Cassie? É você?

Um assombro enjoativo formigou nos nervos de Cassie.

Então, ela ouviu a própria voz dizendo, quando se virou:

— Eu... eu estava assustada... não queria te incomodar...

— Ah, não seja boba. Venha se deitar — disse Diana, sonolenta,

dando tapinhas na cama ao seu lado e fechando de novo os olhos.

Funcionou. Cassie arriscou que Diana só acordara naquele momento,

e ela ficou bem. Mas Cassie sentiu que estava vacilando quando foi para o

outro lado da cama e se deitou, virada de costas para Diana.

— Mais nenhum pesadelo — murmurou Diana.

— Nenhum — sussurrou Cassie. Não poderia levantar agora e ligar

para Faye, mas não se importava. Estava muito cansada de estresse, de

tensão, de medo. E algo fundo dentro dela estava feliz por não seguir com

aquilo aquela noite. Ela fechou os olhos e escutou os barulhos externos até

cair no sono.

No sonho, ela estava num navio. O convés subia e descia sob ela, e

ondas se erguiam negras nos lados. Perdido, perdido... O que estava

perdido? O navio? Sim, mas algo mais. Perdido para sempre... Nunca

encontrará novamente...

Então o sonho mudou. Ela estava sentada num quarto claro e

ensolarado. Sua cadeira era baixa no chão, o encosto de madeira fino tão

inconfortável que tinha que se sentar ereta. As roupas também eram

inconfortáveis; um boné tão apertado quanto uma toca de natação, e algo

firme na sua cintura que mal lhe deixava respirar. No seu colo, repousava

um livro.

Era o Livro das Sombras de Diana! Mas não, a capa era diferente, um

couro vermelho em vez de marrom. Enquanto folheava, via que a escrita

no começo era bem parecida, e os títulos de alguns dos feitiços eram os

mesmos dos que haviam no de Diana.

Um Encanto para Curar uma Criança Doente. Fazer Galinhas

Dormirem. Para Proteção Contra Fogo e Água. Manter o Mal Inofensivo.

Manter o Mal Inofensivo!

Seus olhos se moveram rapidamente pelas palavras atrás desse.

Enterre o objeto maligno em argila ou areia boa e úmida, bem coberto.

O poder de cura da Terra lutará com o veneno, e se o objeto não estiver

muito corrompido, será purificado.

É claro, pensou Cassie. É claro.

O sonho estava esgotando-se. Ela podia sentir a cama de Diana sob

ela. Mas também podia uma fraca voz, chamando um nome:

— Jacinth! Você está aí? Jacinth!

Cassie acordou.

As cortinas azuis de Diana estavam incandescentes com a luz que

retiam. Alegres barulhos de olaria entravam no quarto. Mas tudo que

Cassie podia pensar era sobre o sonho.

Devia ter lido aquele feitiço no Livro das Sombras de Diana na noite

passada, inconscientemente absorvido-o enquanto folheava as páginas.

Mas por que se lembrar disso de forma tão anormal?

Não importava. O problema estava resolvido, e Cassie estava tão feliz

que estava quase abraçando o travesseiro. É claro, é claro!

Antes da cerimônia da caveira, Diana dissera que a caveira devia estar

enterrada para purificação — em areia úmida. Adam a encontrara na ilha

enterrada em areia. Logo atrás da porta traseira da casa de Diana havia

uma praia inteira de areia. Cassie podia ouvir o oceano rompendo nela

nesse exato minuto.

A pergunta era: ela poderia encontrar o lugar exato na areia que a

caveira foi enterrada?

Faye estava na aula. E estava furiosa.

— Eu esperei a noite toda — sibilou, pegando Cassie pelo braço. —

O que aconteceu?

— Não consegui pegar. Não estava lá.

Os olhos dourados de Faye se estreitaram e os longos dedos de unhas

vermelhas no braço de Cassie apertaram ainda mais.

— Você está mentindo.

— Não — disse Cassie. Lançou um olhar agonizado em volta e depois

sussurrou: — Acho que sei onde está, mas você tem que me dar tempo.

Faye lhe fitava, aqueles olhos estranhos investigando os dela. Depois,

ela relaxou levemente e sorriu.

