Notas iniciais
Sim, depois de quase um mês estou finalmente atualizando a história... Desculpa! ;A; Omg, e dessa vez ele ficou extremamente grande (de novo)... Esse final de semestre não foi fácil pra mim e o trampo não ajudou muito quanto a minha disposição para escrever oTL Recomendo fazer uma pausa de leitura nos " ~ ♫~ " para não ficar muito cansativo, há dois deles em meio ao texto. Apenas queria lembrar que "sensei" também é um termo utilizado para médicos e algumas profissões específicas. Boa leitura :3

Tempo chuvoso

A cortina dançava com cada brisa que passava pela janela. Os apitos provindos do monitor cardíaco ecoavam constantemente por aquele quarto branco, indicando um quadro estável.

Syo abriu os olhos lentamente. Estavam confusos em primeiro instante, piscou duas vezes, virando o rosto sutilmente para o lado direito ao sentir uma leve corrente de ar bater-lhe no rosto; estreitando sua visão no momento em que seus olhos se encontraram com a janela. Seus sentidos ainda estavam um pouco atordoados, mas logo reconheceu aquelas paredes e o cheiro cujo qual já estava familiarizado.

Estava mais uma vez no hospital.

Já fazia um tempo desde a última vez que acordou naquela cama. Sua memória estava desorganizada, na verdade uma bagunça total que provavelmente se dava ao efeito do soro que estava a tomar. Ao tentar se movimentar na cama, seu braço acabou por esbarrar em algo, fazendo com que erguesse seu rosto para verificar o que era. Assim que reconheceu que aquele “algo” na verdade era a silhueta de uma pessoa deitada sobre os braços ao seu lado, a mesma ergueu seu rosto rapidamente, voltando seus olhos com certo desespero aos olhos dele.

— Syo-chan! — disse Kaoru surpreso ao vê-lo acordado, levantando-se da cadeira de forma desajeitada — Você está bem? Está sentindo algo? E-Eu vou chamar o médico! — sua preocupação era tão intensa que suas palavras atropelavam umas às outras.

— Espera, eu estou bem Kaoru, fique calmo. — Syo sorriu, tentando acalmar um pouco o irmão, que ao ouvir aquelas mesmas palavras franziu o cenho, deixando nitidamente claro em sua expressão a aflição mesclada com insatisfação que sentia.

— Não, não está nada bem... — Kaoru acalmou o tom, sentando-se novamente. Estava tenso. Manteve seus olhos mirando as próprias mãos que estavam apoiadas em suas pernas, refletindo no que dizer — Você mentiu para mim, não foi?

— Huh?

— Não me faça “huh”. — ele estava realmente chateado — Quando te liguei ontem você falou que estava tudo bem, que nada havia acontecido, falando como se o pressentimento que eu tive foi falso. Sendo que na verdade foi que você teve um ataque, não foi?

Syo não conseguiu responder de imediato, desviando o olhar de Kaoru. Ele sabia que não deveria ter mentido sobre aquilo, mas certamente se tivesse comentado, Kaoru iria fazê-lo passar o dia no hospital realizando exames e fora que ele não esperava que no mesmo dia fosse ter uma crise. O fato de o irmão ter mencionado que havia o ligado no dia anterior significava que ele passou um dia dormindo no hospital, foi uma conclusão que não o agradou muito.

O mais velho respirou fundo, tentando se justificar — Não foi exatamente um ataque... Foi apenas uma falta de ar durante a madrugada, não foi nada muito grav—

— Nada grave? — ele o interrompeu com um tom amargurado, erguendo os olhos para o irmão — Então por que não me contou? Por que ocultou isso? Já falei pra você não mentir sobre esse assunto pra mim! — pausou — Você não sabe como foi receber uma ligação da Academia dizendo que você estava sendo encaminhado para o hospital e que estava em péssimas condições...! — sua voz quebrou no final da frase, não conseguindo conter o lacrimejar em seus olhos — Chegar aqui... e ver os médicos desesperados tentando acalmar sua arritmia, que parecia não querer ceder a nenhum recurso... — Kaoru cerrou os punhos, encolhendo os ombros, escondendo o rosto — T-Ter que ouvir... que o pior poderia acontecer...

Syo arregalou os olhos com aquela declaração. Não imaginava que a crise que tivera havia sido tão forte. Agora ele entendia o porquê o outro estava tão irritado quanto ao incidente, e sabendo daquilo agora apenas o fazia se sentir pior. O motivo pelo qual Kaoru sempre fora super protetor com ele, era porque ele temia de que algo acontecesse e que o destino resolvesse tomar-lhe a vida, deixando-o sozinho.

— Desculpe... — Syo encolheu-se, não sabendo o que dizer para expressar o quão mal estava se sentindo.

— Apenas não faça isso de novo. Nunca mais. Você sabe o quanto eu me importo com você... — ele limpou o rosto, retomando a compostura — Vai me contar pelo menos o que houve?

— Ah, isso... — Syo ergueu os olhos, mirando um ponto fixo do quarto enquanto tentava se lembrar com dificuldade o que fazia antes de parar deitado ali.

Algumas partes vinham como flashbacks, sendo difícil afirmar a ordem delas, mas logo ficou claro a ligação entre elas, fazendo com que o pequeno lembrasse tudo. Ele não queria mentir novamente para seu irmão, mas também não queria contar o que houve, sua sorte foi que bem naquele momento o médico entrou no quarto, interrompendo a conversa entre eles.

Sua aparência era de uns 50 anos, os sinais de idade em seu rosto davam a dizer isso, sem mencionar os fios brancos que se destacavam entre as mechas pretas. Reforçando a experiência e responsabilidade que sua imagem transmitia.

— Vejo que acordou em boas condições. — o médico afirmou, enquanto se aproximava da cama do mesmo.

— Ah, Sakurai-sensei. — Syo recepcionou-o com um sorriso — Se estou é graças ao senhor.

— Boa tarde. — cumprimentou Kaoru.

— Boa tarde, Kaoru. — ele parou ao lado da cama do loiro mais velho, inclinando sua cama até que ele ficasse sentado. Com certa lentidão ele repousou as mãos dentro dos bolsos de seu jaleco branco — É... Dessa vez esse seu coração deu um susto em nós, mas nada que esse velho aqui não conseguiu domar. — encheu o peito enquanto ria.

