Bíblia dos Contos Proibidos.
21 O Relógio na Parede.
Ricardo morava sozinho em uma casa antiga que herdou de seus avós. O lugar era charmoso, mas havia uma coisa que o incomodava profundamente: um relógio de pêndulo antigo na sala de estar. O relógio não funcionava mais, e ele havia tentado se livrar dele várias vezes, mas sempre que o levava para fora, uma série de eventos infelizes aconteciam, forçando-o a trazer o relógio de volta para dentro. Carros quebravam, tempestades repentinas surgiam do nada, ou ele simplesmente se sentia tão mal que precisava voltar para casa. Ele havia aceitado que o relógio tinha que ficar ali.
Uma noite, ele estava assistindo TV quando ouviu um tic-tac suave vindo da sala. Ele congelou. O relógio não funcionava há anos. Ele se levantou e foi até a sala de estar, o som ficando mais alto e mais rítmico a cada passo.
Quando ele chegou, o pêndulo do relógio estava balançando lentamente, e o tic-tac era constante e alto. Mas o relógio não estava mostrando a hora certa; os ponteiros estavam girando rapidamente, sem parar.
Ricardo sentiu um frio na espinha. Ele tentou se aproximar, mas uma força invisível o empurrou para trás. O ar na sala ficou pesado e denso.
De repente, os ponteiros pararam de girar e apontaram para 12h00 em ponto. O pêndulo parou de balançar. Um silêncio ensurdecedor preencheu a sala, que foi quebrado por um grito agudo e inumano que parecia vir do interior do relógio.
A porta do relógio se abriu sozinha, revelando não o interior do mecanismo, mas uma escuridão absoluta. Dois olhos vermelhos e brilhantes apareceram na escuridão, e uma forma disforme começou a emergir.
Ricardo correu para a porta da frente, desesperado para sair, para fugir daquela coisa que o relógio havia invocado. Ele agarrou a maçaneta, mas a porta não abriu. Ele estava trancado dentro de sua própria casa.
O som do tic-tac recomeçou, agora mais lento, mais ameaçador. Ele olhou para trás, para o relógio, e a criatura havia saído completamente. Era alta, magra e tinha a pele cinzenta e enrugada. Ela se movia em um ritmo que combinava com o tic-tac do relógio.
"Você é pontual", a criatura sibilou, sua voz arrastada e cheia de malícia. "Achei que você nunca viria."
Ricardo nunca entendeu o que a criatura queria dizer. Ele apenas sabia que a partir daquele momento, seu tempo estava contado.
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