As paredes estavam frias ao toque de suas mãos, o ruído do vento e do vidro quebrando quando entravam em contato com a sola dos sapatos, eram os únicos sons que preenchiam o espaço. A destruição era visível aos olhos, a representação de sua alma desfragmentada, instável e imprevisível. A mansão havia ganhado corredores a mais que pareciam labirintos perdidos na escuridão.

Quando chegou ao topo da escada do salão, viu no outro lado, em um buraco na parede o seu maior rival. Ao contrário das roupas esdruxulas habituais, usava um belíssimo terno preto, seus cabelos pareciam sedosos presos em um rabo, era mais alto e sua aparência era amadurecida. Era perceptível o sorriso vitorioso que iluminava sua face.

E ali estava ele, preso na sua aparência ainda infantil, antes de ser afetado pela noite. A representação do amor, esperança e empatia.

—Teremos muito trabalho por aqui. –disse o lado obscuro. –Ainda mais que este lugar ficou maior.

O outro apenas o encarava.

—Terá que se acostumar com a minha liberdade meu caro. Mas sem apegos, não quero chorar quando ficar ausente. –disse sorrindo irônico.

—Terá que me aguentar por muito tempo “meu caro”. Não sou vencido fácil.

— Um de nós terá que assumir, você é péssimo em dividir e eu também.

—Não enquanto eu viver.

—Então será logo. E este lugar será todo meu. –e ele por fim riu.

Tsuna finalmente abriu os olhos, sua visão estava borrada, seu corpo parecia rígido por não ter se movido por tantos dias. Ele estava perdido no tempo e não sabia por quanto tempo havia ficado dormindo. Lembrava-se apenas dos seus sonhos, vozes e rostos borrados.

—Tsu-kun. Você acordou!!!-disse Nana o beijando desesperadamente na testa.

O jovem chefe não achou forças para suas cordas vocais limitando-se a um pequeno sorriso. Unindo suas forças ele apontou para a barriga dela.

—Você me ouviu? Como!? Sim, estou esperando um irmãozinho para você Tsu-kun. – ele sorriu novamente.

—Filho! –Iemitsu chegou repentinamente e acariciou seus cabelos. Eu não acredito que você acordou!

—Vou chamar o doutor!

***

Fabricio esfregava as mãos suadas enquanto respirava fundo. Procurava se concentrar na respiração de Masao enquanto ele lia a carta de seu pai. A ansiedade veio quando ele finalmente repousou o papel no ombro da poltrona.

—Fabricio, sabe que terá apenas que fazer isso em caso de emergência e se não houver escolhas.

—Eu sei. Mas... Da forma que os acontecimentos caminham... Não sei se estou pronto para isso.

—Não precisa ficar com este fardo. Eu o farei em seu lugar se preciso

—Obrigado, mas se meu pai me incumbiu eu o farei. –ele tomou a carta de Masao. -Agregará ao meu treinamento Hitman. –dizia Fabricio entre suas confusões sentimentais.

—O mestre não deve estar sabendo. Duvido que ele permitisse.

—O tio não deve saber de qualquer forma. –disse se levantando e dirigindo-se ao seu quarto.

—O meu chefe deve estar desesperado para pedir isso ao próprio filho. –disse Sakura.

—Vamos torcer para que não aconteça.

***

—Oi Lavina. Você parece feliz.

—Papai deu esse ursinho novo para a Lavina. O tio também veio visitar Fabricio?

—Não. Seu tio ainda está doente. Mas ele deixou uma carta, disse que eu posso comer todo o sorvete do mundo.

—Mas Fabricio não aguentaria comer todo o sorvete do mundo.

—Faz parte do meu treinamento boba.

—Prefiro o meu ursinho. – disse emburrada ao perceber que ela não conseguiria vencer Fabrício.

***

Dias depois, Leonardo, Jack e outros homens observavam cuidadosamente uma série de livros antigos enquanto Claudio focava-se no livro azul de letras douradas. Em um dos seus bolsos estava outra carta que havia recebido com a caligrafia idêntica ao do Reborn, com uma série de informações enigmáticas ligadas aos anciões, aquilo certamente seria um salto em sua pesquisa. O jovem loiro tentava conter sua ansiedade em ler as páginas rapidamente e entender a carta, Tsuna podia ter melhorado, mas o garoto estava a pouquíssimos passos de cair na escuridão. Por tempo curto que fosse ele não poderia deixar uma informação sequer passar.

—Como está Tsuna? –indagou Jack ao pai.

—Ele recobrou a consciência, mas ainda está fraco.

—Gostaria de visita-lo.

—Assim que forem liberadas as visitas, com certeza iremos até lá. Agora o que você pode fazer por ele é achar as informações necessárias.

—Pai, você não tem medo que aconteça o mesmo comigo?

—Não, pois eu impedirei.

—Obrigado.

Todos levaram um susto quando Claudio fechou o livro com força e correu para o mapa rabiscado na parede. Um sorriso iluminava sua face.

—Claudio você...

—Segundo aquele livro e a carta, um dos anciões está na Nova Zelândia! É o ancião dos dragões!