— É claro, Cassie. Todo o tempo que precisar. Até sábado.

— Isso não é tempo suficiente...

— Terá que ser, não é? — Faye pronunciou as palavras com lentidão.

— Porque, depois disso, eu vou contar a Diana. — Ela soltou e Cassie

andou até a sua própria mesa. Não havia mais nada a ser feito.

Tiveram um minuto de silêncio no começo da aula em homenagem ao

sr. Fogle. Cassie passou esse minuto fitando os dedos entrelaçados,

pensando reciprocamente na coisa escura e impetuosa dentro da caveira e

os olhos azul-esverdeados e inclinados de Doug Henderson.

No almoço, havia uma nota presa na porta de vidro nos fundos do

refeitório. Do lado de fora, na frente, dizia. Cassie virou as costas para ela

e quase topou com Adam.

Ele se aproximava com uma bandeja cheia, e a levantou para impedir

que Cassie batesse nela, derramando tudo nele.

— Opa — disse ele.

Cassie corou. Mas, quando ficaram um encarando o outro, descobriu

um problema mais sério. Adam parou de sorrir, ela não conseguia parar de

corar, e nenhum deles parecia estar indo a algum lugar.

Olhos no refeitório estavam neles. Um déjà vu, Cassie pensou. Toda

vez que estou aqui, sou o centro das atenções.

Finalmente, Adam fez uma tentativa fracassada de pegar o cotovelo

dela, impediu-se e a gesticulou para frente cortesmente. Cassie não sabia

como, mas Adam conseguia demonstrar cortesia como nenhum outro

garoto que ela já tivesse conhecido. Parecia vir naturalmente a ele.

Garotas olhavam ao passar, algumas delas lançando olhares laterais a

Adam. Mas esses eram diferentes dos outros laterais que Cassie vira na

praia em Cape Cod. Ali, ele estava vestido com roupas sujas de pesca, e as

amigas de Portia desviavam o olhar em desdém. Esses olhares eram

tímidos, ou convidativos, ou esperançosos. Adam só tirava o cabelo

vermelho da testa e sorriu para eles.

Do lado de fora, os membros do Clube estavam reunidos nos degraus.

Até Nick estava ali. Cassie começou a andar na direção deles, e então uma

grande forma saltou e plantou as patas dianteiros nos ombros dela.

— Raj, saia! O que é que você está fazendo? — gritou Adam.

Uma língua molhada e quente lambia o rosto de Cassie. Ela tentou

afastar o cachorro, puxando o pelo no pescoço dele, e acabou por abraçá-

lo.

— Acho que ele está só dizendo “oi” — ofegou.

— Ele é geralmente tão bem em esperar fora do campus até eu sair do

colégio. Não sei porque... — Adam se interrompeu. — Raj, saia —

murmurou numa voz alterada. — Agora! — disse, estalando os dedos.

A língua parou, mas o pastor alemão permaneceu no lado de Cassie

quando esta desvia as escadas. Ela deu tapinhas na cabeça do cachorro.

— Raj geralmente odeia pessoas novas — observou Sean quando

Cassie e Adam se sentaram. — Então como ele pode gostar tanto de você?

Cassie podia sentir os olhos brincalhões de Faye nela e deu de ombros

inconfortavelmente, fitando o saco de almoço. Então algo ocorreu a ela:

uma daquelas respostas atrevidas que ela geralmente só pensava no dia

seguinte.

— Deve ser meu novo perfume. Eau de carne assada — disse, e

Laurel e Diana riram. Até Suzan sorriu afetado.

— Muito bem, vamos voltar ao trabalho — disse Diana então. — Eu

trouxe vocês aqui fora para garantir que ninguém ouvisse. Alguém tem

novas ideias?

— Qualquer um de nós poderia ter matado-o — disse Melanie

calmamente.

— Só alguns de nós têm motivos para isso — respondeu Adam.

— Por quê? — disse Laurel. — Quero dizer, só porque o sr. Fogle era

detestável não é um motivo para assassiná-lo. E pare de sorrir assim, Doug,

a menos que realmente tenha feito alguma coisa.

