O jogo seguiu seu fluxo e os trinta minutos seguintes pareceram durar três horas.

A França, ferida pelo gol, partiu com tudo para o ataque, era uma blitz implacável. Bolas passavam raspando a trave coreana, o goleiro fazia milagres e a torcida no estádio assistia ao jogo de pé, com o coração na boca pela aflição dos minutos finais.

Jillian já não conseguia mais ficar sentada.

Ela estava agarrada à barra de proteção da arquibancada, os nós dos dedos brancos pela força do aperto. Ela empurrou o chapéu Stetson um pouco para trás na cabeça, revelando os fios de cabelo loiro meio bagunçados pelo suor e pelo nervosismo.

Lá embaixo, Heung-min estava visivelmente exausto.

Ele corria para ajudar a defesa, dava carrinhos, prendia a bola no ataque para ganhar alguns segundos preciosos, tentava dar oxigênio ao time, e recebia orientações gritadas pelo técnico. Toda vez que o jogo parava por um instante, ele olhava na direção da fileira dela. Não era mais um flerte descontraído, era um olhar de quem buscava um ponto de ancoragem no meio daquela confusão, e Jillian percebeu isso.

— Vai! Chuta isso para longe! — Ela gritou, batendo as mãos no corrimão, a voz já meio rouca.

Maya piscou de um jeito cômico.

— Olha ela, já virou técnica futebolística — Cami brincou, embora também estivesse roendo as unhas em aflição.

Um frio danado no estômago, uma inquietação ridícula no corpo inteiro.

Maya juntou as mãos em preces, porque só Jesus na causa.

O quarto árbitro ergueu a placa eletrônica: 5 minutos de acréscimo. Cinco minutos separavam a Coreia da final histórica da Copa do Mundo.

A França teve uma última chance concedida por um escanteio nos segundos finais. Até o goleiro francês foi para a área coreana. A bola foi lançada, uma confusão de corpos subiu, e o goleiro da Coreia conseguiu socar a bola para longe. Ela caiu direto nos pés de Son, que usou o resto de energia que tinha no corpo para dar um pique em direção à lateral, bem onde Jillian estava, protegendo a bola com o corpo enquanto o marcador francês tentava o desarme de forma desesperada.

Son prendeu a bola perto da bandeira de escanteio, usando os segundos restantes a seu favor. O zagueiro francês, frustrado, fez uma falta dura, empurrando o camisa sete direto contra as placas de publicidade bem abaixo do setor de Jillian.

O impacto foi feio.

O estádio inteiro prendeu a respiração, até o sistema de ventilação parou por uns segundos. Son rolou pelo chão, segurando a canela, o rosto retorcido de dor, sua perna doía de verdade.

Cami levou as mãos à cabeça, Maya cobriu a boca.

Jillian deu um passo à frente, debruçando-se sobre o parapeito, o coração dela errou uma batida.

— Ei! — ela gritou alto, a voz esganiçada sobre o barulho da torcida ao redor, os olhos fixos nele. — Levanta! Você consegue!

A menos de cinco metros de distância, deitado perto da linha branca, Son ouviu o sotaque texano nítido. Ele abriu os olhos, respirando de forma arfante, e olhou para cima. No meio do borrão de torcedores enfurecidos, a garota do Stetson estava com o corpo inclinado, os olhos cheios de uma preocupação genuína focada exclusivamente nele.

E essa atitude, de alguma maneira, deu um gás inacreditável para o capitão. Son sorriu tenso, apoiou as mãos na grama e se levantou devagar, limpando os pedaços de grama do uniforme. Ele olhou para ela, piscou um dos olhos e ajeitou a braçadeira de capitão no braço esquerdo.

Nesse exato segundo, o árbitro central levou o apito à boca e deu três silvos longos.

Fim de jogo. Coreia do Sul 1 x França 0.

A Coreia estava na final da Copa do Mundo.

O estádio explodiu em uma catarse de camisas vermelhas, os jogadores coreanos caíram no gramado chorando, agradecendo, os reservas invadiram o campo, e a festa era inacreditável. No meio daquela loucura, enquanto todos se abraçavam, Son Heung-min começou a andar de volta em direção à lateral onde o jogo tinha terminado. Ele sabia que o protocolo da FIFA exigia que ele fosse saudar a torcida do outro lado, mas ele tinha um negócio pendente ali primeiro.

Son caminhou a passos largos, sua bússola interna muito bem calibrada, ignorando educadamente duas câmeras da transmissão oficial que tentavam cercá-lo. O suor corria pelas têmporas, o cabelo úmido e bagunçado, mas o sorriso em seu rosto era enorme.

Ele parou exatamente abaixo do setor de Jillian.