—Claudio! Isso é incrível!!!

—Temos que apenas levar Tsuna até ele.

—Mas Tsuna está fraco. Nem tem como ele viajar.

—Vamos ter que esperar até lá. O que você acha Claudio? Ele aguenta?

—Um pouco mais talvez. Mas é uma grande conquista termos o localizado.

— Quem seja que está enviando informações realmente está querendo ajudar.

Um barulho de celular vibrando tira atenção de todos e se volta para Jack. Era Marcela. Seu rosto iluminou-se e saiu correndo da sala.

—Olá, tudo bem com você?

—Sim e você?

—Estou bem.

—Ótimo. Liguei para confirmar se não sentiu nada diferente. Temo que a influência destes grupos possa não ser benéficas para você.

—Eu tomarei cuidado, não se preocupe. Por que não veio para o Japão junto a sua irmã?

—Não havia necessidade. –disse frívola fazendo desaparecer o sorriso de Jack.

—Hã... bem.. eu sinto sua falta.

—Jack...tenho que ir.

—Mas Marcela...Por que a pressa? Gostaria de conversar com a minha amiga.

—Não somos amigos. – e desligou. Jack apenas encarava o celular.

—O que foi isso que eu vi? Desde quando chegou neste nível? -disse o rapaz loiro cochichando para Leonardo.

—Marcela sempre faz visitas em nossa casa. Jack está confundindo as coisas.

—Ele não estaria...

—Sim. Isso mesmo. Ele é jovem demais.

—É o primeiro amor dele?

—Creio que seja.

—Isso não é nada bom. Minha irmã sempre quebrou corações. Coitado.

—Não dá para ser feliz em tudo. Vamos.

Tsuna, após longos dias no hospital havia retornado para casa, ele dormia a maior parte do dia na sua cama ou no sofá. Suas comidas eram rigorosamente feitas de acordo com as ordens médicas. Ele ainda não conseguia se equilibrar sozinho precisando de auxilio na maioria das vezes. Seus amigos sempre o visitavam após a aula, Kyoko ficava algumas horas com ele vendo Tv ou fazendo mimos.

A cada dia, o jovem Vongola sentia suas energias retornando para seu corpo, mas o cansaço ainda era evidente em sua face. Esses dias estavam sendo tranquilos, como se a Vongola nunca existisse e tudo que enfrentou era apenas um pesadelo. Era apenas ele, sua família e as crianças. Reborn e Iemitsu quase não paravam na casa em busca dos anciões e indagando os membros capturados do grupo rival, o arcobaleno havia escondido o anel e a lança de Tsuna para que o impedisse de fazer bobagens. Dias tranquilos e felizes, era apenas o que Tsuna gostaria de ter por algum tempo. Sua mãe cantarolava feliz com a recuperação do filho e a chegada do outro.

A campainha tocou a interrompendo e logo voltou com um jovem garoto, era Kenjiro. Ele foi até a sala acompanhada por Nana, falando com tranquilidade e conforto. Um garoto nada tímido, como pensou Tsuna. Para o jovem Vongola, ver Kenjiro era lembrar da fase ruim que se estendia pela sua vida. Aquele garoto trazia péssimas lembranças.

—Tsu-kun, seu amigo veio lhe visitar.

—Olá Tsuna-kun, sente-se melhor?

—Sim...

Ele sentou ao lado de Tsuna. –A senhora parece estar muito feliz. –comentou Kenjiro.

—Estou sim. Tsu-kun se recuperando e esperando um filho, são as melhores coisas que poderiam estar acontecendo.

Tsuna estranhou por Kenjiro estar demorando soltar uma resposta. Quando o observou ele parecia perplexo e logo um longo sorriso se estendeu pela sua face. –A-a senhora está... grávida?

—Sim!

—Isso é ótimo. –ele levantou apressadamente a abraçou com vontade. –Meus parabéns. Espero que ele seja muito feliz!

—Obrigada. –disse Nana tranquilamente.

—Se cuide muito bem durante a gravidez, por favor.

—Sem problemas. Você cuidaria dele enquanto vou ao mercado?-ela aponta para Tsuna.

—Claro!

—Obrigada –e sorrindo, Nana deixou os dois garotos a sós. Quando Kenjiro sentou novamente ao lado de Tsuna, este apenas o encarou com estranhamento.

—O que foi? Acho que me empolguei né? Desculpe. É que... é que... Uma criança é sempre sinal de esperança.

—Não justifica suas ações.

—Desculpe.

—Kenjiro-kun, por que está aqui?

—Queria ver se estava bem. Estive muito preocupado e eu não podia entrar no hospital e...

—Você não entendeu. O que está fazendo nesta cidade? Por que está me protegendo? Quem é você? –dizia rispidamente.

Kenjiro o observava de forma tristonha. –Me perdoe. –disse colocando uma mão no ombro do jovem Vongola. –Você é essencial para a máfia, mas eu não pude lhe proteger como devia.

—Responda minhas perguntas!

—Eu não posso. Eu jurei que nada contaria a ninguém.

—Você me deve isso. Graças a Epifania e Giustizia, a corrupção da minha alma foi adiantada. Olhe para o estado em que cheguei.

