Código Secreto
8 Capítulo 8 - Nova chance
Foi então que Hyoga a reconheceu. Olhou para um gaveteiro de quina e percebeu que a loira lá em baixo era a mesma da loira que segurava um bebê na foto do porta-retratos. Ikki já tinha lhe dito que ela era a sua ex-mulher. Aquilo o surpreendeu, pois ela estava muito diferente da foto. Agora entendia o motivo de Ikki ter se separado, a mulher virou uma perua louca, só pode! Pensou, antes de ser surpreendido com o escancarar da porta da sala, se deparando com um pirralho de uns cinco anos, mais ou menos. Pela afobação dele, devia ser algum conhecido de Ikki.
– Você é amigo do meu papai? – O menino perguntou para a surpresa do loiro.
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Ikki respirou profundamente, tentando manter a calma. Sabia que a visita inesperada de Esmeralda não poderia ser boa coisa. Depois que eles se separaram, ela só aparecia para que ele pudesse ver Shun. Porém, ele já havia dito que naquele final de semana não poderia ficar com Shun.
– Eu sei que você disse que está muito enrolado de trabalho. Mas também, quando é que Ikki Amamiya não está ocupadíssimo, não é mesmo? – Ironizou.
– Estou falando sério, Esmeralda. Eu não posso ficar com o Shun agora, sabe que eu não me esquivo de ficar com ele, mas agora não dá!– Tentou explicar mais uma vez.
– É só por um mês, Ikki! Será que não dá pra ficar um mês com seu filho? Eu preciso fazer esse curso nos Estados Unidos e não posso levá-lo comigo. Ele tem escola, cursos...
– Mas Esmeralda! Você não está entendendo... Eu não posso! Estou com um caso sério e...– Ela o interrompeu, irritada.
– Quem não pode sou eu! O que é, hein?! É o seu chefinho pervertido de novo?! Vai atrapalhar vocês dois?! É isso?! –Gritou irônica e irritada.
– Kanon não tem nada a ver com isso!
– Ah claro! O fato do seu trabalho sempre vir em primeiro lugar não tem nada a ver com ele! Você é que é um workaholic pelo simples prazer de ser, não é?! Você só aproveita que ele está lá pra...
– Chega Esmeralda! Não vou deixar que fale essas coisas de mim ou do Kanon! – O moreno irritou-se. Ela riu debochada.
– Quer saber, sou eu quem digo chega, Ikki! Eu não vou mais me sacrificar por você! Eu não vou me privar de me realizar profissionalmente porque você quer foder com seu chefe! Não vou, entendeu?! – Gritou, os olhos já vermelhos, contendo algumas lágrimas. Aquele assunto ainda mexia com ela. O moreno bufou.
Desde que Ikki conheceu Esmeralda, ela sempre fora uma menina recatada e tímida, além de linda e prestativa. Porém, sua auto-estima sempre fora baixa. Insegura, sempre fazia de tudo para mantê-lo por perto. Foi um choque para ela quando soube que o marido a traía com um homem. O relacionamento de Ikki com Kanon afundou ainda mais a sua já baixa auto-estima. A loira precisou de três anos de terapia para superar a depressão e aceitar que esse fato se devia exclusivamente ao ex-marido e não a ela. O episódio, porém, transformou a vida da loira. De moça recatada e tímida, se transformou numa perua materialista e escandalosa. Fazia de tudo para sentir-se bonita, elegante e poderosa, usando e abusando de roupas provocantes e chamativas, que valorizavam, segundo ela, sua beleza. Tudo no intuito de elevar sua auto-estima e não cair em depressão novamente.
Ikki nunca teve a intenção de magoá-la. Simplesmente não pôde evitar quando se viu envolvido com Kanon. Sabia do seu erro, mas o geminiano lhe mostrava um novo mundo num momento em sua vida onde tudo parecia não ter muito sentido. Descobrir-se e revelar-se homossexual foi libertador para ele, mas um tremendo golpe para Esmeralda. Sentia-se um pouco culpado por ela, mas não poderia ter feito diferente. Não podia manter aquela farsa por muito tempo.
