C.A.S.U. [Em Revisão]
4 Primeira voz: Imposição, compunção e ocupação (revisado)
Notas iniciais
“Olhando mais uma vez a mudança das estações
Até agora, a partir de agora e para sempre, continuará se repetindo.
Erros e reparações, tecem juntos uma história.”
Uma semana se passou e nela eu honrei as palavras que disse a mim mesmo.
Enterrar não era algo simples e depois de refletir sobre minha postura, concluí que forçar a quebra das memórias era o mesmo que lembrar e em vez de contribuir para esquecê-las, parecia reacendê-las. Então segui o caminho contrário. Não as refutava num primeiro momento deixando-as relaxar na sala de estar de minha consciência, encarando-as até que estourassem uma a uma as bolhas daquelas recordações que flutuavam tentando me alcançar. Com o tempo se foram cores e aromas, nuances e texturas e quando voltavam a invadir os cômodos do meu eu, incomodavam cada vez menos.
Eu finalmente havia aceitado. Os fatos e o passado, as dores e a decepção. Não havia volta e reconhecer isto era o primeiro passo para me libertar. Demorou, sei bem, entretanto cada um tem seu tempo, aquele era o meu. Logo eu inspiraria o ar de forma diferente e todo o meu corpo caminharia mais leve, pois teria esvaziado meu coração.
Desci as escadas tranquilamente e ao chegar a cozinha beijei o rosto de minha mãe. Seu olhar esboçou um estranho traço que não identifiquei e provocou a pergunta imediata, respondida com um “tudo bem” pouco convincente. Imaginei se aquilo teria relação com meu pai, porém não recordei de qualquer desavença entre eles.
A voz dele ecoou pela casa chamando meu nome.
— Você sabe com quais obrigações terá que arcar quando se tornar líder do clã? — A pergunta era retórica, e eu apenas assenti para que ele continuasse. — Ótimo. Tendo em vista que logo assumirá o título que é seu por direito, faz-se necessário que algumas medidas sejam tomadas — disse com os olhos cravados em mim. — Você deverá se casar antes — pronunciou tranquilamente e no mesmo tom anunciou a novidade seguinte: — Com relação a isso, tudo está acertado. Em breve oficializarei seu compromisso com Aya.
Arregalei os olhos, incrédulo. Meus músculos permaneceram estáticos enquanto meu cérebro assimilava a informação e só depois de alguns minutos pude formular uma resposta.
— Eu mal a conheço, além disso, qual a necessidade desse relacionamento? Em que isso beneficia o clã? Pai, eu não compreendo. — Minhas palavras saíram com uma ingenuidade que não consegui evitar.
— Um homem precisa de uma mulher ao seu lado. Para apoiá-lo nos dias ruins, apontar-lhe o rumo quando estiver perdido, ajudá-lo a voltar ao prumo... Sozinho você é somente isto: um, e nesta balança, a unidade não é o suficiente para manter o equilíbrio. Na balança do poder, Itachi, estar sozinho significa uma enorme propensão ao erro porque você se deixa crer que a verdade absoluta está em suas mãos.
— Compreendo, mas esta é uma decisão que cabe a mim. Não pode me empurrar qualquer uma que pense ser uma boa candidata a minha esposa.
— Eu já esperava por essa reação,... no entanto não pedi sua opinião. Você irá se casar com quem eu quiser independentemente de sua vontade — sentenciou e prosseguiu calmamente: Aya vem de uma boa família do nosso clã, é forte, inteligente, madura e tem certa afeição por você, deve saber disso...
Aquele inventário de virtudes me causou asco, era como se ele tentasse vender uma mercadoria e a detalhasse a fim de que eu a comprasse. Em nada me importava as qualidades de uma pessoa que convivi apenas por obrigação social e agora me era imposta como futura esposa.
— Não — murmurei encarando-o e repeti ao perceber a descrença em seu rosto. — Não irei me casar com Aya nem com mulher alguma que o senhor julgue boa para mim.
Era a primeira vez que eu o enfrentava, por isso, sentia-me como se tentasse escapar de uma prisão e para tal deveria enfrentar o carcereiro. Eu conseguia ver claramente a fina linha que dividia o antes e depois daquela atitude se rompendo.
— Voltemos ao ponto: uma decisão que cabe a você. Quer dissertar sobre a última ou eu devo fazer isso? Devo lembrá-lo o quão ruim foi sua opção por Uzumaki Kaoru?
Aquele nome perfurou meu cérebro no instante em que foi proferido e talvez tenha sido esse o motivo para meu pai pronunciá-lo.
— Não — rebati ocultando qualquer emoção. — Estou ciente da má escolha que fiz, mas isto não me tira o direito de decidir quem ocupará o lugar ao meu lado.