— Nossa sorte é que o senhor atende o Syo-chan desde que a primeira crise que ele teve quando criança. Logo, diria eu que o senhor conhece todas as táticas daquela “fera”. — Kaoru brincou, tentando se descontrair um pouco.

— Certamente, mas dessa vez a ferinha se mostrou bem persistente. Teve bem a quem puxar. — o doutor entonou propositalmente, deixando evidente a quem se referia.

— E-Ei, não se esqueçam de que eu estou aqui ouvindo tudo!

Um casual silêncio permaneceu-se na sala.

— Eu vou ir pegar um pouco de água, com licença. — Kaoru avisou, saindo do quarto logo em seguida. Era um tanto obvio que era uma desculpa para deixar o irmão a sós com o médico.

Syo apertou os lábios enquanto fitava o médico. Ele sabia que a conversa que se iniciaria ali não seguiria um rumo dos mais agradáveis e como não queria ficar enrolando quanto àquele assunto preferiu ir direto ao ponto.

— Sakurai-sensei... como estão minhas condições? — Syo perguntou receoso; fazendo com que o mais experiente soltasse um suspiro, desmanchando o ar descontraído que há pouco estava em seu rosto, deixando a seriedade tomar forma em suas feições.

— Eu não vou mentir para você, meu jovem. — ele respirou fundo, mirando-o seriamente — Sua condição atual está beirando o limite. Foi preciso muito esforço para fazer com que seu coração se estabilizasse novamente, por isso eu fortemente recomendo que você faça uma cirurgia. — sua conclusão causou uma inquietação no mais novo.

— Cirurgia...? — repetiu ele, não gostando da notícia — Não há outro meio?

Aqueles poucos segundos que passaram mais pareceram minutos; Syo estava processando o que ouvira. O que ele mais temia a vida inteira, e que sempre tentou evitar era ter de realizar uma cirurgia, até porque pensamentos não muito agradáveis afloravam-se em sua mente quando se tratava daquilo.

— Eu duvido que haja Syo-kun... Se tivesse eu não estaria aconselhando você agora. Nós tivemos que pressioná-lo quase que ao extremo para acalmá-lo, ele não vai aguentar esse mesmo método mais uma vez. Talvez ainda seja o caso de um transplante.

— T-Transplante?! Espera... — sacudiu a cabeça — além dos riscos é preciso achar um coração compatível e...!

— Acalme-se, o transplante é apenas uma medida de emergência. É possível que apenas com a cirurgia a sua arritmia consiga ser contida. A boa notícia que tenho é que com os recursos que temos para cauterizá-la você ficará internado por apenas um dia, se sua recuperação prosseguir bem, e não terá cicatrizes. — ele explicou.

— E as chances de sucesso seriam...? — Syo engoliu seco. Questionando se realmente iria querer ouvir a resposta, ou se deveria impedir o velho homem de lhe contar. Certas verdades são melhores quando não se há conhecimento delas.

— 50/50. — Sakurai refletiu antes de responder.

Syo não conseguiu proferir nenhuma palavra, assim como não escondeu sua reação; foi como se tivesse levado um tapa. 50/50? Ficou martelando aquilo em sua mente. Já estava ciente dos riscos, mas esperava números mais favoráveis.

— Eu sei que não são valores que alegram a estima dos pacientes, mas é isso. — ele inclinou a cabeça com um singelo sorriso sem graça — Eu vou lhe dar um tempo para pensar... Você não é obrigado a fazê-la, porém esteja ciente dos riscos ao optar por não realizá-la. Se precisar de algo é só chamar. — completou, saindo da sala.

Syo ficou a fitar a porta por um tempo.

— “Esteja ciente dos riscos ao optar por não realizá-la”? — murmurou quase tão baixo quanto um sussurro, soltando uma pequena risada amargurada e levando uma das mãos ao rosto — Você está simplesmente dizendo que eu tenho apenas uma escolha, jii-san... — balbuciou. Ele não queria ter que fazer aquela cirurgia, aquele sempre foi o seu maior medo, mas acima de tudo não queria morrer. Embora aquele sentimento negativo estivesse gritando de si, ele sabia o que precisava fazer. O que precisava ser feito.

Pouco tempo depois que o médico saiu do quarto, a porta fora aberta novamente, chamando a atenção do menor. Era Natsuki. O mesmo encostou a porta, permanecendo ali de pé parado. Ele mirou Syo por um momento e logo em seguida desviou seu olhar para chão, mantendo-o ali.

O mais novo ficou a observar o outro que permanecia estático, esperando alguma reação por parte dele, o que não ocorreu. Engoliu seco, pensando no que iria dizer à Natsuki quanto tudo aquilo e em como se justificaria. A aparência dele não era das melhores, parecia abatido e extremamente cansado. Suas olheiras estavam bem evidentes mesmo ele estando um pouco distante, denunciando que não dormira bem. Syo soltou um suspiro, levando uma das mãos à cabeça e roçando os dedos logo em seguida na mesma.

— Até quando pretende ficar aí parado, Natsuki? — Syo perguntou como de costume. Acreditava que era melhor primeiro quebrar aquela atmosfera que estava em torno do outro.

— E-Eh? — ele ergueu singelamente o rosto, mostrando-se um pouco confuso.

— “Eh” nada. Eu não estou com nenhuma doença contagiosa, pode se aproximar. — o pequeno brincou numa tentativa de desmanchar o cenho franzido que estava no rosto do outro desde que ele entrou. Não deu certo.

— Ah... — Natsuki não respondeu as palavras de Syo, apenas o olhou um tanto cabisbaixo, dirigindo-se à cadeira ao lado da cama dele em passos lentos, sentando-se nela. Havia tantas coisas que ele queria falar, mas não fazia ideia de como. Estava confuso, chateado e muitas outras sensações que o afligia.

O desconfortável silêncio permaneceu por demorados dois minutos. O clima estava um pouco pesado entre eles e mesmo Syo sabendo o porquê, aquilo parecia apenas dificultar ainda mais a iniciativa de um diálogo. Por mais que para ele estar numa cama daquelas tivesse se tornado algo normal, para o outro que não sabia de suas condições deveria estar sendo difícil. Principalmente porque a última coisa que ele deveria lembrar provavelmente seria de estar chorando em seus ombros e depois em algum momento se deparou com ele no hospital.

