C.A.S.U. [Em Revisão]
10 Primeira voz: Vórtice de sentimentos
Notas iniciais
“Glândula lacrimal seca, o que estava faltando?
A última vez que a vi, que caminho tomou?
Eu esqueci algo, algo não esquecerá.
Por que não posso lembrar? Por que não desaparecem as memórias?
As palavras que se afogam aceleram apenas lentamente.”
Eu era um estúpido. Interessar-me por uma garota que me devolvia respostas enviesadas com a mesma frequência que se dirigia a mim demonstrava isso claramente. Possivelmente também era carente de algum tipo de afeto que acreditava receber dela quando não atirava farpas com as palavras. Para completar, era um idiota passivo que não respondia a altura todas as grosserias que me dedicava.
De algum modo, elas não me afetavam. Como se eu soubesse que não passava de uma combustão de raiva que se apagaria no minuto seguinte. Por isso, eu apenas observava sua voz se levantar num agudo muitas vezes estridente, seu rosto se avermelhar e o olhar endurecer durante os segundos de explosão que distribuíam indelicadezas e xingamentos. E pelo mesmo motivo desejei várias vezes que ela levasse seu temperamento terrível para longe.
Nunca pensei que a desejaria tão perto nem mesmo sei quando começou a saudade que se escondia por trás de notar sua ausência e cresceu num sentir sua falta que rapidamente inquietou minha mente e coração conforme os dias sem vê-la aumentavam. De repente, eu passei a me questionar quando a veria novamente e a ansiar por isto, e por nada fazer para acalmar minha vontade, tornei-me refém de sua inconstância. Na época, a ingenuidade me cegava e a falta de tato fazia de mim um tolo que esperava pelo fim daquelas perturbadoras emoções sem sentido como uma pessoa que espera a ferida parar de arder.
Foi um erro não ter dado um basta no início. Seria um momento de desconforto que evitaria anos de amargura. Também me pouparia de discussões, temores e esforço para manter um relacionamento que terminou em cinzas, o qual me modificou de uma maneira que irritava tanto quanto pensar em todas as emoções que descobri ser capaz de sentir ao lado daquela mulher e minha vulnerabilidade perante ela.
Por muitas vezes não soube agir diante dela e me mantive estático na espera de meu cérebro fornecer alguma reação plausível, até Kaoru tomar uma nova atitude e me devolver a uma paralisia maior. Ela parecia deter toda a habilidade e desenvoltura emocional que eu não possuía, a facilidade de se expressar e a ausência de reserva — ou descaramento — de emitir seus sentimentos e opiniões, enquanto eu dava os primeiros passos em direção à saída da concha de introspecção na qual me abrigava. O tempo amenizou minha incapacidade de reação, entretanto não a extinguiu. Constatar isto foi tão perturbador quanto tê-la em meus braços daquele modo.
A imagem continuava a me perseguir feito fragmentos de um pesadelo inesquecível, nítidos e pulsantes dentro dos pensamentos que, em vão, tentava refutar, aliados àquela frase entoada repetidamente em minha cabeça como uma tortura digna do Tsukiyomi. Dias se passaram naquele dia que não tinha chegado ao fim enquanto a afirmativa melancólica sussurrava em meus ouvidos como se tentasse me convencer de sua verdade.
“Senti sua falta.”
Somente um idiota acreditaria nisso, alguém desejoso de crer na mentira contida nos lábios de uma mulher. Eu não me abalaria por três vocábulos que poderiam ser ditos a qualquer coisa no mundo, muito menos por um rosto fingindo sentimento, que dirá me deixar levar pelo conjunto deles e o abraço que parecia desesperado por mim. Nunca! Ela que se entendesse com suas emoções e arrependimento, se é que existia, seus pensamentos e problemas. Eu não me importaria em onde, como ou com quem estivesse contanto que fosse longe de mim. Não seriam aqueles olhos ou voz impregnando meu cérebro, os responsáveis por me tirar do prumo. Não havia motivo capaz de perturbar meu equilíbrio, e não seria a desconfiança em relação aos fatos sobre seu retorno que fariam isso, e certamente a afirmativa não seria derrubada caso Ino não tivesse revelado os detalhes sobre sua captura.
— Ela se entregou... — repeti pensativo.
— Ao voltarmos de nossa missão, fomos interceptados por ela próximo aos limites do País do Rio, na Cachoeira do Dai. Imagino que Haiiro a avisou sobre nossa posição porque, aparentemente, estava nos esperando. Kaoru disse que voltaria conosco para Konoha, porém as pessoas deveriam pensar que foi capturada porque dessa forma não prejudicaria a imagem do Yondaime. Eu e Chouji achamos a ideia idiota, mas Shikamaru concordou, então ficou decidido. Quando chegamos à vila, ela foi presa e, depois de alguns dias, interrogada por meu pai — pronunciou a última frase devagar deixando um breve silêncio se formar.
— Isso foi totalmente desnecessário... Ela não é uma pessoa perigosa, além disso, foi quem informou ao Minato sobre a tentativa de rapto do Naruto. Para que interrogá-la dessa forma?
