C.A.S.U. [Em Revisão]
2 Primeira voz: Lar doce, coração amargo (revisado)
Notas iniciais
“Eles dizem que o tempo leva a dor, mas sigo sendo o mesmo
E eles dizem que eu encontrarei outra como você,
Isso não pode estar certo.
Em meu coração, a única que estava e se foi, foi você.
Ao meu coração, a única que conseguiu chegar, foi você.”
A certeza de que não desejava regressar pulsava em meus pensamentos junto à sensação de estar preso a um inevitável destino. Eu estava abusando da boa vontade de Minato em me enviar para o máximo de missões possíveis, muitas de estúpida dificuldade, a fim de aquietar meu espírito. Por quase dois anos minha rotina se resumiu em ficar longe de casa o quanto podia, nunca permanecendo mais do que três dias entre uma missão e outra. Eu entregava o relatório e pedia pela próxima. Às vezes tinha sorte de receber uma longa, outras mal duravam o tempo para esvaziar a mente.
O período em que estive fora praticamente me fez esquecer de tudo e Konoha tinha se juntado ao amontoado de memórias que não queria lembrar. Estar na vila era aflitivo, como se todos os lugares possuíssem uma lembrança indesejada e tivessem o sórdido prazer de jogá-las em meu rosto.
Assim que pisei em Konoha fui tomado pelo dissabor de respirar seu ar, entretanto este não foi maior que o sentido após minha intuição se revelar realidade.
— Não há necessidade de me poupar, Yondaime. — Tentei persuadi-lo mesmo percebendo que seria em vão.
— Itachi, você é um dos meus melhores ninjas e também alguém que estimo, por isso não posso ignorar que está caminhando por uma estrada sem destino. Precisa procurar outra forma de resolver o problema. Espero sinceramente que a encontre.
Vinte dias, foi a sentença dada por ele, quatrocentos e oitenta horas de puro ócio. O que eu faria com a enxurrada de pensamentos que me atormentaria? O prometido descanso se converteu em pesadelo assim que percebi o quão deslocado estava daquele ambiente.
Na contramão de meu desgosto, minha mãe abraçou a notícia, e a mim, com felicidade e alívio indescritível. Tentei não demonstrar insatisfação diante dela e até consegui sentir que era bom estar de volta, porém logo me questionei quanto tempo esse sentimento duraria. Todas as vezes que voltava ele se repetia, mas se dissipava em poucos dias representando uma falha tentativa de sentir Konoha como um lar novamente.
O dia seguinte iniciou meu período de reclusão e introversão. Embora fosse uma estratégia infantil, evitar conversas era a melhor forma de manter meus ouvidos longe de palavras indesejadas. No entanto, a “infalível” artimanha mostrou sua fragilidade perante meu irmão.
— Fiquei sabendo que o Hokage dispensou você... — iniciou o diálogo, recebendo meu silêncio. A inércia me prendia à cama de tal modo que me impediu de lhe dirigir o olhar. — A mesa está cheia. Nossa mãe parece ter cozinhado para o clã inteiro. — Continuou ignorando minha indiferença. — Não vai descer?
— Não tenho fome. — Limitei-me na esperança de ser esquecido.
— Vai ficar prostrado o tempo todo como das outras vezes? É isso?! — Pude ouvir seus passos se aproximando. — Olhando para o nada e se mantendo distante? Até quando?
— Isso não é da sua conta.
— Claro que é, idiota! Você é meu irmão e mesmo que eu não queira, vou me importar com a merda que está fazendo com a sua vida! — despejou. Soltou um suspiro desgostoso e ocupou o espaço ao meu lado. — Não vou começar o discurso de “eu sei o que está passando” porque não faço a mínima ideia, mas acho que deveria fazer algo melhor do que ficar deitado na cama esperando o tempo passar.
— Qual a grande sugestão?
— Podemos treinar... — respondeu incerto.
— Você tem seus companheiros de time para isso. — Tentei desvencilhar-me. Só de pensar na ideia minha vontade despencava ao negativo. — Além disso, não estou disposto.
— Nunca está, mas esperava que a resposta pudesse ser diferente — rebateu amargo.
