Código Secreto

1 Capítulo 1 - Prólogo: A origem do rebelde


Moscou – Primavera de 1991.

A jovem de cabelos longos e loiros corria desesperada por entre as árvores imponentes que cobriam parte do jardim do sítio da família Verseau. Ofegante e apavorada, ela fugia dos seus perseguidores, que a galopes aterradores a caçavam como a uma gazela indefesa. Com o afã de se afastar cada vez mais dos homens, que ela pensava serem empregados de seu pai, se embrenhou na mata fechada, um bosque nas redondezas de onde ficava o sítio de seu pai, pois ali os cavalos não entrariam. Era sua única alternativa de se manter segura e viva.

Porém, ela não contava com a astúcia dos quatro homens corpulentos e mal cheirosos que a cercaram a certa altura em meio as árvores. Mesmo sem os cavalos, eles conseguiram alcançá-la e cercaram-na. Ao se deparar rodeada pelos quatro, ela gritou chamando por socorro, em vão. Sua tentativa de salvar-se se tornou sua perdição, pois sabia que não teria como se defender daqueles homens estando sozinha.

As lágrimas e os protestos se uniram as batidas fortes de seu coração quando eles se aproximaram, agarrando a frágil primeira bailarina do Theatro Municipal da cidade. Viu suas roupas serem rasgadas e o odor forte de rum impregnar-se em sua pele e cabelo, que agora via-se molestado com violência pelos quatro homens que, devido ao local, não se importavam com os gritos da loira de apenas 18 anos.

Jogada ao chão, já machucada e com as roupas rasgadas, ela chorava copiosamente e tentava fugir enquanto cobria parte de seu seio que ficara descoberto. Tremendo muito ela se arrastou para longe deles, tentando levantar-se. Foi quando sentiu um chute em sua barriga, tão forte que a fez tossir e gemer alto de dor. Contorcendo-se em dor, ela se tornou uma presa ainda mais fácil para eles.

Satisfeitos, eles riram e brindaram entre si enquanto despiam suas vestimentas, para desespero e agonia da jovem que observava aquela cena aterrorizante sem poder fazer nada. Mas aqueles homens não lhe deram trégua nem mesmo se apiedaram de seu desespero e súplicas, logo se apoderando dela novamente, usando e abusando de seu virgem corpo, durante toda a noite, até o ponto em que ela não mais sentiu qualquer dor ou viu sequer um facho de luz.

Alheios ao que acontecia com sua única filha, o empresário e político Camus Verseau celebrava mais um sucesso da campanha eleitoral que consagrou seu afilhado político o novo prefeito da cidade. É claro que sendo um dos homens mais influentes em sua bancada e padrinho político do novo prefeito, conseguiria um excelente cargo junto ao novo governo. Satisfeito, junto com sua esposa, Irina Yukida, oferecia um pomposo jantar para os aliados da bancada e o novo prefeito, em seu sítio, em comemoração a grande vitória, sem perceber que sua filha, a jovem bailarina, não estava mais ali.

Já era bem tarde da noite quando eles deram por falta de Natássia Yukida Verseau, a jovem e talentosa bailarina, única herdeira da família. Preocupado e ouvindo a intuição de Irina, Camus mandou todos os empregados da mansão em busca da filha, temendo pelo pior. Não levou mais que uma hora e ela foi encontrada. E foi com um misto de dor, assombro, horror e ódio que eles receberam a notícia do estupro que ela sofrera na mata de seu sítio. Como um verdadeiro pai enfurecido, Camus pôs-se a caçar os agressores de Natássia utilizando-se de toda a sua influência e poder, enquanto Irina, como enfermeira e mãe, cuidava pessoalmente de sua menina.

Camus explodia em ódio quando via sua filha na cama muito machucada. Irina não explodia em ódio como o marido, mas sim em dor e comoção ao ver sua menina, sua única filha, tão machucada. Ela, como era enfermeira, cuidava aos prantos da filha desacordada, deitada na cama. A propriedade da família ficava em local afastado, e por isso o atendimento médico demorava um pouco para chegar lá. Rezavam para que nada de pior pudesse tê-la ocorrido e que ela pudesse voltar a dançar e sorrir como antes. Para isso, procuraram os melhores médicos, psicólogos, especialistas para que ela pudesse superar esse terrível trauma.