Eu sabia o quanto Kaoru odiava ter sua privacidade invadida e ser obrigada a compartilhar seu passado com um mero conhecido certamente havia entrado na lista das piores situações que vivenciara.
— Itachi, você pode confiar no meu pai, ele jamais comentaria sobre algo que tomou conhecimento em um interrogatório.
— Eu sei, Ino, mas não é isto que me preocupa.
Não consegui desgarrar de minha mente a visão que a imaginação lhe doou. Ela exibia detalhadamente a reação de Kaoru ao saber que seria interrogada por Inoichi. Eu podia ver a aflição e revolta se espalhar por seu rosto, converter-se em palavras e, finalmente, ceder a uma resignação amarga própria de quem perdera o último fio de esperança em uma batalha. Conseguia sentir o azedume de sua derrota e a vergonha após receber o golpe final. Isto me revolvia como um turbilhão de sensações que me retorcia por dentro, deixando a incerteza sobre qual delas me dominava, se a raiva ou a empatia.
Eu refleti sobre os motivos que justificariam a inquirição, certo de que nenhum era razoável. A lealdade de Kaoru à vila havia se provado e, exceto a deserção, ela nunca deu provas de insubordinação. Sem mortes ilegais nas costas ou qualquer suspeita sobre seu comportamento ninja, até mesmo sua inclusão no Bingo Book configuraria uma incoerência. Não havia sentido na ordem dada a Inoichi, e minha revolta começava a crescer conforme eu pensava sobre isso.
Em meio à meditação sobre o assunto, percebi que aquele nome havia voltado ao centro de minha consciência com uma frequência inaceitável, estendendo seus fios por ela e prometendo tomar conta dos espaços que não lhe pertenciam. Logo nosso curto diálogo se apresentou me fazendo revivê-lo com detalhes e mergulhar em novas conclusões que agitaram a superfície de minha serenidade.
Deixei de lado a parte de mim que me julgava imaturo e fui à casa de Shisui, ainda que não tivesse esperança de conseguir conversar com ele sobre o fato. Aguardei poucos minutos na porta, sendo recebido por Kagami que se mostrou surpreso.
— Vou comprar o jantar! — gritou na direção do quarto. — Fique à vontade, Itachi-kun. — pronunciou gentilmente e saiu.
— Diga que você não envolveu meu nome numa aposta — exprimi assim que vi Shisui.
— Foi apenas uma brincadeira entre pai e filho, mas deixando isso de lado, a que devo a honra de sua visita?
A resposta se escondeu no fundo de minha garganta, e eu tentei inutilmente forçá-la a sair.
— Venha, pequeno Itachi, e diga o que lhe aflige — Shisui sentou numa almofada e deu duas batidinhas na que estava ao lado. — Eu sei do que se trata, pode falar abertamente.
— Você a encontrou?
— Sim — respondeu sucinto indicando que não comentaria sobre a conversa que tivera. — E você também, não é? Por isso, veio aqui. Porque quer um conselho, mas não quer pedi-lo e sabia que eu o daria sem que precisasse passar pela tortura de dizer: dê-me sua opinião.
Tomei o lugar reservado a mim e o encarei. Falar subitamente adquiriu uma dificuldade anormal e precisei de um tempo para expulsar o receio que ainda passeava em meu interior.
— Ela se jogou em meus braços pedindo desculpas,... mal consegui raciocinar o que fazer.
— Imagino. Então, depois de ouvir as explicações dela, você ficou confuso se a perdoará.
— Está enganado, não permiti que ela se explicasse. Poupei-me de suas mentiras.
Shisui arregalou os olhos, incrédulo, fitando-me desconcertado, piscou algumas vezes e indagou:
— Você não veio falar sobre ela? Não, espera, veio sim porque quase engasgou para iniciar o assunto. O que está acontecendo afinal?
— Estou certo de que não devo dar a ela uma chance para se explicar, porém...
— Porém você é um idiota orgulhoso que prefere sofrer ao ouvi-la de uma vez — atropelou-me impregnando a fala com uma certeza irritante.
— Orgulhoso? Ela desapareceu por dois anos sem dizer uma palavra.
— Está reclamando do mesmo silêncio que você não permite que se rompa — sentenciou secamente como se desse a palavra final a uma criança.
— Para você, eu estou agindo errado? — indaguei esperando que ele negasse e me irritei ao perceber em seu semblante, uma nítida afirmativa. — De qual lado está?!
— Do lado do “quanto menos sofrimento, melhor”. Você não quer dar a Kaoru a “chance” — Frisou com os dedos. — de se explicar, porém está se retorcendo com sua decisão, portanto está fazendo mal a si mesmo por causa de um orgulho estúpido.
Shisui cruzou os braços, encarando-me mais que antes, provavelmente sabia que eu tentava formular uma defesa.
— Está enfrentando isso como uma criança que nunca se machucou. Você coloca a culpa de tudo na pedra que lhe fez tropeçar, mas não questiona se o seu caminhar provocou o tropeço nem olha em volta para analisar se ele foi fruto de fatores externos. — Soltou um suspiro de cansaço e continuou. — Olha, por que simplesmente não faz o que tem vontade? É a sua vida. Nenhuma consequência impactará mais os outros do que você. E se estiver buscando certeza no terreno do amor, a única que encontrará é: não há certezas.
