Acho — Melanie começou calmamente — que é hora de falar

sobre a caveira. Adam nunca nos contou exatamente como a

achou...

— É, vocês têm sido muito sigilosos sobre isso — interferiu Faye.

— ... mas talvez a hora chegou.

Diana e Adam se entreolharam, e então Diana assentiu levemente.

— Tudo bem, então, conte. Tente não deixar nada de fora.

Depois da caminhada de volta do cemitério, se amontoaram, todos os

doze, no quarto de Diana. Cassie olhou para o grupo e percebeu que

estava dividido. Suzan, Deborah e os irmãos Henderson estavam sentados

num lado, perto de Faye, enquanto Laurel, Melanie, Adam e Sean

estavam no outro lado, perto de Diana.

Pelo menos, pensou Cassie, observando os olhos incomodamente

agitados de Sean, ele estava sentado no lado de Diana por um momento.

Poderia mudar a qualquer hora. E Nick também — Nick podia apoiar

Diana um dia, e depois com nenhum motivo aparente apoiar Faye em

seguida. Nick sempre foi um fator desconhecido.

E, uma voz dentro dela sussurrou, você também.

Mas aquilo era ridículo. Nada — nem Faye — podia fazer Cassie não

apoiar Diana. Não quando realmente contava.

Adam começou a falar numa voz baixa e pensativa, parecendo que

tentava se lembrar precisamente.

— Não foi em Cape Cod, foi mais ao norte, mais perto de Boston.

Todo mundo sabe que há dezessete ilhas na Baía de Boston; estavam todas

desertas e cobertas de algas. Bem, encontrei uma décima oitava. Não era

como as outras; era plana, cheia de areia e não aparentava ter recebido

pessoas ali faz tempo. E havia algo estranho nela... Já estive no lugar antes,

mas nunca o vi. Era como se meus olhos de repente se abrissem depois...

— Parou.

Cassie, olhando para o reflexo da luz no lustroso chão de tábuas de

pinheiro de Diana, sentiu que estava se sufocando. Não ousou respirar até

Adam continuar:

— ... depois de trabalhar em barcos de pesca o verão todo. Mas

quando tentei ir para a ilha, o leme resistiu, tentando me manter longe ou

me encalhar nas rochas. Tive que brigar com ele para controlar o barco; e

tive que invocar a Terra e a Água ou nunca conseguiria. Quando estava

finalmente seguro, olhei para as pedras e vi o naufrágio de outros barcos.

Ninguém que chegou lá vivo foi embora vivo. — Respirou fundo e

lentamente. — Assim que pisei na areia, podia sentir que a ilha inteira era

elétrica. Sabia que era o lugar mesmo antes de ver o círculo de pedras no

meio. Assim como Black John descreveu. Urze marinho crescia nas

pedras, mas o centro era limpo e foi onde eu cavei. Um minuto depois,

minha pá atingiu algo sólido.

— E então? — perguntou Diana.

— Então eu tirei dali. Me senti... não sei, tonto, quando vi. O sol

brilhava na areia e meio que me cegou. Então enrolei a caveira na minha

camisa e fui embora. A ilha não lutou quando eu fui; era como uma

armadilha desarmada. Isso foi em... vejamos, vinte e um de setembro.

Assim que voltei à Baía, quis voltar a Nova Salém, mas tinha algumas

coisas para cuidar. Não pude começar até o dia seguinte, e sabia que eu

me atrasaria para a iniciação de Kori. — Ele parou e lançou um olhar

apologético a Doug e Chris.

Não disseram nada, mas Cassie sentiu olhou adejarem em sua

direção. A iniciação de Kori se tornara a iniciação de Cassie, porque

naquela manhã Kori foi encontrada morta na base das escadas do colégio.

— Qual é o objetivo de toda essa narrativa? — perguntou Faye, a voz

rouca chateada. — A menos — se endireitou, parecendo mais interessada

— que vocês achem que o resto das Ferramentas Mestres estejam naquela

ilha.

— Eu já disse — falou Adam. — Não havia mais nada lá, Faye. Só a

caveira.

— E o objetivo é que precisamos saber mais sobre a caveira —

informou Diana. — Por bem ou por mal, estamos presos com ela agora.

Acho que não devíamos devolvê-la à ilha...

— Devolva! — exclamou Faye.

— ... onde qualquer um pode encontrá-la, agora que o feitiço protetor

está quebrado. Não é seguro lá. Não sei se algum outro lugar será seguro.

— Bem, agora — murmurou Faye, aparentemente sonolenta. — Se é

muito problema para você, eu ficaria feliz em tomar conta dela.

