a Vila da Folha.
Os ninjas se organizaram em três fileiras, cada uma com três integrantes. Sasuke estava na primeira, ao lado da única mulher de todo o grupo que eu imediatamente reconheci e estranhei. Akane era prima de Shisui, filha da irmã de sua falecida mãe. Sempre fora uma garota agradável e centrada que não demonstrava muito interesse no mundo shinobi, se não fosse por seus pais, provavelmente não entraria para a Academia e até onde sabia, ela havia estacionado no título de chuunin embora tivesse aptidão para mais.
— Surpreso? — Shisui indagou percebendo minha expressão. — Muitas coisas mudaram enquanto você esteve fora, mas eu lhe asseguro que foram para melhor — disse misterioso. — A cerimônia vai começar.
Houve um breve discurso de meu pai sobre as obrigações da força policial de Konoha e a importância dela para a aldeia, em seguida o juramento entoado pelos novos integrantes, por último, Minato agradeceu aos anos de serviços prestados e deu as boas-vindas à turma. Assim que ele pronunciou a última palavra, a formalidade desapareceu deixando em seu lugar um turbilhão de emoções.
A quantidade de pessoas que foi até meu irmão parabenizá-lo prometia afogá-lo. Ele se dividia entre respondê-las e tentar me dizer algo, sem sucesso. Assisti-o ser abraçado por nossa mãe que tentava manter o rosto seco, receber os cumprimentos de Naruto, que mais parecia uma tentativa de enforcamento, e de vários outros sob o olhar de nosso pai. Após ter certeza que não havia mais ninguém para felicitá-lo, ele caminhou até Sasuke e parou em sua frente. Os olhos de meu irmão se encheram de expectativa por um momento que terminou na alegria de receber o abraço e as palavras que sempre desejou.
Eu me sentia feliz em assistir a felicidade dele. Era tão perfeita que não ousava participar.
Por estar absorto naquelas cenas, não me atentei aos demais acontecimentos e somente depois da última percebi que era observado. Encarei-a para entender a razão do ato, contudo ela rapidamente dissipou meus questionamentos quando pediu um minuto de minha atenção.
— Itachi, você tem alguma notícia da Kaoru?
A pergunta me pegou de surpresa, e eu precisei de mais tempo que o normal para respondê-la, porém quando a negativa chegou aos seus ouvidos, Kushina expressou imediatamente a decepção em ouvi-la.
— Achei que talvez soubesse de algo... — murmurou baixando os olhos como quem se dá por vencido.
Ela hesitou por um instante prendendo as palavras enquanto me observava, entretanto logo desistiu de brigar com elas.
— Desde que Naruto voltou da última missão está estranho e quando falamos sobre Kaoru, sinto que ele evita a conversa. Por mais que eu e Minato tenhamos perguntado várias vezes, a resposta é sempre igual... Mas não consigo acreditar, minha intuição diz que ele está mentindo, que sabe sobre ela e não quer nos contar! — exprimiu angustiada. — Desculpe tocar nesse assunto, mas você era minha última esperança.
A face de Kushina se converteu na tristeza que seus olhos abrigavam e embora eu não tivesse culpa por isso, senti-me desconfortável por não ser capaz de ajudar. Ela agradeceu num sussurro quase inaudível e me lançou um fraco sorriso como despedida.
— Por que perguntou sobre ela depois de tanto tempo? — indaguei mesmo convicto de que cometia um erro.
— Ela enviou uma mensagem a Minato avisando sobre a dupla de mercenários que tentaria capturar Naruto...
Não foi preciso ouvir o restante. Eu entendi e partilhei da opinião de Kushina assim que a frase foi proferida.
Kaoru dedicava um zelo absurdo a Naruto, defendia-o com unhas e dentes como se ele fosse verdadeiramente seu irmão, era impossível que se limitasse a avisar sobre o perigo. Certamente, ela mesma teria dado cabo dos inimigos.
Eu a conhecia perfeitamente bem para saber que medo não fazia parte de sua lista de emoções e que ela não pensaria sequer uma vez no que poderia lhe acontecer se o resultado fosse a segurança dele. Isto tornava a razão de seu comportamento uma incógnita que não satisfeita em caminhar por meus pensamentos, convidava outras a desfilar pelas linhas de meu raciocínio.
— Itachi, tem certeza que não sabe? Ela não lhe falou nada antes de partir nem tentou se comunicar com você até hoje?
— Nem uma palavra.
Kushina não insistiu, provavelmente meu rosto demonstrava que a conversa havia chegado ao fim.
Voltei-me à comemoração esquecendo o encontro, Sasuke era mais importante que qualquer coisa dita durante ele.
— Está atrasado!
— Eu assisti desde o início — repliquei.