– Esmeralda, por favor! Não tem nada a ver com Kanon. Eu estou trabalhando num caso muito sério! É arriscado manter Shun aqui... – Tentou manter a calma novamente. E só o fazia em respeito a ela, porque se fosse em outra circunstância ou com outra pessoa já teria explodido.
– Você é um profissional, Ikki. Trate de não envolvê-lo nisso! Estou avisando! Eu não vou mais deixar que aquele cara estrague a minha vida! Não! Não passei três anos na terapia para você fazer o que bem entende! Eu preciso desse curso, para alavancar a minha carreira! Se você não ficar com ele, vou colocá-lo num colégio interno! – Ameaçou. Ela não iria arredar o pé, isso era fato. Respirou fundo novamente, contando até dez mentalmente. Estava sendo muito difícil se controlar. Não queria arriscar Shun, mas num colégio interno era o último lugar que colocaria o filho. – Vai chamá-lo, quero me despedir dele! – Ela cruzou os braços, batendo os pés impacientemente.
O moreno calou-se por um tempo, olhando para a mulher a sua frente, tão diferente da jovem por quem se apaixonou. Ao mesmo tempo, lhe batia a consciência de sua mea-culpa em relação a mulher que ela se transformou. Contrariado e sem saída, o policial subiu até seu apartamento, tecendo novas estratégias para garantir a segurança de Shun. Chegou à sala de casa e encontrou o loiro sentado no sofá, bebericando café, abusando do seu ar blasé.
– Ele está lá dentro, pulando enlouquecidamente na sua cama... – Respondeu a óbvia pergunta estampada no rosto do policial, como se não estivesse nem um pouco interessado no que o filho de Ikki fazia ali. Pura encenação, a realidade é que estava morto de curiosidade para saber o que estava acontecendo. O moreno seguiu para seu quarto sem dizer nada, vendo Shun rindo e pulando em sua cama.
– Shun, filho. Vem cá! – Pediu puxando o menino para o seu colo.
– Estava com saudade, papai! – O garotinho agarrou-se no pescoço de Ikki.
– Eu também, meu filho. – O policial disse, beijando a testa do menino, passando por Hyoga e levando-o para se despedir da mãe. Assim que se viu sozinho, o loiro correu novamente para a janela para observar a cena, tentando entender o que se passava.
– Shun, a mamãe vai ter que passar um tempo viajando... – Ikki tentou explicar enquanto descia as escadas.
– Mamãe vai embora? — O menino perguntou, preocupado.
– Só por um mês, mas ela volta. Você vai ficar comigo, enquanto isso. Você quer passar umas férias na casa do papai?
– Quero! – O garoto animou-se, levantando os bracinhos em comemoração. – Me leva para tomar sorvete?
– Sim, vamos tomar sorvete. - O menino riu, feliz. Assim que Esmeralda pôs os olhos no filho, o pegou no colo, abraçando-o forte.
– Shun, meu querido! – A loira acariciou o cabelo do menino, que a encarou. – Eu vou precisar viajar uns dias. Mas a mamãe vai te ligar todos os dias. Vou ficar com muita saudade do meu pequenino! Obedece ao papai e se comporte, está bem?
– Ta bem.
– Eu te amo muito, viu?! – Ela o abraçou forte novamente.
– Também te amo. – Deu um selinho na mãe. Sem falar nada, Ikki o pegou novamente no colo. – Volta logo, mamãe! – O menino pediu, acenando enquanto ela deixava a mala do menino com o moreno. Ela acenou de volta, mandando beijos, até que finalmente entrou no carro e saiu.
O policial nada disse. Sabia que nada a faria mudar de ideia, e também não queria atrapalhar a carreira dela, mas estava preocupado, não havia hora pior para ficar uns dias com Shun. Dentro do apartamento, Hyoga observava a cena, curioso. Apesar de não ter ouvido a conversa entre eles, percebeu que o garoto iria ficar com eles no apartamento. E isso não era nada bom...