Natássia precisou de duas semanas para recuperar-se, mesmo que parcialmente. Os ferimentos em seu corpo foram cicatrizando aos poucos e com o acompanhamento de psicólogos, ela começou a sentir-se um pouco melhor. Irina estava o tempo todo ao seu lado, enquanto seu pai determinava-se em achar os culpados. Com a informação de que esses homens poderiam ser seus empregados, a fúria de Camus aumentou ainda mais, alimentando sua sede de vingança e justiça.

Com seu poder naquela região, não foi muito difícil localizar os agressores. Porém, a informação estava equivocada. Eles não eram seus empregados. Ao contrário, Camus nunca os tinha visto antes. Então, para descobrir quem eram e o que faziam em sua propriedade, ele os levou, secretamente, para o seu sítio, onde tentou descobrir, utilizando-se até de meios escusos, quem eram e porque fizeram aquilo com sua filha.

Depois de algumas horas de muito espancamento e tortura, os homens finalmente revelaram que aquele não tinha sido um ataque qualquer. Eles tinham um mandante cujo poder se igualava ao seu naquelas terras a tal ponto de poder infiltrar aqueles homens em sua propriedade. E sua filha não era o alvo direto, ela pagara por algo que, na verdade, era dirigido a ele. Camus quis saber o nome do mandante, do inimigo a quem deveria confrontar, mas aqueles homens pareciam temer-lhe mais que tudo.

Aturdido pela informação e sem saber se entregava os homens a polícia ou se os matinha sob seu poder, Camus resolveu esperar. Precisava elaborar uma estratégia para descobrir o real mandante do ataque a sua filha, seu verdadeiro inimigo. Aquilo não era coisa de seus inimigos políticos, de nenhum adversário político. Nenhum deles tinha o perfil para isso. Então o cerco se fechava para ele.

Em seus olhos podia-se ver a comoção interna, coisa que não era comum para um homem frio e calculista como era seu marido. Irina sabia bem disso e se Camus estava daquele jeito significava que algo muito sério estava ocorrendo e sua intuição lhe dizia que não era relacionado ao estado de Natássia. Ela era uma mulher formidável, um exemplo para sua filha. Era uma mulher centrada, sensata, culta e dedicada a sua profissão e a sua família, suas maiores paixões nesse mundo. Amava a ciência, mas tinha um lado sensível assombroso. Seus sonhos e intuições eram certeiros todas às vezes. Tanto que era vista por muitos como uma sensitiva.

Ela não se impressionava com tais boatos, mas sempre soube dar ouvidos a essas intuições. E era por isso que tinha certeza absoluta que seu marido lhe escondia algo muito grave. Tão grave a ponto de tirar-lhe o prumo. Camus admirava muito sua esposa e a forma como ela estava conduzindo tudo aquilo o deixava ainda mais admirado. Ele sabia o quanto ela era forte e sensível, não poderia esconder sua descoberta por muito tempo. Mas enquanto não tivesse certeza do que estava acontecendo, não diria nada a ela, para que não se preocupasse com isso. Queria que ela se dedicasse exclusivamente a filha, dando-lhe o apoio necessário enquanto ele cuidava do resto. Foi o acordo firmado e não dito.

Natássia também sentia que algo estava errado com seu pai. Mas acreditava que isso era fruto do que tinha lhe acontecido. Ele ainda não havia lhe inquirido sobre os motivos de ter deixado a festa naquela noite e isso era mais um tormento para o coração já sofrido da jovem. Agora que já estava em casa e recuperada na medida do possível, sentia certa dificuldade para voltar a sua vida normal. Sair de casa sozinha lhe era impossível, pois sentia muito medo, talvez irracional, mas um temor crescente de se ver novamente sozinha naquele jardim, principalmente na área do bosque. Então permanecia a maior parte do tempo dentro de casa com sua mãe, sem saber que seus agressores ocupavam o sótão da casa, algemados e trancafiados.

Depois de mais alguns dias, Camus não agüentava mais esconder a verdade de sua esposa. Chamando-a carinhosamente à noite, enquanto dividiam a cama, ele abriu o coração e revelou para ela os nomes dos agressores de Natássia. Surpresa e assustada, ela cobrou-lhe um posicionamento enérgico, mas ficou ainda mais assustada quando ele lhe falou do mandante desconhecido. Quem poderia odiá-los a ponto de fazer isso? Mas o susto final foi a descoberta de estar sob as cabeças daqueles homens. Ela não acreditou quando ele revelou que eles estavam naquela casa, debaixo de seus pés. E a isso se sucedeu uma briga feia entre o casal, tão feia que assustou até as paredes daquela casa que nunca vira uma discussão mais acalorada entre eles.