Diana só lhe atirou um olhar que dizia que Faye era a última pessoa

que ela pediria para tomar conta da caveira. Mas, Cassie notou com uma

sensação de declínio, os olhos cor de âmbar de pesadas pálpebras não

estavam fixos no rosto de Diana. Estavam apontados na pequena chave

dourada no pescoço de Diana.

Alguém bateu na porta.

Cassie se assustou, tão bruscamente que Laurel se virou e olhou para

ela em surpresa. Mas era só o pai de Diana, que chegara em casa com uma

pasta saliente na mão.

O sr. Meade examinou o quarto abarrotado em suave surpresa, como

se ele não conhecesse todas essas pessoas. Cassie imaginou de repente

quanto ele sabia sobre o Círculo.

— Vão todos ficar para o jantar? — perguntou a Diana.

— Ah... não — disse Diana, olhando para um relógio elegante branco

e dourado no criado-mudo. — Não percebi que já tinha passado das sete,

pai. Vou terminar aqui rápido.

Ele assentiu, partindo, não antes de dar mais uma olhada rápida e

incerta no quarto.

Molas da cama rangeram e tecido roçou quando todos se levantaram.

— Amanhã podemos nos encontrar no colégio — disse Melanie. —

Mas eu tenho que estudar hoje à noite; essa semana inteira que passou foi

perdida e eu tenho um teste de biologia.

— Eu também — disse Laurel.

— Tenho dever de álgebra — disse Suzan, e Deborah murmurou:

— Significando que você tem uma semana inteira de filmes no VCR.

— Muito bem, nos encontramos amanhã — disse Diana. Desceu para

o primeiro andar com eles. Faye conseguiu pegar o braço de Cassie

enquanto os outros saíam, e ela sussurrou em seu ouvido:

— Pegue hoje à noite. Me ligue e venho recolhê-la; então devolvemos

antes de amanhecer. Ela não vai nem notar que sumiu.

Cassie puxou o braço com rebeldia. Mas, na porta, Faye lhe lançou

um olhar significativo, e o lampejo naqueles olhos cor de âmbar a alarmou.

Ela fitou Faye por um longo tempo, então assentiu levemente.

— Você quer que eu fique? — Adam dizia a Diana.

— Não — disse Cassie rapidamente, antes que Diana pudesse

responder. Olharam para ela, assustados, e ela completou: — Eu fico e

ajudo a fazer o jantar, se estiver tudo bem, Diana. Falei para minha vó e

minha mãe que estaria fora e provavelmente elas já comeram.

A bondade de Diana ficou reconhecível.

— Ah... é claro que pode ficar, então — disse ela. — Ficaremos bem,

Adam.

— Certo. — Adam lançou um olhar acre, no qual ela retornou de

modo enfadonho. Ele saiu, seguindo Chris e Doug para a escuridão. O

tremeluzir de um fósforo à frente mostrou onde Nick estava. Cassie olhou

para o céu noturno, que brilhava impetuosamente com estranhas mas sem

nenhum traço da lua, e então recuou quando Diana fechou a porta.

O jantar foi calmo, com o sr. Meade sentado ali, folheando um jornal,

ocasionalmente olhando sobre os óculos de leitura para as duas garotas.

Mais tarde, voltaram para cima para o quarto de Diana. Cassie percebeu

que precisava protelar.

— Sabe, você nunca me falou sobre essa pintura — disse, apontando.

Decorando as paredes de Diana havia seis pinturas. Cinco delas eram

bem similares, preto-e-braço com uma aparência levemente antiquado.

Diana contou que era pinturas de deusas gregas: Afrodite, a linda porém

instável deusa do amor; Ártemis, a feroz caçadora virgem; Hera, a

arrogante rainha dos deuses; Atena, a calma deusa da sabedoria de olhos

cinzas; e Perséfone, quem amava flores e todas as coisas brilhantes.

Mas a última pintura era diferente. Era colorida, e o estilo era mais

abstrato, mais moderno. Mostrava uma mulher jovem sob um céu

estrelado, enquanto uma lua crescente brilhava prateada no seu cabelo ao

vento. Vestia uma simples peça branca, cortada alta para mostrar uma liga

na coxa. No braço, havia um bracelete dourado, e na cabeça um diadema

fino com uma lua crescente.

Era a roupa que Diana vestia nos encontros do Círculo.

— Quem é ela? — disse Cassie, fitando a linda garota na pintura.

— Diana — Diana disse esquisitamente. Cassie se virou para ela, e

ela sorriu. — A deusa Diana — acrescentou. — Não a Diana romana;

outra. Ela é mais velha que as deusas gregas, e era diferente delas. Era

uma Grande Deusa; comandava tudo. Era deusa da noite, da lua e das

estrelas; há uma história que uma vez transformou todas as estrelas em

ratos para impressionar as bruxas na terra. Então, ela foi feita a Rainha das

Bruxas.