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Na delegacia, Afrodite debruçava-se sobre alguns documentos, tentando entender os últimos interrogatórios. Um em particular o deixou em alerta.
– Incomodo? – Milo bateu a porta, fazendo o pisciano desviar os olhos dos documentos pela primeira vez desde que chegou à delegacia.
– Não, amigo. Entre! – O loiro não se fez de rogado e se aproximou, sentando-se.
– Foi o depoimento do garoto Isaak que te deixou assim, não é? – Perguntou, notando as rugas no amigo. Afrodite suspirou.
– É... minha intuição diz que tem algo faltando nesse quebra cabeça! – Milo coçou a cabeça, desconfiado. Dite se levantou, andando pela sala. – O que está me deixando desconfiado é a razão para ele insistir para Hyoga correr naquela noite. A sua resposta de que queria vê-lo correr porque era o Bad Angel não me convenceu...
– Você também está com a impressão de que o flagrante foi forjado? – O escorpião perguntou.
– O garoto não tinha a pretensão de correr naquela noite, mas por insistência do amigo, acabou correndo, mesmo sem grana. E justo na noite em que armamos o flagrante, conseguiram um carro no nome do Hyoga e ainda portando drogas...
– Como se soubessem que iríamos pegá-lo... Armaram o flagrante de antemão!
– Sim... se não desconfiássemos da inocência do loiro, poderíamos dizer que foi o flagrante perfeito... !
– Mas como Isaak sabia da nossa missão?
– Como...? – Dite voltou a sentar-se, encarando-o significativamente.
– Acha que eles têm um informante aqui dentro? – Sussurrou.
– É possível... Veja o que eu encontrei. Há registros de Isaak, ele foi preso aqui por furto umas duas vezes, mas logo depois foi liberado. Eu sabia que já tinha visto aquele rosto antes... – Divagou.
– Quem foi o policial que efetuou a prisão dele? – Milo perguntou, olhando os registros.
– Aí é que está: esse registro simplesmente sumiu!
– Como? – O escorpião estranhou, notando que não constava mesmo o nome do policial que efetuou a prisão.
– A pessoa que efetuou a prisão não quis ser identificado e nem relacionado ao Isaak, por isso não consta o seu nome. – Milo pensou um pouco.
– A secretaria do menor deve ter esse registro, sempre que prendem um menor de idade, deve ser enviado um registro para lá.
– Eu já mandei um ofício para eles, requisitando esse registro. – Dite confirmou. – Mas isso implica na real responsabilidade do Isaak, ele deve ser a ponte que liga os dois lados da corda. - Disse num tom baixo de voz.
– Sim, precisamos saber quais as suas fontes, os seus contatos. Precisamos encontrar esse tal de Cassius... Acho que ele pode nos ajudar bastante.
– Precisamos avisar ao Ikki, temos que organizar a escolta quando Hyoga for falar com Isaak.
– Sim, assim que ele chegar nós faremos isso. Agora, eu julgava que essa missão fosse secreta... Quem mais, além de nós, sabia da missão?
– Eu, você, Ikki, Kanon... Mas pode ser qualquer policial corrupto!
– Sim, nós não fomos. Então, quem é o traidor? – Milo murmurou, pensativo.
– Traidor?! – Ikki chegou como um furacão, estressado. – De quem estamos falando? – Perguntou, sentando-se ao lado de Milo e respirando fundo.
– Bom dia, para você também amigo... – O escorpião riu.
– O que aconteceu para você está assim a essa hora? – Dite perguntou, achando graça do estado do amigo.
– Não estou acostumado a ser babá de marmanjo... E ainda tem o meu filho! Esmeralda resolveu que vai sair do país e que eu tenho que ficar com ele.
– Mas você não pode ficar com o Shun lá... Ele está com o loiro?– Milo perguntou, preocupado.
– Está, para alguma coisa aquele bipolar tem que servir! – Bufou. – Mas então, quem é o traidor? – Desconversou. Milo e Dite se entreolharam, mas nada disseram.
