By your side
2 Silence before the storm
Notas iniciais
Silêncio antes da tempestade
O dia amanheceu nublado. As poças d’água ainda estavam nos arredores da academia, denunciando a chuva que caíra durante a noite. Embora o tempo estivesse fechado, ele estava relativamente fresco.
O barulho do despertador de Syo fez com que ele erguesse sua mão instintivamente procurando pelo objeto para desativa-lo, conseguindo fazê-lo depois de falhar em algumas vezes. Só então ele ergueu seu corpo lentamente, apertando seus olhos por um breve momento quando sua visão fora ofuscada pela luminosidade da janela. Mesmo tendo acordado sem problemas, não podia deixar de admitir que aquela não fora uma das melhores noites de sono que já tivera.
Quando a visão de Syo se acostumou com a claridade do cômodo, a primeira coisa que seus olhos foram procurar era Natsuki, que estava igualmente despertando. No entanto, quem estava ali era Satsuki. As esmeraldas gélidas logo se focaram nele, e assim que seus olhares deram de encontro, Syo automaticamente desviou seu olhar, podendo-se dizer que foi uma reação espontânea.
Satsuki veio a se levantar com a expressão fechada que sempre carrega no rosto. Os olhos azuis do menor continuaram a mirar qualquer outra coisa que não fosse o outro. Syo apertou os lábios com receio de que pudesse vir a escutar algo logo pela manhã sobre o ocorrido da noite anterior ou qualquer palavra agressiva por parte do mais velho como “Está olhando o quê?” seguido de uma má encarada, mas para seu alívio ele apenas guiou-se ao banheiro e bateu a porta de forma nem um pouco cuidadosa. Um longo suspiro foi como seu corpo reagiu àquilo.
Sem muita cerimonia o pequeno saiu da cama, começando a se trocar. O prazo para a entrega seria em cinco dias e a pressão da data estava pesando cada vez mais. Talvez, se não tivesse insistido em querer escrever algo diferente do que sempre faz, obviamente já teria acabado.
Pouco tempo depois Satsuki liberou o banheiro, dando vez à Syo para terminar de se arrumar enquanto ele se trocava. O clima entre os dois estava não só pesado, mas relativamente tenso. Não que ele esperasse alguma atitude receptiva por parte de Satsuki, porém, devido aos últimos acontecimentos, aquele silêncio incomodava mais do que o normal, além que o instigava puxar uma conversa aleatória. Apenas instigava.
Syo saiu do quarto, mas não antes sem pegar seu chapéu que o fazia sentir-se sutilmente mais alto. Pensou em esperar Satsuki, mas não aguentaria ficar naquele cômodo por muito mais tempo. Provavelmente seu nervosismo faria com que mais um de seus pensamentos saísse mais alto do que deveria.
Normalmente ele esperaria por Natsuki para que ambos saírem juntos. Mesmo não sendo sempre, havia vezes em que ele saía antes e acabava por ter que ouvir o drama do mais velho, que só parava depois que ele o compensava com fotos onde usava acessórios que só Deus sabia de onde Natsuki tirava. Ou quando, na pior das hipóteses, ele era recebido com alguma comida perigosamente fatal; só de imaginar lhe causava arrepios. Por um momento ele arriscou a pensar. Era difícil escolher e mais ainda era admitir, mas era melhor passar por mais uma sessão de fotos absurdas com Natsuki ou seus pratos que garantem um tour pelo inferno do que quinze ou mais minutos sozinho ao lado do Satsuki naquele humor.
Syo caminhou pelos corredores da escola observando com certa atenção os detalhes que cruzavam seus olhos. O silêncio e o vazio que tomavam os diversos locais da instituição transmitiam uma sensação de férias, mesmo que aquela falsa ilusão fosse uma vez ou outra rompida pela presença de um aluno aqui e ali. Sua vontade era escrever algo caloroso e estimulante, que contrastasse com aquele tempo nebuloso que insistia em rondear a academia. Por um breve momento sentiu uma fresta de nostalgia tocando um ponto de seu coração. Uma inspiração talvez? Sim, talvez.
Mesmo não se orgulhando, o mais novo conseguiu deixar de prestar atenção durante a aula de Hyuuga para escrever um verso ou outro. Syo nunca deixaria de prestar atenção no que seu ídolo falaria, adorava as aulas que tinha justamente por ele ser o seu tutor, mas preferia não arriscar perder o embalo dos pensamentos. O pior é que não estava gostando muito do que estava saindo no papel. Eram versos um tanto depressivos, tristes ou até mesmo agressivos, bem o oposto do que planejava fazer. Ele levou uma das mãos até o rosto, onde se apoiou nela. Ousou fechar os olhos por um instante e logo ali estavam elas, aquelas notas ecoando timidamente dentro de si.