— Cairá no erro novamente.
— Se este for o meu destino.
— Não entende que isso não diz respeito somente a você?
— Errado, pai. Isto diz respeito somente a mim e, por este motivo, não permitirei intromissões, mas se o senhor quiser saber, não tenho o mínimo interesse em me casar — rebati e pedi permissão para me ausentar, recebendo-a junto ao olhar que acompanhou meus passos até a saída.
Depois do diálogo resolvi respirar outro ar que não fosse o do distrito Uchiha. Não havia razão para permanecer trancafiado como um prisioneiro de minha própria casa, e também não existiam muitas opções para ir, então apenas perambulei pelo dia que esquentou ao se aproximar de sua metade. Almocei num lugar qualquer, comprei uma porção de dango, saudei algumas pessoas e sentei num banco observando o nada, desviando minha atenção somente quando percebi não mais estar sozinho.
— Faz um bom tempo que não nos vemos. — Shisui exprimiu estendendo a mão para receber um palito repleto de doces. — Suponho que você parou de pedir missões ao Yondaime.
— Supôs errado. Ele decidiu não mais atender meus pedidos, portanto enquanto não houver missões no meu nível, ficarei a disposição — pronunciei o último termo com certo desgosto.
— Isso é bom... — deixou a frase no ar como se desistisse de continuá-la. — Não farei perguntas, logo não há necessidade de ficar na defensiva, mas tenho algo a lhe dizer e isto você deverá ouvir: senti sua falta, amigo — soltou, deixando-me sem reação e em seguida emendou: — Realmente comprou tão pouco ou comeu quase tudo para não ter que dividir? Tenho que concordar com Sasuke quando que você é egoísta. — Suspirou falsamente.
Ri daquela bobagem surpreendendo Shisui que me acompanhou em seguida, e não demorou a nos tornarmos alvos de olhares confusos, porém isso não importava. Naquele momento nada importava e como se previsse o futuro, eu o aproveitei completamente.
Estava debruçado na janela olhando as horas caminharem por aquele dia. As poucas lembranças que me alcançaram não demoraram a se retirar ao ver que não havia espaço para elas e com isso apenas a paz me tocava com suas calorosas mãos suaves. Houve um pequeno momento em que um mínimo sorriso se formou em meu rosto. Chamá-lo de felicidade seria exagerado. Eu poderia dizer que sentia alegria por me distanciar daquilo que me atormentava e por ser capaz de sorrir ora ou outra. O alívio no qual acreditava, tornava-se realidade. Eu poderia, talvez, afirmar que meu coração quase estava vazio.
Sasuke adentrou o sótão informando que nosso pai pedia pela minha presença e o motivo para tal me fez descer de imediato: um jantar com Aya e sua família.
O cenário na sala assemelhava-se a uma emboscada. Uma parte de mim permanecia descrente enquanto a outra analisava a situação. Eu suspeitava que meu pai era capaz de ignorar minha opinião, porém de certa forma aquilo doía. Dentro de mim, vários sentimentos se misturavam num turbilhão onde a raiva ocupava o centro deles, mas ela logo deu lugar a decepção e tristeza.
Atuei durante todo o jantar vestindo minha melhor máscara de hipocrisia. Notei os olhares angustiados de minha mãe, que pareciam carregar um pedido de desculpa, e não consegui retirar os meus de meu pai. Busquei respirar um ar mais leve saindo para o quintal, porém tive poucos minutos de solidão. Aya se aproximou carregando uma xícara com um líquido fumegante e me ofereceu com primorosa educação. Segurei a porcelana, mas não bebi seu conteúdo, fitando aqueles olhos quase desconhecidos para mim.
Aya fora discípula de meu pai, a única que ele teve interesse em ensinar, além de mim e Sasuke, e por isso adquiriu o respeito do clã para si e para os seus. Os antepassados dela eram comerciantes e durante décadas os poucos ninjas que geraram não possuíam valor para o clã. Ela, contudo, não se destacava somente por ser a primeira em anos. Suas habilidades eram dignas de reconhecimento e muitos diziam que lhe faltava pouco para a genialidade.
Eu nunca me relacionei com ela além de socialmente, nos momentos em que não podia evitar, por isso o que conhecia de sua personalidade era baseado em impressões e comentários de outras pessoas, contudo se estes estivessem corretos, Aya era dotada de seriedade, discrição e sensatez. E foi nesta que me baseei para dizer o que desejava:
— Sou contra esse casamento. Não tenho intenção nem desejo de torná-lo real.
— E eu não tenho intuito de deixá-lo permanecer como promessa — pronunciou calmamente.
— Qual o interesse nele? — indaguei prevendo a réplica. — Não sinto nada por você. Sabe disso.