– Bom... – O escorpião levantou-se, se dirigindo até a porta, verificando se não tinha ninguém à espreita. – Estamos considerando a hipótese de termos um traidor entre nós. – Ikki franziu o cenho.
– Não creio na coincidência de Hyoga ter sido “empurrado” a correr justo naquele dia, justo com o carro que estava em seu nome, justo no dia em que montamos o cerco do flagrante. Pelo que Hyoga disse, foi Isaak que insistiu para ele correr, inclusive comentando da bolada como prêmio. – Dite explicou.
– Achamos que informações foram vazadas. O Isaak já foi preso aqui, e apesar disso a informação de quem o prendeu sumiu, é possível que tenham informantes entre nós, mas não sabemos, pode ser qualquer policial aqui dentro. – Milo completou.
– Espere aí! – O moreno volveu, preocupado. – Então é uma questão de tempo eles descobrirem o Hyoga!
– Temos que descobri-los antes deles nos descobrirem... – Dite disse, sério, deixando Ikki ainda mais tenso e preocupado, agora não só com Hyoga, como também com seu filho.
– Temos que agir sozinhos. – Ikki concluiu. – Não podemos arriscar uma missão aqui, com esse suspeito nos vigiando.
– Não, isso vai dar na cara. Vão perceber que estamos desconfiando e vão colocar homens na nossa cola! – Dite argumentou. – Temos que agir como se não soubéssemos de nada! Assim, poderemos agir com o elemento surpresa.
– Agir do jeito que você fez com o sequestro... – Milo sussurrou, referindo-se ao sequestro de Hyoga. Ikki recostou-se na cadeira, desconfortável. Os amigos tinham razão, quanto menos gente tivesse conhecimento da operação, menos arriscado seria para Hyoga.
– Vamos ter que nos dividir, o Kanon está em cima de mim querendo os relatórios da vida do Hyoga. Pode ser bom, talvez eu consiga algum indício de sua inocência. – Dite considerou.
– Vou conversar com as famílias deles, investigar essa amizade entre ele e Isaak. – Milo propôs. – Ikki? — Chamou-o. Enquanto os amigos debatiam a estratégia de investigação, o moreno estava arquitetando um modo de como chegar ao rapaz antes do previsto. Mas para isso, precisava do mais absoluto segredo.
– Tudo bem... acho que já sei como fazer para colocá-los cara a cara... – Levantou-se.
– Somos uma equipe, Ikki! O que vai fazer? – Milo perguntou, contrariado e surpreso com a atitude do moreno.
– Somos, mas agora quanto menos gente souber melhor. Como disse o Dite, vamos nos separar. – Afirmou, deixando os companheiros para trás, autoritário.
– Ele sempre faz as mesmas coisas... – O escorpião bufou.
– Deixa ele, está com a pressão de ter que garantir a segurança do garoto, sem falar no filho. Ele está se segurando, mas para um lobo solitário, deve estar sendo difícil... – Dite concluiu, consciente das dificuldades e o estresse que o amigo devia estar experimentando ao abrigar e proteger Hyoga em sua casa.
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Desde a conversa que teve com os amigos, Ikki não teve mais paz, preocupado com a segurança de Hyoga e seu filho, sozinhos em sua casa. O iminente perigo o deixava em alerta e tenso, não o deixando trabalhar. Resolveu voltar para casa, certificar-se de que estavam bem, e aproveitando para levar o almoço deles, afinal duvidava que o garoto soubesse cozinhar algo e que sua despensa contivesse algo que preste.
Aproveitou para comprar alguma coisa mais saudável para o filho, não poderia deixá-lo comer só besteira. Antes, quando morava sozinho, não tinha preocupação com a sua alimentação, então nem se preocupava em abastecer sua despensa, mas agora precisava ter. Ainda estava tentando se habituar a essa nova realidade, convencendo-se de que daria conta de cuidar de uma criança, afinal seria por pouco tempo, quando chegou a sua casa.
