By your side
9 Prelude
Notas iniciais
Prelúdio
No caminho de volta para a Academia, Syo se questionava no quão bom teria sido a impressão que havia causado e, principalmente, como iria relatar seu primeiro dia à Natsuki.
O começo foi um desastre daqueles do tipo que só de refletir miseramente sobre era o suficiente para trazer o amargo gosto da vergonha. Em seguida, ele mesmo tomou a iniciativa de se arrumar sem a autorização da produção; era algo que nem precisava pensar: péssima atitude. Só então a sessão correu razoavelmente bem. Mesmo Hanazawa tendo lhe dito que o resultado foi bem satisfatório, Syo sentiu um ar de dúvida pairar entre os dois antes do editor soltar tal comentário.
Era difícil chegar a uma conclusão.
Pouco antes de chegar ao dormitório, ele teve sua atenção atraída por uma loja de roupas, cuja vitrine exibia alguns modelos de cachecóis. A temperatura caía cada vez mais com o aproximar do inverno, não sendo má ideia comprar um modelo novo. Syo não resistiu à tentação e acabou por comprar alguns para ele, incluindo um para o Natsuki e outro para o Satsuki.
Só depois de sair da loja é que veio a pensar que talvez tivesse cometido um erro ao comprar um para Satsuki, uma vez que ele sempre rejeita tudo o que é comprado para ele. “Eu não preciso.”, “Eu não gosto disso.” ou “Eu não quero.”, era o que ouvia sempre quando aparecia com algo para ele, não importando se era comida ou um simples presente. Isso sem mencionar nas vezes em que ele havia lhe dito para jogar fora ou devolver.
Aquilo magoava Syo mais do que tudo. Negar até que ele compreendia, mas mandar jogar fora era um pouco... Ruim de ouvir. Ainda mais com o tom super educado do outro. Se bem que agora ele simplesmente murmura um “Dê para o Natsuki.” e o ignora em seguida.
Ele não iria rejeitar um cachecol, iria?Era estranho comprar coisas para o Natsuki e não para o Satsuki. Isso o fazia se sentir de alguma forma negligente, por isso ele começou a comprar coisas para os dois nos últimos tempos. Quer dizer, mesmo Satsuki sendo outra personalidade, isso não faz dele menos humano. Se ele se irrita, com certeza também ficaria triste; mesmo sendo um pouco difícil para Syo imaginá-lo com tal emoção. Além do mais, era extremamente estranho – e um pouco desconfortável – ver o Satsuki com coisas do Piyo-chan. Não combinava com o jeito dele.
Durante o resto do caminho, tanto o assunto do cachecol, quanto o primeiro dia na Re Angel ficaram debatendo-se igual a um peixe fora d'água em sua cabeça.
— Cheguei. — Syo anunciou assim que abriu a porta do quarto e surpreendeu-se por encontrá-lo vazio, embora a luz estivesse acessa.
Enquanto tirava o chapéu e deixava a sacola de compras em cima cama, ele ouviu o barulho da porta do banheiro e, ao se virar, teve a grande e irônica sorte de se deparar logo com Satsuki; os cabelos úmidos denunciavam que ele havia acabado de tomar banho.
Naquele momento, a aposta que os dois haviam firmado relampejou nas memórias de Syo e desencadeou um frio na barriga. Ele havia esquecido completamente dela! A mensagem de Natsuki, o receio da primeira impressão no trabalho e o cachecol haviam tomado completamente sua cabeça. Certo que todos aqueles fatores não eram desculpas exatamente válidas, mas por hora ele preferiu culpar o rosto mal humorado de Satsuki pelo esquecimento próprio.
— Você vai ficar me encarando com essa cara até quando? — Satsuki perguntou à Syo, que agora o olhava confuso, notando que o pequeno não havia percebido até então a expressão de perplexidade que estava dirigindo para si. Logo ele interpretou àquilo como um sinal — Oh, quer dizer que seu primeiro dia foi tão bom assim, Chibi?
— Não, claro que não! — ele rebateu no impulso do nervosismo devido ao sorriso sinuoso que se formava no rosto de Satsuki, e principalmente porque ele não esperava ser interpretado daquela forma.
— Aham. Está estampado na sua cara que está mentindo. — depois de dar um riso de deboche ele fechou a porta do banheiro e seguiu para a cama.
— Não estampe coisas na cara dos outros. — Syo retrucou pensando em como iria reverter à impressão que havia dado aos olhos do outro e francamente, a única coisa que lhe veio em mente era algo que ele queria estar um pouco mais preparado — ... Aqui. Essa é a razão. — ele pegou a sacola que continha os cachecóis e a ergueu em direção à Satsuki.