Aquela música estava mais uma vez passeando em sua mente e um sorriso despercebido tomou forma em seus lábios. Era aquilo que almejava. Uma letra que preenchesse os sentidos de qualquer um que a ouvisse e que causasse uma sensação que fosse difícil de transcrevê-la em palavras. Estava tão disperso que mal notou uma voz que o chamava.
— Ei, baixinho... — sussurrou o saxofonista no ouvido do loiro, num tom um tanto provocativo, mas não menos sedutor com o timbre de sua voz.
Aquilo fez com que Syo saltasse da cadeira, corando, levando uma das mãos ao ouvido.
— R-Ren! O que você pensa que está fazendo?! E já te disse para não me chamar de baixinho! — no mesmo momento se surpreendeu com o fato de que a sala já havia sido dispensada para o intervalo e sequer notara.
— Eu te chamei outras vezes, mas você parecia estar em outro mundo, então precisei fazer algo para tira-lo desse transe. — ele sorriu dando de ombros, enquanto observava discretamente o papel que estava na mesa do menor — É uma visão rara essa. Você desatento em aula.
— E-Eu não tive uma boa noite de sono, nada demais. — Syo gesticulou com as mãos, tentando se justificar.
— Entendi. Neste caso é melhor tomar cuidado se vai ficar assim a ponto de perder a noção das coisas que acontecem ao seu redor. De qualquer forma, eu também não tenho muito tempo para ficar aqui. Neste momento há belas damas esperando por mim. — Ren passou a mão entre as mechas loiras enquanto abria um sorriso cativante, dirigindo-se à porta.
— ... Vá até elas então, e obrigado por me avisar. — agradeceu ao outro que fez um sinal com a mão, provavelmente querendo dizer que “não foi nada”.
Pouco antes de sair da sala, Ren parou na porta da mesma, voltando seu olhar ao mais novo.
— A propósito, se estiver com problemas de inspiração, saiba que as jovens desta academia são inspirações muito promissoras. — deu um ar sinuoso àquelas últimas palavras — Se precisar de alguma recomendação é só pedir. — concluiu, piscando com um sorriso pervertido nos lábios. Claro que estava a brincar propositalmente com os sentidos daquelas palavras, não podia negar que se sentia tentado a provocar o loirinho, que reagiu corando.
— O-O que você está dizendo? Não preciso desse tipo de inspiração! — retrucou um tanto que nervoso, mas depois se questionou do porquê dele ter tocado naquele assunto.
— Haha, estou brincando. Apenas procure por uma pessoa que lhe inspire. Uma especial. — fez uma pausa — Apenas não deixe que ela descubra. — Ren riu, não conseguindo deixar de pensar naquela pessoa.
— Huh?
— Oh, não é nada. Boa sorte. — acenou e logo partiu da sala.
Se inspirar em alguém... ele já havia cogitado aquela opção, porém todas as outras músicas que já havia escrito fizera com base em uma pessoa, e se aquilo fosse a solução não estaria naquele barco. Logo se lembrou de que era o intervalo e não sabia quanto tempo ainda restava. Isso o fez correr para a lanchonete.
A fila não estava grande, embora um pouco movimentada. Aparentemente ele não perdeu muito tempo como havia pensado. Depois de ter pegado um prato leve e um suco, ele avistou Otoya sentado em uma das mesas não muito longe, que no mesmo instante ergueu o braço chamando por ele. Bastou alguns passos e ele havia chego até o ruivo e sentou-se junto a ele, estranhando o fato dele estar ali sozinho.
— Nossa, por um instante achei que seria o único que viria para lanchonete! — sorriu Otoya animado pela presença do outro.
— Único? Ah, eu ia perguntar isso, por que você está sozinho hoje?
— Bem, o Masa preferiu passar o intervalo na biblioteca, acredito que ele não tenha terminado a composição dele ainda. Nanami e Tomochika quiseram passar o intervalo no terraço e, Natsuki... Bem... — fez uma expressão pensativa com um leve ar confuso, tentando achar palavras para explicar para o menor.
Ouvir o nome do companheiro de quarto e a reação de Otoya, fez com que ele erguesse seus olhos em meio às garfadas. Um frio cruzou-lhe o estômago. Considerou a possibilidade de que Satsuki resolvera ir à na aula no lugar de Natsuki, e tenha causado algo. Não duvidaria que algo do gênero poderia ter acontecido, aumentando a sensação que o afligia.
— Aconteceu algo? Por um acaso ele estava sem os óculos? — Syo perguntou hesitante e já lançando a pergunta que ou lhe acalmaria ou apenas reforçaria aquela sensação desconfortável.
— Ah, calma! Desculpe, não foi nada sério! Ele está bem, mas como eu digo... — fez uma pausa — Hoje ele estava muito quieto e parecia um tanto diferente, além que no dispensar do intervalo ele saiu tão rápido da sala que mal notamos e… Ele estava de óculos, por quê?