Embora não quisesse ir de encontro ao meu desejo de refutar a proposta, não pude deixar de me sentir mal com a expressão de Sasuke.
— Qual o problema com eles?
— Naruto está sempre competindo comigo, estou cansado disso, e a Sakura você sabe...
Encarei-o esperando a continuação, porém Sasuke parecia convicto de que eu sabia do detalhe oculto. Obviamente, não tinha a menor noção do que ele estava falando.
— Não, não sei — respondi provocando-lhe um revirar de olhos.
— Ela é apaixonada por mim.
— Isso não é empecilho. Muitos casais treinam juntos, basta que os dois mantenham o foco.
— Itachi, nós não somos um casal — pronunciou devagar enfatizando a negativa. — e foco é justamente o problema. Sakura o mantém em mim, e não na luta.
— Simples... — Esperei ter sua curiosidade. — Direcione a atenção dela para onde você quer, evite atitudes que provoquem a abstração do tema proposto e arrastem a concentração para o seu corpo, mantenha contato visual constantemente sem deixar de mostrar nele seu verdadeiro objetivo e como último recurso repreenda-a se for necessário.
— Eu não preciso de uma lição de “como adestrar um companheiro de treino"!
— Certeza? Posso lhe ensinar mais alguns pontos bem interessantes — insisti na esperança de convencê-lo a desistir da ideia de me arrastar por aí.
Eu não costumava ser tão ranzinza, contudo abandonar meu refúgio significava a chance de ver, ouvir ou pensar o que não devia e, na pior das hipóteses, pisar em locais proibidos ao meu bem-estar mental.
— Tenho. Não quero que Sakura seja um bichinho amestrado, muito menos manipulá-la para satisfazer meus interesses.
— Faz bem. Elas se deixam manipular por conveniência e nesse jogo o perdedor é sempre aquele que imagina estar ganhando... Mas por que não dá uma chance a ela?
— Ah, claro! Como se as coisas funcionassem assim: “tome uma chance de ficar comigo quem sabe você conquista o meu coração?” — A ironia quase me arrancou um riso, porém ele estava indignado demais para perceber. — Desde quando adquiriu o hábito de dizer idiotices?
— Talvez seja a falta do que falar...
Sasuke me olhou preocupado, ensaiou uma palavra, porém desistiu. Escorregou para o chão e, em silêncio, permaneceu me fazendo companhia.
A tarde se desenrolava tranquila enquanto eu conseguia manter os pensamentos num confortável hiato do ócio. O silêncio que brincava pelos cômodos me relaxava, os únicos sons que podiam ser ouvidos eram os provocados pelo vento, proporcionando-me uma sensação única de liberdade que chegou ao fim quando ouvi o barulho do sino da porta. Ao abri-la dei de cara com Sakura. Seus verdes olhos se arregalaram como se eu fosse uma assombração ou algo pior, sua boca entreabriu-se levemente, e notei que ela tentava, em vão, articular alguma frase.
— O que deseja? — Impregnei a pergunta com uma educação que destoava da impaciência que nascia em mim.
— Sakura! O que faz aqui? — Minha mãe surgiu do nada com uma sacola de compras.
— Mikoto-san... — Curvou-se cumprimentando. — Vim ver o Sasuke — respondeu sem jeito.
— Acho que ele ainda não chegou. — Voltou os olhos para mim que assenti. — Mas você pode entrar e esperar por ele — sugeriu pegando-a pelas mãos.
Algumas coisas mudaram por aqui, pensei ao observar a animada conversa entre as duas. Eu sabia do apreço de minha mãe pela garota, porém não lembrava desse nível de intimidade.
Ignorando a visita, tranquei-me no quarto e peguei um dos vários livros que não havia terminado. Navegando naquele mundo imaginário, alguns detalhes roçaram quadros de minha memória. Repeli-os de imediato voltando minha concentração ao texto, bloqueando qualquer associação dele com a realidade. Aos poucos, as letras começaram a dançar tornando-se distantes e embaçadas e, entre um bocejo e outro, o sono me arrebatou transformando em sonhos os fragmentos que acabara de ler.