— Syo-chan… por quê...? — Natsuki rompeu a quietude do cômodo. Ele estava tão confuso e intrigado que não conseguiu deixar de perguntar — Por que... não me contou que você sofria de problemas cardíacos? — mirou-o firmemente, questionando-se a razão o outro ocultara algo tão crucial dele.

Syo manteve-se em silêncio por um momento, baixando a visão para as próprias mãos e pensando no que responder para ele — Se você soubesse, você... ainda me trataria da mesma maneira? Manteria as coisas como elas são? — perguntou mantendo os olhos baixos.

— Como assim? — estava tentando entender a intenção do menor por trás daquelas palavras — Não teria como ser exatamente a mesma coisa. O médico contou que você sofre crises quando tem emoções intensas, então... — ele não continuou a frase, pensando nas vezes que pressionou o loiro aos limites.

— É por isso que eu não falei nada. — cerrou os punhos que estavam sobre colo — Eu não quero ser tratado diferente. — piscou, erguendo seus olhos sérios ao outro.

— Syo-chan...

— Por causa da minha arritmia eu passei boa parte da minha infância no hospital, por causa disso todos ao meu redor sempre me trataram como algo frágil. — estreitou os olhos; ele detestava ser tratado daquela forma. Embora não se importava com a maneira que Kaoru o tratava, talvez porque era irmão dele — Por isso, eu optei por não contar a ninguém.

— Mas se você não contar, os riscos que você corre serão maiores. Não acho que vale a pena por sua saúde em risco por causa da forma como as pessoas te tratam.

— Você diz isso porque não sabe como é. As pessoas se privam de ser como elas são perto de mim, se privam de fazer o que elas querem por causa de mim e eu cansei de viver isso. — nesse momento ele pensou em como seria a vida do irmão se ele não tivesse que ficar se preocupando sempre com ele, talvez Kaoru nem estaria estudando medicina, afinal ele só quis se tronar médico por causa daquela situação — Certamente se você soubesse desde o começo não iria colocar roupas em mim, me fazer comer sua comida contra minha vontade, dar seus abraços extremamente apertados ou iria parar logo na primeira vez que eu gritasse, não é?

Natsuki permaneceu em silêncio, dando a entender a resposta dele.

— Eu sabia... — deu de ombros, ele já imaginava aquilo — Mas tudo bem, com essa cirurgia isso irá mudar. — hesitou sutilmente no final da frase.

— Cirurgia? — seus olhos se demonstraram surpresos.

— Sim. Meu coração não vai aguentar outra crise, por isso Sakurai-sensei disse que preciso operar e que... talvez ainda seja o caso de um transplante... — desviou o olhar, deixando um ar de descontentamento invadir seu rosto. Tal revelação provocou certa agitação e inquietude no mais velho.

— S-Se for assim... eu cederei o meu coração para você Syo-chan! — proferiu sério.

— O-O quê?! — Syo não esperava ouvir aquilo do outro e por alguma razão que ele acabou por corar com aquela sentença — Mas por que você está falando isso? A-Além do mais é um caso extremo, n-não é que vai ser preciso! — xingou-se mentalmente pelo nervosismo.

— Ainda assim, se a situação vier a acontecer eu o farei. — retrucou; ele realmente estava determinado em tomar aquela atitude.

— Natsuki... — revirou os olhos — Eu falei que é uma possibilidade extrema! De qualquer forma não tem porque você fazer isso.

— Foi minha culpa... — respondeu depois de um tempo.

— Huh?

— A razão pela qual você teve essa crise foi minha culpa... — baixou a cabeça levemente, voltando a ter a mesma expressão de quando entrara no quarto — Se eu tivesse impedido o Sacchan isso não teria acontecido.

— Sacchan...? — pensou, demorando um pouco para cair a ficha — HUH?! Espera. Calma. Você sabe sobre o Satsuki?! — arregalou os olhos, elevando o tom sem querer devido a revelação inesperada. Ele estava mais do que surpreso, talvez até mais do que perplexo se pudesse dizer assim. Quando pensou que não teria como se surpreender mais com os fatos, um deles explode bem na frente dele.

— ... Sim. — ergueu as mãos sinalizando para o outro se acalmar — Levou um tempo para eu perceber a existência dele, mas enfim, naquele momento a dor dentro de mim estava tão intensa que só pensava em ficar sozinho. Eu nunca consegui falar sobre aquele assunto com alguém sem ser com o Sacchan, e parece que ainda não consigo... — jogou o olhar para um canto por um momento, abrindo um sorriso sem graça, mas logo o desmanchando — Eu falei pro Sacchan não fazer nada, mas parece que ele não se conteve. Quando ele falou o que houve eu... — balançou negativamente a cabeça.

— Natsuki... — conhecendo a natureza do mais velho, ele poderia imaginar o quão mal ele deveria estar se sentindo.

— Mas vai ficar tudo bem! Eu dei a maior bronca nele e o fiz prometer que iria se desculpar com você! — afirmou com uma seriedade profunda no rosto, fazendo com que Syo ficasse sem expressão piscando duas vezes ao ouvir aquilo.

— Eh?! — ele questionava se ouviu direito. Satsuki pedir desculpa? Definitivamente ouviu algo errado ali, com certeza.

— Tanto que ele fará agora mesmo. — levou a mão aos óculos.

— E-Espera Natsuki! — não estava preparado psicologicamente depois do que ouviu.

Não houve tempo para impedi-lo. Rapidamente aquela figura calma e ressentida incorporou uma aura gélida, fitando Syo, que igualmente ficou o observando com uma expressão de como se estivesse vendo algo estranho a sua frente.

— O quê? — grunhiu ele, estando irritado com a forma com que o outro o olhava.

— ... Como “o quê”? — arrepiou-se ligeiramente — O Natsuki disse que você iria... falar algo para mim. — piscou algumas vezes, desviando os olhos de Satsuki várias vezes com um leve sorriso sem graça.

— Tch... — virou o rosto para a porta, numa resposta silenciosa de que não iria falar nada. Ele não fez nada de errado, e além do mais ele alertou o outro que se ele tocasse novamente no assunto haveria consequências. Não importava a razão que Syo tivesse, ele nunca perdoaria quem ousasse machucar Natsuki.

Syo soltou um suspiro.

— Bem, não esperava que você realmente fosse falar. — encolheu os ombros, receoso de soltar aquele comentário — De qualquer forma, foi uma surpresa descobrir que o Natsuki sabe sobre você.