— Vai ver Fogle sabia muito — disse Suzan inesperadamente. Todos

se viraram para ela, mas ela continuou desenrolando um bolinho sem olhar

para cima.

— Então? — Deborah falou finalmente. — Que isso significa?

— Bem... — Suzan levantou os olhos azuis para olhar para o grupo. —

Fogle sempre vinha aqui no raiar do dia, não vinha? E o escritório dele é

bem ali, não é? — Ela assentiu, e Cassie seguiu o olhar até uma janela no

segundo andar do prédio feito de tijolos vermelhos. Então Cassie olhou

para a colina, até o ponto em que Kori foi encontrada morta.

Houve uma pausa, e então Diana disse:

— Ah, meu Deus.

— Que foi? — perguntou Chris, olhando em volta. Deborah abriu um

olhar zangado e Laurel pestanejou. Faye ria.

— Ela está dizendo que ele pode ter visto o assassino de Kori — disse

Adam. — E então, quem quer que tenha matado ela, o matou para

impedir que falasse. Mas sabemos que ele estava aqui naquela manhã?

Cassie agora observava a janela no segundo andar até a chaminé que

se erguia do teto da escola. Estava frio na manhã que encontraram Kori

morta, e o diretor tinha uma lareira em seu escritório. Será que fumaça

saía da chaminé naquela manhã?

— Sabe — disse suavemente a Diana — , acho que ele estava aqui.

— Então deve ser isso — Laurel disse animada. — E significaria que

não foi um de nós que matou-o; porque quem matou ele também matou

Kori. E nenhum de nós teria feito isso.

Diana estava aparentemente bastante aliviada, e os membros do

Círculo assentiram. Uma voz baixa dentro de Cassie tentava dizer algo,

mas ela a retraiu.

Nick, por outro lado, franzia o lábio.

— E quem além de um de nós teria sido capaz de derrubar uma

avalanche em alguém?

— Qualquer um com uma vara ou uma barra — vociferou Deborah.

— Aquelas pedras no penhasco no Devil’s Core estavam só empilhadas de

um jeito estranho. Um renegado poderia ter derrubado-as facilmente.

Assim, voltamos à questão de qual deles derrubou-as; se ainda temos que

nos perguntar. — Havia uma luz de caçadora em seu rosto, e Chris e Doug

ficaram ansiosos.

— Deixe Sally em paz até descobrirmos isso — Diana disse

simplesmente.

— E Jeffrey — acrescentou Faye guturalmente, com um olhar

significativo. Deborah olhou para ela, antes finalmente de abaixar os olhos.

— Agora que resolvemos isso, tenho um verdadeiro problema para

discutir — disse Suzan, limpando migalhas de pão da frente do suéter, um

processo interessante em que Sean e os Henderson assistir avidamente. —

O Baile é em menos de duas semanas, e eu não sei ainda quem chamar. E

não tenho nenhum sapato...

O encontro se degenerou, e logo após isso o sinal tocou.

— Quem você vai chamar para o Baile? — Laurel perguntou a Cassie

naquela tarde. Estavam saindo do colégio de carro com Diana e Melanie.

— Ah... — Cassie foi pega de surpresa. — Eu não pensei nisso ainda.

Eu... Nunca convidei um garoto para dançar na minha vida.

— Bem, agora é hora de começar — Melanie falou. — Geralmente,

os renegados não nos convidam; eles são um pouquinho assustados. Mas

você pode ter qualquer garoto que quiser; só o escolha e diga para

aparecer.

— Simples assim?

— É — Laurel respondeu alegremente. — Assim. É lógico, Melanie e

eu não convidamos geralmente garotos que estão comprometidos. Mas

Faye e Suzan... — Ela revirou os olhos. — Elas gostam de pegar garotos

comprometidos.

— Eu notei — disse Cassie. Não houve perguntas sobre com quem

Diana iria dançar. — E Deborah?

— Na maioria das vezes, Deb fica sozinha — disse Laurel. — Ela e os

Henderson saem juntos; jogando cartas e outras coisas na sala das

caldeiras. E Seam vai de garota em garota; nenhuma delas gosta dele, mas

têm muito medo de se recusarem. Você vai ver lá; é engraçado.