Cassie sorriu.

— Acho que seria necessário mais que isso para impressionar Faye.

— Provavelmente. Alguns dizem que sua lenda foi baseada numa

pessoa verdadeira, que ensinou magia e era uma campeã entre mulheres

pobres. Outros dizem que era foi primeiro a Deusa do Sol, mas então foi

afugentada pelos Deuses do Sol masculinos e virou para a noite. Os

romanos a confundiram com a deusa grega Ártemis, você sabe, a caçadora,

mas ela era muito mais que isso. Enfim, sempre foi a Rainha das Bruxas.

— Como você — disse Cassie.

Diana riu e sacudiu a cabeça.

— Não posso ser sempre líder — disse. — Tudo depende do que

acontecer entre agora e dez de novembro. É o dia da votação de liderança.

— Por que dez de novembro?

— É o meu aniversário; o de Faye também, por coincidência. Você

tem que ter dezessete anos para ser líder permanente, e é lá que nós duas

seremos.

Cassie ficou surpresa. Diana só tinha dezesseis anos, como ela?

Sempre pareceu tão madura, e era sênior. Mas era ainda mais estranho

que Faye fosse tão nova, e que as primas tinham o mesmo dia de

aniversário.

Olhou para Diana, sentada ali na cama. Linda como a garota da última

pintura, Diana era mais linda. Com o cabelo daquela cor indescritível,

como a luz do sol e da lua tecidas juntas, e um rosto de uma flor, olhos

como joias verdes, Diana lembrava algo de um conto de fadas ou lendas,

ao invés de uma pessoa real. Mas a bondade e... bem, pureza que

brilhavam nos olhos de Diana eram bem reais, pensou Cassie. Cassie tinha

orgulho de ser sua amiga.

Então a luz lampejou na chave dourada no pescoço de Diana e ela se

lembrou do que estava ali para fazer.

Não posso, pensou Cassie, quando o estômago se revirou tontamente.

Podia sentir o martelar lento e doentio do coração. Bem nesse minuto no

seu próprio pescoço estava pendurado o colar de lua crescente que Diana

lhe dera na iniciação. Como podia roubar de Diana, enganar Diana?

Mas já passara por tudo aquilo antes. Não tinha escapatória. Faye

faria exatamente o que ameaçara — Cassie sabia disso. A única forma de

salvar Diana era enganando-a.

É para o seu próprio bem, Cassie disse a si própria. Então só pare de

pensar a respeito. Faça o que tem que fazer e supere isso.

— Cassie? Você parece chateada.

— Eu... — Cassie começava a dizer “não, é claro que não”, e mudava

de assunto da forma que geralmente fazia quando alguém lhe pegava

sonhando acordada. Mas então teve uma ideia. — Não estou no ânimo de

ir para casa sozinha — disse, fazendo uma careta. — Não é só andar... é

aquela casa. Range a noite toda e às vezes nem consigo dormir.

Especialmente se estou pensando na... na...

— Só isso? — disse Diana, sorrindo. — Bem, é fácil resolver isso.

Durma aqui. — Cassie se espantou com a facilidade que Diana fez a

oferta. — E se está preocupada com a caveira — continuou Diana — ,

pode parar. Ela não vai a lugar nenhum, e não fará mais nada para

machucar alguém. Eu prometo.

O rosto de Cassie queimou e ela teve que lutar para não olhar para o

armário. Nunca teria mencionado a caveira: não conseguiria pronunciar a

palavra.

— Certo — disse, tentando manter a voz calma. — Obrigada. Vou

ligar para a minha mãe e dizer a ela que vou ficar.

— Podemos dirigir até sua casa para que possa se vestir na manhã;

vou arrumar o quarto de hóspedes. — Quando Diana saiu, as vozes na

mente de Cassie se agitaram. Sua ladrazinha, gritavam para ela. Sua

traidorazinha sórdida, idiota, mentirosa...

Silêncio! Cassie gritou de volta para elas, com tanta força que

realmente fizeram silêncio.

Ligou para a mãe.

— O quarto de hóspedes está pronto — disse Diana, reaparecendo

quando Cassie desligou o celular. — Mas se você ficar com medo de

noite, pode vir aqui.

— Obrigada — disse Cassie, genuinamente grata.

— Para que servem grandes irmãs?

Se sentaram e conversaram por um tempo, mas nenhuma delas

dormira muito na noite anterior, e quando o ponteiro do relógio estava

perto de dez, as duas já bocejavam.