— Criar filosofias baratas para distribuir aos outros se tornou seu hobby? Nesse caso, não se contenha, agracie-me com mais! — A ironia escorreu, irrefreável e evidente. — Era óbvio que vir aqui era uma péssima ideia.
— Se quisesse uma pessoa para passar a mão por sua cabeça, não teria vindo me ver. Eu fui sincero como sempre, se as respostas não lhe agradaram, paciência.
Levei minha raiva e as palavras de Shisui misturadas numa bolha mental que prometia explodir a qualquer momento. Demorei um bom tempo observando os contornos da vila, tentando esvaziar meus pensamentos e vendo-os se derramar em maior volume. Do alto, tudo parecia banal e vazio, sem sentido e estúpido como se estivesse refletindo meu interior.
Deixei as horas escorreram e tingirem minha solidão com um tom opaco de cinza, deixei o presente se sobrepor ao passado e desviar minha atenção sobre ele, deixei o ar penetrar minhas narinas e preencher os pulmões com o aroma da madrugada, perfeito para quem desejava se perder nela: clima ameno, rajadas gélidas, céu irritantemente estrelado e o luar intenso que iluminava as almas errantes a procura de algo que as satisfizesse.
Peregrinei sem qualquer preocupação, colocando os passos vagarosamente um após o outro. Não existia um lugar para onde realmente quisesse ir, contudo poderia enumerar dezenas que eram indesejados no momento e no topo da lista estava meu lar. Eu fazia parte do grupo de pessoas que ansiavam por mais da noite do que ela poderia dar, entretanto diferente daquelas, diversão não era o que procurava. Evidentemente ninguém tropeçava numa resposta ou solução enquanto caminhava, ao contrário de perguntas e problemas que parecem ter sido criados para fazer cambalear inclusive os indivíduos inabaláveis.
Algumas ruas depois, a música alta penetrou meus tímpanos, sua origem estava a uns vinte metros de distância, mas era possível escutá-la com clareza. Uma parte de Konoha insistia em manter-se acordada, exageradamente iluminada e tumultuada, provavelmente apinhada de sujeitos que também não queriam dormir. O centro de entretenimento da vila era enorme, quase um bairro e localizava-se relativamente afastado da área residencial, num semi-isolamento proposital a fim de nunca ser obrigado a interromper suas atividades.
Embrenhei-me pelas vielas alcançando o núcleo da região de lazer. Os diversos bares alinhados nos estreitos becos possuíam fachadas variadas: discretas, monocromáticas, apelativas, insuportavelmente coloridas... Tudo para todos os gostos. Seus tamanhos acompanhavam a multiplicidade dos exteriores, indo de cubículos que não comportavam mais de seis pessoas a enormes salões capazes de servir de palco a festas. Nesta esfera, os cidadãos embriagados se permitiam libertar da rotina e, embalados pela melodia, externavam seus excêntricos interesses obrigando aos sóbrios e desavisados a árdua tarefa de filtrar as cenas que viam.
Após deambular em meio à agitação, desisti de me tornar parte do caos e retomei a diretriz. A sensação de não pertencer a nada se impregnava em minha sombra, porém não tão forte quanto o incômodo desagradável que tomava conta de mim devido à estranha teimosia em continuar a lenta caminhada.
A velocidade do vento aumentou drasticamente agitando as árvores, o som suave se transformou na típica lamúria que anuncia a tempestade, e logo o firmamento ganhou diversas nuvens cinzentas. As lufadas se chocavam contra meu corpo, e eu sentia como se me abraçassem, havia ali uma liberdade que não se explicava e inspirado por ela, resgatei o assunto em aberto. As cenas do conturbado ontem se apresentaram e, por um instante, impressionei-me com a rapidez dos acontecimentos e a reviravolta provocada em minha vida. Pensando nisso percebi o quanto a mesma era sacudida vez ou outra por algum evento que não conseguia prever nem conter, — e ser vítima das circunstâncias estava incluso no meu rol de condições execráveis do homem — dessa forma o controle que deveria estar em minhas mãos simplesmente não estava. E o único responsável por isso, nesse instante, lutava contra a poeira que teimava em invadir os olhos.
Finda a batalha, atinei para a criatura sentada no banco de madeira que pertencia ao pequeno jardim de entrada do distrito. Estava embaixo da sombra feita pelo dossel que bloqueava a luz da luminária. Vestia preto dos pés a cabeça exceto pelas duas listras laranja que cortavam o gorro que usava. Os braços apoiados sobre as pernas ligeiramente abertas e as mãos entrelaçadas excluíam os polegares que se tocavam como se houvesse cola unindo suas pontas.
Ela fitava o chão, imersa num mundo particular, e de algum modo isto me fez lembrar a garota que se escondia do mundo para viver sua tristeza sozinha, ou em raras vezes, compartilhá-la com um filhote de lobo, o qual permanecia abraçada da tarde ao anoitecer.
Aquela imagem ficou gravada como a mais melancólica da minha infância.
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