– Hyoga, Shun? Cheguei com o almoço! – Gritou, levando as sacolas para a cozinha. – Hyoga? – Chamou novamente, estranhando o silêncio na casa.Percorreu a casa procurando-os, sentindo seu coração falhar na medida em que percebia que a casa estava vazia. Onde eles estavam? O que tinha acontecido? Será que pegaram eles? Será que descobriram Hyoga?
– Hyogaaa!! Shuuun!! – Gritou desesperado, correndo para fora de casa. Pisou na calçada, desnorteado, olhando para os lados, correndo na direção da delegacia. – Hyoga!!! — Gritou, novamente ao parar na esquina. Seu coração estava acelerado, desesperado, sem saber onde procurar. Até que ouviu o riso de Shun.
– Shun!!! — Olhou para a rua a sua esquerda, vendo os garotos caminhando tranquilos em sua direção.
– Meu Deus! – Murmurou, sentindo o sangue descer para os pés, extremamente aliviado por vê-los bem. Correu até eles, abraçando e pegando o filho no colo, fuzilando Hyoga com os olhos, que não entendeu.
– O que...? – Não conseguiu completar a pergunta, porque logo foi arrastado para a casa. – O que está acontecendo? – O loiro perguntou, não entendendo a agressividade do outro.
– Cala a boca! – Gritou, assustando o loiro e o filho.
– Papai... – Shun assustou-se, com medo do pai. Ikki estava transtornado. Nunca tinha sentido tanto medo em sua vida, e foi com pressa que levou os dois para a casa.
– Vai pro quarto, Shun... - Mandou.
– Mas papai!
– Vai agora!! – Gritou para o menino, que correu para se esconder no quarto.
– Você quer explicar... – Hyoga tentou protestar, mas foi interrompido pela fúria de Ikki.
– O que pensa que está fazendo? Não mandei você ficar aqui?! – Gritou.
– Tive que sair... – Tentou explicar, Ikki estava furioso demais para ouvir.
– Como teve que sair?! Merda, Hyoga! Você quer morrer?! Estão atrás de você, esperando uma única chance de te pegar, e você fica dando bandeira por aí! E ainda com meu filho? Ele é só uma criança! Pára de agir como um irresponsável, merda! Você precisa me ouvir! Eu não vou me responsabilizar se você não me obedecer! Você tem que me ouvir! – Despejou tudo de uma vez, furiosamente. Hyoga não dizia nada, estava atônito e com raiva.
– Eu não mandei você trazer uma criança para cá! Você queria o que? Que eu desse aquelas porcarias de panquecas para ele?! Só o levei para comer! Só isso! – Gritou, irritado. Não entendia porque Ikki o estava tratando daquele jeito.
– Tinha que ter me esperado, eu ia trazer comida!
– Eu não sabia!! Eu não sabia!! Ele ficou pedindo comida e achei que não tinha problema levá-lo para comer! – Gritou de volta. Eles ficaram se encarando, com a respiração alterada e ânimos inflamados, não perceberam a chegada do assustado Shun.
– Papai, não briga com o tio Oga, eu que pedi ‘pa’ ele me levar... – Pediu, agora assustado com a briga. O loiro se virou e foi para a cozinha, extremamente irritado. Sabia que aquilo não ia dar certo. Ikki cerrou bem os olhos, controlando-se. Aos poucos, a adrenalina que corria seu corpo foi cedendo e ele pôde olhar para os olhinhos marejados e assustados do garoto.
– Desculpe, filho. A culpa é minha, eu fiquei assustado quando não encontrei vocês... – Disse, abraçando-o.
– Fica com medo não, papai... – Disse, sem entender porque o pai tinha ficado com medo.
– Tudo bem, estou mais calmo agora. Volta para o quarto. O papai vai fazer uma comida gostosa para você.
– Ta... Mas não vai mais brigar com o tio Oga?