Depois de um breve momento de silêncio entre os dois, um suspiro meio cansado deixou o mais velho.
— Eu não quero. — a resposta veio no tom seco que Syo já estava acostumado — Até quando vou ter que repetir para você entender? — ele complementou assim que ele notou que Syo iria insistir em algum argumento inútil. Sem uma resposta, ele se sentou na cama e pôs a toalha na cabeça, continuando a tirar o excesso de água que residia na maioria das mechas.
Satsuki estava ficando cansado de ter que dar quase sempre a mesma resposta. De fato, ele já havia perdido as contas de quantas vezes havia rejeitado as coisas que o pequeno tentava lhe dar. Ele não é surdo nem burro, então deveria entender duma vez o significado de um “não”. Francamente... A verdade era que ele não entendia o porquê da insistência naquilo. Afinal, era algo tão desnecessário.
As atitudes de Satsuki estavam começando a deixar Syo meio irritado. Era sempre a mesma coisa. Quando Satsuki pronunciava algo ou queria alguma coisa feita, as palavras dele eram lei; agora, quando ele queria falar algo, era recebido com sarcasmo, silêncio, provocações, deboche ou qualquer outra coisa que não fosse uma aceitação.
Syo teria enlaçado o cachecol em volta do pescoço de Satsuki independente dele estar secando o cabelo e dito “Até você parar de me responder com um não.”, se um anúncio que utilizava o recurso parecido com o que foi utilizado no anúncio do debut do Starish não tivesse aparecido aos céus.
As palavras pouco a pouco emergiam: "Todos os alunos devem se dirigir ao pátio principal da Academia Saotome imediatamente, desculpas não serão aceitas!”, com um pequeno rosto do Shining no final da frase.
~ ♫ ~
Gradativamente os alunos chegavam ao lugar anunciado, preenchendo-o completamente. Ninguém sabia ao certo a razão pelo qual haviam sido convocados àquele horário, já era pouco mais de 18:30h e a maneira inusitada de como foram chamados apenas aumentava tanto a curiosidade quanto a incerteza entre os estudantes.
Assim como os outros, Syo também não tinha ideia do que se tratava tudo aquilo. Entretanto, por alguma razão, a regra que proibia romance lhe veio em mente por um momento, causando uma insegurança momentânea e que só não era maior porque quem estava ao seu lado era Satsuki; ele negou precisar dos óculos para ir a algo tão trivial e obrigou Syo a sair do quarto antes de encontra-los.
As luzes que iluminavam o local se apagaram repentinamente, causando certa comoção entre os alunos. No entanto, assim que a longa e familiar risada ecoou pelo ambiente, um holofote se acendeu e iluminou precisamente uma das sacadas, revelando Shining sobre o parapeito desta.
— Agora que todos estão aqui podemos começar! — Saotome exclamou saltando de uma sacada para outra com auxílio de equipamentos — Como todos já devem imaginar nós realizaremos um evento de Halloween. Até então alguns detalhes foram divulgados, mas...! — ele pulou para o palco não muito elaborado que havia diante dos alunos — Houve algumas mudanças.
Um enorme sorriso se abriu no rosto do diretor, e com o estalar dos dedos dele dez caixas foram erguidas.
— As fantasias serão escolhidas através de sorteio! — o anuncio foi recebido com um intenso burburinho entre os estudantes, e nisso Saotome ouviu um comentário sobre a possibilidade de alguém já ter comprado algo. — Não há problemas, nenhum aluno ainda adquiriu uma fantasia.
Mesmo que alguns estivessem inseguros e outros animados, todos se alinharam para poder pegar um dos papéis que estavam disponíveis nas caixas; foi pedido a eles para que não olhassem ainda o que haviam sorteado enquanto não lhes fosse autorizado. Depois que o último aluno pegou o seu papel e voltou para o meio entre os estudantes, Saotome pediu para que todos desdobrassem os papéis.
O silêncio no pátio durou pouco. A agitação logo partiu da maioria dos alunos que demonstravam surpresa ou revolta entre si. A reação alheia não só surpreendeu Syo, como também o interrompeu de desdobrar o papel que havia em mãos. Ouvir os comentários negativos o deixou na dúvida se arriscava a ler ou não, porém a curiosidade falou mais alto e assim desfez a última dobra.