— E demorou mais que todo mundo para vir falar comigo. Que espécie de irmão...
— Você é o meu orgulho, e eu quero vê-lo realizar todos os seus sonhos. Parabéns pela admissão.
Sasuke ficou estático por alguns segundos antes de exibir um puro sorriso que me remeteu a sua infância quando chamava “nii-san” insistentemente pedindo por um pouco de atenção.
Nós ainda ficamos mais algum tempo entre conversas e despedidas das quais eu participava mais com gestos do que com palavras e me arrependi de não ter ido antes, no exato instante que Aya veio cumprimentar meu irmão.
— Não faça essa expressão de nojo quando me vê, Itachi. Aprenda a disfarçar suas emoções — sussurrou acidamente.
— Está enganada. Você não é capaz de despertar qualquer emoção em mim. Minha expressão apenas reflete o vazio que me provoca.
— Vejo que é bom em usar palavras para magoar, será que foi por isso que Kaoru o deixou?
— Não mencione o nome dela.
— Por quê? Sente falta do seu bibelô? Ou talvez... Não me diga que ainda não a esqueceu.
— Se tem a ínfima esperança de uma convivência pacífica, saia da minha frente. Agora!
Aya sorriu. Com um prazer que me provocava a vontade de apagar aquele maldito sorriso.
— Itachi, Akane ficará chateada se você não der os parabéns a ela! — Shisui pronunciou brincalhão enroscando seu braço no meu. — Desculpe, Aya, mas vou pegá-lo para dar atenção a pessoas importantes.
— É todo seu. — Ela rebateu cravando o olhar nele.
— Eu sei, não precisava dizer. — Shisui piscou um olho e me arrastou em meio às pessoas. — Ela quer irritá-lo, não caia nessa, deixei-a falar o que quiser... Aquela mulher parece ter o dom de tirar os outros do sério! Ela deveria me agradecer por salvar sua vida de novo — resmungou.
— O que quer dizer com isso?
— Que não é a primeira vez que Aya brinca com a paciência de quem não deve.
Tentei questioná-lo novamente, entretanto Shisui percebeu e desconversou enquanto me empurrava para um diálogo com Kagami e Akane.
A manhã emendou-se numa tarde de comemoração que trouxe para nossa casa um clima ameno e agradável. Sasuke e meu pai falavam sobre o trabalho na força policial enquanto minha mãe preparava o lanche, e eu me isolava com meus pensamentos.
Lembrei-me da tarde que recebi a notícia após chegar de uma missão. Como poeira ao vento, Kaoru desaparecera. Sem se despedir ou deixar um bilhete. Ninguém sabia a razão ou o dia que partira, a única prova disto era o hitaiate que deixara para trás, guardado na gaveta da mesa de Minato.
Eu perdi semanas tentando entender o motivo daquela atitude enquanto as lembranças de nós me atormentavam perfurando o coração. Eram espinhos que se acumulavam, de maneira que se eu o arrancasse poderia confundi-lo com uma almofada para alfinetes. Seria fácil se pudesse sentir raiva dela, entretanto não conseguia desenvolver nenhum sentimento novo, apenas multiplicar os que já sentia, dentre eles a saudade aumentava de forma insuportável.
Acostumei-me novamente à solidão fingindo apreciá-la, emudeci as palavras que minha mente gritava, suportei suas unhas arranhando minha garganta e consciência. Aos poucos colei os pedaços, reaprendi antigos costumes, sufoquei emoções, reuni tudo que estava espalhado e guardei até mesmo uma parte de mim. Dediquei-me às missões com o intuito de descontar as frustrações nos inimigos e respirar alguma adrenalina a fim de intoxicar meu cérebro e impedir qualquer memória ou pensamento sobre ela.
Ouvir o nome de Kaoru depois de tanto tempo trouxe uma estranha sensação, como se ela pudesse surgir diante de mim a qualquer momento. Não era algo que me assustava, porém incomodava, gradativamente. Não demorei a perceber minha tolice e deixá-la de lado. Ainda que ela voltasse nada mudaria. Eu vivia muito bem sem as peculiaridades da mulher que desde menina se comportava diferente das demais.
Não era raro vê-la isolada fazendo anotações num pequeno caderno azul que sempre carregava. Eu não me atrevia a perguntar sobre o que se tratava, com isso mantive a curiosidade acerca do fato até o dia em que Shisui resolver matar a sua e, consequentemente, a minha.
— Organograma político de Konoha. — Ela respondeu com naturalidade e emendou ao perceber que a resposta não fez sentido. — Para minha pesquisa. — Voltou a nos olhar como se a réplica fosse o suficiente. — Meus pais faziam um levantamento de dados antes de nos mudarmos para uma nova vila. Se eu levar em consideração que moro em Konoha há quase dois anos, estou bastante atrasada.