— Hmph, mesmo que ele tenha conhecimento da minha existência, ele não se recorda do que acontece quando eu assumo o controle. — comentou, ainda evitando virar o rosto para Syo.

— Não? Eu achava que ele sabendo sobre você ele teria consciência do que você faz, até porque você tem consciência do que ele faz. — aquilo era realmente algo confuso, pensou.

— É, mas ele não tem. — praticamente cuspiu aquelas palavras — Eu sou a sombra dele, por isso eu sei de tudo o que acontece com ele, logo não é complicado de se entender o porquê ele não se recorda do que eu faço. — concluiu.

— A-Ah sim... — assentiu tentando manter o fluxo do diálogo. Como ele nunca teve uma conversa normal ou que durasse tanto num ritmo tranquilo com Satsuki, estava nervoso e incerto do que falar para não estragar o humor do outro.

— Ei, Chibi. — virou o rosto sutilmente, olhando-o de lado — Você vai mesmo operar?

— Não é como se eu tivesse escolha. — suspirou — Fazendo ou não, o fato de que eu poderei me deparar com o pior não vai mudar, o que difere é que com a cirurgia eu ainda tenho alguma chance de viver. — explicou, o que fez com que Satsuki voltasse a olhá-lo de frente, demonstrando-se certo incomodo com aquilo.

— Quais são as chances?

— 50/50 foi o que o Sakurai-sensei disse. — balbuciou, evitando olhar o mais velho que não se pronunciou mais sobre aquilo.

Apenas os sons das arvores, que balançavam com os ventos, residiam no ambiente onde só se ouvia os apitos do monitor. Satsuki não gostou muito daqueles números, eram incertos demais. Não era que ele estava preocupado com o Syo, mas sim com Natsuki. Se o pior viesse a acontecer ao baixinho, Natsuki iria se fechar novamente assim como antes e aquilo era a última coisa que ele gostaria que acontecesse; sem falar que nem mesmo o outro estava confiante quanto a própria cirurgia. Ele precisava fazer algo.

— O Natsuki foi traído pela ex-professora dele. — afirmou repentinamente, surpreendendo Syo com o comentário repentino — Como você deve ter imaginado, ele era apaixonado por ela e então compôs aquela música para ela; a música que outro dia tocou no rádio. — fez uma pausa soltando um baixo rosnado — Aquela mulher tomou a composição para si, afirmando que era de sua autoria e então saiu da escola.

— É, eu entendi isso... — comentou, o que ele não entendia era o porquê Satsuki resolveu tocar nesse assunto novamente e de tal forma.

— Ele nunca a culpou ou sequer a denunciou, mas isso não significa que ele não sentiu nada quanto aquilo, por esse motivo ele abandonou o violino e passou a tocar viola. Além que o acúmulo de sentimentos negativos foi o que me criou. — perfurou o menor com os olhos quando afirmou aquilo — Natsuki nunca expõe seu lado negativo, sempre guarda tudo para si mesmo, por isso eu devo protegê-lo de tudo o que pode vir machucá-lo, entendeu? — estreitou o olhar.

Não. Syo não entendeu o que Satsuki estava querendo dizer com tudo aquilo. Ele entendeu a explicação, porém, não a razão para estar ouvindo tudo aquilo. Aliás, ele nunca entendeu o que se passava na cabeça do outro.

Satsuki percebeu pela expressão do pequeno que ele estava confuso, mas não estava com saco para explicar de novo ou ser mais claro. Ele levantou-se e foi andando para a porta.

— Por conta dessa traição Natsuki possui uma extrema dificuldade de confiar nas pessoas e de se relacionar a sério com elas, mas parece que ele finalmente cedeu para alguém. — parou em frente à saída do quarto, virando o rosto para ele — Por isso, é melhor você não fazer besteira, Chibi. E se fizer eu acabo com você. — completou. Era óbvio que ele não deixaria alguém chegar tão perto assim de Natsuki, mas aquilo era preciso se fosse para garantir um futuro mais seguro.

— Huh? — franziu o cenho, confuso, não conseguindo evitar o corar quando pensou nos sentidos daquelas palavras, fazendo com que Satsuki desse as costas para ele.

— Espero que essa cirurgia deixe você mais inteligente também. — murmurou, abrindo a porta.

— E-Ei! Eu ouvi isso!

— E mais uma coisa. Eu não vou pedir desculpas para você. — manteve-se de costas para Syo, estando quase fora do quarto.

— O quê?! Natsuki disse que você prometeu que iria falar! — apontou para as costas do outro, estando um tanto irritado pelo último murmúrio por parte ele.

— Se você quiser ouvir seu pedido de desculpas vai ter que esperar até depois da sua operação. — fechou a porta, deixando o outro sozinho no quarto novamente.

Syo arqueou uma das sobrancelhas enquanto olhava aquela porta. Perguntava a si mesmo se foi impressão dele, mas tinha quase certeza de que Satsuki havia acabado de indiretamente encorajá-lo quanto à cirurgia. Estranhamente sentiu que seus 50% de chance de sucesso eram maiores que os outros 50%. Sim, loucura, mas ele se sentiu assim, fazendo abrir um sorriso bobo despercebido no rosto.

Ele chamou o médico notificando-o de sua decisão, fazendo assim com que toda a equipe médica se preparasse para a operação. Um frio na barriga crescia dentro de Syo. Ele foi levado à sala de cirurgia, lá Sakurai trocou poucas palavras com ele. Palavras de encorajamento. E então acenou com a cabeça para um dos instrumentadores cirúrgicos que se aproximou de Syo e veio a lhe aplicar a anestesia geral, fazendo com que gradativamente, mas de forma eficaz, sua consciência se perdesse.

~ ♫~

Dois dias se passaram. O relógio da parede indicava o fim de mais um dia.

Syo abriu seus olhos. Quando se deu conta de que ele havia de fato acordado ficou surpreso, levantou-se imediatamente. Ele fitou as próprias mãos e o ambiente por um tempo, logo em seguida puxou com cuidado a gola da camisa que usava e, ao olhar por dentro podia ver ali os pontos que ainda estavam em seu peito. Um sorriso confuso, mas não menos vitorioso se abriu em seu rosto. A cirurgia deu certo.

E pensar que ele sentiu todo aquele medo por anos para no final de tudo estar ali. Tudo bem que agora teria uma futura cicatriz em seu peito; não que ela fosse algo ruim para ele. Pensava nela mais como uma cicatriz de guerra que um guerreiro tem orgulho.