As cinco letras ali escritas foram o suficiente para fazê-lo trancar a respiração momentaneamente e ficar encarando continuamente por poucos segundos, como se ainda não tivesse lido direito. Bruxa. Syo fechou o papel e se esforçou para manter o autocontrole, seria pior se alguém viesse lhe perguntar o que havia no papel dele. Porém, talvez, não significaria que ele faria um bruxo, na verdade?
Quando ele virou para Satsuki a fim de comentar sobre o sorteio, a expressão fortemente irritada do mais velho, ou melhor, a de que ele queria bater ou matar alguém, o impediu de se pronunciar. Por questões de vida ele preferiu não perguntar à Satsuki o que ele havia tirado.
Saotome limpou a garganta antes de chamar a atenção de todos.
— Vejo que muitos estão confusos, mas é tudo bem simples. Primeiro: tem que ser feito estritamenteo que está no papel! Incluindo o gênero. Segundo: trocar papéis é terminantementeproibido! — ele prolongou a pronúncia de algumas palavras, assim como misturando o inglês ao vocabulário — Se algum aluno quebrar as regras ele arcará com uma punição. Ah, também há mais uma coisa. Esse evento será aberto para as empresas com parceria à Academia Saotome e a nossa agência, eles avaliarão as roupas de vocês. Aqueles que tiverem destaque serão premiados! — ao terminar de explicar, Saotome deu um grande salto até uma das janelas — Por tanto não contenham a inspiração ardente de seus corações jovens para se fantasiarem!
Dito aquilo, uma pequena explosão ocorreu e o diretor sumiu. Parte dos alunos ainda demoraram um pouco para digerir o anúncio e ficaram pelos arredores.
Satsuki seguiu o caminho de volta antes de Syo, mas não foi para o dormitório que ele havia ido e Syo só percebeu isso quando entrou no quarto, pois teve de tatear a parede em busca do interruptor para iluminar o aposento.
A sacola com as compras que havia permanecido abandonada ao lado da cama de Natsuki foi a primeira coisa que atraiu sua atenção. Um suspiro derrotado deixou Syo, que caminhou até ela e, só depois de encará-la por alguns momentos é que ele então retirou as duas peças de roupa de dentro.
Ele não iria receber de volta; aquilo era algo que já havia decidido, mas também não podia forçar Satsuki a aceitar. Assim sendo, ele tomou a liberdade de abrir a gaveta de Natsuki e guardar os dois cachecóis ali. Daquela forma, ele conseguia manter uma mínima esperança de que Satsuki não iria tentar se livrar do dele.
Pouco antes de Syo ir tomar banho, ele ouviu seu celular tocar e ao olhar o nome no visor se surpreendeu, não demorando muito para atender. Era da Re Angel.
— Ah, Kurusu que bom que atendeu! Desculpe ligar esse horário.
Syo logo reconheceu a voz bem humorada de Hanazawa do outro lado da linha. Ele havia deixado o contato dele com o editor, mas não esperava ser contatado tão rápido.
— Está tudo bem, aconteceu algo?
— ... Eu entendo que é meio em cima da hora, mas você estaria livre amanhã à tarde?
Syo ponderou por um momento, mas respondeu logo em seguida.
— Eu estou sim. — ele não disse mais nada na espera que o editor revelasse o tópico da conversa.
— Sério? É um alivio ouvir isso! Acontece que o Itsuki acabou comentando da sessão de hoje com a diretora, e depois de ver as fotos de hoje ela insistiu terrivelmente em adicionar uma pequena sessão extra de fotos da Yui na edição dessa semana. Como nosso prazo de publicação está chegando, eu fiquei um pouco preocupado com a sua agenda. Obrigado e me desculpe por isso Kurusu. Venha amanhã às 14:00h e não se atrase.
Depois de trocar mais algumas meias palavras, Syo desligou o celular e permaneceu parado no mesmo lugar como se estivesse revendo toda a conversa que há pouco tivera. Pelo menos agora sim ele estava mais confiante de que sua primeira impressão não havia sido ruim.
~ ♫ ~
Mais tarde no dia seguinte, logo depois da aula, Syo se dirigiu a empresa no horário marcado. O curto caminho apenas lhe permitiu deixar claro para si mesmo que ele tinha que seguir os mesmos passos do dia anterior, caso contrário ele poderia vir a arruinar o pouco da boa imagem que havia conseguido criar, já que agora envolvia o pedido da diretora e prazos.
