Céu Obscuro

12 A senhora dos dragões


O calor do líquido vermelho em suas mãos ainda parecia latente, mesmo após ter jogado tudo ralo abaixo. A faca ensanguentada estava sendo lavada pelas mãos do garoto mais jovem, enquanto os outros arrumavam a casa antes que sua mãe chegasse. Tsuna apenas observava tudo deitado no sofá, com seu corpo ardendo em dores e cansaço.

Os guardiões pediram mil desculpas por demorarem chegar, mas Tsuna não deu ouvido. Ele ainda estava vivo, era somente o que importava. Por fim, o cansaço acabou vencendo e ele caiu no mundo dos sonhos.

Os guardiões continuaram a postos, aguardando qualquer outro ataque da Giustizia junto a Kenjiro. Gokudera observava aquele garoto com cautela, custava-lhe admitir mas estava aliviado que ele estivesse presente quando ocorreu a situação, o que seria de seu precioso décimo se estivesse sozinho?

O cabeça de polvo socou a parede quando percebeu seu descaso. O que estava havendo com ele? Ah, a paixão! – pensou Gokudera. –Ela estava tirando seu foco completamente da Vongola. Tsuna havia lhe dito diversas vezes que ele deveria ser feliz, não deixar sua vida ser tomada pela Vongola, pois nem mesmo Tsuna deixava que isso acontecesse. Aquela era uma situação de emergência e ele precisava se focar, mesmo que significasse deixar seu amor um pouco de lado.

Ele olhou para Yamamoto, sabia que não era apenas isso que pensava da mesma forma. Patrícia estava novamente em Nanimori por alguns dias, seu desejo era estar com ela, mas ele tinha que cumprir o seu dever como guardião.

Duas cestas apareceram no campo de visão de Gokudera e uma moça ruiva passou correndo por eles até a sala onde Tsuna estava. Haru e Patricia sorriam para os rapazes.

—Achamos que estariam com fome. –um largo sorriso surgiu no rosto e cada um.

Os dias se arrastavam, mais e mais membros da Vongola estavam a postos ao redor da casa de Tsuna, dando oportunidade para os rapazes descansarem. Kenjiro se fazia presente quase todos os dias junto a outros membros da Epifania, convencendo a Vongola aos poucos, que eram excelentes aliados. Fabricio vigiava a casa do futuro chefe pelos telhados ou em meio as árvores, sem poder ficar por muito tempo já que estava focado em achar os outros anciões. As ações de Epifania o irritavam profundamente.

Giustizia parecia perdida sem a presença de Fabio, o homem ainda não havia retorno para o seu posto. Seria possível que Marco Antonio havia enviado Fabio para o campo de batalha? Suas forças estavam reduzidas e sem chances de enfrentarem a Vongola aliada com Epifania.

Na sede da Epifania.

—Por que me chamaram aqui? Estou no meu turno de cuidar do Tsuna.

—Olhe no mapa.

—Vocês o acharam?

—Ele estava no mesmo lugar. Apenas confirmamos.

—Só temos que convencer a Vongola.

—Conseguiu conquistar a confiança?

—Acredito que sim. Além do mais, estão desesperados por uma solução. Aceitarão qualquer coisa.

—Sabe como a Vongola é.

—Sei como lidar com eles.

***

Tsuna sentia-se relaxado com o acariciar da brisa em seu cabelo. Estar em contato com a natureza era gratificante, inocente e inspirador. Finalmente após tanto tempo seu corpo permitiu que ele visitasse-se o mundo exterior, já conseguia andar por conta própria. Era tão entristecedor ver o mundo por uma janela. Kyoko retirava várias guloseimas da cesta de piqueniques, seus amigos faziam várias brincadeiras e a natureza ecoava a sua melodia. Tsuna até havia esquecido que estava sendo vigiado pela Vongola, apenas parecia que os dias felizes haviam retornado e vários sorrisos desbotavam de sua face.

Seus amigos foram jogar frisbee enquanto ele ficou sentado ao lado da Kyoko. Certa hora o disco foi longe e Yamamoto correu para busca-lo, ao chegar ao destino um pequeno garoto que deveria ter uns 5 anos estava com o disco em mãos.

—Olá. –disse Yamamoto se ajoelhando sorridentemente.

—Olá. –respondeu o garoto com o mesmo sorriso. –Ele é seu?

—Sim. Obrigado por ter achado para mim.

—De nada. –disse o pequeno garoto entregando o objeto.

—Onde estão seus pais?-indagou Yamamoto preocupado ao não ver ninguém perto dele.

—Não estão aqui.

—Veio com alguém?