Embora Syo soubesse a razão pelo qual Natsuki estava daquele jeito, não tinha muitas coisas que ele poderia fazer sem ter que tocar naquele assunto. O pior é que se culpava por aquela situação.
— Não é nada, só pra saber mesmo. — forçou um sorriso.
Não era uma visão comum ver o outro que é sempre cheio de humor e com um rosto sereno ou às vezes besta de tão sorridente, se distanciar do outros. Optou por esperar um pouco antes de agir. Talvez apenas o que Natsuki precisava era de um tempo para colocar as coisas em ordem dentro si.
— Mas eu já planejei algo para ele junto com a Nanami nesta tarde, então certamente ele vai se animar! — Otoya sinalizou com o polegar e abrindo um sorriso.
Ambos ficaram a conversar no refeitório a respeito de suas composições e assuntos aleatórios. Mesmo Otoya compartilhando a mesma pressão que ele, o ruivo continuava energético e cheio de assuntos. Admirava aquilo nele. O tempo passou rápido e a boa conversa entre eles reforçou essa sensação, logo os dois precisaram estar de volta às suas respectivas salas.
Não muito tarde, o segundo período de aula acabou. É um hobby dos ponteiros do relógio resolverem brincar com tempo como eles bem entendem. Syo organizou suas coisas e tomou rumo ao seu quarto. Quando entrou no cômodo ele estava vazio. Com certo desanimo, tirou o chapéu, deixando-o no cabideiro próximo à cama. Estava indo se sentar na cadeira perto da janela, quando seu celular tocou.
Olhou o nome no visor, ficando um pouco surpreso, atendendo logo em seguida. Antes que pudesse pronunciar qualquer palavra, a voz do outro lado da linha tomou-lhe a iniciativa.
— Syo-chan! Está tudo bem? — disse aquela voz cheia de preocupação.
Quantas e quantas vezes já não ouvira aquela sequência de palavras antes? Mas não podia culpar seu irmão mais novo por se preocupar com ele.
— Kaoru, calma... Eu estou bem. — respondeu, tentando acalmar os ânimos do mais novo. Ele sabia que aquele “está tudo bem?” não era a uma pergunta rotineira de uma conversa, mas sim de outro sentido. — E você, como está?
— Num ritmo um pouco apertado... Estamos no começo de um período de avaliações, mas nada muito complexo. — soltou uma leve risada.
— Hah, sendo você sei que vai conseguir ir bem nessas provas. Aqui ainda não é época, mas estamos com uma composição meio complicada para entregar.
— Parece que está tendo problemas com ela. Geralmente você não tem muitas dificuldades para compor.
— É... Quis tentar algo diferente dessa vez, mas já estou conseguindo algum progresso.
Syo não queria ficar relatando muito de suas dificuldades vendo que seu irmão mais novo parecia estar igualmente numa. Kaoru estava estudando para ser médico, então ele podia imaginar as possíveis dificuldades que o irmão poderia estar passando.
— Kaoru? — perguntou, após um curto silêncio na linha que demorou ligeiramente para ser quebrado pelas palavras do outro.
— Ei... Está tudo bem mesmo? — perguntou novamente dando uma pausa — Ontem eu me senti aflito, como das outras vezes. Não consegui deixar de pensar que, você...
Aquilo nunca deixava de surpreendê-lo. Era como se Kaoru tivesse um radar de longa distância que podia detectar seus problemas de saúde, não sabia ele dizer se isso se dava ao fato de serem irmãos gêmeos ou algo do gênero. Além que Kaoru sempre fora super protetor com ele, e justamente por isso preferiu não comentar com ele sobre o que houve.
— Não precisa se preocupar, não aconteceu nada. Se algo vier a acontecer eu ligarei. Então não pense nisso e mantenha o foco nos estudos, ok?
— ... Ok, mas me ligue se sentir qualquer coisa, promete? — insistiu.
— Prometo.
Uma voz do outro lado da linha clamou por Kaoru com certa urgência, que logo teve de desligar. Syo sentia-se uma pessoa de sorte por ter o irmão que tinha, embora achasse que ele quem deveria estar cuidando de Kaoru, algo como o dever do mais velho.
Após ter desligado o celular, Syo fitou os papeis e revirou os olhos. Não estava mais com vontade de escrever ou sequer de tentar nada, chegou a pensar em dar um dia de folga para o próprio cérebro, mas e se esse dia viesse a lhe custar lá na frente? Pior seria continuar com aquela cobrança mental e nada sair.
Ele ficou por uns instantes ali de pé. Não queria compor, queria fazer outra coisa, uma que ele sabia muito bem. Estava incerto de fazê-lo, mas a tentação estava queimando em seus dedos. Uma voz bradava insistentemente de curiosidade dentro si, suplicando por aquilo, pelo tocar. Por aquelas notas. Por aquela música.