— Vou tomar banho hoje à noite para que você possa tomar um de

manhã — falou Diana. — A água quente não dura muito por aqui.

— Não tem um feitiço para cuidar disso?

Diana riu e jogou um livro nela.

— Aqui, veja se pode encontrar um.

Era o Livro das Sombras que Diana trouxera na iniciação de Cassie, o

livro que estivera na família de Diana desde que as primeiras bruxas

chegaram a Nova Salém. As frágeis páginas amarelas tinham um cheiro de

fungos que fez Cassie torcer o nariz, mas ficou contente em ter a chance

de examiná-lo. No início do livro a escrita era pequena e quase ilegível,

mas depois a letra ficava estilizada e bela, uma escrita nítida.

Autores diferentes, pensou Cassie, gerações diferentes. As notas em

Post-it e emblemas de plástico em quase cada página eram o trabalho da

atual geração.

Era cheio de feitiços, descrições de encontros de pactos, rituais e

histórias. Cassie estudou as páginas atentamente, os olhos se movendo em

fascinação de um título ao seguinte. Alguns dos feitiços eram esquisitos e

arcaicos; outros eram como algo retirado de um livro moderno de

psicologia popular. Alguns eram eternos.

Um Encanto para Curar uma Criança Doente, leu. Fazer Galinhas

Dormirem. Para Proteção Contra Fogo e Água. Para Superar um Mau

Hábito. Lançar Medo e Emoções Malignas. Encontrar Riquezas. Alterar a

Sorte. Desviar o Mal.

Um Talismã de Força chamou sua atenção.

Pegue uma pedra lisa e afiada, e sobre o rosto entalhe o sol nascente e

uma lua crescente, virados para cima. Na inversão, as palavras:

Força da pedra

Fortaleça meus ossos

Poder da luz

Sustente minha luta

Eu poderia usar esse, pensou Cassie. Continuou folheando as páginas.

Um Feitiço Contra Doença Contagiosa. Manter o Mal Inofensivo.

Provocar Sonhos.

E então, como se sua consciência culpada tivesse convocado, outro

feitiço apareceu diante de seus olhos. Para um Amor Desleal.

Sob a luz de uma lua cheia, pegue um fio de cabelo do amante e faça

nós nele, dizendo:

A paz não acharás

Amigos não manterás

Amantes não terás

E nada colherás

Repouso não farás

A fome não saciarás

A sede não mitigarás

Da tristeza não se livrarás

As dívidas não pagarás

Não escaparás do temor

Arrepende-te do dia

Em que traíste meu amor.

O pulso de Cassie palpitava. Alguém realmente colocaria uma

maldição dessas em alguém que amava, independente de como fosse

infiel?

Ainda fitava a página quando houve um movimento à porta. Fechou

rapidamente o livro quando Diana entrou, o cabelo enrolado numa toalha.

Mas os olhos dela foram atraídos instantaneamente à corrente dourada

que Diana abaixava no criado-mudo. Ficou ali ao lado de uma pedra

redonda com um conjunto espiral nela, o cinza torcido com azul pálido e

salpicado de cristais de quartzo. A rosa de calcedônia que Diana dara a

Adam, e que Adam dera a Cassie. Agora estava de volta ao seu lugar de

direito, pensou Cassie, e algo no seu coração ficou entorpecido.

— O banheiro é todo seu — disse Diana. — Aqui tem um pijama...

ou você quer uma camiseta?

— Um pijama já dá — disse Cassie. O tempo todo que se lavava e

trocava de roupa, continuava vendo a chave. Se ao menos Diana deixasse

ali...

Ainda estava no criado-mudo quando enfiou a cabeça de volta no

quarto de Diana. Diana já estava na cama.

— Quer que eu feche a porta?

— Não — disse Diana, estendendo uma mão para desligar a luz. —

Só deixe aberta um pouco. Boa noite.

— Boa noite, Diana.

Mas quando chegou ao quarto de hóspedes, Cassie se jogou em dois

travesseiros e ficou fitando o teto. Estranhamente, estava quase pacífica,

deitada ali e sabendo que no momento não havia nada a ser feito a não ser

esperar. Podia ouvir o barulho do oceano atrás da casa de Diana, agora

mais alto, mais suave.

Ela esperou um longo tempo, ouvindo os sons calmos. Se sentiu

relaxada, até pensar em se levantar. Então o coração começou a martelar.

No fim, teve certeza que Diana devia já estar dormindo. Agora,

pensou. Se você não se mexer agora, nunca mais irá.

Prendendo a respiração, trocou o peso do corpo na cama e abaixou as

pernas. O chão de madeira rangeu levemente enquanto o cruzava, e ela

congelava toda vez.