– Não, pode deixar. Agora vai. – O menino obedeceu, seguindo para o quarto.Ikki sentou no sofá, respirando fundo. Agora, mais calmo, entendia que para Hyoga sua reação devia ter sido exagerada, mas ele não entendia, e não sabia como fazê-lo entender a gravidade da situação. Mas precisava, mas não podia mais deixá-lo correr riscos, principalmente agora sabendo que estavam em alerta até saber quem estava passando as informações para o outro lado.
Respirou fundo novamente, erguendo-se e indo na direção onde Hyoga se encontrava. Encontrou o garoto apoiado na pia, vermelho, provavelmente de raiva, com os braços cruzados. Bufou, agora seria ainda mais difícil estabelecer a confiança necessária.
– Desculpe... – Pediu, num tom de voz baixo. Mas o loiro o ignorou, então voltou a desculpar-se, agora de forma mais enfática. – Me desculpe por ter gritado com você. Hyoga. – O loiro, então, voltou seu olhar para o moreno. Ele viu tanta raiva que até se assustou.
– O que achou? Que eu fugiria deixando uma criança para trás, abandonada? Eu não sou um monstro! Não sou! – Gritou, com os olhos marejados.
– Não, não achei que tivesse fugido. Achei que tivesse acontecido algo pior...
– Foda-se! Eu não quero mais ficar aqui! Não vou mais te dar trabalho ou preocupação. – Resmungou. Ikki soltou um suspiro cansado e puxou uma cadeira para sentar, levando as mãos aos cabelos, numa atitude cansada. Seus atos eram minuciosamente estudados pelo loiro, mas este não dizia nada.
– Me desculpe, sei que não devia ter gritado com você. Mas eu fiquei desesperado quando não os encontrei. Hoje acabamos de descobrir que tem um informante dentro da corporação e que a qualquer momento podem descobrir seu paradeiro. Eu não consegui trabalhar hoje, só pensando nisso. Em vocês aqui, sozinhos, desprotegidos... E quando cheguei, não vi ninguém... Você entende o desespero que eu senti? Pensei que algo pior tivesse acontecido... – Poucas vezes Ikki tinha se aberto tanto, e Hyoga notou isso. Notou sinceridade no desespero no moreno e isso o desarmou, percebendo o quanto o moreno ficara preocupado com eles.
– Eu só fui comprar comida... – Justificou novamente.
– Tudo bem, eu só peço que não faça mais. Eu não quero que nada de ruim te aconteça... ainda é arriscado você sair sem escolta, sem proteção. – Hyoga virou os olhos, ainda estava com raiva, mas não tanto quanto antes. Ikki se levantou, indo até ele, tocando-o no braço para que ele o encarasse.
– Se quiser ir, não vou impedir, mas me dê mais uma chance... Deixe-me protegê-lo... – Pediu, olhando no fundo dos olhos do loiro. O loiro prendeu a respiração ao encarar os olhos fortes do moreno. Havia tanta sinceridade e força neles, como nunca tinha visto em ninguém. Não disse nada, apenas ficou encarando-o, como se tivesse sido tragado por aquela força, aquele magnetismo. Efeito igual acontecia a Ikki. Os olhos claros do loiro tinham uma rebeldia, mas ao mesmo tempo uma força e um sofrimento tamanho que julgou impróprio a uma criança como ele. Aqueles olhos, aquela expressividade, por um momento, pareceu a Ikki que estava se vendo dentro dos orbes claros do loiro... Um risinho, porém, os tirou da contemplação um do outro.
Shun, que ainda estava assustado com o acontecimento, retornou para a cozinha a tempo de ver o tio Oga e seu pai se entreolhando como se esperassem para ver quem piscava primeiro.
– Mandei ficar no seu quarto... – Ikki disse, sem desviar o olhar de Hyoga. O loiro, ao contrário, resolveu mirar o chão. Shun voltou correndo, rindo, como se tivesse feito arte. – Você vai ficar? – Perguntou seriamente ao loiro.
– Tudo bem, eu só não quero que grite comigo. – Disse tentando forjar um tom autoritário. Ikki nada respondeu, apenas confirmou gestualmente, agradecendo mentalmente por não ter estragado tudo.
Continua...
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