Seus olhos azuis voltaram-se à porta. Natsuki não voltaria para o quarto, não tão cedo. Uma vez que Otoya planejou algo com ele, obviamente iria levar tempo até que retornasse ao cômodo. Mesmo não havendo razões para hesitar, não negava o nervosismo que o preenchia.
Embora um pouco inseguro, Syo foi até a cômoda e ali abriu uma das gavetas onde tirou a case de seu violino, apoiando-o gentilmente na cama. Ele colocou os polegares sobre os fechos e respirou fundo, só assim então os abriu. Syo levou o instrumento sobre o ombro esquerdo, ajeitando seu rosto na queixeira, posicionando os dedos e juntamente erguendo o arco às cordas, fechando os olhos lentamente no mesmo instante. Naquele momento ele tentou se recordar e reconhecer as notas da melodia que ouvira no dia anterior, não era a primeira vez que tirava uma música por ouvido, porém, o fato de tê-la ouvido apenas uma vez tornava-a um desafio maior do que as outras.
Agora um pouco mais confiante, ele encheu o peito e deslizou o arco sobre as cordas produzindo um contínuo som que ecoava por dentre aquelas paredes. Sua mão conduzia-o com certa cautela. Estava incerto sobre algumas notas, mas mesmo com a diferença, a reprodução estava de certo modo similar.
As diferenças de suas notas comparadas a original o convenceu de recomeçar, tentando dessa vez acertar as notas que antes ele errara. O passear do arco sobre o instrumento foi bem mais natural e espontâneo, o que deu uma melhor entonação às notas reproduzidas por ele. Um sorriso satisfeito abriu-se em seu rosto. Seu corpo começou a se movimentar sutilmente enquanto tocava, deixando-se levar por aquela sensação de contentamento. Ah, se dependesse dele, passaria o dia ali tocando. Havia algo naquela música que o instigava a querer tocá-la mais e mais, como um vício. Arriscava a dizer que se sentia um pouco mais inspirado a escrever depois de tocá-la.
No entanto, um barulho o interrompera, fazendo-o parar no exato segundo. O barulho provindo do banheiro de alguma embalagem que caíra no chão o fez arregalar os olhos celestes. Sentiu um frio imenso no estômago seguido de um arrepio que lhe percorreu o corpo quando entendeu a própria situação. Vagarosamente e em total silêncio pôs o violino dentro da case, fechando-a. Podendo ouvir baixos múrmuros vindo do banheiro. Aproximou-se com todo e maior cuidado da porta que ligava o quarto ao outro aposento. Ouvindo – embora baixos e contidos – soluços provindos do outro lado da porta.
Natsuki estava dentro do banheiro. Ele estava lá o tempo todo, ouvindo cada nota reproduzida em silêncio. O menor ficou inquieto, confuso e sem reação. Satsuki quase o batera por aquela música e agora Natsuki chorava por causa dela. Não estava mais a entender nada, mas uma coisa era certa: ele tinha de entrar e intervir o outro de tirar os óculos. Se Satsuki aparecesse, sem sombra de dúvidas ele explodiria, e bem provável que iria fazer jus a suas palavras da noite anterior.
Syo ergueu a mão em direção à maçaneta da porta, estava prestes a tocá-la, mas não o fez. Provavelmente estaria trancada, e sem muitas dúvidas, Natsuki não a abriria. Juntou a pouca coragem que tinha e até mesmo a que não tinha naquele momento e segurou hesitantemente a maçaneta, tentando abri-la.
Estava trancada.
Syo não se surpreendeu com o fato, porém agora tinha de pensar em algo para consertar aquela situação. Algo que tirasse Natsuki de lá. Algo que pelo menos corrigisse o mínimo que fosse aquele estrago. Ele apertou os lábios e depois respirou bem fundo, aproximando seu rosto à porta, quase apoiando a testa na mesma. Deixou então que sua voz confusa e incerta saísse.
— Natsuki...?
O silêncio total perdurou dessa vez. Não houve resposta ou soluços contidos. Nada. Teria Satsuki saído? Pensar na possibilidade o fez dar uns passos para trás da porta, se isso realmente tivesse acontecido, precisaria estar mais do que preparado para sair correndo do quarto. Preparado para o pior. Não sabia o que dizer ou o que fazer diante daquela situação, não havia como ele já estar lá às lagrimas antes dele entrar no quarto, certamente ele teria escutado. E era obvio que apenas um pedido de desculpas não resolveria aquilo. Acima de tudo ele estaria se desculpando sobre o quê? Não fazia sentido. Aquilo o fez tentar mais uma vez, arriscando-se novamente o aproximar da porta.