Kaoru estava a passar na frente do quarto do irmão e quando o viu acordado pela janela da porta hesitou por um breve momento de abri-la. Com um pequeno empurrão que o médico deu a ele, ambos entraram no quarto, surpreendendo Syo.

— Syo-chan! — Kaoru correu em direção a ele, lançando um abraço contido no mesmo.

— Kaoru tenha cuidado! Os pontos de seu irmão são recentes! — alertou com um pequeno sorriso no rosto; ele entendia como o mais novo de sentia.

— Não se preocupe, estou sendo cuidadoso. — disse sorrindo, enquanto soltava o irmão.

— Kaoru nunca faria algo que me machucaria, ele é a pessoa que mais tenta me proteger de tudo, — ele riu — embora acho que você vai poder tirar férias agora, huh? — riu, cutucando com o cotovelo o irmão.

— Hmm, talvez, mas ainda ficarei de olho em você para ter certeza de que tudo está realmente bem. — alertou-o num tom duvidoso, fazendo com que Syo não soubesse dizer se ele estava falando sério ou não.

Aquela cena apenas aumentava o sorriso de contentamento no rosto do velho homem.

— Mesmo se eu falar que não é necessário você não vai me ouvir, não é? — comentou, vendo o irmão dar um sorriso como resposta. Ele sabia que de nada adiantaria impedir Kaoru quando se tratava de sua saúde. Seus olhos alegres voltaram-se ao médico — Sakurai-sensei, obrigado. Graças ao senhor eu ainda estou aqui. — agradeceu vendo o mais velho baixar os olhos.

— Não foi nada. Se há alguém que precisa agradecer é aquele rapaz...

— Rapaz? — perguntou confuso.

— Shinomiya. — respondeu o médico.

— Natsuki? O que tem ele? — questionou, vendo o irmão afastar-se dele, fazendo com que um nervosismo crescesse dentro dele. Sakurai respirou fundo antes de respondê-lo.

— Ouça com calma, ok? Você... Recebeu um transplante por parte dele. — pausou — Shinomiya cedeu o coração dele para você.

Aquelas palavras abafaram qualquer ruído presente no quarto.

Syo piscou duas vezes, ainda processando o fato. Ele sentiu o coração apertar quando ouviu aquelas palavras, uma sensação desconfortável em seu estômago, um frio na barriga. Embora tivesse ouvido claramente, era como se tivesse ouvido algo extremamente errado. Muito errado.

Mediante a reação do irmão mais velho o médico veio a justificar o ocorrido.

— Durante a cirurgia, o seu coração se mostrou muito mais fragilizado do que imaginávamos por conta do procedimento anterior. Você começou a ter paradas cardíacas consecutivamente e um transplante era imprescindível para que você sobrevivesse. — enquanto ouvia a explicação de Sakurai, Syo ergueu seus olhos à Kaoru num pedido de que ele negasse tudo aquilo; o mesmo não ousou encará-lo — Kaoru estava decidido a ceder o coração dele a você, mas Shinomiya não permitiu, cedendo o dele no lugar.

O pequeno não pôde evitar o estado de choque. Seus olhos lacrimejaram fazendo com que lagrimas escorressem por seu rosto enquanto permanecia imóvel. A doença dele que sempre exigia algo dos outros, justo no final resolveu tomar a vida de alguém? Aquilo estava mesmo acontecendo? Ele ousou se beliscar para ter certeza que tudo não passava de uma ilusão. Era real. Ele não conseguia crer que há pouco estava a conversar com ele naquele mesmo quarto, que há poucos dias estavam ambos rindo quanto à produção da composição e que agora não estava mais lá. Que nunca mais estaria.

— Eu sinto muito. — pediu o homem, retirando-se da sala ao ver que nada mais poderia fazer dali em diante.

— Syo-chan... — aproximou-se da cama do irmão hesitantemente, envolvendo-o com os braços. — Não se culpe, por favor...! — pressionou gentilmente com mais força a cabeça de Syo contra o peito.

— Ele... ainda está aqui? — perguntou com a voz oscilando. Kaoru balançou a cabeça respondendo negativamente.

— O enterro foi hoje pela manhã... — hesitou em responder.

— Entendo... Você... poderia me deixar sozinho? — pediu ao irmão, que mesmo não querendo se separar dele naquelas circunstâncias, cedeu ao pedido dele e saiu do quarto.

Syo levou uma das mãos ao rosto, deixando com que as lagrimas que se formavam saíssem sem se dar o trabalho de contê-las. Vez ou outra levava o dorso da mão numa tentativa de abafar os sons provindos da angustia que massacrava seu coração conforme tinha flashbacks do outro em sua mente. Por que tinha que ter sido ele? Bondade tem limites, pensava. Ele colocou a mão sobre o peito sentindo o pulsar dele. Sentindo o coração de Natsuki, questionando se era realmente aquilo que ele desejava. Se aquilo era mesmo necessário.

Alguns dias se passaram e após tomar alta do hospital, Syo seguiu rumo ao cemitério, onde visitou a lápide de Natsuki. O tempo estava fechado e ventava com frequência. Cada passo que dava ali dentro, ele sentia o frio no estômago ficar mais forte, um nó se formando em sua garganta. Ao chegar no local onde ele jazia ficou a encará-lo por um breve momento. As flores que residiam em seu túmulo já estavam começando a murchar, o que o fez pensar em voltar mais tarde para trocá-las. Ele apertou os lábios, em seguida agachou e colocou ali um boneco do Piyo-chan que havia comprado no caminho, enquanto lia o epitáfio ali escrito.

“Ele nos fez sorrir com o seu jeito gentil de ser, sempre alegre.

Descanse com um sorriso.”

O loiro levantou-se, colocando as mãos dentro dos bolsos da blusa, mirando o nome do outro.

