Bíblia dos Contos Proibidos.
20 A Última Corrida de Metrô.
Leo trabalhava até tarde quase todos os dias, e a volta para casa era sempre a mesma rotina: o último metrô da noite. O vagão estava sempre quase vazio, um silêncio quebrado apenas pelo chacoalhar dos trilhos e pelo anúncio abafado das estações.
Naquela noite, o vagão estava completamente deserto, exceto por ele. Em uma parada que ele não reconheceu, as portas se abriram com um chiado familiar, mas ninguém entrou. Em vez disso, a luz do vagão piscou e, quando voltou ao normal, havia uma mulher sentada em frente a ele.
Ela estava vestindo roupas antigas, do início do século passado, e tinha um véu preto cobrindo o rosto. Ela não fazia barulho, não se movia, apenas estava lá. Leo sentiu um arrepio, mas racionalizou: "Talvez ela esteja indo para uma festa a fantasia".
O metrô começou a se mover novamente, mas não no ritmo usual. Estava mais lento, e as luzes da estação fora da janela passavam como borrões distorcidos.
A mulher levantou uma mão enluvada e começou a bater suavemente em sua bolsa de mão, em um ritmo constante e irritante: tap, tap, tap.
Leo tentiu ignorar, mas o som ressoava em seus ouvidos. Ele pigarreou. "Com licença, sabe se o metrô está atrasado?", ele perguntou, apenas para quebrar o silêncio.
A mulher não respondeu. Apenas continuou com seu tap, tap, tap.
Leo começou a ficar nervoso. Ele olhou para o mapa da linha, mas a luz do teto estava apagada. Ele não conseguia ver onde estava. Ele tentou olhar pela janela, mas agora a escuridão do túnel era absoluta, sem as habituais luzes de emergência.
"Onde estamos?", ele perguntou novamente, mais alto, seu coração acelerando.
A mulher finalmente parou o tap, tap, tap. Ela levantou a cabeça lentamente, e o véu transparente ergueu-se um pouco. Debaixo do véu, não havia um rosto, mas uma cavidade vazia, escura e sem traços, com dois pontos de luz vermelha onde deveriam estar os olhos.
Um som sibilante saiu da cavidade. "No fim da linha, Leo", disse a voz, fria e sem vida. "Onde a viagem nunca termina."
O metrô parou bruscamente, jogando Leo para frente. As portas se abriram para uma plataforma que não era de estação, mas de uma caverna úmida e escura. Fora do vagão, sombras se moviam, figuras disformes com olhos vermelhos, esperando.
Leo tentou correr para a cabine do maquinista, mas a porta estava trancada. Ele olhou para trás, para a mulher, mas ela havia desaparecido. Apenas o tap, tap, tap continuava, agora vindo de fora do vagão, se aproximando das portas abertas.
Ele nunca mais pegou o último metrô.
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