— Natsuki eu sei que você está aí... Eu... — pausou, pensando no que dizer, apoiando uma das mãos sobre a porta — Olha, eu não sei ao certo o que eu fiz, mas posso dizer que se você está aí dentro desse jeito, foi por minha causa... — cerrou os punhos.
Embora o outro sempre viesse a tratá-lo no limite, sempre estava ali tentando ajudá-lo. Mesmo, às vezes, sendo da forma mais impossível, bizarra ou assustadora, ele estava lá. Syo prezava muito a amizade que tinha com Natsuki. Muito mesmo. Pensar que as condições do outro se davam devido a um mero capricho egoísta dele fazia a culpa pesar muito mais do que deveria.
— Eu não espero que você me perdoe assim, mas... Saiba que eu vou estar aqui. Mesmo se não quiser falar comigo ou o que for. Eu vou estar aqui. Apenas não fique trancado aí, isso me preocupa... — murmurou cabisbaixo. Claro que ele temia que Satsuki aparecesse em algum momento lá dentro, mas temia igualmente o fato de que Natsuki estava lá dentro sozinho daquele jeito.
O barulho da tranca da maçaneta ecoou pelo quarto. Syo se afastou da porta. Natsuki ou Satsuki? Qual dos dois estaria por trás daquela porta? Ou as palavras dele chegaram ao outro ou foram totalmente ignoradas. Seu coração batia cada vez rápido, receoso do que poderia lhe acontecer. No entanto, ao contrário do que pensava, a porta não fora aberta. Apenas destrancada.
— ... Não é sua culpa, Syo-chan... — Natsuki balbuciou com uma voz chorosa e abafada pela porta que separava os dois. Ele sabia que o pequeno realmente não tinha culpa, mas não conseguia conter as lagrimas que se originavam daquele sentimento que parecia não ter fim.
Ouvir aquele tom de voz fez doer um pouco dentro do baixinho, mas também o fez se sentir mais calmo. Naquele momento, ele queria abrir a porta, olhar nos olhos esmeraldas do outro e conversar com ele. Consertar seu erro estando frente a frente dele. E foi o que fez. Abriu a porta lentamente, aumentando aquela fresta que gradativamente mostrava o outro lado do aposento e revelando uma alta silhueta que estava bem diante da porta, logo ali de pé de ombros encolhidos.
Natsuki estava com lágrimas ainda traçando caminhos por aquele rosto abatido. Suas lentes estavam molhadas e em alguns pontos embaçado. Syo surpreendeu-se por ver que mesmo naquele estado, o outro não havia tirado os óculos, mas mais ainda por vê-lo naquele estado.
Syo fitou aqueles olhos úmidos por trás das lentes, embora não conseguiu mantê-los em foco por muito tempo, desviando o olhar para algum canto inferior.
— É claro que foi. Se não fosse, você não estaria assim. — o pequeno retrucou tentando não deixar que o outro tomasse a culpa para si próprio.
— Eu juro que não é... Eu só preciso de um tempo para conseguir esquecer tudo isso... E então tudo vai voltar a ser como era antes, ok? — ele limpou uma de suas maçãs com o dorso da mão, enquanto abria um sorriso obviamente forçado.
— Não, não está nada “ok”!
Talvez Natsuki conseguisse esquecer, mas ele não. Depois de tudo o que já havia acontecido e principalmente aquele rosto com aquela expressão à sua frente, como poderia esquecer e agir como se não fosse nada? Que amigo poderia aceitar isso? Não tinha como engolir aquilo, ainda mais com o sentimento de culpa que pesava – agora ainda mais – sobre suas costas.
— Eu sei que pedir desculpas não vai adiantar muito, então... — ele levou uma das mãos aos cabelos, roçando a ponta dos dedos entre as mechas, inseguro das próprias palavras.
Syo provavelmente iria se arrepender futuramente por aquelas palavras, mas aquilo não importava naquele momento. Não mesmo. Era o mínimo que podia fazer, ele não via muitas outras coisas que poderia oferecer.
— ... Syo-chan...? — Natsuki chamou o outro que, no mesmo instante respirou fundo e ergueu os olhos sérios com o rosto corado apontando para ele.
— O-Ouça...! E-Eu deixo você tirar quantas fotos quiser de mim com todas aquelas coisas que você insiste em chamar de fofas. Usarei aqueles costumes estranhos que você sempre compra dizendo que ficaria perfeito em mim. Posso comprar todas as versões do Piyo-chan até lotar a sua parte inteira, e até mesmo comer sua comida todos os dias! — ele estava mais incrédulo do que perplexo pelo que acabara de dizer, na verdade, nervoso só de pensar — Embora não acho que meu estômago vai durar tanto tempo... — sibilou, revirando os olhos, baixando a mão que antes estava erguida. Voltando seus olhos com uma sombra de culpa à Natsuki — mas... Apenas se você resolver de vez isso que te aflige tanto. Não apenas empurrar pra debaixo do tapete e agindo como se não fosse nada. Talvez você consiga voltar como antes, mas... Não tem como eu fingir que nada disso aconteceu.