Do lado de fora do quarto de Diana, ficou parada aguçando os

ouvidos. Não conseguia ouvir nada. Colocou a mão na porta e lentamente,

gradualmente, empurrou-a.

Com cuidado, os pulmões queimando já que estava com medo de

respirar muito alto, colocou um pé dentro da soleira e deixou o peso descer

nela.

Diana era uma forma sombria na cama. Por favor que os olhos dela

não estejam abertos, pensou Cassie.

Teve a fantasia terrível que Diana estava só deitada ali espiando-a.

Mas quando deu outro passo lento e cuidadoso para dentro, e depois mais

outro, pôde ver que os olhos de Diana estavam fechados.

Ah, meu Deus, pensou Cassie. Tenho que respirar. Abriu a boca e

exalou e inalou em silêncio. O coração a balançava e ela se sentiu tonta.

Dê passos minúsculos, pensou. Rastejou mais para dentro do quarto

ainda estar de pé diretamente ao lado de Diana.

No criado-mudo, a poucos centímetros do rosto adormecido de Diana,

estava a chave.

Sentindo que se mexia em câmera lenta, Cassie estendeu a mão,

colocou-a com a palma para baixo na chave. Não queria fazer nenhum

barulho, mas enquanto deslizava o colar em sua direção, a corrente

chocalhou. Fechou os dedos sobre ela e segurou firmemente.

Agora, se afastar. Se forçou a sair, o tempo todo olhando sobre o

ombro para a cama — Diana estava acordando?

Alcançou o armário, e o buraco de chave pequeno de ferro.

Encaixar a chave. Estava tateando; os dedos estavam desajeitados

como salsichas. Por um momento, entrou em pânico, pensando, e se essa

não fosse a chave certa? Mas finalmente a enfiou e virou.

A tranca fez um clique.

Um quente alívio passou por Cassie. Conseguiu. Agora tinha que

pegar a caveira e ligar para Faye... e se Faye não atendesse? E se o pai de

Diana a pegasse ligando no meio da noite, ou se Diana acordasse e

encontrasse a caveira desaparecida...?

Mas, quando abriu a porta do armário, o mundo borrou e ficou escuro

diante dos seus olhos.

A luz do corredor brilhava no armário. Era escura, mas clara o

suficiente para mostrar que toda a cautela de Cassie fora em vão, e todos

os seus medos em conseguir a caveira para Faye eram sem sentido.

O armário estava vazio.

Cassie não soube por quanto tempo ficou ali, incapaz de pensar ou se

mexer. Mas, finalmente, fechou a porta do armário com mãos trêmulas e o

trancou.

Se não está aqui, então onde está? Onde? ela se perguntou

freneticamente.

Não pense nisso agora. Devolva a chave. Ou você quer que ela acorde

enquanto você está aqui a segurando?

A jornada de volta ao criado-mudo de Diana pareceu durar uma

eternidade, e seu estômago doía como se alguém a chutasse ali. A chave

tiniu quando ela o recolocou no criado-mudo e a chave se prendeu à sua

mão suada. Mas a respiração de Diana permaneceu suave e constante.

Agora saia, ordenou-se. Precisava ficar sozinha, para tentar pensar. Na

pressa de sair, esqueceu de verificar aonde colocava os pés. Uma tábua

rangeu.

Só siga em frente, não importa, pensou. Aí, ouviu algo que parou seu

coração. Um movimento na cama. E depois a voz de Diana.

— Cassie?