— Provavelmente não vou ver — disse Cassie. A ideia de se aproximar

de algum garoto e mandá-lo escoltá-la era simplesmente impensável.

Impossível, mesmo se fosse uma bruxa. Ela também podia falar isso para

todo mundo agora e deixá-los se acostumarem. — Provavelmente não vou.

Não gosto muito de dançar.

— Mas você tem que ir — disse Laurel, desanimada, e Diana disse:

— É a maior diversão... sério, Cassie. Olhe, vamos direto para a

minha casa e falar sobre garotos que você pode convidar.

— Não, eu tenho que ir direto para casa — Cassie disse rapidamente.

Tinha que ir para casa porque tinha que procurar a caveira. As palavras de

Faye ressoavam no fundo de sua mente o dia todo, e agora inundaram a

voz de Diana. Todo o tempo que precisa. Até sábado. — Por favor, só me

deixe na minha casa.

Num silêncio espantado e um pouco ferido, Diana aquiesceu.

Por toda aquela semana, Cassie procurou a caveira.

Procurou na praia onde acontecera sua iniciação, onde tocos de velas

e poças de cera derretida ainda podiam ser vistos meio enterrados na areia.

Ela olhou na praia sob a casa de Diana, entre as plantas e tábuas.

Procurou na costa de uma ponta a outra, andando nas dunas todas as

tardes e noites. Fazia sentido que Diana marcasse o lugar de alguma

forma, mas com que tipo de marca? Qualquer pedaço de naufrágio na

areia poderia servir.

Conforme cada dia passava, ela ficava cada vez mais preocupada.

Tinha tanta certeza que podia encontrar; era só uma questão de procura.

Mas agora parecia que ela já tinha olhado em cada centímetro da praia por

quilômetros, e tudo que encontrou eram destroços marinhas e algumas

garrafas velhas de cerveja.

Na manhã do sábado, ela saiu pela porta da frente e viu um carro

vermelho claro rodeando o beco sem saída passando perto da casa da avó.

Não havia nenhuma casa naquele ponto da pequena península onde a

estrada terminava, mas o carro rodeava ali. Quando Cassie ficou parada na

porta, o carro se virou e passou lentamente em frente à casa dela. Era o

Corvette ZR1 de Faye, e Faye estava nele, um braço lânguida saindo pela

janela.

Quando passou por Cassie, Faye levantou a mão e ergueu um dedo,

sua longa unha brilhante ainda mais vermelha que a pintura do carro. Aí,

se virou e falou, sem voz, três simples palavras.

Pôr do sol.

Continuou sua viagem sem olhar para trás. Cassie a fitou enquanto

esta partia.

Cassie sabia o que ela queria dizer. No pôr do sol, ou Cassie trazia a

caveira para Faye, ou Faye contava para Diana.

Eu tenho que encontrá-la, pensou Cassie. Não me importo se tenho

que escavar cada centímetro quadrado de areia daqui até o continente. Eu

tenho que encontrar.

Mas aquele dia foi igual aos outros. Rastejou de joelhos na praia perto

da área da iniciação, ficando com areia dentro dos jeans e dos sapatos.

Não encontrou nada.

O oceano corria e uivava ao seu lado, o cheiro de sal e algas marinhas

decadentes enchendo as narinas. Conforme o sol deslizava cada vez mais

longe ao oeste, a lua crescente sobre o oceano brilhava mais clara. Cassie

estava exausta e aterrorizada, e desistia da esperança.

Então, conforme o céu escurecia, ela viu o anel de pedras.

Passara por ele uma dúzia de vezes. Eram pedras de fogueira,

manchadas de preto com carvão. Mas o que estavam fazendo tão perto da

água? Numa maré alta, pensou Cassie, estariam cobertas. Ela se ajoelhou

ao lado delas e tocou a areia no centro.

Úmida.

Com os dedos tremendo levemente, cavou ali. Cavou cada vez mais

fundo até os dedos tocarem algo sólido.

Cavou em volta daquilo, sentindo a curva de sua força, até amolecer

areia suficiente para levantar o objeto. Era surpreendentemente pesado e

coberto com um fino tecido branco. Cassie não precisava tirar o tecido

para saber o que era.