Syo não queria ter que tocar no assunto da música demonstrando que sabia de algo, até porque daria trabalho explicar alguns fatos. E se fosse para agir como se soubesse, que fosse através do que o próprio de óculos contasse.
Natsuki entendera muito bem que o outro estava tentando animá-lo e, não era como se as palavras de Syo não fossem verdade. Ele apenas não queria preocupá-lo com coisas desnecessárias. O que era uma mentira. No fundo ele sabia o porquê nunca contava dos próprios problemas – os mais sérios – a ninguém. O porquê ele sempre preferia se fechar no próprio mundo tentando lidar com tudo sozinho. Sim, ele sabia, principalmente se tratando daquele assunto que só de pensar lhe doía a ponto de querer sumir. Mesmo ele gostando muito de Syo e confiando nele, se tratando daquilo, não podia negar que se sentia com o pé atrás. Inseguro. Porém pela primeira vez, talvez, ele estava disposto a cruzar aquela linha que ele mesmo havia traçado para si próprio, não conseguindo conter um tímido sorriso em seus lábios. Em seguida se aproximou do menor, envolvendo-o num abraço, surpreendendo Syo.
— Na-Natsuki?
— Obrigado Syo-chan... De verdade, obrigado. — naquelas últimas palavras ele apertou um pouco mais forte o pequeno, mas gentilmente. Curvando-se quase o máximo que podia, apoiando o rosto naquele baixo ombro, deixando seus braços envoltos naquelas costas pequenas com suas mãos nas omoplatas do violinista.
O coração de Syo por um instante bateu mais forte, fazendo com que suas maçãs corassem levemente. Ver Natsuki em seu ombro daquele jeito o fez se sentir de alguma forma estranho. Nervoso. No entanto, não pôde deixar de franzir o cenho, fazendo uma expressão estranhamente engraçada quando notou o quanto o outro havia se inclinado para ter apoiado a cabeça em si. Ele definitivamente precisava crescer um pouco mais, foi o que pensou.
— Há alguns anos atrás, eu também tocava violino...
— Huh? — Syo surpreendeu-se com a iniciativa repentina por parte de Natsuki, e igualmente por ele nunca ter mencionado aquilo antes.
— Nunca me esqueci de como foi à primeira vez que o ouvi ser tocado. Como fui cativado por aquele belo timbre quando criança. Foi como magia. Naquele momento, eu havia me decidido em me tornar um violinista e então meus pais logo me colocaram numa escola de música... — ele respirou fundo, estremecendo quase que despercebidamente enquanto juntava coragem para prosseguir. Syo percebeu que Natsuki estava desabafando em seu ombro, por isso preferiu manter-se em silêncio, não o interrompendo — Lá eu fiz bons amigos, aprendi coisas maravilhosas e também, conheci aquela pessoa. — não conseguindo deixar de segurar com mais força o tecido da camiseta do pequeno.
— Aquela pessoa...? — Syo questionou cautelosamente, lembrando-se das palavras de Satsuki quando havia vociferado “aquela mulher”.
— Sim... A minha... Ex-professora de violino. Ela era uma mulher gentil, atenciosa, com uma presença irradiante e sempre com um sorriso no rosto... Era fofa assim como Syo-chan ou a Haru-chan...
— E-Ei! — ele acabou exclamando pela força do hábito, além de achar que aquele comentário estava um pouco fora do contexto da conversa. Era dispensável.
— Todos a admiravam e a respeitavam. Era a melhor professora que qualquer um de nós poderia ter. O destino sorriu para mim quando vi que ela era minha tutora, ao menos, foi o que pensei... — sua voz tremulou ao fim da frase, como se a qualquer momento pudesse vir a falhar — Um dia eu resolvi demostrar minha gratidão a ela, e então compus uma música com todo meu esforço, do fundo do meu coração e da minha alma.
Conforme o mais velho proferia cada palavra, mais elas soavam abatidas. Era um mix de tristeza, arrependimento e angustia. O estremecer de seu corpo era cada vez mais evidente, o que preocupava Syo com o desenrolar daquilo tudo. Saber que ela iria piorar.
— Poucos dias depois, o nome dela estava em diversos lugares. Sua reputação se tornou tão grande, que ela não viu porque continuar naquela pequena escola de música. E então saiu... Sem ninguém deixar de falar sobre sua última música... — Natsuki completou, se esforçando para conter tudo aquilo de novo. As memórias e os sentimentos estavam dilacerar seu coração, podendo sentir seus joelhos fraquejarem em meio a tanto nervosismo e dor.
— Espera...! Não me diga então que essa música é...