cho — Melanie começou calmamente — que é hora de falar sobre a caveira. Adam nunca nos contou exatamente como a — achou... — É, vocês têm sido muito sigilosos sobre isso — interferiu Faye. — ... mas talvez a hora chegou. Diana e Adam se entreolharam, e então Diana assentiu levemente. — Tudo bem, então, conte. Tente não deixar nada de fora. Depois da caminhada de volta do cemitério, se amontoaram, todos os doze, no quarto de Diana. Cassie olhou para o grupo e percebeu que estava dividido. Suzan, Deborah e os irmãos Henderson estavam sentados num lado, perto de Faye, enquanto Laurel, Melanie, Adam e Sean estavam no outro lado, perto de Diana. Pelo menos, pensou Cassie, observando os olhos incomodamente agitados de Sean, ele estava sentado no lado de Diana por um momento. Poderia mudar a qualquer hora. E Nick também — Nick podia apoiar Diana um dia, e depois com nenhum motivo aparente apoiar Faye em seguida. Nick sempre foi um fator desconhecido. E, uma voz dentro dela sussurrou, você também. Mas aquilo era ridículo. Nada — nem Faye — podia fazer Cassie não apoiar Diana. Não quando realmente contava. Adam começou a falar numa voz baixa e pensativa, parecendo que tentava se lembrar precisamente. — Não foi em Cape Cod, foi mais ao norte, mais perto de Boston. Todo mundo sabe que há dezessete ilhas na Baía de Boston; estavam todas desertas e cobertas de algas. Bem, encontrei uma décima oitava. Não era como as outras; era plana, cheia de areia e não aparentava ter recebido pessoas ali faz tempo. E havia algo estranho nela... Já estive no lugar antes, mas nunca o vi. Era como se meus olhos de repente se abrissem depois... — Parou. Cassie, olhando para o reflexo da luz no lustroso chão de tábuas de pinheiro de Diana, sentiu que estava se sufocando. Não ousou respirar até Adam continuar: — ... depois de trabalhar em barcos de pesca o verão todo. Mas quando tentei ir para a ilha, o leme resistiu, tentando me manter longe ou me encalhar nas rochas. Tive que brigar com ele para controlar o barco; e tive que invocar a Terra e a Água ou nunca conseguiria. Quando estava finalmente seguro, olhei para as pedras e vi o naufrágio de outros barcos. Ninguém que chegou lá vivo foi embora vivo. — Respirou fundo e lentamente. — Assim que pisei na areia, podia sentir que a ilha inteira era elétrica. Sabia que era o lugar mesmo antes de ver o círculo de pedras no meio. Assim como Black John descreveu. Urze marinho crescia nas pedras, mas o centro era limpo e foi onde eu cavei. Um minuto depois, minha pá atingiu algo sólido. — E então? — perguntou Diana. — Então eu tirei dali. Me senti... não sei, tonto, quando vi. O sol brilhava na areia e meio que me cegou. Então enrolei a caveira na minha camisa e fui embora. A ilha não lutou quando eu fui; era como uma armadilha desarmada. Isso foi em... vejamos, vinte e um de setembro. Assim que voltei à Baía, quis voltar a Nova Salém, mas tinha algumas coisas para cuidar. Não pude começar até o dia seguinte, e sabia que eu me atrasaria para a iniciação de Kori. — Ele parou e lançou um olhar apologético a Doug e Chris. Não disseram nada, mas Cassie sentiu olhou adejarem em sua direção. A iniciação de Kori se tornara a iniciação de Cassie, porque naquela manhã Kori foi encontrada morta na base das escadas do colégio. — Qual é o objetivo de toda essa narrativa? — perguntou Faye, a voz rouca chateada. — A menos — se endireitou, parecendo mais interessada — que vocês achem que o resto das Ferramentas Mestres estejam naquela ilha. — Eu já disse — falou Adam. — Não havia mais nada lá, Faye. Só a caveira. — E o objetivo é que precisamos saber mais sobre a caveira — informou Diana. — Por bem ou por mal, estamos presos com ela agora. Acho que não devíamos devolvê-la à ilha... — Devolva! — exclamou Faye. — ... onde qualquer um pode encontrá-la, agora que o feitiço protetor está quebrado. Não é seguro lá. Não sei se algum outro lugar será seguro. — Bem, agora — murmurou Faye, aparentemente sonolenta. — Se é muito problema para você, eu ficaria feliz em tomar conta dela. Diana só lhe atirou um olhar que dizia que Faye era a última pessoa que ela pediria para tomar conta da caveira. Mas, Cassie notou com uma sensação de declínio, os olhos cor de âmbar de pesadas pálpebras não estavam fixos no rosto de Diana. Estavam apontados na pequena chave dourada no pescoço de Diana. Alguém bateu na porta. Cassie se assustou, tão bruscamente que Laurel se virou e olhou para ela em surpresa. Mas era só o pai de Diana, que chegara em casa com uma pasta saliente na mão. O sr. Meade examinou o quarto abarrotado em suave surpresa, como se ele