—Com os meus amigos. Estamos brincando de esconde-esconde.

Yamamoto riu. –Tome cuidado aonde se esconde.

—Ahá! Te achei Saito-chan! –disse uma garotinha de cabelos pratas.

—Essa não. Perdi de novo.

—Saito-kun é péssimo nesse jogo.

—Você é amiga dele? –indagou o rapaz.

A garota pareceu surpresa ao olhar para Yamamoto. Logo ela olhou para Saito, mas ele parecia perfeitamente normal com a presença do rapaz. –Hã... Sim!

— O maníaco do beisebol que demora é esse para pegar um frisbee?

—Onii-chan!!! –A garota corre até ele.

—Lavina!? O que faz aqui?

—Lavina está brincando com os amigos, ele é Saito-chan. –Ela aponta para o garoto. Gokudera acaba percebendo uma estranha semelhança entre o sorriso dele com o sorriso bobo da Yamamoto.

Yamamoto ri. –Então você a conhece.

—Pois é. Então você tem amigos.

—Ehhhh, você realmente conhece o Onii-chan. Achei que estava mentindo. –disse Saito.

Lavina apenas sorriu convencida para o garoto.

—Cadê o Hideo-chan?

—Sei lá. –respondeu a garotinha.

—OHHHHHHH! INCRÍVEL!!!

—É a voz do Hideo-chan. –comenta Lavina.

Eles olharam para trás e viram o garotinho admirado com as técnicas de Ryohei.

“Tinha que ser uma criança para estar admirado com alguma coisa do Ryohei.” –pensou Gokudera.

—Hahaha, alguém tem um fã.

—Não exagere maníaco do beisebol. Lavina, onde está seu mordomo?

—Ah, hoje Lavina e os amigos dela vieram com o primo de Lavina.

—E onde ele está?

Na copa de uma das árvores.

—To ferrado. To ferrado. To ferrado. –dizia Fabricio enquanto observava as crianças pelo binóculo. O Celular dele toca e para o seu terror era Masao. –Oi.

—Como estão as crianças.

—Estão brincando de esconde-esconde.

—Coloque um deles na linha.

—Ta. Oiii onii-chan!

—Fabricio pare de brincadeiras. Onde eles estão?

O rapaz tomou folêgo. –Estão conversando com a Vongola.

Masao grita palavras e xingamentos que Fabricio quase não entendeu. Os gritos lhe deixaram temporariamente surdo.

—Como que você me deixa eles com a Vongola!? Está louco!?

—Como se o mesmo não tivesse acontecido com você.

—Não vem ao caso. Dê um jeito de tirar essas crianças de lá.

—Venha você. Eu não posso ir até lá.

—Tem alguém que pode te reconhecer?

Ele olha para os lados. –A vários membros da Vongola escondidos por aqui.

No grupo da Vongola, as crianças acabaram indo até o resto do grupo.

—Como assim não querer procurar seu primo?

—Ele está por aí. Lavina quer jogar frisbee.

—Muito baixa para jogar algo assim.

Ela emburra.

—Deixa de ser mal Gokudera-kun. –fala Hana.

—Essa pirralha não sabe jogar frisbee. -Lavina pega e joga o disco na teste dele causando uma leve dor, todo riem menos Gokudera. A garotinha sorria de forma convencida para ele.

—Parece que ela sabe jogar.- comentou Yamamoto.

Jogaram por algum tempo e as meninas ofereceram lanches para as crianças. Todos começaram a se dirigir para onde a cesta estava.

—Qual Lavina-chan prefere? Sanduíche de frango ou de atum?

—Atum!!!

—É o favorito da Haru também.

—Olá! –cumprimentaram Tsuna e Kyoko sorridentes.

—Lavina-chan esses são os amigos da Haru, Tsuna-kun e Kyoko-chan. –O sorriso de Haru sumiu quando viu que Lavina parecida estar com medo de algo ficando completamente travada no lugar que estava. Haru tentou puxa-lo pela mão, mas ela soltou e ficou imóvel. Quando Tsuna tentou se aproximar, Lavina deu um grito e se escondeu atrás de Gokudera. Quando o cabelo de polvo se ajoelhou ela o abraçou correndo, assim ele pode observar que os dois garotinhos pareciam estar com medo também.

-Boa tarde a todos.

—Masao-kun? –disse Haru.

—Prazer em revê-los. Vir buscar Lavina e os outros.

Lavina largou lentamente de Gokudera e foi até o seu mordomo. Os outros fizeram o mesmo. –Obrigado por cuidar deles. – e assim seguiram caminho.

—Eu não entendi o que houve?