Antes que pudesse terminar a frase, Syo sentiu um esquentar em seu ombro, o tecido de sua camisa molhar e logo se alastrando rapidamente por aquela região. Assim estava o amigo chorando, sem conter quase absolutamente nada, ao seu lado, engomando o tecido da camisa do pequeno o máximo que podia com suas largas mãos.
Syo não sabia dizer se doía mais vê-lo naquele estado ou ouvi-lo. Ele não fazia ideia do que dizer. A única certeza que tinha era que o melhor que podia fazer era deixá-lo colocar tudo para fora. No entanto, era difícil aguentar aquela cena. Não pensava que uma das coisas que mais poderia vir a detestar seria ver o outro naquele estado. Ele ergueu as mãos lentamente e inseguras, levando uma delas aos cabelos de Natsuki, enquanto a outra se apoiava nas costas dele numa tentativa de confortá-lo. O pequeno roçou a mão nas costas do outro que tremiam constantemente, era um meio dele dizer em silêncio para que ele colocasse tudo para fora.
Num instante os sons de choro provindos de Natsuki cessaram, assim como qualquer reação por parte dele. Seu corpo não mais tremia e suas mãos soltaram a veste de Syo, embora ainda se mantivessem apoiadas nas costas do mesmo. Ele estava imóvel; foi como se algo tivesse quebrado. Não era possível ver muito de seu rosto devido às mechas douradas que estavam caídas sobre ele. Aquilo fez com que Syo tirasse os braços de Natsuki, baixando-os completamente, deixando seus olhos preocupados se focar no pouco que conseguia ver do rosto do mais velho. Teria sido melhor não ter o deixado desabafar? Não esperava que tal resultado pudesse vir a ocorrer. O nervosismo começou a se acumular na garganta do mais novo, fazendo com que uma sensação inconfortável tomasse seu peito. Definitivamente ele não servia para consolar as outras pessoas.
Quando Syo estava a ir chamar pelo nome do outro, Natsuki levantou o rosto daquele pequeno ombro, erguendo seu corpo. Parte de seu cabelo ainda cobria seu rosto, principalmente seus olhos. As lagrimas que antes estavam nas lentes, caíram e traçaram novos caminhos por aquela superfície que não havia demonstrava nenhum lapso de expressão. Podia-se notar que suas lentes estavam embaçando, provavelmente estavam próximas demais daqueles olhos cuja pele estava úmida. Ele, literalmente, parecia ter quebrado.
Depois de um silêncio monótono entre os dois, Natsuki ergueu singelamente o rosto, levando as mãos aos ombros de Syo, segurando-o enquanto o empurrava até ele estar contra a parede, ao lado da porta, apertando com certa força o braço do violinista.
— E-Ei, Natsuki o que houve? — Syo questionou, estranhando nas atitudes do outro que deu uma pausa antes de responder.
— Não importa o que ele diga… Não muda o fato de que você me desafiou. — ele murmurou num tom sério, enquanto segurava com mais força o ombro de Syo — Eu te avisei para não se intrometer, Chibi. — Satsuki completou, erguendo totalmente seu rosto. Suas lentes foram pouco a pouco desembaçando-se, revelando um olhar gélido e áspero com ódio por trás delas. O olhar que o outro conhecia muito bem, fazendo-o empalidecer.
— Sa... tsuki...? ... Por quê...? — ele arregalou os olhos, incrédulo pelo que via. Suas palavras saíram tão baixas como se fossem desaparecer antes mesmo de serem ditas. Ele podia sentir a palidez corroer seu rosto ao mesmo que uma vasta confusão dominava seus pensamentos e o medo se apossava de seu coração. Por que raios Satsuki estava lá se os óculos ainda estavam em seu rosto? Não entendia, não conseguia entender, estava perplexo demais para conseguir pensar em qualquer suposição plausível. Seus olhos azuis miravam intensamente aqueles olhos frios. A imagem de Natsuki com a expressão de Satsuki refletida em sua íris parecia estar sendo cravada os mais profundo que podia.
— Está feliz agora? Machucando-o de tal forma e ainda o fazendo cutucar a cicatriz que mais lhe foi profunda? Você está satisfeito agora?! — ele vociferou cravando os dedos nos braços de Syo.
— M-Me solta Satsuki! Você está me machucando! — Syo tentou relutar, embora em vão, sentindo uma forte sensação que o incomodava deixando-o inquieto — Eu não fiz por querer e Natsuki quem quis me contar tudo, e-eu não o forcei a nada!
— Tch, agora ainda está querendo fugir da culpa?! Você só pode estar de gozação com a minha cara! — ele logo levou uma das mãos à camisa de Syo, segurando-a, enquanto mostrava o punho cerrado para o outro. — Eu vou mostrar pra você o que acontece àqueles que desobedecem a um aviso, principalmente se o Natsuki estiver envolvido! — e assim ele ergueu o punho.