— Com o tempo isso mudará. Um coração é como uma lousa na qual escrevemos e apagamos os nomes dos outros.
— Sentimentos não são adestráveis. Não se ama ou deixa de amar uma pessoa de forma leviana. Seu coração pode ser uma lousa, mas o meu não!
Ela deu um meio sorriso como se ouvisse bobagens de uma criança. Assim como meu pai, Aya estava totalmente alheia a minha vontade, o que me fez recordar de outro aspecto de sua personalidade: a persistência dispensada para alcançar um objetivo, seja ele qual fosse.
“Estou cansado de ser o que você quer que eu seja
Sentindo-me tão sem fé, perdido sob a superfície
Eu não sei o que você está esperando de mim
Colocado sob a pressão
De andar sob seus passos.”
Naquela noite, quis esquecer quem eu era e, principalmente, o fato de ser usado como moeda de troca para satisfazer os interesses daquele que se dizia meu pai. Perambulei até chegar a uma rua iluminada e barulhenta, a “porta de entrada” para o centro de entretenimento da vila. Não era do meu feitio frequentar aquele tipo de lugar, muito menos sozinho, no entanto eu queria deixar meu cérebro ser preenchido pela música até calar todos os pensamentos que se desenrolavam sem parar. Adentrei ao bar de aspecto estranho e colorido notando seu péssimo ambiente e o som que o preenchia. Percebi diversos pares de olhos acompanhando meus passos como se eu fosse uma novidade. Ocupei a mesa mais distante que consegui e olhei para ela como se esperasse que me dissesse o que fazer.
— Um homem não deve beber sozinho — disse uma morena de olhos verdes. — Aquele senhor gentil está lhe convidando para sentar conosco. — Ela informou apontando.
“Jiraya...” O nome foi pronunciado em minha mente enquanto eu observava o estado em que ele se encontrava. Tinha ao seu lado outras três mulheres que acenavam e me chamavam. Berrou meu nome e reforçou o convite ao ver minha demora em responder.
Aceitar parecia a atitude mais estúpida que eu cometeria em toda a minha vida, na verdade seria, tinha plena consciência disso, porém se as pessoas buscavam a bebida para esquecer os problemas significava que conseguiam este alívio, e era exatamente isso que eu queria. E por que eu deveria rejeitar uma proposta de escape? Pelo menos não estaria me afogando no álcool sozinho.
Deixei de lado a sensatez, que gritava a promessa de um arrependimento posterior, e aceitei o convite à esbórnia. Durante os primeiros minutos, senti-me um forasteiro invadindo terras perigosas, porém depois de alguns copos as piadas de Jiraya passaram a ter uma graça que nunca notei antes e os trechos de seus livros soaram como pérolas da literatura.
A morena se aproximou tocando meu cabelo, e eu me afastei fazendo-a rir entre um pedido de desculpas. Ela apoiou a cabeça em uma das mãos me encarando enquanto a outra desceu o zíper da blusa até exibir as curvas dos seios, parando por um segundo para depois continuar até o ponto que me permitiu ter certeza de que por baixo do tecido só havia pele.
— Esta noite seria perfeita se a terminássemos juntos, não acha? — indagou e sorriu ao constatar que prendia minha atenção. — Eu lhe daria outras coisas para olhar e, em troca, você daria algo para me ocupar. — Tocou o seio com o indicador numa leve carícia. — Tenho mãos inquietas, mas é claro que sei obedecer quando necessário. — Lambeu a ponta do dedo médio sem deixar de me fitar. — Posso ter o seu sim esta noite, Uchiha Itachi? — questionou sem ocultar o prazer que sentiu ao pronunciar meu nome.
Saí do bar. O peso do meu sobrenome recaía sobre mim esfregando em minha face a impossibilidade de retirá-lo. Não importava onde eu fosse, ele me seguiria como uma sombra que era vista antes de mim. Por vezes eu nem mesmo era enxergado, apenas ele se fazia o suficiente. Podia contar nos dedos quem não o via primeiro. Continuei meu trajeto pelas ruelas vazias e silenciosas suportando a desagradável sensação de estar bêbado. O maldito caminhar lento me irritava, mas correr trazia uma perspectiva que combinava estômago vazio e o chão empoçado com o que sairia dele.
— Você está bêbado?! — A voz obrigou-me a desviar a atenção para sua dona. — Pensei que não bebesse. — A frase de Sakura escondia censura nas entrelinhas.
— Sim, não bebo, mas quis fazê-lo hoje. Não há problema algum em fazer o que se quer.
— O que fez você beber? — A pergunta escondia curiosidade mas também me passava a impressão de que provocaria uma longa conversa ou sermão, e eu não tinha o mínimo interesse em nenhum dos dois.