—Você deveria ter ficado na Itália. Estaria seguro.

—Que tipo de chefe, amigo e filho eu seria deixando todos que eu amo em perigo por minha causa!?

—Por que confiar neles?

—Lhe pergunto o mesmo. Por que confiar em você?

—Porque eu realmente só quero o seu bem. Eles apenas querem ver um chefe da Vongola. Um chefe que alcance todas as expectativas impostas. Se não alcança-las, eles o descartarão.

Tsuna sorria em sarcasmo. –E você acha que eu não sou a altura de ser um chefe da Vongola, pirralho?

—Se ficar somente aqui no Japão... Você deveria ir para a Itália. Estar ao lado do Nono treinando para ser o devido chefe da Vongola. Neste país você apenas esta brincando de chefe da máfia.

—Você não sabe de nada.

—Eu sei muito. Escute meu conselho, futuro Neo Primo Vongola. E será o chefe que todos esperam que seja.

Tsuna apenas bufou.

—Por favor, se recupere logo. – Kenjiro se levantou.

—Quer dizer que você vem até a minha casa, atrapalha minha tranquilidade, joga a bomba e vai embora?

—Você precisa descansar.

—Que tal vocês dois descansarem?

—Leandro!?

—Ótimo. –comentou Tsuna.

—Nossa, você está péssimo jovem Vongola. Vou acabar com o seu sofrimento.

—Só por cima de mim. –Kenjiro ativa sua espada.

Tsuna discretamente envia uma mensagem aos guardiões. Logo começa a imaginar os possíveis lugares que Reborn teria escondido seu anel e a lança. Conhecendo o arcobaleno, era provável que nem estivessem em casa e logo descartou a ideia, afinal ele não tinha energia para fazer muita coisa.

Enquanto Kenjiro distraia Leandro, Tsuna se arrastou até a cozinha e escondeu Lambo e Ipin. O garoto escutou vidro se quebrando, dando conta que Matt havia entrado na cozinha.

—Parece que nunca vamos parar de se encontrar garoto.

Tsuna apenas o encarou.

—Nossa, para um futuro chefe sua aparência está horrível.

—Você não deve honra alguma para querer lutar com alguém fraco.-Tsuna se encosta em um balcão para se apoiar.

—Eu tenho honra. Mas sua situação é diferente. É para uma causa nobre e assim não me importo. –ele mostra suas já familiares adagas e avança. Tsuna desvia, mas cai no chão se arrastando para debaixo da mesa. Para sua sorte, algumas panelas rolaram pelo chão e ele se defendia com elas contra as adagas do rapaz.

Não demorou muito para que Matt conseguisse pega-lo facilmente e o empurra-lo com brutalidade contra outro balcão. Tsuna sentia seu corpo cansado e dolorido, tremia tentando segurar as mãos de Matt contra o seu pescoço, mas sua respiração estava se esvaindo.

Matt ria em ironia. –Pobre Sawada Tsunayoshi, de futuro chefe prodígio a um fracote com alma corrompida. Olhando você assim, não parece nada assustador. Consegui enxerga-lo por outra ótica, você é realmente o que todos falavam, mas minha raiva por você permanece.

—O-o que e-eu fiz p-para você?

—Não interessa.

—Então acabe com isso.

—Deixe eu saborear um pouco este momento, não é todo dia que você elimina um chefe mafioso. E tenho sorte, porque aqui você ainda possuiu compaixão, não fará nada para mim. E palavras bonitas não me...-e Matt se interrompe bruscamente quando uma dor latente surgiu em seu abdômen. Ele relaxa as mãos que estavam no pescoço do jovem Vongola e assim olhou para o mesmo. Tsuna carregava um sorriso cínico, olhar sarcástico e conseguiu enxergar em Matt a dor e medo que encheram sua alma.

Ele largou Tsuna que se apoiou no balcão, tirou a faca que estava enfiada na pele e pressionou com sua mão. Sua roupa se encheu de vermelho.

—O que você estava dizendo mesmo?

—Eu me enganei! Vo-você é um monstro!

—Saia da minha casa! E leve seu amigo com você.

Matt saiu tonto para a sala e Tsuna deixou o chão amortecer sua queda.

—Um monstro? –disse para si. –Era isso que você queria Adelina? –o garoto colocou as mãos sobre os olhos tentando se confortar e aquietar a confusão sentimental que se encontrava no momento, achando desculpas que justificassem o que acabaram de fazer com aquele rapaz.

Na mansão dentro da sua mente.

—Eu não acredito no que fez.

—Você queria o que!? Aquele cara ia acabar conosco!

—Não agimos assim.

—Você não age assim. Prefere as palavras e eu já gosto da ação. Viu como ele saiu assustado? Se agirmos assim a Giustizia nos deixará em paz.

—Não. É apenas um pretexto para você dominar.

—Pelo menos estou fazendo algo de útil. Se conforme que meu poder é maior que o seu agora.

—O que será de nós agora?

—O que nos impuseram e vamos realizar com esmero. Sermos o boss mais fodão que a máfia já conheceu.