De seu quarto, Natássia podia ouvir a briga dos pais, sem conseguir definir exatamente o que diziam. Ela pensou em ir até o quarto, mas sabia que Camus não iria gostar nada disso. Existia uma regra na família que dizia que entre eles ninguém poderia se meter, muito menos quando eles entravam no quarto. Fosse o que fosse, ela não sairia do seu quarto, mesmo com a sensação de que eles brigavam por sua causa. Uma sensação que a deixava ainda mais triste.

A sua desconfiança se confirmou quando na manhã seguinte viu sua mãe arrumar as malas junto com as suas e rumar para o apartamento da família no centro de Moscou. Natássia acompanhou a mãe sem entender os motivos para a mudança. Irina desconversou dizendo que seria melhor para ela estar no apartamento do centro, mas a jovem sabia que a mãe mentia. Principalmente porque agora ela mal falava com seu pai, que ficara no sítio. Ela sentia que algo estava errado com seus pais, sentia-se mal por isso, culpada pela situação da família.

Camus entristeceu-se pela distância das mulheres da sua vida, mas ao mesmo tempo sentiu-se mais aliviado. Sabia que lá elas estavam mais seguras e Natássia teria muito mais assistência. Então, vendo-se sozinho, dedicou-se totalmente na descoberta do homem que mandara atacar sua filha, esquecendo-se inclusive de suas obrigações partidárias. A missão que se impôs não foi fácil, principalmente porque dias depois da mudança das mulheres, a casa fora atacada e incendiada por outros homens armados. Camus observava a mansão sendo consumida pelas chamas sem poder fazer nada. Não precisava de muito para saber que o tal mandante estava dando seu novo recado e novamente agradeceu por elas não estarem mais na região. Novamente, Irina fez a coisa certa. Quanto aos homens, ninguém soube o que aconteceu com eles, nem mesmo Camus. Seus corpos não foram mais encontrados.

Porém, assim como as chamas consumiram sua casa, a dor consumiu seu coração quando, voltando da viagem, Irina revelou a ele o que descobriram em uma das visitas ao hospital de Moscou. Ela disse de forma direta por não ter outros meios para amenizar sua dor, cerrando bem os olhos ao pronunciar tais palavras que aferroavam a mãe e tiraram o chão do pai da jovem que agora esperava um filho de seu estuprador. Camus estava tão aturdido que mal conseguia raciocinar, respirar ou ter qualquer reação. Lágrimas queimaram a sua pele, e chorou. Chorou abertamente como numa tinha feito antes, e amparado no colo da esposa, debulhou sua dor na forma de lágrimas.

Alguns dias e enjôos depois e Irina, que retornou para o apartamento junto de Camus, soube que não poderia esconder a gravidez da filha. Chamou a Camus e juntos contaram sobre a gravidez. A jovem ficou atônita e chorou muito sendo amparada pela mãe. Camus, um pouco afastado, também tentava consolá-la com palavras. Mas nada acalmava a jovem que ficou desesperada ao saber-se mãe do filho de seu agressor, um daqueles monstros que a violentaram naquela noite que gostaria de esquecer para sempre.

Mas Deus não permitiria que ela esquecesse, porque deu a ela alguém para lembrá-la sempre daquela noite de terror. Seu pior pesadelo passaria como um filme nos olhos da criança toda vez que ela olhasse para ele. Lembraria das risadas nojentas dos homens toda vez que ouvisse seu filho sorrir. Ouviria o próprio grito e choro da criança toda vez que o ouvisse chorar e gritar. Veria o rosto de seu estuprador toda vez que o olhasse e não se reconhecesse naquelas feições. Isso tudo era tenebroso demais, ela não via como isso poderia dar certo. Como poderia amar aquela criança? Isso seria impossível, ela pensava.

E foi mergulhada nesse desespero e desesperança que resolveu acatar a sugestão de seu pai e tirar a criança. Seria injusto com o bebê que já nasceria com esse fardo tão pesado. E ela mesma duvidava que pudesse dar amor e uma família decente para aquela criança, então resolveu tirar, mesmo sobre os protestos de Irina. A mãe não queria que Natássia tirasse a criança. Ela duvidava que a filha pudesse não amar o próprio filho, mesmo estando em tais circunstâncias. Temerosa a Deus, ela sugeriu que a filha desse a criança para adoção, caso não conseguisse ser mãe da criança. E que Deus se encarregaria daquele ser inocente que a jovem carregava.