O parapeito da arquibancada ficava a pouco mais de um metro e meio de altura em relação ao nível do campo. Dois seguranças do estádio se moveram rapidamente para criar uma barreira, temendo que a multidão esmagasse a grade, mas Son ergueu a mão, pedindo calma com um gesto respeitoso.

Incrivelmente, todo mundo o obedeceu.

Ele deu um impulso à frente, pisando na base de concreto do setor técnico, o que o deixou quase cara a cara com Jillian. Ela se inclinou para frente, agarrando o corrimão de metal, sentindo a adrenalina disparar de um jeito que nunca tinha sentido na vida.

Son olhou para ela, recuperando o fôlego, e quebrou a distância com uma naturalidade desarmante. Jill imediatamente notou a “pintinha” adorável em sua pálpebra inferior esquerda e para sua surpresa, o inglês dele era fluente, carregado por um leve e charmoso sotaque britânico, fruto dos seus muitos anos jogando por um grande clube londrino.

— Ei — ele chamou, a voz rouca pelo esforço físico, mas nítida o suficiente para ela ouvir por cima do barulho. — Obrigado pelo apoio. E pela dancinha do lanche feliz. Ajudou a aliviar a tensão.

Jillian soltou uma risada genuína, o sotaque arrastado do Texas saindo meio trêmulo pelo choque de tê-lo tão perto.

— Você joga muito e corre absurdamente rápido! — ela respondeu, os olhos brilhando. — Eu não entendia nada de futebol até duas horas atrás, mas agora sou sua fã. Parabéns pela final, vocês merecem!

Son abriu um sorriso deslumbrante, que fechava seus olhos em duas fendas expressivas. Sem dizer mais nada, ele levou as mãos à barra da camisa vermelha número 7, puxou-a pela cabeça e a retirou. O uniforme estava sujo de grama, úmido de suor e carregava o peso de uma semifinal histórica. Ele embolou o tecido com cuidado e o esticou para cima, entregando diretamente nas mãos dela.

— Um presente, para a torcedora mais autêntica de Atlanta — ele disse.

Jillian segurou o tecido levemente pesado contra o peito, completamente sem ação. Atrás dela, Maya e Cami pareciam estar prestes a ter um colapso nervoso, gritando e se abanando, incapazes de acreditar no que estava acontecendo.

Mas o capitão coreano ainda não tinha terminado, pois não se virou para ir embora. Em vez disso, ele olhou para o topo da cabeça de Jillian, onde o Stetson de feltro claro repousava, e apontou com o indicador.

— Uma troca justa? — ele perguntou, com um brilho desafiador e divertido nos olhos. — Eu preciso de um amuleto de sorte para a grande final no domingo. Me empresta o chapéu?

Jillian piscou, o coração dando um tranco violento no peito. Aquele chapéu era o seu companheiro de todas as horas na fazenda em Houston, o seu pedaço de casa, um presente de um ente querido. Mas olhar para o maior jogador da Ásia, no meio de um estádio de Copa do Mundo lotado, pedindo o seu Stetson, era uma proposta impossível de recusar.

Com um sorriso largo e os olhos cheios de audácia, ela levou as mãos à cabeça, tirou o chapéu e deixou o cabelo loiro voar livre e leve com o vento do sistema de ventilação do estádio. Ela se inclinou o máximo que pôde sobre o parapeito e esticou o Stetson para baixo.

— Cuida bem dele — ela pediu, enquanto ele segurava a aba firme de feltro. — Ele dá sorte de verdade.

— Eu vou cuidar. Prometo entregar de volta depois de erguer a taça — ele garantiu, com uma piscadela cúmplice.

Son deu um passo para trás e, diante dos olhos estupefatos de setenta mil pessoas e das lentes do mundo inteiro, ele colocou o legítimo chapéu de caubói do Texas na cabeça. O acessório ficou um pouco grande, mas ele não se importou. Encaixou-o com estilo, ajustou a aba exatamente como tinha visto Jillian fazer e deu mais alguns passos para trás.

Antes de se virar para se juntar à volta olímpica com o restante do time, ele parou, olhou para Jillian uma última vez e juntou os dedos indicadores e polegares na altura dos olhos, simulando novamente a moldura de uma câmera fotográfica.

Ele tirou a foto dela de novo. Só que, dessa vez, o caubói era ele.

Jillian sentou na cadeira, impactada, apertando a camisa dele contra o corpo, sentindo o cheiro de grama e vitória, enquanto assistia ao capitão da Coreia do Sul correr pelo gramado, celebrando a vaga na final da Copa do Mundo usando o seu chapéu. A viagem para Atlanta já tinha valido cada centavo, e a Copa ainda não tinha acabado.