não conhecesse todas essas pessoas. Cassie imaginou de repente quanto ele sabia sobre o Círculo. — Vão todos ficar para o jantar? — perguntou a Diana. — Ah... não — disse Diana, olhando para um relógio elegante branco e dourado no criado-mudo. — Não percebi que já tinha passado das sete, pai. Vou terminar aqui rápido. Ele assentiu, partindo, não antes de dar mais uma olhada rápida e incerta no quarto. Molas da cama rangeram e tecido roçou quando todos se levantaram. — Amanhã podemos nos encontrar no colégio — disse Melanie. — Mas eu tenho que estudar hoje à noite; essa semana inteira que passou foi perdida e eu tenho um teste de biologia. — Eu também — disse Laurel. — Tenho dever de álgebra — disse Suzan, e Deborah murmurou: — Significando que você tem uma semana inteira de filmes no VCR. — Muito bem, nos encontramos amanhã — disse Diana. Desceu para o primeiro andar com eles. Faye conseguiu pegar o braço de Cassie enquanto os outros saíam, e ela sussurrou em seu ouvido: — Pegue hoje à noite. Me ligue e venho recolhê-la; então devolvemos antes de amanhecer. Ela não vai nem notar que sumiu. Cassie puxou o braço com rebeldia. Mas, na porta, Faye lhe lançou um olhar significativo, e o lampejo naqueles olhos cor de âmbar a alarmou. Ela fitou Faye por um longo tempo, então assentiu levemente. — Você quer que eu fique? — Adam dizia a Diana. — Não — disse Cassie rapidamente, antes que Diana pudesse responder. Olharam para ela, assustados, e ela completou: — Eu fico e ajudo a fazer o jantar, se estiver tudo bem, Diana. Falei para minha vó e minha mãe que estaria fora e provavelmente elas já comeram. A bondade de Diana ficou reconhecível. — Ah... é claro que pode ficar, então — disse ela. — Ficaremos bem, Adam. — Certo. — Adam lançou um olhar acre, no qual ela retornou de modo enfadonho. Ele saiu, seguindo Chris e Doug para a escuridão. O tremeluzir de um fósforo à frente mostrou onde Nick estava. Cassie olhou para o céu noturno, que brilhava impetuosamente com estranhas mas sem nenhum traço da lua, e então recuou quando Diana fechou a porta. O jantar foi calmo, com o sr. Meade sentado ali, folheando um jornal, ocasionalmente olhando sobre os óculos de leitura para as duas garotas. Mais tarde, voltaram para cima para o quarto de Diana. Cassie percebeu que precisava protelar. — Sabe, você nunca me falou sobre essa pintura — disse, apontando. Decorando as paredes de Diana havia seis pinturas. Cinco delas eram bem similares, preto-e-braço com uma aparência levemente antiquado. Diana contou que era pinturas de deusas gregas: Afrodite, a linda porém instável deusa do amor; Ártemis, a feroz caçadora virgem; Hera, a arrogante rainha dos deuses; Atena, a calma deusa da sabedoria de olhos cinzas; e Perséfone, quem amava flores e todas as coisas brilhantes. Mas a última pintura era diferente. Era colorida, e o estilo era mais abstrato, mais moderno. Mostrava uma mulher jovem sob um céu estrelado, enquanto uma lua crescente brilhava prateada no seu cabelo ao vento. Vestia uma simples peça branca, cortada alta para mostrar uma liga na coxa. No braço, havia um bracelete dourado, e na cabeça um diadema fino com uma lua crescente. Era a roupa que Diana vestia nos encontros do Círculo. — Quem é ela? — disse Cassie, fitando a linda garota na pintura. — Diana — Diana disse esquisitamente. Cassie se virou para ela, e ela sorriu. — A deusa Diana — acrescentou. — Não a Diana romana; outra. Ela é mais velha que as deusas gregas, e era diferente delas. Era uma Grande Deusa; comandava tudo. Era deusa da noite, da lua e das estrelas; há uma história que uma vez transformou todas as estrelas em ratos para impressionar as bruxas na terra. Então, ela foi feita a Rainha das Bruxas. Cassie sorriu. — Acho que seria necessário mais que isso para impressionar Faye. — Provavelmente. Alguns dizem que sua lenda foi baseada numa pessoa verdadeira, que ensinou magia e era uma campeã entre mulheres pobres. Outros dizem que era foi primeiro a Deusa do Sol, mas então foi afugentada pelos Deuses do Sol masculinos e virou para a noite. Os romanos a confundiram com a deusa grega Ártemis, você sabe, a caçadora, mas ela era muito mais que isso. Enfim, sempre foi a Rainha das Bruxas. — Como você — disse Cassie. Diana riu e sacudiu a cabeça. — Não posso ser sempre líder — disse. — Tudo depende do que acontecer entre agora e dez de novembro. É o dia da votação de liderança. — Por que dez de novembro? — É o meu aniversário; o de Faye também, por coincidência. Você tem que ter dezessete anos para ser líder permanente, e é lá que nós duas seremos. Cassie ficou surpresa. Diana só tinha