Estava quase abraçando-o.

Conseguiu! Encontrou a caveira, e agora podia levar para Faye...

A sensação de triunfo morreu dentro dela. Faye. Como realmente

poderia levar a caveira para Faye?

O tempo todo que ficou procurando a caveira, encontrá-la não era real

para ela. Não pensara no que aconteceria depois que simplesmente

pusesse as mãos nela.

Agora que estava mesmo segurando-a, agora que a possibilidade estava

diante dela... não poderia fazer isso.

O pensamento daqueles olhos dourados e cobertos examinando-a,

daqueles dedos com as longas unhas vermelhas apertando-a, deixou Cassie

enjoada. Uma imagem passou brevemente pela sua mente, de um falcão

de olhos dourados com as garras estendidas. Uma ave de rapina.

Não podia continuar com isso.

Mas e Diana? A cabeça de Cassie se inclinou em exaustão, em

derrota. Não sabia o que fazer com Diana. Não sabia como resolver nada.

Tudo o que sabia era que não podia passar a caveira para Faye.

Alguém deu uma tossidela logo atrás dela.

— Eu sabia que você ia conseguir — disse Faye na voz rouca quando

Cassie, ainda de joelhos, se virou para olhar. — Tinha completa fé em

você, Cassie. E minha fé está agora justificada.

— Como você sabia? — Cassie estava aos seus pés. — Como sabia

onde eu estava?

Faye sorriu.

— Eu te disse que tenho amigos que veem muito. Um deles só me

trouxe a notícia.

— Não importa — disse Cassie, impetuosamente se acalmando. —

Você não pode ficar com ela, Faye.

— É aí que você se engana. Eu vou ficar. Sou mais forte que você,

Cassie — disse Faye. E, como estava ali de pé na pequena duna sobre

Cassie, alta e atordoante vestindo calças pretas e um top escarlate frouxo,

Cassie sabia que era verdade. — Eu vou levar a caveira. Você pode correr

até Diana se quiser, mas vai chegar tarde demais.

Cassie a fitou por um longo minuto, respirando rápido. Finalmente,

disse:

— Não. Eu vou com você.

— Quê?

— Eu vou com você. — Em contraste a Faye, Cassie era pequena. E

estava suja e desarrumada, com areia em cada centímetro das roupas e

debaixo das unhas, mas era inflexível. — Você disse que só queria a

caveira para “dar uma olhada rápida”. Foi por isso que concordei em pegá-

la para você. Bem, agora eu a achei, mas não vou deixar você sozinha com

ela. Vou com você. Quero observar.

As sobrancelhas negras de Faye, curvadas como as asas de um corvo,

se ergueram mais.

— Então voyerismo é sua ideia de diversão.

— Não, é sua; não, alias, é a dos seus amigos — disse Cassie.

Faye riu.

— Você não é uma minhoca tonta tanto assim então, não é? — disse.

— Muito bem; venha. Ainda que se unir a nós é mais divertido que

assistir.

Faye fechou a porta do quarto atrás de Cassie. Andou em direção ao

armário e tirou algo dele. Era um acolchoado, não com padrão rosa como o

da cama, mas cetim vermelho.

— Minha reserva — disse Faye, com um sorriso curvado. — Para

ocasiões especiais. — Lançou-o para a cama, então começou a acender as

velas no quarto que emitiam cheiros pungentes e inebriantes. Aí, abriu

uma caixa de veludo.

Cassie assistiu.Dentro havia uma confusão de pedras soltas, algumas

polidas, algumas inteiras. Eram de um verde escuro e ametista, preto,

amarelo-enxofre, rosa pálido e laranja manchado.

— Encontre as vermelhas — disse Faye.

Os dedos de Cassie já estavam de qualquer forma se coçando para

pegá-las. Começou a procurar pela desordem arco-íris.

— Essas pedras preciosas, granadas, são boas — disse Faye,

aprovando algumas pedras bordô. — E cornalinas também, se não são

muito laranjas. Agora, deixe-me ver: opala cor de fogo para paixão, jaspe

vermelha para estabilidade. E um ônix preto para rendição ao seu ser

sombrio. — Ela sorriu estranhamente para Cassie, que ficou rígida.

