C.A.S.U. [Em Revisão]

1 Primeira voz: Memórias que não adormecem (revisado)


Notas iniciais
Yo! Capítulo introdutório, considerem como um prólogo. Música: All Mine - One ok Rock (https://www.youtube.com/watch?v=OMxsSp2p5kU) Sobre a side-story: acho importante que leiam para ter noção de como a personalidade do Itachi chegou ao ponto que começamos nesse capítulo, além disso, vocês poderão compreender melhor os outros personagens também.

“Estou tão deprimido e fora de mim

Porque algo está errado sem você.

Quando não está perto

Apenas as sombras e a chuva caem.”

No sótão eu observava a chuva escorrendo pela janela redonda. As nuvens se deslocavam devagar nas poucas vezes em que o vento soprava, jogando mais água no vidro diante do meu rosto. Dizem que os dias de chuva resgatam até as memórias que escondemos de nós mesmos. E eu sentia a verdade daquelas palavras conforme as lembranças me envolviam em seus braços sussurrando cenas que deveriam ser esquecidas. Como um dia ensolarado de verão em que eu e Shisui voltávamos para casa depois do treinamento.

Devido a minha derrota ele se oferecera para pagar o almoço no Ichiraku. Enquanto aguardávamos, Shisui fazia piadas que provocavam altas risadas em Ayame e poderiam ser interpretadas como flerte pela ótica de quem não o conhecia. Eu observava o diálogo sem a mínima vontade de me inteirar nele, quando minha atenção foi tomada pelo fios vermelhos de Kushina que, sorridente, falava sem parar gesticulando algumas vezes, não percebendo que Kaoru a seguia com olhar aflito. Até me perceber e correr em minha direção.

Ela me soterrou com uma avalanche de palavras sobre compras, cansaço e pedidos de ajuda, olhando-me como se eu fosse uma espécie de salvação. Não respondi, pensando no motivo para ter se dirigido a mim, e Shisui aproveitou a oportunidade para brincar com a frágil paciência dela. Em poucos minutos, tornei-me espectador de provocações e xingamentos que tiveram fim com a presença de Kushina.

Kaoru ficou estática, deixando a inércia aos poucos conforme tentava elaborar uma desculpa convincente. Envolveu-me novamente, dizendo que eu lhe chamara para uma partida de Go e devido a minha disponibilidade ser pequena, deveria aproveitar aquela chance ou esperar semanas por outra. Quase escorregou na resposta quando Kushina lhe questionou desde quando ela sabia jogar Go, mas se servindo de mim como álibi justificou que eu a ensinaria.

Êxito alcançado, ela me agradeceu, xingou Shisui, agradeceu-me de novo, apertando minhas mãos com seus dedos suaves, dedicou outra dose de rispidez às implicâncias dele, usando a mim como comparação sobre ser um amigo de verdade e finalmente se foi, deixando um vácuo em seu lugar.

Fitei Shisui voltar a comer tranquilamente, questionando-me sobre a facilidade que ele tinha para conversar com a agitada Uzumaki. Entre eles, as palavras fluíam sem a necessidade de ensaios ou filtros. Provocações, discussões, xingamentos... Tudo acontecia de forma tão natural que pareciam se conhecer desde o berço.

Havia se passado três anos desde que Kaoru chegara à vila e nesse tempo Shisui havia se tornado seu melhor amigo. Era comum vê-los conversando sobre qualquer assunto e, provavelmente, ela lhe confidenciava aquilo que não compartilhava com outras pessoas. Eu, inclusive, pois embora nos víssemos com frequência, o diálogo não acontecia do mesmo jeito. Perto de mim, ela não falava tanto nem era tão expansiva. Certamente, eu a inibia de alguma forma.

Remexi o lámen pensando se haveria um modo de mudar a situação. Eu não era bom em iniciar diálogos como Shisui nem tão simpático quanto ele. Socialmente, a maioria dos meus relacionamentos existia apenas por obrigação e fora do meu círculo familiar poucas foram as pessoas que desejei conviver. Ela era a primeira que eu não conseguia transformar o convívio em laço, como se entre nós existisse uma parede de vidro.