— Vontade, eu já disse. Boa noite! — Usei de grosseria e retomei o rumo, sentindo um forte enjoo junto a uma vertigem. Minha visão duplicou e pus a mão na boca para evitar um vexame.
— Itachi, você está bem? Venha, minha casa é aqui perto, poderá descansar lá — sugeriu puxando meu braço com suavidade.
— Não! — Desvencilhei-me e continuei andando.
Fechei os olhos para evitar a tontura, tornando andar uma tarefa ainda mais difícil. O som de passos indicava que eu era seguido, contudo ignorei e insisti em minha trajetória cambaleante. Num dado momento, esbarrei em algo, o que me obrigou a abrir os olhos e contemplar o mundo rodopiando vigorosamente. As náuseas se apresentaram mais fortes que antes e eu me joguei no banco que quase havia me derrubado. Levantei a cabeça e apertei os olhos com força tentando controlar o impulso do meu estômago.
— Pode vomitar, se sentirá melhor depois.
— Eu não vou vomitar! — respondi com dificuldade. “Pelo menos não na sua frente”, pensei.
Ela deu um longo suspiro e então senti sua mão tocar meu rosto.
— O que está fazendo? — indaguei afastando-a.
— Cuidando de você. A propósito, você fica insuportável quando está bêbado... — Fez silêncio enquanto eu respirava fundo na tentativa de me sentir melhor. Remexeu-se como se algo a incomodasse e soltou: — Todos têm o direito de agir conforme a própria vontade mesmo que isso os induza ao erro. Pensando bem, errar também é um direito. Você também tem permissão de fazer o quiser... — Ela emudeceu, mas logo continuou. — Deve pensar que eu resolvi perturbá-lo em vez de ajudar, mas realmente acho que você não agiria dessa forma caso não tivesse problemas. Desculpe se o incomodei.
— Não. Apenas desacostumei de pessoas que falam demais — respondi, deixando-a sem reação. — Boa noite.
Diferente do que pensei, voltei para casa acompanhado. Durante o trajeto ouvi pelo menos uns quinze motivos para não ingerir álcool, mais nove ou dez formas de curar a ressaca, tudo isso duas vezes. Sakura se portando como médica mais parecia minha mãe do que uma garota de dezessete anos. Após convencê-la de que havia decorado todas as orientações entrei em casa sendo recebido por meu pai.
— Você acha que sua postura condiz com o título que receberá? — Ele indagou com a voz baixa, os braços cruzados e o desprezo no olhar. — Você acredita que será respeitado agindo dessa forma? Bebendo ao ponto de precisar ser carregado para casa! É este o tipo de comportamento adequado ao meu primogênito e futuro líder dos Uchiha? — gritou aproximando-se.
A dor foi intensa. Cambaleei para trás sentindo o gosto de sangue na boca, cuspi, limpando o rosto e o encarei.
— É a minha vida... Você quer me obrigar a casar com uma mulher para satisfazer seus interesses. Isso é correto?... Me sacrificar para sua conveniência...
— Prove que estou errado, Itachi! Prove que minha escolha está equivocada e o compromisso será dissolvido no mesmo instante. Mikoto, cuide dele! — ordenou com desdém.
Minha mãe lançou-lhe um rápido olhar carregado de raiva quando eles se cruzaram. Ela me guiou até a varanda onde me fez um curativo e em pouco tempo me trouxe uma xícara de café que aceitei depois de muita insistência.
— Desculpe. Eu deveria ter convencido Fugaku a desistir desse casamento descabido, mas o máximo que consegui dele foram aquelas palavras. — A tristeza impregnada em sua voz me machucava.
Permaneci contemplando o vazio, fundindo-me a ele, até ser puxado para o colo que há muito tempo não recorria. Hesitei, mas por fim cedi, permitindo-a transbordar o que ela mais possuía.
— Você sempre foi uma criança perfeita, tanto que confundiu obediência com submissão. Durante todos esses anos acatou as ordens de seu pai sem questionar, e agora tenta escapar da única que contestou... — ponderou. — A tesoura que corta as suas amarras está escondida dentro de você. Eu o amo e apoiarei qualquer decisão que o faça feliz.
Não consegui responder, continuei na mesma posição recebendo seu carinho e refletindo sobre aquelas palavras. Imaginei se a culpa da visão distorcida de meu pai sobre mim era minha, afinal a obediência que lhe dediquei durante toda a vida poderia ser o fator que deturpou sua ótica. Independente da resposta, cabia a mim mudar o que me incomodava, tarefa árdua se tratando da pessoa envolvida. Ele era intransigente, autoritário e arrogante, contudo deixara uma brecha e, apesar de pequena, era uma alternativa para resolver a questão.