—Acho que crianças podem perceber as pessoas com almas corrompidas. –comentou Kyoko.

***

Lavina estava de pé diante a um grande armário aberto, escuro e úmido. Apertava suas mãos com força e mordia os lábios. Ela deu dois passos em direção a ele e lembranças confusas vieram a sua mente. Uma delas era ela presa em algo pequeno e assustador, apenas alguns filetes de luz viam da porta. Ela tremia de frio e estava assustada pela solidão. Passos pesados faziam ranger o piso, a porta se abre e dela pode ver uma silhueta de um homem que deixou Lavina assustada ao vê-lo.

—O que está fazendo?-disse o rapaz tirando a garota dos pensamentos.

—Fabricio-kun.

—Você não tem medo de armários?

—Papai disse que devo enfrentar meus medos.

—De fato é um bom conselho. Continue.

Lavina olhou novamente o armário, andou alguns passos até ficar ao lado do primo. –Hoje não.

—Vá devagar.

—Como superou o medo por facas?

—Achei armas melhores, melhorei minhas técnicas e por aí vai.

—Fabricio-kun...Ainda dói?-ela toca o braço direito dele.

—Às vezes, nada demais.

***

Mais tarde a Reborn e Iemitsu aparecem na casa de Tsuna junto a Céu Selvagem.

—Localizaram um Ancião? –dizia Tsuna surpreso.

—Sim, ele está na Nova Zelândia!

—Isso é ótimo Décimo!!!

—Mas ele está em condições de viajar?-comenta Yamamoto.

—Se for para resolver o meu problema, estou ótimo! Quando partimos?

—Quanto tempo a Vongola demora a planejar a viagem?-indagou Reborn.

—Dois dias.- respondeu Iemitsu.

—Está ótimo. E desta vez levaremos minha mãe e as meninas. Não quero que o mesmo aconteça novamente.

—Posso criar os clones para vocês sem nenhum problema. –afirmou Patrícia sentada ao lado de Yamamoto.

—Está feito. –disse Reborn.

—Jack, a sorte está ao nosso lado. –disse Tsuna.

—Sim, eu espero. –respondeu Jack.

Dois dias depois eles partiram em viagem. Epifania também ia encontra-los lá. As meninas estavam animadíssimas para viajar confortavelmente para outro país, Gokudera até teve que impedir Haru de levar duas malas de viagens. Patricia não desgrudava de Yamamoto e Hana havia levado dinheiro para comprar roupas.

—Hahi! Haru nem acredita que está indo para a Nova Zelândia. –dizia a menina saltitante na poltrona.

—Isso não são férias Haru. Estamos a trabalho.

—Mas Haru não está a trabalho.

—Faça como quiser.

—Deixe as meninas se divertirem Gokudera. Elas não precisam passar perigo junto conosco. –comentou Tsuna.

—Sim, sim Décimo!

—Você parece de bom humor Tsu-kun.-comenta Kyoko.

—Estar longe daqueles caras me faz bem.

Kyoko se aconchega nele. –Fico tão feliz de ouvir isso.

Após horas de viagem, eles desembarcam no aeroporto de Auckland e se hospedaram em SKYCITY. Todos estavam maravilhados pela estrutura luxuosa e moderna, a Vongola não se importava em gastar tanto apenas para dar conforto ao jovem Vongola. Enquanto os meninos guardavam a bagagem, Tsuna estava observando a cidade da sacada do quarto esperando que o jetlag passasse. O lugar era moderno e empolgante aos olhos, logo seu coração se encheu de desejos em visitar as atrações turísticas da cidade

—Olha só, ele tem piscinas aqui. –dizia Ryohei olhando o folder.

—Será que o café da manhã é bom?

—Seus imbecis. Não estamos de férias!

—Ah Gokudera-kun se divirta um pouco.

—Décimo, estou mais preocupado com sua alma.

—Fique calmo. Esse lugar me traz boas energias.

—Sabe até faz sentido o ancião dos dragões estar neste país.

—Por que Gokudera-kun?

—Tem vulcões por aqui, inclusive essa cidade é construída sob um deles.

—O QUE!? E você só me diz isso agora?

—Não se preocupe. Ele está inativo há anos, eu acho.

No dia seguinte, eles partiram rumo ao parque Parque Nacional de Tongariro, a mais ou menos cinco horas de viagem da antiga capital da Nova Zelândia. As meninas e a mãe de Tsuna ficaram na cidade.

—O que!? Tem vulcão nesse parque também!? –falava Tsuna quando Gokudera contou no meio do caminho.