Acordei com o chamado de minha mãe e, sonolento, arrastei-me até ela para entender a urgência em sua voz. A cozinha cheirava a bolo, um aroma delicioso que impregnou minhas narinas e me deu algum ânimo. Ele foi colocado suavemente sobre a mesa e, com um sorriso, a autora do chamado anunciou o que queria:
— Pode confeitar para mim, filho?
Permaneci imóvel analisando se a pergunta não fazia parte de uma alucinação momentânea enquanto ela aguardava minha resposta com a expressão serena. Um categórico “não” passeou por meus pensamentos, porém se escondeu ao notar que a pergunta era, na verdade, uma ordem, e eu praguejei mentalmente por estar sempre disposto a aprender o que ela queria me ensinar. Foi assim com cozinhar, cuidar de Sasuke, organizar a casa e mais uma infinidade de coisas que pareciam obrigações de um primogênito.
Enquanto eu decorava o agrado para a convidada, minha mãe enchia seus ouvidos com histórias a meu respeito. Os primeiros passos, palavras, minha entrada na escola ninja, como era bom irmão, filho etc. Já estava acostumado a ouvir aquela retrospectiva sempre que alguém se dispunha a escutar, mas ainda assim era vergonhoso.
O som da porta batendo denunciou a entrada de Sasuke que ficou mais branco do que já era ao ver sua visitante. Ele se manteve estático por alguns segundos até me usar para disfarçar sua reação.
— Está lindo, Itachi! Suas mãos têm uma delicadeza tipicamente feminina — falou com um meio sorriso.
— Terminei — disse fitando-o, notando a instabilidade se formar em sua expressão. — Podem comer sem mim.
Recolhi-me à varanda, espreguiçando-me nela feito um gato que aproveita os raios de sol, apreciei o céu azul, o voo dos pássaros e o vento suave que tentava arrancar as folhas de seu lugar. O calor me deixou sonolento, e eu cedi àquela sensação esquecendo que havia local mais confortável para repousar.
No quinto dia, a manhã aconchegante me prendeu na cama. Eram dez horas e eu não tinha a mínima intenção de levantar. Observava os raios de sol aquecendo meus pés e a cortina balançando com a brisa gelada que fazia os pelos do meu corpo se arrepiarem. Espreguicei-me vagarosamente e fechei os olhos aproveitando o momento. Procurei o lençol que estava esquecido ao pé da cama e o puxei para perto. Meio segundo depois, Sasuke irrompeu quarto adentro como um furacão.
— Já passou da hora de acordar. Levanta! — ordenou puxando o lençol com força e por pouco não me arrastando com ele.
— E desde quando você virou meu despertador?
— Não importa! Largue a droga da cama, lave essa cara amassada e desça!
— Sasuke, você está passando do limite. — Levantei pronto para expulsá-lo.
— Se você não quer tomar banho, o problema é seu! Mas vista algo, não sou obrigado a ver você de cueca — rebateu me ignorando por completo.
— Saia do meu quarto!
— Obrigue-me, querido irmão — exprimiu numa petulância absurda.
Desci a escada resmungando, tentando dispersar a raiva que me corroia. “Mas que diabos deu na cabeça dele? Está a fim de testar minha paciência?” Quando percebi o olhar curioso de minha mãe.
— Pelos céus, Itachi, vista-se! Nossa mãe já passou pela época de ser forçada a vê-lo nesse estado! — Sasuke repreendeu-me jogando uma muda de roupas. — Entendo que não queira tomar banho, mas não desfile dessa forma pela casa!
— Sasuke... — chamei baixo. — Estou louco ou você quer me tirar do sério? Se for isso, está conseguindo.
— Itachi, o que faz em trajes mínimos na cozinha? — Meu pai indagou austero, mas sem esconder a surpresa.
— Eu... — A simples resposta era vergonhosa demais para ser dita e uma mentira não me veio à mente.
— Esqueça. Vista-se e sente para comer — disse tomando seu lugar à mesa, observando-me a partir de então. Seu olhar observava todos os meus atos, e eu o encarei procurando o motivo da análise. — Seja bem-vindo de volta. — Ele disse, breve e suavemente, voltando a beber o chá que deveria estar frio pelo tempo que se dedicou a me fitar.
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