A ressaca do dia seguinte encabeçava a lista das piores sensações fisiológicas da minha vida. Uma cefaleia insuportável roubava qualquer intenção de sair da cama, o que agravava a secura em minha garganta e a sensação de desidratação. Depois de protelar incontáveis vezes arrastei-me pela casa a procura de algo que me fizesse melhorar. Terminei minha frustrada busca no armário da cozinha e dei-me por vencido deitando a cabeça na mesa. Praguejei diversas vezes a ideia de me embebedar, prometi outras que jamais repetiria o ato e pressionei a testa na madeira para esquecer a dor fazendo daquilo um ciclo viciosamente estúpido.
— Não sabia que praticava autoflagelação. — A voz de minha mãe possuía um fio de ironia. — Sakura deixou isso para você — disse depositando ao meu lado uma pequena trouxa.
No interior dela havia comprimidos, uma embalagem com chá e um bilhete contendo todas as recomendações ditas noite passada — caso eu tivesse amnésia alcoolica — e instruções sobre como usar os medicamentos. Ao final, lia-se: “Caso não melhore após seguir as orientações, me chame.”
Mentalmente agradeci a gentileza dispensada, se não fosse por Sakura eu ganharia uma tatuagem vermelha na testa. Segui o que estava escrito em meu receituário e voltei para a cama. Lá remoí o ontem desde as palavras de meu pai, até minhas atitudes parando por uns minutos no fato de por pouco eu não ter dormido com uma prostituta e voltando a minha promessa de nunca mais beber, pelo menos não sozinho nem na companhia de gente com menos juízo do que eu.
Faltando alguns dias para o festival de verão, fui oficialmente nomeado assistente de minha mãe. Ela e Kushina organizavam há anos a comemoração em chegada a nova estação. O evento era enorme e planejado com pelo menos dois meses de antecedência. Já o cargo que era meu desde tempos imemoriais — mais uma daquelas coisas que ela acreditava ser tarefa de primogênito e da qual Sasuke se livrava sem fazer esforço — levara-me à floricultura para verificar o andamento de um pedido.
Na loja dos Yamanaka, puxei a lista do bolso e conferi os itens com Ino. Ela bufou um par de vezes, reclamou da quantidade exagerada da encomenda, questionou-me, como quem falava para si mesmo, sobre a dificuldade de encontrar e cultivar as espécies X e Y, soltou mais alguns resmungos e finalmente resignou-se terminando a conferência.
— Tudo será entregue na data e horário combinado — disse com a seriedade de uma mulher de negócios. — Desculpe a demora. Minha mãe me deixou sozinha no pior dia possível! — exprimiu com leve cansaço.
— Não se preocupe, sei bem o que significa isso. Sou o favorito na escolha para as tarefas.
— É verdade! Mikoto-san sempre as deixou para você e nas vezes em que forçou Sauke a ajudar, a decoração ficou um desastre! — Ela riu. — Foram dois anos de muito trabalho sem você e... — A voz se perdeu ao imaginar ter arranhado um assunto que não deveria ser tocado.
— Não se preocupe.
— Vocês tinham prática, era mais fácil com os dois ajudando e mais divertido também. Quem vai incentivar o Naruto a fazer alguma travessura ou se juntar a ele para tirar a Kushina do sério? Não há muitos corajosos em Konoha. — Ela riu, deixando-se levar pelas recordações.
Era estranho ver que outras pessoas possuíam boas memórias daquela que me deixou apenas ruins, porém isto fazia parte do que eu deveria me acostumar e por isso não impedi Ino de falar sobre ela. Sabia que esquecer era feito de passos, uns fáceis, outros difíceis, entretanto todos deviam ser dados.
No dia da festividade, minha mãe era a empolgação em pessoa. O sorriso transbordava de seus lábios com a facilidade que o vento leva as folhas pelo ar, nem mesmo a preocupação com os detalhes finais roubava sua alegria. Ela fazia questão de que todos da família estivessem impecavelmente vestidos e por isso não só mandava confeccionar nossas roupas como fiscalizava se as vestíamos direito.
Enquanto esperava Sasuke terminar de se arrumar, o que demorava uma eternidade e meia, distraí-me observando meu traje através do reflexo no lago. Um yukata azul escuro com figuras de bambus contrastando com o obi bronze que reafirmava o bom-gosto daquela que o escolheu.
— Está maravilhoso! — A voz mais que conhecida exibia orgulho.
Eu jamais havia visto-a tão linda. Seu cabelo preso num coque deixava a franja levemente solta, a maquiagem suave em seu rosto realçava seus olhos e a vestimenta tradicional preta com rosas vermelhas envolvida por um obi dourado. Precisei de alguns minutos para associar a imagem a minha frente à daquela mulher que eu normalmente via na cozinha.