—Sim décimo. E alguns estão ativos! E também tem...- e Gokudera continuou falando de vulcões durante todo o caminho. Tsuna, com o intuito de fazer seu pânico em um vulcão se ativar, começou a fazer uma lista mental de lugares que eles não visitaria.

Assim desembarcaram no parque, receberam as instruções e Tsuna começou a ficar atento para ver cangurus, isso até Gokudera avisar que eles viviam na Austrália e não na Nova Zelândia.

—Eles chegaram. –disse Masao disfarçado de turista. Junto a ele estava Fabricio e mais três colegas. Eles presenciaram a cena de encontro da Vongola com os aliados da Epifania.

—Então, meu tio realmente achou uma boa ideia vir apenas nós cinco?

—Ora Fabricio, somos os membros de confiança e mais habilidosos de seu pai. –disse uma mulher.

—Eu sei, mas Epifania está em um número maior. Contei doze ao todo.

—Eles podem ser bons. Mas não se esqueça de quem foram os nossos mestres.

—Eu sei Masao. Eu sei.

Assim os três grupos começaram a “visitar” o parque com o objetivo de ir até as montanhas. Segundo as informações, havia uma caverna escondido em uma delas.

—Vai realmente deixa-los ir até o Ancião do Dragão? –cochichou um dos companheiros dele.

—Sim. Nosso objetivo aqui é outro. — disse Kenjiro.

Eles chegaram até a entrada da caverna facilmente localizada por um mapa feito por Claudio. Tsuna seguiu com Gokudera, Yamamoto e Ryohei. Reborn, Claudio, Iemitsu e Leonardo ficaram do lado de fora. Kenjiro foi junto com mais dois membros.

Fabricio e o seu grupo ficaram vigiando do lado de fora.

—Se concentrem. –sussurrou Kenjiro para os dois.

A caverna era longa e tornava-se clara a cada passo. Uma energia estranha corria por todos os cristais lilases que iluminavam o caminho, energia que atraia a todos. Até Kenjiro sentiu-se tocado por ela. Ao fim, era uma espécie de altar no centro com um trono feito de pedra e nas paredes haviam outros túneis. Ao redor, frestas pelo chão na qual o liquido vermelho corriam, ao chegar mais perto Tsuna percebeu que se tratava de uma espécie de lava.

—Ora, Ora. Visitas ilustres. –era uma voz feminina sedutora. Uma energia na cor vermelha percorria o chão fazendo os já conhecidos arabescos, adornaram o trono e dela surgiu uma bela dama com cabelo cor de fogo.

—Você é a anciã dos dragões?

—E você é o rapaz que vai se tornar chefe de um grupo importante. –em um piscar de olhos ela estava diante dele olhando profundamente em sua alma. –Você está caindo no mundo da noite. Tanto dualismo em sua alma.

—Pode curar isso?

—Eu teria que te eleger. Você se afundou muito na escuridão. Teria sido tão fácil se não tivesse resistido aos impulsos.

—Eu sei!!! Pode me eleger? Apenas quero me curar.

Ela com a mesma velocidade aparece diante de Yamamoto tocando o seu rosto. –Não é assim tão fácil, jovem rapaz.

—Como assim?

—Bem...-Ela se apoia no ombro de Ryohei o deixando encabulado. Nossas energias elas não se assimilam.

—Não entendo. O que tem haver?

—Para um Ancião poder eleger alguém...- Pela primeira vez, ela caminha lentamente até Gokudera sem desviar o olhar. Ela delineia o robusto queixo do rapaz com os dedos.. –Ambos precisam ser compatíveis. – e ela olha Gokudera profundamente nos olhos. Ela desvia seu olhar para Kenjiro e seus companheiros, o encarando com repugnância. Em instantes ela estava de volta em seu trono.

—Mas, mas, mas... Você é minha única esperança!!!

—Em casos como o seu, eu faço os candidatos passarem por testes. Eles ocorrem nestes túneis. Vocês tem que achar isso! –era um cristal vermelho junto à lava. — Ele só aparece para pessoas compatíveis. O jogo termina após meia hora ou alguém acha-lo. Se um de vocês acharem, ele tem esperança.

—O que tem nos túneis?-indagou Yamamoto.

—Não sei. É sempre diferente para cada um. Boa sorte!

Eram quatro túneis, Tsuna acabou indo com Ryohei em um deles, Gokudera e Yamamoto em outro, Kenjiro foi sozinho e por fim, seus dois colegas foram pelo último túnel.

Gokudera e Yamamoto caminhavam por um jardim subterrâneo com belíssimas e exóticas plantas que pareciam exalar um agradável perfume. Uma leve neblina baixa era o toque final místico. Para o cabelo de polvo, era certeza aquilo lhe causaria ilusões.