Sem se preocupar, Faye arrumou as pedras num círculo no

acolchoado. Em seguida desligou a luz e o quarto era somente iluminada

pelas velas.

— Agora — disse Faye —, a nossa convidada.

Cassie achou que essa era uma forma estranha de se colocar, e ela

sentiu um enjoo no estômago quando Faye abriu a mochila. Prometeu a si

mesma que impediria que Faye fizesse algo terrível demais com a caveira...

Mas como?

— O que você está planejando fazer com ela? — perguntou, tentando

manter a voz calma.

— Só dar uma olhada — murmurou Faye, mas não prestava muita

atenção em Cassie. Olhava para baixo enquanto tirava o tecido branco,

molhado e coberto de areia, revelando o domo brilhante da caveira de

cristal. Enquanto Cassie assistia, Faye levantou a caveira ao nível de seus

olhos, mexendo nela com os dedos. Reflexos das chamas das velas

dançaram nas profundezas do cristal.

— Ah — disse Faye. — Olá. — Ela olhava nos buracos vazios dos

olhos como se olhasse para um amante. Se inclinou e levemente beijou os

sorridentes dentes de quartzo.

Em seguida, abaixou a caveira no centro do círculo de pedras.

Cassie engoliu em seco. A sensação enjoativa piorava ainda mais; se

sentia mais enjoada a cada minuto.

— Faye, você não devia formar um círculo de velas também? E se...

— Não seja tola. Nada vai acontecer. Eu só quero ver qual é o

problema dessa amiguinha aqui — murmurou Faye.

Cassie não acreditou.

— Faye... — Estava começando a entrar em pânico. Foi uma má

ideia, sempre foi uma má ideia. Não era forte suficiente para impedir Faye

de fazer qualquer coisa. Nem sabia o que Faye estava fazendo.

— Faye, você não precisa preparar...

— Silêncio — Faye disse agudamente. Pairava sobre a caveira,

analisando-a, meio reclinada sobre a cama.

Estava tudo acontecendo muito rápido. E não era seguro. Cassie tinha

certeza disso. Podia sentir uma escuridão redemoinhando dentro da

caveira.

— Faye, o que você vai fazer com ela?

Mais escuridão, subindo como o mar. Como Faye podia ser tão

poderosa, para tirar essa escuridão da caveira tão rapidamente? E tudo isso

sozinha, sem um coven para cuidar de sua retaguarda?

O rubi em forma de estrela no pescoço de Faye piscou, e pela

primeira vez Cassie notou pedras iguais nos dedos de Faye. Todas essas

pedras vermelhas — para aumentar a energia do ritual? Para elevar o poder

da bruxa... Ou da caveira?

— Faye!

— Cala a boca! — disse Faye. Inclinou-se mais sobre a caveira, a boca

aberta, a respiração vindo rápido. Cassie quase podia ver a escuridão na

caveira, girando, erguendo-se como fumaça.

Não olhe! Não lhe dê mais poder! a voz em sua cabeça gritava. Cassie,

em vez disso, fitou Faye urgentemente.

— Faye, o que você está tentando fazer... não é o que você acha! Não

é seguro!

— Me deixe em paz!

Redemoinhando, erguendo-se, cada vez mais alta. A escuridão no

início era fina e transparente, mas agora era grossa e grande. Cassie não

olhava, mas podia sentir. Estava quase no topo da caveira, desenrolando-

se, volvendo-se.

— Faye, cuidado!

A garota de cabelo preto estava diretamente sobre a caveira,

diretamente no caminho da escuridão ascendente. Cassie a agarrou,

puxando-a.

Mas Faye era forte. Rosnando algo incoerente, ela tentou se soltar de

Cassie. Cassie lançou um olhar em direção à caveira. Parecia sorrir

insanamente para ela, a fumaça espiralando dentro dela.

— Faye — gritou, puxando os ombros da outra garota.

As duas caíram para trás. No mesmo instante, pelo canto do olho,

Cassie viu a escuridão se libertar.