Todas as ruas que serviam de caminho para o festival estavam decoradas com fitas vermelhas e amarelas e à medida que nos aproximávamos a decoração se intensificava até chegar ao centro. Assim que chegamos, nos encontramos com Sakura e Minato e sua família.
— Mikoto, seus meninos estão lindos! — Kushina falou como se tivéssemos cinco anos.
— Obrigada, Naruto também está belíssimo! — retribuiu sorrindo.
A conversa entre as duas seguia animada. Minato participava como podia, e Sakura dava ouvidos a alguns resmungos de meu irmão. Em meio ao clima tranquilo, notei o olhar de Naruto cravado em mim. Havia nele diversas emoções que se alternavam, contudo a seriedade por trás de todas elas me incomodava. Questionei-me quais motivos ele teria para agir daquela forma e nada veio à mente.
Revidei o ato esperando sua reação. Ele não mexeu um centímetro, não se intimidou ou mostrou qualquer outra emoção além das que tinha exibido. Analisava-me sem discrição, e eu podia jurar que havia uma pergunta oculta em suas pupilas. Além disso, percebi após algum tempo, havia curiosidade, não uma natural diante de um fato incomum, e sim a que toma uma pessoa quando esta procura respostas. Ele indagava aos meus olhos e, ao mesmo tempo, respondia seus próprios questionamentos.
O silêncio que abrigava aquele estranho momento gradativamente se estendeu aos demais até que todos o absorveram e se puseram a observar nosso diálogo sem voz. Sasuke, com uma desculpa estúpida, chamou Naruto para caminhar pelo local. Ele resistiu sem desviar o olhar e cedeu após meu irmão colocar o braço ao redor de seu ombro reclamando de uma fome inexistente e comentando sobre sua vontade de comer o lámen especial que Ichiraku fazia somente naquela ocasião.
Tive de suportar os outros olhares e deles pude depreender a desconfiança no de Minato, que parecia se dirigir ao filho, o de Kushina que externava algo próximo a preocupação aliada à melancolia e o de minha mãe que misturava apreensão e receio.
Fingindo ignorar o episódio, pus-me à disposição de minha mãe antes que alguém se metesse a iniciar uma conversa indesejada e entre os afazeres notei a alegria das pessoas, tão despreocupadas que pensei se não deveria ser como elas, viver um momento atrás do outro, e não tentar resolver tudo em vinte e quatro horas como se minha vida dependesse disso.
Minutos depois, Sasuke surgiu com um espeto de dango colocando-o diante do meu rosto e antes que ele se arrependesse do que estava fazendo, comi todos os bolinhos deixando-o irritado. Nossa mãe apreciou a cena com uma felicidade singular, abraçando-nos com força a despeito das reclamações de meu irmão.
Fitei o rosto da mulher que mais me amava e me questionei o quanto minha ausência maculara seu coração. Diferente de Sasuke, ela não se pronunciaria sobre isso. Não me contaria sobre a tristeza por minha distância nem o quanto isso a preocupou. Também não falaria sobre as possíveis preces feitas para que eu retornasse em segurança, muito menos sobre as lágrimas que talvez tenha derramado ao se lembrar que embora estivesse em casa dentro de pouco tempo, eu partiria novamente... Não, com toda certeza. Porque ela era amorosa demais, compreensiva demais e nunca me jogaria na face às atitudes que a machucaram.
Quanto a mim, não passava de uma perfeição cravejada de falhas, despercebidas àqueles que não conseguiam enxergar além de minha superfície.
Com o passar do tempo, eu me dividi entre o costume com a tranquilidade e a inquietação provocada pelo excesso dela. Alguns dias me encontrava com Shisui e isso preenchia boa parte do ócio, outros treinava com Sasuke, o que havia diminuído porque ele agora não achava mais o Uzumaki irritantemente competitivo nem a Haruno alguém que perdia o foco. O conjunto de fatos começava a me empurrar para a inatividade justamente quando eu não a queria e minhas opções se tornavam escassas. Não considerava permanecer em casa uma alternativa e preferia não aceitar os convites de Jiraya para beber, ainda recordava das consequências de jogar minha sensatez no ralo.
Saí do quarto esperando que alguma ideia se apresentasse quando ouvi o burburinho. As palavras eram quase um sussurro e o clima emanado pelo diálogo equilibrava-se entre tensão e paz.
— Você quer que eu organize o casamento do Itachi... — minha mãe disse pensativa. — Não vejo motivo para se preocupar com isso agora, já que a data não está marcada.