— Você... sempre falava por aí que eu era fofo e um monte de asneiras. Sempre que descobria algo sobre o Hyuuga-sensei você vinha correndo me contar. Sempre fez as maiores loucuras para me ajudar. — Syo ergueu o rosto para o céu, respirando fundo, sentindo seus olhos umedecerem — ... mas não acha que dessa vez você exagerou? Olha só como tudo acabou... Era isso mesmo que você queria Natsuki? — baixou os olhos, repletos de tristeza e angustia, encarando a lápide em silêncio enquanto lutava contra as lágrimas que desejavam descer por aquele rosto — Francamente, no final aquele discurso sobre proteger o Natsuki foi o que, hein, Satsuki?! — cerrou os punhos dentro do bolso, e em uma piscada mais agressiva aquelas gotas salgadas caíram— Eu... vou fazer o melhor que puder. Vou me tornar o melhor violinista por mim e por você Natsuki.

Syo deu as costas àquele tumulo.

— E Satsuki, você ainda me deve um pedido de desculpas. — concluiu ele, seguindo seu rumo à saída do local.

Devido aos acontecidos, Saotome dispensou o evento quanto à composição. O assunto logo havia se espalhado e burburinhos sobre tal não cessaram tão cedo, porém, sempre que Syo passava por entre as pessoas, as mesmas se calavam, não pronunciando mais nada até ele sumisse de vista. Era obvio que ele percebia aquilo. Era irritante.

Fazia duas semanas desde que recebeu alta do hospital. Syo não conseguia dormir direito desde então. Chegar naquele quarto e encontra-lo vazio, acordar no meio da noite e ver que a cama de Natsuki perfeitamente arrumada, além do silêncio mórbido que aquele cômodo permanecia estava cada vez mais o deixando mais inquieto.

Todas as noites ele sonhava com o outro. Às vezes sorrindo e abraçando-o, outras vezes ele desaparecendo como fumaça diante de si. Era horrível. Frequentemente ele acordava chorando e chamando pelo outro que não estava lá. Pensava que a culpa estava o consumindo, que o seu inconsciente ainda se encontrava abalado com os fatos. Abalados com a realidade. Se havia algo que ele não esperava era que a ausência de Natsuki fosse pesar tanto em sua vida, que aquela presença que vivia o perseguindo com um sorriso significaria tanto para ele.

— N-Natsuki!! — gritou Syo, ofegando e suando frio, depois de um despertar repentino em meio à madrugada. Seus olhos desesperados percorreram o quarto e quando se deu conta do pesadelo, ele levou as mãos ao rosto, cobrindo-o.

Mais uma vez ele tivera aquele pesadelo. Natsuki estava junto de si como antes, e então tudo começa a ruir ao seu redor. O mais velho desmaiava em seus braços e vinha a lhe dizer palavras de despedida. O sangue começava a se espalhar na região do peito dele através do tecido e então desaparecendo logo em seguida. Era tão real aquilo que não conseguia se acostumar. Ele não conseguia ter uma noite de sono tranquila.

Syo veio a olhar a cama de Natsuki por um momento.

Ele levantou-se da própria cama e se dirigiu a do outro, deitando-se nela. Afundou seu rosto no travesseiro do outro, ele podia ainda sentir o cheiro dele nele. Estranhamente só com aquilo ele já se sentia mais calmo. Mais seguro. O pequeno veio a puxar a pelúcia do Piyo que estava a diante de si apertando contra o peito, encolheu-se então naquela cama, conseguindo finalmente assim pegar no sono.

No dia seguinte ele se sentiu melhor do que os dias anteriores. Após uma melhor noite de sono, ele passou a dormir sempre ali, garantindo que seu humor se estabilizasse por alguns dias. Haruka e os outros continuavam a tentar fazer coisas para animá-lo, mas nada daquilo serviu quando em um dos dias retornou ao seu quarto após o término das aulas.

Ao chegar no quarto havia caixas por quase todo o lado. As coisas de Natsuki não estavam mais onde antes estavam. Não estavam em lugar nenhum. Seus olhos confusos e intrigados observaram que haviam malas que não conhecia ali. Quando se aproximou da cama de Natsuki, uma figura desconhecida saiu do banheiro. O barulho dos passos fez com que Syo olhasse para trás.

— Ah, você deve ser Kurusu Syo, certo? — ele se aproximou do menor, estendendo o braço. — Meu nome é Kamiya Heisuke, seu novo companheiro de quarto.

Aquelas palavras ecoaram dentro de si. Companheiro de quarto? Ele não precisava daquilo. Ele não queria aquilo. O outro continuava a se apresentar, mas a revolta que crescia dentro de si não o permitia prestar atenção no que ele dizia. Quem ele pensava que era para chegar no quarto dele e mexer nas coisas de Natsuki? Naquele momento somente uma coisa importava. Sim, apenas uma.

— Pegue suas coisas e saia daqui. — Syo o interrompeu, proferindo num tom autoritário.

— Huh?

— Você ouviu. Pegue suas coisas e saia desse quarto. — sua expressão estava tão séria quanto sua voz, deixando o estranho confuso quanto àquelas palavras.

Naquele mesmo momento, Otoya e Haruka apareceram na porta do quarto de Syo. Inicialmente chegaram sorrindo, mas quando perceberam o clima logo suas feições se desmancharam.

— Aconteceu algo, Syo-kun...? — Haruka perguntou timidamente.

— Esse cara apareceu aqui dizendo ser meu companheiro de quarto.

— Ah, é o Kamiya! Nós conversamos com Saotome e ele concordou em ele ser seu novo companheiro de quarto. — explicou — Como achamos que você deve se sentir solitário aqui, preparamos essa sur—

— Eu não quero um novo companheiro. Se não for o Natsuki, eu prefiro ficar aqui sozinho. — pensar no fato de que ele compartilharia aquele espaço com outra pessoa o irritava profundamente.

— Syo... Eu sei que deve estar sendo difícil para você lidar com... o que houve com o Natsuki, mas você precisa deixar isso um pouco de lado e continuar a seguir a diante. — disse o ruivo.

— ... Deixar um pouco de lado? Você acha que eu vou conseguir deixar o fato de que eu estou vivo, respirando com o coração de outra pessoa de lado? Que eu matei um amigo para continuar a viver?? Ah, claro... Não é você que está passando por isso. Se fosse o Tokiya tenho certeza que você não agiria assim... Mas como não é, pra vocês é fácil dizer “deixar de lado”... — sua voz tremulou por um momento.

— O Tokiya não tem nada a ver com isso e mesmo se fosse o caso... eu faria o possível para continuar a viver como sempre foi quando estava ao lado dele. — hesitou por um momento — Você acha que o Natsuki iria querer ver você assim, Syo?

Estava prestes a retrucar as palavras de Otoya quando foi surpreendido por uma voz.