— Qual a importância dele se você já está instalada? — Shisui indagou agachando ao lado dela a fim de ler.
— “Você precisa conhecer o lugar que vai morar. Como funciona a política e o comércio, saber sobre sua história, geografia e recursos, as diferentes raças que o habitam. Esse conhecimento deve ser levado em conta na hora da escolha e utilizado enquanto você habitar naquele local, ele será seu melhor amigo quando entrar num novo território e seu maior tesouro quando sair dele.” Meu pai dizia isso.
— Ele era um pesquisador? — questionou recebendo um sim ao passo que folheava o caderno. — A ensinou bem... Mas eu fiquei curioso com uma coisa... — disse devolvendo-o e fingindo refletir. — Onde estava essa inteligência toda que nunca a enxerguei em você?
— Idiota! Por que não vai brincar de arremessar shuriken com o Itachi?
Naquela época eu havia aprendido que de nada adiantava tentava apaziguar a implicância entre eles, por isso só torcia para a discussão não se arrastar. Geralmente terminava rápido. Uns gritos, uns socos que nunca atingiam Shisui e a trégua que durava no máximo até os dois se encontrarem novamente.
Comigo ela era mais muda que o silêncio e isto me deixou a vontade por um bom tempo à medida que me acostumava com sua companhia, adquirida numa manhã de sábado.
Eu fazia meu treinamento habitual quando notei que era observado. De início, pensei que ela estava de passagem e logo a solidão voltaria a ser a única a dividir espaço comigo, porém percebi o engano ao ver os minutos passarem e Kaoru permanecer ali.
— É desagradável ser vigiado dessa forma. — Tentei demonstrar minha insatisfação sem ser rude.
— Deveria se sentir orgulhoso por eu o considerar bom o suficiente para ser alvo de análise — retrucou secamente.
A resposta me fez concluir que a probabilidade de resolver a questão sem usar a grosseria declinava terrivelmente. Respirei fundo dispersando as duras palavras que se formaram em minha mente e arremessei uma kunai acertando o alvo de olhos fechados.
— Por que perde tempo isso?
— Porque precisão é importante e perfeição é imprescindível — respondi recolhendo minhas armas.
Após esse dia sua presença tornou-se tão certa quanto à dos instrumentos ninjas, mesmo contra minha vontade. Ela observava meus movimentos a maior parte do tempo e, às vezes, cochilava recostada a uma árvore. Não demorou àquele convívio evoluir para uma amizade cercada por especulações que nós ignoramos até uma delas cruzar o limite da paciência de Kaoru.
Não sei bem o que aconteceu, mas a encontrei na campina próxima a montanha esculpida com os rostos dos Hokage pronta para cuspir o que estava engasgado.
— Estou cansada desse inferno! Desse maldito falatório, de ser e fazer um milhão de coisas pela boca dos outros! Eu não vou servir de comida para alimentar o seu ego! Se gosta de medir sua popularidade e ver um bando de vacas disputando você procure outra idiota para ser o motivo da disputa!
— Não é nada disso... — retruquei procurando as palavras certas para acalmá-la.
— Não?! Itachi, você não assume, mas também não refuta! — Puxou-me pela camisa aproximando nossos rostos. — E eu estou cansada de carregar um título que não é meu! Cansada de fingir que não me importo! Cansada de...
Seus olhos me encararam como se buscassem uma resposta e na ausência dela, Kaoru suprimiu o espaço entre nossas bocas.
Não durou um minuto. Ela me beijou com angústia logo percebendo a ausência de reação, fitou-me seriamente por poucos segundos analisando minha expressão e desapareceu. Foi apenas um colar de lábios, um encontro praticamente infantil de duas inexperiências que me despertou para um sentimento desconhecido.
Eu estava sempre envolvido em missões e afazeres, treinamentos, Konoha, clã... Não havia espaço para emoções comuns, amor e outras coisas. Tantas amarras e obrigações me prendiam que o tempo restante para cogitar essa possibilidade era nulo. Diferente dos dias atuais que de tão tranquilos e vazios fomentavam meus pensamentos a preencher inúmeras lacunas que preferia deixar intactas, dentre elas a possibilidade do retorno de Kaoru.
Não fazia sentido me deixar invadir por indagações sobre ela. Sua vida não estava mais ligada a minha e eu me sentia livre. Dos dias conturbados, dos extensos diálogos, da infinita companhia, da preocupação exagerada, olhares analíticos e risadas histéricas, silêncios preciosos e palavras que transbordavam sentimentos... Nada fazia falta. A parte de mim que apreciava estas coisas fora sepultada junto ao sentimento dedicado a ela deixando em seu lugar as cinzas de um amor consumido pela hipocrisia.
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