— Será daqui a três meses. O tempo é curto, contudo sei que dará conta dos preparativos.
— O compromisso foi firmado há poucos dias. Por que tanta pressa?
— Não quero dar espaço para Itachi fugir.
— Desta forma você toma a chance que deu a ele. Não se lembra de suas palavras? Se provasse que está errado, o compromisso seria... — A tranquilidade no semblante de minha mãe deu lugar à raiva.
— Desfeito. Eu alimentei a esperança de Itachi por um pedido seu. Nunca tive a intenção de ceder. Ele se casará com Aya e então assumirá o clã.
Os olhos dela se agitaram enquanto se mantiveram fixos ao rosto dele, a descrença passou por eles rapidamente cedendo lugar à firmeza.
— Você não vai acabar com a vida do meu filho por causa dos seus interesses. Eu não permitirei isso!
— É uma ameaça, Mikoto?
— Não. É apenas um comunicado para que você não tenha dúvidas de que sou contra essa incoerência. E eu realmente espero que não apresse esse casamento para encurralá-lo.
Ele cerrou as mãos com força, as veias saltavam desde o punho até o antebraço. Os olhos cravados na figura impassível a sua frente pareciam não crer no que fora dito.
Aquela cena provocou um lampejo em minha mente que logo se tornou um temor. “Meu pai não ousaria, tenho certeza disso”, tentei me convencer, mas eu realmente poderia afirmar? O homem que conhecia e admirava me apunhalara pelas costas sem pestanejar, do que mais seria capaz?
— Deixe-os terminar. — Sasuke murmurou pondo a mão em meu ombro. — Eu já vi mais discussões que você e posso garantir que não passa disso.
— Não tenho tanta certeza. Até pouco tempo atrás eu diria que ele era incapaz de me trair daquela forma.
— Você é filho. Não pode comparar as duas relações, são completamente diferentes. Se descer vai piorar a tensão entre os dois e uma discussão maior vai se formar. Saberia disso se não tivesse praticamente sumido durante um ano e meio.
— O que minha ausência tem a ver com isso e por que sempre toca nesse assunto?
Ele abriu um sorriso amargo, que no fundo continha satisfação por ouvir a pergunta, como se finalmente tivesse seu pedido atendido, encarou-me com uma ponta de tristeza no olhar e respondeu:
— Você é parte dessa família e enquanto esteve fora foi como se faltasse um pedaço em todos nós. Quando voltava, era como se esse pedaço se encaixasse novamente, mas com o tempo percebemos que você nos evitava. Estava aqui, mas seu pensamento não... As pessoas que estavam ao seu redor eram indiferentes pra você. — Ele emudeceu por alguns instantes e continuou: — Eu sabia os seus motivos e até os entendia apesar de sentir raiva e o achar um idiota, mas, como disse, eu entendia, porque provavelmente faria o mesmo se estivesse em seu lugar. Por isso, não falava sobre o assunto, tinha receio de dizer qualquer coisa que o fizesse partir mais cedo do que o previsto... Acho que isso acabou se tornando um consenso e todos nós passamos a agir da mesma forma.
Desviei o olhar refletindo sobre cada palavra proferida e eu mal havia chegado à metade quando Sasuke prosseguiu:
— É estranho, mas ainda prefiro toda essa confusão ao silêncio que existia nessa casa antes de você voltar e, não que eu apoie a loucura do nosso pai de casá-lo com Aya, mas seria bom se houvesse um motivo que o prendesse aqui — falou baixo tentando não me encarar.
— Como foi, exatamente, enquanto estive fora? — indaguei me afundando ainda mais no mar de remorso.
— Vazio... Seu nome era um tabu que evitávamos abordar porque sempre deixava um clima melancólico e como esse era o assunto que mais nos assombrava, o diálogo foi morrendo aos poucos. Não serei exagerado a ponto de dizer que nos tornamos estranhos, na verdade, acho que provocou o efeito contrário, pois dividíamos a mesma dor e nos apoiávamos para superá-la... Não precisa se desculpar nem se martirizar por isso. — Sasuke disse como se tivesse lido minha mente. — Eu entendo, nossos pais entendem, e se você simplesmente permanecer em casa já será o suficiente. — Encarou-me. — Faça-me um grande favor: cuide de sua fossa como uma pessoa normal, encha a cara de sake, dango ou qualquer outra coisa, mas não saia mundo afora como se isso fosse a melhor solução para os seus problemas! — Revirou os olhos. — Ok, sei que minhas sugestões também não são, mas, pelo menos, elas não o afastariam de nós. Sabe? Ser filho único não é nada fácil, tanta atenção só para mim é cansativo.
— Obrigado... — sussurrei a ele.