“Sorria Syo-chan~”

Syo arregalou por um momento os olhos, procurando a origem daquelas palavras. Ele podia ouvir no fundo de seus pensamentos aquela voz serena.

O menor sentiu um arrepio e um apertar no peito. Não muito depois ele pôde ver que estava a ser envolto por dois longos pares de braços por alguém atrás de si.

“Todos estão fazendo o que podem para você sorrir, por isso não é certo fazer o que você está fazendo. Não magoe os outros, ok? Eu estarei sempre com você Syo-chan.” Ele viu uma daquelas mãos deslizarem em seu peito e pararem bem sobre o lugar onde estava a sua cicatriz, e então desaparecerem.

Seus olhos rapidamente vieram a lacrimejar. Sem sombra de dúvidas era Natsuki. Uma inquietude e uma série de emoções começaram a fluir por seu corpo. Antes que a primeira gota pudesse escorrer de seus olhos, ele correu em direção à porta, saindo daquele quarto. Ele não queria ser visto, muito menos ouvido pelos outros chorando; principalmente na frente de um desconhecido. Ele corria sem rumo.

Quando percebeu, estava na área florestada da academia perto do lago. Uma gota caiu dos céus em seu rosto, fazendo-o ergue-lo e fitar as nuvens acima de si. Não demorou para que a chuva começasse a cair. Syo fechou os olhos, sentindo cada gota que batia contra seu rosto e assim suas lagrimas se mesclavam com as gotas da chuva continuamente.

Talvez o normal fosse mesmo tentar viver como antes, mas tudo o que fazia acabava o lembrando do outro, até mesmo quando não fazia nada. Queria ter conversado mais com ele, ter comido mais um de seus pratos, ter pedido desculpas por ter ocultado a verdade. Queria ter feito muitas coisas, mas sobre tudo poder vê-lo mais uma vez, mesmo que por um breve momento. Poder sentir aqueles longos dedos levantar seu rosto e ouvir que vai ficar tudo bem, o aperto do abraço que apenas ele lhe dava, ou até mesmo ser erguido ao alto seguido de um “Syo-chan~”. Ele entendeu enfim, caindo sobre as próprias pernas, a própria realidade. O desejar de ter apenas a companhia do outro, de ouvir aquela voz chamando por si, de ser abraçado e afagado por ele. O desejar de querer mais e não poder mais nada o fez levar uma das mãos ao rosto, cobrindo o parcialmente.

— Por que está fazendo isso comigo...? — passava o dorso das mãos em suas pálpebras — Eu nunca quis... ter que amar você... ainda mais assim...! Se você nem ao menos está aqui ao meu lado...! — soluçava em meio às palavras.

Seu mundo de alguma forma mudou. Um único evento causou tudo aquilo e o pior foi que ele levara o que lhe era mais importante, mas não sabia. Syo se encolheu sob a chuva e fechou os olhos, deixando todo aquele sentimento sair, não se importando com mais nada naquele momento.

Nada mais importava.

~ ♫ ~

Uma brisa bateu em seu rosto, o que o fez acordar. Syo estava no quarto do hospital de novo. Quando olhou para a janela viu o céu aberto, finalmente depois de tanto tempo o sol voltou a dar as caras. Ele questionava se havia contraído algo com aquela chuva, provavelmente Kaoru entraria por aquela porta lhe dando a maior bronca.

Bastou pensar e Kaoru adentrou ao aposento com o rosto preocupado, mas não menos aliviado.

— Syo-chan! — ele correu em direção à Syo — Você está bem? Como está se sentindo? — perguntou atrapalhado como sempre. Syo ergueu os olhos melancólicos para o irmão.

— Eu estou bem... Desculpe o susto. — levantou-se, sendo abraçado logo em seguida por Kaoru.

— Que bom...! — pressionou um pouco mais Syo contra si.

Quando foi abraçado por Kaoru ele se lembrou das palavras ditas por Natsuki. Talvez ele não estivesse mais ali por ele, mas ainda havia pessoas como seu irmão e amigos que ainda se preocupavam com ele. Era hora de seguir a diante, até porque ele não estava sozinho, pensou olhando para o peito.

— Ah! Eu vou ligar pros nossos pais! — sorriu Kaoru, soltando o irmão e correndo para fora do quarto. Ao erguer os olhos à porta, ele viu ali uma silhueta que reconhecia muito bem, fazendo-o arregalar os olhos e permanecer estático.

Syo encarou firmemente o outro, incrédulo pelo que via. Natsuki estava ali. Devia estar alucinando, com certeza estaria, mas não importava. Não importava nem um pouco. O mais velho se aproximou dele com um sorriso, levando a mão às mechas de Syo.

— Você conseguiu Syo-chan. — afagou carinhosamente o cabelo do menor.

— N-Natsuki...? — sua voz quase falhou, não acreditando no que estava a ver. Era uma mescla profunda de confusão, tristeza e alegria dentro de si, não sabia sequer como reagir estando diante daquela presença que soltou uma pequena risada.

— Mas que cara é essa? Vai ficar tudo bem agora~ — alargou o sorriso, inclinando levemente a cabeça para o lado.

Syo sentia as palavras se acumulando no fundo da garganta, a um ponto de que a qualquer momento elas se atropelariam umas às outras desesperadamente, mas esse desespero apenas fez com que elas travassem antes que pudessem chegar a sua boca.

— Ah, eu preciso ir... — ele olhou para um ponto aleatório do quarto, e com aquelas palavras, Syo agarrou a cintura de Natsuki com força.

— E-Espera! Não vá Natsuki!

— E-Eh? Mas...

Seu coração batia rápido, talvez como nunca tivera batido sem ser em alguma de suas crises. Sentia o formigar em suas bochechas. Era tão embaraçoso aquilo, mas temia de nunca mais vê-lo e aquilo apenas se juntar a mais um de seus arrependimentos. Ele ergueu seu rosto ao de Natsuki, não contendo o umedecer dos olhos e o escorrer de algumas lágrimas.

— S-Syo-chan? — ele perguntou surpreso com a reação do pequeno, que ergueu-se o máximo que pôde para tocar com as duas mãos no rosto dele. Vendo aquilo, ele acabou por se inclinar um pouco para facilitar mais para Syo que o olhava com olhos tristes.