dezesseis anos, como ela? Sempre pareceu tão madura, e era sênior. Mas era ainda mais estranho que Faye fosse tão nova, e que as primas tinham o mesmo dia de aniversário. Olhou para Diana, sentada ali na cama. Linda como a garota da última pintura, Diana era mais linda. Com o cabelo daquela cor indescritível, como a luz do sol e da lua tecidas juntas, e um rosto de uma flor, olhos como joias verdes, Diana lembrava algo de um conto de fadas ou lendas, ao invés de uma pessoa real. Mas a bondade e... bem, pureza que brilhavam nos olhos de Diana eram bem reais, pensou Cassie. Cassie tinha orgulho de ser sua amiga. Então a luz lampejou na chave dourada no pescoço de Diana e ela se lembrou do que estava ali para fazer. Não posso, pensou Cassie, quando o estômago se revirou tontamente. Podia sentir o martelar lento e doentio do coração. Bem nesse minuto no seu próprio pescoço estava pendurado o colar de lua crescente que Diana lhe dera na iniciação. Como podia roubar de Diana, enganar Diana? Mas já passara por tudo aquilo antes. Não tinha escapatória. Faye faria exatamente o que ameaçara — Cassie sabia disso. A única forma de salvar Diana era enganando-a. É para o seu próprio bem, Cassie disse a si própria. Então só pare de pensar a respeito. Faça o que tem que fazer e supere isso. — Cassie? Você parece chateada. — Eu... — Cassie começava a dizer “não, é claro que não”, e mudava de assunto da forma que geralmente fazia quando alguém lhe pegava sonhando acordada. Mas então teve uma ideia. — Não estou no ânimo de ir para casa sozinha — disse, fazendo uma careta. — Não é só andar... é aquela casa. Range a noite toda e às vezes nem consigo dormir. Especialmente se estou pensando na... na... — Só isso? — disse Diana, sorrindo. — Bem, é fácil resolver isso. Durma aqui. — Cassie se espantou com a facilidade que Diana fez a oferta. — E se está preocupada com a caveira — continuou Diana — , pode parar. Ela não vai a lugar nenhum, e não fará mais nada para machucar alguém. Eu prometo. O rosto de Cassie queimou e ela teve que lutar para não olhar para o armário. Nunca teria mencionado a caveira: não conseguiria pronunciar a palavra. — Certo — disse, tentando manter a voz calma. — Obrigada. Vou ligar para a minha mãe e dizer a ela que vou ficar. — Podemos dirigir até sua casa para que possa se vestir na manhã; vou arrumar o quarto de hóspedes. — Quando Diana saiu, as vozes na mente de Cassie se agitaram. Sua ladrazinha, gritavam para ela. Sua traidorazinha sórdida, idiota, mentirosa... Silêncio! Cassie gritou de volta para elas, com tanta força que realmente fizeram silêncio. Ligou para a mãe. — O quarto de hóspedes está pronto — disse Diana, reaparecendo quando Cassie desligou o celular. — Mas se você ficar com medo de noite, pode vir aqui. — Obrigada — disse Cassie, genuinamente grata. — Para que servem grandes irmãs? Se sentaram e conversaram por um tempo, mas nenhuma delas dormira muito na noite anterior, e quando o ponteiro do relógio estava perto de dez, as duas já bocejavam. — Vou tomar banho hoje à noite para que você possa tomar um de manhã — falou Diana. — A água quente não dura muito por aqui. — Não tem um feitiço para cuidar disso? Diana riu e jogou um livro nela. — Aqui, veja se pode encontrar um. Era o Livro das Sombras que Diana trouxera na iniciação de Cassie, o livro que estivera na família de Diana desde que as primeiras bruxas chegaram a Nova Salém. As frágeis páginas amarelas tinham um cheiro de fungos que fez Cassie torcer o nariz, mas ficou contente em ter a chance de examiná-lo. No início do livro a escrita era pequena e quase ilegível, mas depois a letra ficava estilizada e bela, uma escrita nítida. Autores diferentes, pensou Cassie, gerações diferentes. As notas em Post-it e emblemas de plástico em quase cada página eram o trabalho da atual geração. Era cheio de feitiços, descrições de encontros de pactos, rituais e histórias. Cassie estudou as páginas atentamente, os olhos se movendo em fascinação de um título ao seguinte. Alguns dos feitiços eram esquisitos e arcaicos; outros eram como algo retirado de um livro moderno de psicologia popular. Alguns eram eternos. Um Encanto para Curar uma Criança Doente, leu. Fazer Galinhas Dormirem. Para Proteção Contra Fogo e Água. Para Superar um Mau Hábito. Lançar Medo e Emoções Malignas. Encontrar Riquezas. Alterar a Sorte. Desviar o Mal. Um Talismã de Força chamou sua atenção. Pegue uma pedra lisa e afiada, e sobre o rosto entalhe o sol nascente e uma lua crescente, virados para cima. Na inversão, as palavras: Força da pedra Fortaleça meus ossos Poder da luz Sustente minha luta