Tsuna e Ryohei caminhavam no túnel cheio de objetos valiosos, móveis luxuosos e uma fragrância de chá no ar. Havia algumas garrafas de vinhos espalhadas e a luz do sul adentrava no lugar.

Para Kenjiro e seus companheiros, seus túneis eram frios, vazios e inférteis.

Gokudera continuava a caminhar pelo jardim sem fim, o céu azul apareceu então, as flores eram conhecidas e havia várias e várias árvores. Lá na frente, estava a mansão muito familiar para ele, era a sede da Vongola na Itália.

—Droga Yamamoto! Estamos presos em uma ilusão. –silêncio. O rapaz olha para os lados e ele estava sozinho. –Ótimo! Aquela anta também caiu em uma ilusão.

—Hahaha, você e esse seu humor que nunca desaparece, Gokudera-kun! –dizia Yamamoto dando um tapa nas costas do amigo.

—Onde você estava...-Gokudera se surpreendeu-se. Seu amigo estava mais velho. Agora já era adulto, parecia ter algumas rugas leves na testa. –Está mais velho!?

—Todos nós estamos. –disse Yamamoto rindo e apontando para algo atrás de Gokudera. Ele se virou dando de encontro com o seu reflexo adulto. Logo ele percebeu que não estava mais no jardim, mas sim, no salão da mansão. Ryohei lhe deu um tapa no ombro.

—Ei cabelo de polvo. Preste atenção. O chefe está vindo!

Tsuna descia as longas escadas, Gokudera ficou admirado em vê-lo mais alto e seus cabelos estavam compridos presos a um rabo. Usava a linda capa do chefe da Vongola.

—Eu fiz um ótimo trabalho!-falou um homem de chapéu ao lado de Gokudera. Ele o observou dos pés a cabeça e percebeu a semelhança.

—Reborn!?

—Não, é o Papai Noel.

Gokudera ia perguntar mais coisas, mas a cascata de água que surgiu do nada na escada chamou sua atenção, logo não havia mais pessoas ali, e cascatas de água saiam pelas janelas, escadas, portas e se acumulavam pelo chão. O rapaz percebeu que a única pessoa que permaneceu ali era Tsuna que sorria para ele de forma inescrutável do topo da escada, com uma grande aura de superioridade. Tudo se apagou quando água jorrou sobre Gokudera. Ele nadou e nadou, até chegar a beira de uma porta, suas roupas não haviam se molhado.

Ele passou pela porta e só havia escuridão, quando deu dois passos seu pé topou com alguma coisa. Fixou seus olhos no chão por segundos e conseguiu observar que era um corpo, Ao olhar mais adiante percebeu que a sala estava cheia deles, o cheiro de podre veio logo depois.

Tudo que estava ali sumiu. Um crepúsculo surgiu iluminando um armário ao final da sala e Gokudera escutava os berros. Alguém pedia socorro, alguém com uma voz familiar precisava de ajuda.

Ele forçou e forçou o que pode e a porta se abriu, era uma criança de branco sentada no chão, com a cabeça abaixada e envolta com os braços. Quando ele a tocou a criança ela se transformou em borboletas brancas que voaram por um extenso corredor e o rapaz as seguiu correndo até um portal. Haviam 3 pessoas usando capas negras e de capuzes, Gokudera sequer conseguia distinguir seus rostos. Um deles esticou os braços e foi quando o rapaz se tocou que estava segurando uma criança em seu colo. Havia um sentimento de medo, raiva e dor. Ele não queria entregar aquela criança, mas algo lhe dizia que estaria segura com aqueles três seres misteriosos. Com muito pesar, a criança atravessou o portal junto a eles e Gokudera sentiu como se uma faca finca-se em seu coração.

O portal sumiu e ele conseguiu enxergar a peça que a Anciã havia pedido. Ele a pegou em mãos e viu seu reflexo no metal da parede, ele havia voltado a ser adolescente, a dor, o medo e a raiva haviam passado e lá estava ele novamente no túnel. Observando o objeto vitorioso. Ele, o braço direito, havia conseguido a solução para o seu amado chefe.

O seu sorriso desapareceu quando sentiu seu corpo formigando e as dores apareceram repentinamente em seu corpo. Parecia não ter ar ou energia para se sustentar em pé indo de encontro ao chão. Sua visão borrava com o passar dos segundos. Gokudera conseguiu escutar passos apressados e risadas, alguém havia se aproveitado enquanto ele estava embebido pela ilusão.