A sensibilidade de Irina novamente se fez presente na família e balançada pelas últimas palavras da mãe, Natássia resolveu ter a criança, mesmo que a própria gravidez lhe fosse um tormento a parte. Mas a avó da criança dava-lhe tanto estimulo e carinho que a jovem começou a se acostumar e até a gostar da criança que carregava. Somente Camus não conseguia admitir ser avô do filho do estuprador. Ele não conseguia ver na criança o seu neto, o filho do homem que violentou sua filha. E esperava que ela tomasse a decisão sensata de dar a criança para adoção assim que ela nascesse.

Enquanto isso, ele retornou sozinho ao sítio, acompanhando as obras de reforma da casa. Porém, sem o cargo que almejava no dia do acontecido e totalmente afastado da política, suas finanças começaram a ficar comprometidas. Via-se completamente perdido e seu poder e influenciava definhava dia a dia. Mas ele não conseguia dar atenção a isso, com o tempo tornou-se obcecado em descobrir quem era o mandante, sem perceber que o intuito do homem com o ataque já tinha se concretizado: O afastamento completo de Camus, para assumir o seu lugar como o político mais influente e poderoso do local. O novo prefeito da cidade, a quem Camus nunca conceberia uma traição desse porte.

O novo prefeito só não contava que o Francês pudesse ter amigos que o ajudasse na missão de revelar o nome do inimigo. E foi com a ajuda de alguns poucos amigos que ele chegou até o nome do prefeito. Mas já era tarde demais, as finanças de Camus já estavam tão decaídas que ele nada poderia fazer contra seu malfeitor, a não ser destruir a imagem política do rival. E foi o que ele fez, como único modo de vingança pelo ocorrido com sua família. Crendo que sua esposa e filha estavam seguras no apartamento, ele sentiu-se corajoso para expor todos os podres do político.

É claro que isso não ficou barato e no mesmo dia em que sua filha dava a luz, Camus recebia, com mãos de ferro, a vingança de seu antigo afilhado político. Irina, intuitivamente, sentiu que algo acontecia com seu marido e correu para o sítio. Porém sua intuição, sempre tão forte, não foi capaz de avisá-la desse erro e dos perigos que corria. Conseguiu encontrar Camus, mas este estava muito mal. Ele havia perdido tudo e havia apanhado muito dos mandantes do prefeito. Porém a vingança não terminaria com aquela surra. No caminho de volta para o Centro de Moscou eles foram atacados por um grupo encapuzado. Camus estava ferido e fraco, e assim não conseguiu defender sua esposa, sendo obrigado a presenciar o assassinato de Irina a sangue frio, sem que pudesse fazer nada para impedir.

Não satisfeitos, eles levaram Camus até o novo apartamento para matar também a filha Natássia. O ruivo sabia disso e precisava fazer alguma coisa para impedir. Para sua sorte, Natássia não estava em casa. Estava no hospital, porém a movimentação chamou a atenção dos homens que Camus havia mandado para proteger Natássia e Irina. Eram amigos e deviam muito ao antigo empresário, então mesmo sabendo que nada receberiam, ajudaram Camus a se livrar dos homens que mataram sua esposa.

Camus finalmente estava livre, mas também sabia que era por pouco tempo. O prefeito os caçaria por toda a Rússia até encontrá-lo e a Natássia a fim de concluir sua vingança. Foi com dor no coração que ele reuniu as poucas jóias que Irina mantinha no apartamento e fugiu com a filha e o neto para o Japão. Natássia acompanhou o pai na fuga, sem entender aquela reviravolta que tinha acontecido em sua vida. Porém, agora o mais importante era filho. Agora ela tinha uma nova vida para cuidar e, diferente do que ela pensava que aconteceria, ela amava aquela criança e ficaria com ele sem se importar com os olhares frios e revoltados do pai, amava aquele menino como nunca amou ninguém na vida e soube que seria a melhor mãe do mundo, e chamou o seu pequeno bebê de Alexei Hyoga Yukida Verseau.

Continua...

Notas finais
N/A: Eu sei que esse capítulo ficou corrido, mas a história da fic só começa mesmo a partir do próximo capítulo, isso aqui é só uma introdução para que possam compreender melhor como vai se formar a personalidade do nosso querido Hyoga (tadheeeenho, ninguém merece ter um pai nessas condições né...)