O coração de Syo batia forte, tão forte que ele podia o ouvir nitidamente. Doía. Sua respiração estava ficando pesada e ao mesmo tempo se sentia cada vez mais inquieto. Ele precisava sair dali. Se ficasse mais tempo exposto a Satsuki, ele sabia que estaria em sérios problemas, e não era por conta da surra que ele estava prestes a tomar. Seu corpo tremia continuamente, sentindo o fraquejar em suas pernas no pior momento possível.
Quando o mais alto estava ir a disparar o primeiro golpe, Syo usou toda a força que tinha e com certo trabalho, de forma abrupta, se livrou da mão que o segurara, correndo por entre a porta que ligava os aposentos. Ele respirou fundo. Foi um grande progresso ele ter saído do banheiro e uma sorte extrema ter escapado de Satsuki, apenas precisava sair do quarto agora.
— CHIBI! — esbravejou Satsuki saindo em disparada do banheiro. Ele estava muito mais além do que furioso.
Ao ouvir o grito do outro, Syo sentiu um arrepio percorrer lhe o corpo. Ele estava próximo à porta, apenas há alguns passos, porém antes que pudesse tocar a maçaneta, Satsuki o agarrou pela camisa por trás, lançando-o na cama de Natsuki. Mesmo sendo arremessado com certa brutalidade na mesma, o colchão e as pelúcias dali amorteceram sua queda. Logo quando se recuperou, rapidamente procurou por Satsuki que estava indo de encontro com ele com o punho em forma. Os reflexos de Syo não lhe permitiriam escapar, não àquela altura.
Satsuki lançou um soco em Syo, que fora abrandado pelo travesseiro de Natsuki que ele tentou usar como escudo, embora um tanto inútil porque ele não pôde conter um grito de dor. O mais velho franziu o cenho não se contentando nem um pouco com a atitude do loiro, que estava a pouco agonizar com o golpe que desferira nele. Com isso ele recuou um pouco, indo disparar um segundo golpe, dessa vez com mais força.
Syo amaldiçoou aquele travesseiro, xingou-o mentalmente de quase todos os palavrões que lhe surgiam na cabeça. Ele contava que ele seria mais útil para amortecer o impacto que o acertou em seus antebraços. Estava doendo muito, mas era certeza de que nada estava fora do lugar. A pressão em seu peito estava cada vez mais forte. Era nauseante. Praticamente como se sua cabeça fosse explodir com aquilo.
Quando baixou o travesseiro, viu o que o outro estava indo acertá-lo novamente. Ah... Se ele levasse mais um daqueles seria possível que agora resultaria num dano consideravelmente alto, por isso veio a arremessar o travesseiro na cara de Satsuki, seguido de todos os bichos de pelúcias próximos de si. Sim, ele estava desesperado. Ao notar uma pequena brecha para sair da situação em que se encontrava coagida, ele saltou da cama, passando miraculosamente pelo outro.
Um sorriso vitorioso tomou forma em seu rosto. Agora sim podia vir escapar daquele quarto e então se acalmar. Ao menos era o que pretendia. Uma dor latente e aguda perfurou seu peito, fazendo-o levar a mão ao tecido que estava sobre o peito, segurando com desespero, perdendo o fôlego. Seus sentidos começaram a falhar de uma só vez. Não conseguindo mais correr, virou para trás, tentando localizar Satsuki, sua visão estava desfocando e com isso estava lutando para manter seus olhos abertos.
Satsuki que estava logo atrás de Syo vira ali uma chance, pôs a lançar um golpe em direção ao rosto do menor. Ele errou, mas não por falta de mira. Antes que o pudesse acertar, Syo caiu sobre o peito dele, deslizando por aquele tecido. Ele não conseguia mais se manter de pé. Imediatamente Satsuki o agarrou pela gola da camisa, estava prestes a explodir as palavras que estavam em sua garganta quando se surpreendeu com a forte palidez no rosto do outro, assim como com a irregular e pesada respiração do mesmo.
— Ei, Chibi! — chacoalhou o outro que parecia que iria perder a consciência a qualquer momento. Não podia negar que aquela visão o preocupava, mesmo que minimamente.
Syo demorou para responder. Estava difícil de respirar, de pensar, de falar. Tudo. Ele via os lábios de Satsuki se mexerem, mas não conseguia decifrar aquelas palavras, não fazia ideia do que o outro poderia estar falando. Certamente estaria gritando com ele e o xingando por ter fugido dele ou algo haver com Natsuki, pensou. Era como se aquela voz não fosse alta o bastante para que ele pudesse ouvi-lo. Bem quando tentou pronunciar algo, sua visão embaralhou-se em meio à falta de ar, não conseguindo evitar de desfalecer nos braços de Satsuki.
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