— Não me agradeça por nada. E não se intrometa nas brigas deles, você não gostaria que se intrometessem nas suas com... Apenas siga meu conselho!
Ainda que a conversa tenha me “esbofeteado”, sentia-me grato por Sasuke ter expressado seus sentimentos e também, um pouco, os de nossos pais. A mágoa provocada por minhas atitudes era algo que deliberadamente havia ignorado, no entanto estava ciente que deveria enfrentar algum dia.
Ponderei sobre as consequências de meus atos e até onde elas se estenderiam. Quanto tempo havia perdido? Tempo que deveria ser vivido ao lado de minha família ou, ao menos, fazendo algo que não desperdiçá-lo numa desenfreada busca em apagar o passado. Inquietava-me mais saber que errara não somente com aqueles que me eram importantes, mas também comigo mesmo, de forma tão estúpida que me negava a crer que tamanha idiotice partira de minha mente. Afinal de contas, acatar missões seguidamente para me manter longe de Konoha era a fórmula perfeita para dissolver emoções e lembranças, certo? Ledo engano.
Com o passar dos dias a presença de Aya se tornou mais comum e respirar o mesmo ar que ela parecia intoxicar as células do meu corpo. Eu não a odiava. Ódio se trata de um sentimento forte e sólido e era impossível sentir algo do tipo por ela. O que me acometia ao compartilhar um ambiente com Aya assemelhava-se ao vento passando por um descampado: um enorme sopro no nada. Quando não, e isto fora descoberto recentemente, parecia o silvo precedente a tormenta, aumentando conforme esta se aproxima, assim era a irritação provocada por ela, que prometia alcançar o patamar do desprezo.
Aya me fitou calada por poucos segundos, o olhar analítico possuía um fundo vazio, um precipício ao qual desejava me arrastar. Encarei-a da mesma forma, porém ela não demonstrou qualquer emoção. Inabalável como uma rocha, impenetrável, gélida e impregnada da arrogância típica daqueles que pensam manipular a verdade conforme seus interesses.
— Não deveria me olhar como uma ameaça. Não se pode fugir do destino, Itachi. Ele é traçado antes de nosso nascimento e é o caminho que todos têm que seguir. Tentar se desviar dele é a atitude primária dos néscios, a prova máxima da mediocridade humana.
— Guarde seu discurso.
— O fracasso é a certeza para aqueles que o desafiam. Ainda assim, as pessoas desperdiçam seu tempo em tentativas estúpidas guiadas pela tola esperança de que são capazes de mudar qualquer característica do caminho traçado para elas — exprimiu sua vã filosofia como se fosse a verdade absoluta
— Não estou interessado em suas concepções e se sua intenção for me convencer de que elas estão corretas, é você quem está desperdiçando tempo.
Um sorriso cínico repuxou seus lábios numa clara demonstração de satisfação diante de minha irritação, mas este logo se extinguiu dando lugar a réplica:
— O que as pessoas que se opõem a ele não se dão conta é do sofrimento que sua afronta trará como consequência... — interrompeu-se e questionou num tom enigmático: — Você realmente prefere sofrer em vez de aceitar o inalterável?
— Eu prefiro não acatar o que me for imposto com base em argumentos vazios e se minha postura importar em dor, que seja, antes senti-la como consequência de algo escolhido por mim do que por imposição do acaso.
— O fruto de suas escolhas pode ser mais amargo do que acredita ser capaz de suportar — advertiu secamente.
— Essa possibilidade não me assusta. Quanto tomo uma decisão, prontifico-me a arcar com os efeitos provocados por ela. Se, doces ou amargos, o tempo dirá e nenhuma das perspectivas me influência.
— Você é admirável, Itachi. Inocente, mesmo depois de tantos anos, reto, digno e benevolente apesar das incontáveis mortes em suas costas. Interessante como a ANBU não lhe corrompeu. Por outro lado, a imutável virtude do seu ser também é o seu pior defeito. Um coração puro no mundo ninja serve apenas como um naco de carne para distrair as mandíbulas dos sedentos por poder e a integridade de um homem um fino véu que, não sendo possível rasgá-lo, torna-se tapete para os pés daqueles que não medem esforços para obter o que desejam.
Os negros e pétreos olhos de Aya me encararam por mais alguns instantes antes de se desviarem e apesar de frios, pude perceber, por uma fração de segundos, uma mistura de decepção, resignação e determinação. O diálogo havia me dado um vislumbre do que seria minha vida caso se atrelasse a dela: um caótico desenrolar de dias pautados em conturbação, impregnados de discussões, ironias e tentativas de coerção de minha vontade aos seus caprichos. Aquela mulher era um grilhão pronto para se enroscar em meu pescoço e me sufocar até realizar o desejo de me subjugar.
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