— E-Eu... quero você aqui comigo, Natsuki... Não só hoje, mas para s-sempre, entende? — seu corpo tremia em meio a vergonha — Eu não quero que você vá e me deixe aqui sozinho... N-Não quero que você desapareça... não quando eu... — ele baixou o olhar, piscando diversas vezes enquanto o rubro alastrava-se por seu rosto, sentindo o nervosismo se espalhar descontroladamente dentro de si — Q-Q-Quando eu finalmente percebi que eu amo você, seu idiota...! — ele cerrou os olhos, fazendo com que todas as lágrimas escorressem por seu rosto e rapidamente o ergueu, avançando no rosto do mais velho, roçando seus lábios aos dele. Suas mãos tremiam naquele rosto. Embora estivesse inseguro, conseguia sentir uma pontada de alivio.

Depois de um breve momento, ele se distanciou de Natsuki, abrindo os olhos lentamente e os desviando logo em seguida, apoiando suas mãos sobre as próprias pernas. Um silêncio remanesceu no cômodo por um momento, deixando Syo mais nervoso ainda. A sensação de constrangimento o consumia infinitamente por dentro. Não sabia dizer se realmente deveria ter feito o que fez porque agora a última coisa que queria fazer era encarar o outro, mas acima de tudo, queria ouvir a qualquer coisa vinda dele.

— ... Eh? — Natsuki corou, com os olhos singelamente arregalados e confusos, levando o indicador e o dedo médio sobre os lábios inferiores.

— “Eh”...? — ele mirou o outro, vendo aquela expressão boba em seu rosto, o que o deixou um pouco irritado — “Eh?” O Caramba! E-Eu acabei de me c-confessar pra você e tudo o que tem a me dizer é isso?! — reclamou estando indignado, mas não menos corado.

— N-Não é isso! É que... foi tão repentino e confuso que eu não sei se fico feliz ou—

— Confuso? Confuso?! Qual a parte do “eu amo você” é confusa?? — seu limite de embaraço já havia batido o limite há tanto tempo, que naquele momento, possivelmente, nada mais o constrangeria.

— Bem... Você disse sobre eu desaparecer e te deixar sozinho... — franziu o cenho, arqueando uma das sobrancelhas; ele realmente estava confuso.

— Natsuki. — ele respirou fundo — Você não ia embora? — cruzou os braços demonstrando-se conter minimamente sua alteração.

— Sim.

— Então, espíritos desaparecem quando vão embora, oras! — ele lançou aquilo, fazendo com que a interrogação presente no rosto de Natsuki apenas aumentasse.

— ... mas Syo-chan, eu não sou um espírito. — franziu mais ainda o cenho, estando confuso de o porquê o outro achar isso. Seu comentário causou uma quebra total de expressão no menor.

— Você... não é? — permaneceu estático com o que ouvira.

— Não? — ele inclinou a cabeça para o lado.

— Então... eu não fiz um transplante...? — estava assimilando ainda a informação da realidade.

— Não, você apenas operou. — observou o pequeno por um breve momento — ... Syo-chan aconteceu algo? — fitou-o, que logo após uma longa encarada, o mais novo pulou.

— Ahhh!! — puxou o lençol da cama cobrindo-se inteiro, querendo entrar num buraco e nunca mais sair.

Como aquilo era vergonhoso! Queria simplesmente sumir. Não acreditava que teve aquele longo sonho apenas durante o tempo em que esteve inconsciente, além do mais foi tão real que ainda estava perplexo por descobrir que nada realmente acontecera.

— S-Syo-chan?? — ele tentou se aproximar do mais novo.

— V-Vá embora! — gritou ele, encolhido. A vergonha era tanta, mas tanta, que queria simplesmente desaparecer.

Natsuki logo entendeu o que houve, na verdade deduziu, sentando-se ao lado de Syo, envolvendo-o com os braços.

— Eu fico muito feliz com seus sentimentos Syo-chan~ — deu um beijo na cabeça do pequeno por cima do tecido, fazendo corar mais.

— Me deixa em paz! — debateu-se, derrubando os óculos do outro sem perceber.

— Ei Chibi. — o tom de voz fez com que Syo gelasse, mas logo veio a se lembrar de algo.

— M-Meu pedido de desculpas! — gritou ele por baixo do tecido, se recusando a sair dali tão cedo.

— Oh? Você não esqueceu? Bem, eu mudei de ideia e não vou mais pedir. — pausou — Afinal foi graças a mim que você se confessou agora. — completou, abrindo um sorriso travesso no rosto.

— I-Isso não t-tem nada a ver! — Syo segurou com mais força o lençol que o envolvia, como se aquilo fosse amenizar aquela sensação de embaraço.

— Me surpreendo com o fato de que você realmente ficou mais inteligente com cirurgia. — ele soltou uma pequena risada provocativa, colocando os óculos de volta.

— O que disse?! — Syo descobriu a cabeça se deparando com Natsuki, fazendo-o arregalar os olhos — A-Ahn, Natsuki...? — ele sentiu seu rosto esquentar mais ainda, a ponto de até as próprias orelhas ficarem rosadas.

— Ah~! Syo-chan está parecendo um tomate! — ele agarrou o pequeno, apertando contra si, mas dessa vez Syo não relutou contra o contato do outro; na verdade estava feliz demais com aquilo para debater-se. — Não precisa se preocupar, eu ia voltar apenas para o dormitório por conta do horário. Eu nunca abandonaria você, Syo-chan. — sorriu.

— Mhm... — Syo acenou com a cabeça, evitando olhar Natsuki nos olhos.

Syo apertou os lábios. Aquelas palavras abriram uma fresta de alivio dentro de si. Na verdade estar nos braços do outro estava o proporcionando uma sensação de segurança e despreocupação que não sabia ao certo como descrever.

— Eu vou ficar ao seu lado. Sempre. — Natsuki disse, fazendo com que Syo erguesse o rosto corado, olhando para ele.

— Sempre? — Syo perguntou, mirando o mais velho com os olhos, como se tudo dependesse de sua resposta.

— Sempre. — respondeu ele, selando seus lábios com os do pequeno.

Notas finais
Ufa~! É isso ewe Sim, foi um desfecho gay -apanha Eu sei. Ah, originalmente o Syo viaja para o exterior para operar a arritmia dele, mas tive que mudar esse fato para encaixar no plot :v Nunca mais escrevo capítulos durante as madrugadas, é. Obrigada por ler até aqui :3