Interrompendo meus pensamentos, questionei a Shisui como era tão fácil para ele conversar com ela, esperando que a resposta me desse alguma ideia do que fazer. Porém a réplica se resumiu em “eu falo, ela responde e vice-versa”, o que me presenteou com a sensação de ser um idiota. Intrigado, ele perguntou se eu gostava dela e mesmo depois do meu não continuou o assunto com justificativas estúpidas sobre meu comportamento. Segundo ele, eu “travava” na presença de Kaoru. Rebati mostrando o equivoco em seu julgamento, baseado inocentemente na convicção de me conhecer por completo. Então, mais uma pergunta: “há algo entre vocês?”, outra negativa, e o silêncio enfim foi alcançado. Contudo, foi derrotado por uma pérola: “ou você não quer admitir ou é cego demais para enxergar”.

Após isso, o assunto morreu tanto por minha vontade de ignorá-lo quanto pela percepção de Shisui sobre minha atitude. Eu pensei sobre a conversa durante um bom tempo, mas acreditei que as palavras dele não passavam de provocação. Não tinha sentimentos por Kaoru, só uma leve curiosidade, e curiosidade não significava nada além disso.

Foi o tempo que me mostrou o contrário, abrindo meus olhos para nossas diferenças, que se encaixavam harmonicamente, e me surpreendendo com o gosto pelas peculiaridades da garota que alternava seu comportamento entre um enigma indecifrável e um livro aberto. Nós brigávamos, embora eu me esforçasse para evitar isso no começo, por vários motivos tolos, incapazes de nos afastar por mais de algumas horas. Parecíamos destinados a discutir, e eu aceitei o fato ao perceber que nenhum desentendimento era sério o suficiente para nos separar. Contudo, quando agi para protegê-la quase pus tudo a perder.

Durante a tentativa de golpe de Estado, eu me afastei sem qualquer explicação, eliminando as possibilidades de encontrá-la e nas raras vezes que nos esbarramos, tratei-a com a educação destinada a estranhos. Com o desfecho positivo para Konoha, a única coisa que se recusava a voltar para seu lugar éramos nós.

Eu não tinha palavras para pedir perdão, por isso o máximo que consegui dizer foi um único “desculpe” com uma vergonha que me traduzia imaturo. Semanas depois, a distância entre nós permanecia, fria e rígida, esperando que eu me aproveitasse de uma rachadura para quebrá-la. Assim, num dia menos covarde, eu parei na porta da casa dela, tentando encontrar uma ordem para minhas ideias. Havia uma enxurrada na minha mente e parecia impossível decidir o que expressar com minha voz. Eu não tinha me perdoado e revivia a culpa como penitência embora isto me roubasse tempo e a possibilidade de viver sem o fantasma do remorso pesando meus atos. Quando finalmente decidi acabar com minha tortura pessoal, vi os segundos passarem por meus olhos enquanto a ansiedade envenenava minha consciência.

A chave girou, revelando o rosto surpreso de Kaoru que, intrigada, convidou-me para entrar. Senti-me um intruso, e o desconforto cresceu a cada minuto de silêncio em que os olhos dela permaneceram nos meus. Contorci minhas mãos querendo alcançá-la, mas tinha perdido o direito de tocá-la, e continuei imóvel. A certeza de meus sentimentos me queimava por dentro, lutando contra o nó nas minhas cordas vocais que aproveitaram uma brecha para sussurrar a primeira sílaba do nome dela. Seus olhos marejados se aproximaram. Seus dedos envolveram os meus, descongelando meu corpo, e eu a afoguei no abraço da minha alma. Ainda hoje continuo incapaz de descrever o alívio que senti por ela ter me compreendido.

Com meus olhos de volta ao presente, observei a chuva que batia no vidro num som ritmado, embalando a melancolia que segurava as minhas mãos e sorria. Apertei os olhos para impedir que gotas desnecessárias molhassem meu rosto. Havia passado tempo demais e junto com ele coisas que eu não sabia precisar, contudo, certamente, uma parte de mim se fora. Era para não perder o restante que deixaria Konoha mais uma vez.

Notas finais
Opiniões? o/