Ao entrar no escritório, ele se deparou com Hanazawa falando ao telefone. O editor ao vê-lo sinalizou um oi, seguido de um “você já pode ir entrando”, enquanto apontava para a porta do estúdio. Lá dentro, a primeira pessoa que Syo se deparou foi Adachi, que já estava fazendo bom uso da nova cafeteira e ali lhe avisou que Kotomi o aguardava na sala dela.
Dessa vez, quando ele entrou na sala da assistente, as roupas estavam posicionadas em um canto diferente e o local também parecia mais arejado. Por um momento, ele teve a sensação de que o cômodo parecia maior.
— Syo-chan você chegou cedo!
Kotomi foi em direção a ele e o cumprimentou sorridentemente, embora demonstrasse um pouco de urgência para voltar à mesa dela. Syo percebeu que ela parecia estar terminando de catalogar algo que ele não sabia especificar o que era.
— Um pouco. — ele sorriu igualmente, porém um pouco sem jeito — Eu estou atrapalhando? — não conteve a pergunta ao vê-la terminando de ajeitar as coisas.
— Ah, não, imagina. Pode deixar as suas coisas em algum canto e se sentar. — Kotomi sinalizou casualmente para as mesas que estavam livres e depois para uma das cadeiras que havia próxima dela, dando um pequeno riso — É apenas uma reorganização que faz parte da rotina.
Poucos minutos depois Kotomi fechou a planilha e foi dar atenção à Syo. Conforme ela preparava a pele dele para aplicação da maquiagem, eles conversavam um pouco sobre as primeiras impressões que Syo estava tendo até então sobre o trabalho. Não era um trabalho difícil, embora ele estivesse apenas no começo, e também não via problema com as pessoas dali, parecia ser um ambiente até que descontraído, mesmo mantendo a linha profissional. No entanto, aquele tipo de carreira não era algo que ele via para o próprio futuro – até porque estava apenas o fazendo por falta de escolha – e isso ele guardou para si.
Dentre outros vários assuntos, Kotomi tocou em um ponto que realmente lhe prendeu a atenção.
— Ontem recebemos um convite do Shining para o evento Halloween que ele está organizando. Mal posso esperar pelo que virá esse ano! — ela comentou toda animada terminando de delinear os olhos de Syo, não deixando de reparar os leves sinais de frustração que bateram no rosto dele — Hmm... Algo me diz que você sabe de alguma coisa. Vamos, me conte, me conte! Eu prometo guardar segredo!
Syo não sabia se podia abrir tais detalhes, mas como Saotome não mencionou nada sobre guardar segredo, ele acabou contando de forma resumida sobre o anuncio da noite anterior, mesmo que com um pouco de receio.
— Isso vai ser engraçado de ver. — Kotomi riu demonstrando mais curiosidade do que interesse — E você tirou o que?
— ... Bruxa. — Syo respondeu depois de fazer um pequeno suspense, ele não queria revelar o que havia tirado, na verdade, bem que gostaria de omitir a verdade ali, mas acabou por revelar, até porque Kotomi com certeza estaria lá.
— Serio? Ah, eu tenho um contato de um atelier muito bom para eventos desse tipo. Tem uma fantasia de bruxinha muito meiga lá. Eu tenho uma foto em algum lugar por aqui... — ela pegou o celular e procurou rapidamente — Aqui está!
No visor havia uma mulher de curvas modestas que usava um vestido púrpura escuro liso que ia até o joelho, repleto de babados nas extremidades e que intercalava o branco e um tom de roxo mais sutil; mesmo a camisa curta branca por baixo deste também continha babados. Havia alguns adornos na faixa da cintura que remetiam bem o Halloween e que não eram exagerados. O incrível era que tanto as luvas quanto o chapéu continham babados e um laço.
Se Natsuki visse certamente diria “Que fofo! Syo-chan você precisa experimentá-lo~!”, e imaginar a cena o fez suspirar. Ele tinha que admitir que a fantasia até que era bonitinha... Na modelo.
— Posso ver de conseguir com desconto pra você, só que, em troca, você tem que me deixar fazer sua maquiagem e não aceito "não" como resposta.
Como não havia muito tempo para pensar, assim como a possibilidade de não encontrar algo melhor, Syo acabou por aceitar a proposta de Kotomi, esperando não se arrepender futuramente.
Depois de mostrar um grande sorriso satisfeito, Kotomi levou para Syo um conjunto composto de uma camisa creme e um fino cinto detalhado para sobrepô-la, uma saia rodada preta, um fino casaco preto que acentuava bem a cintura e uma bota de couro marrom.
Enquanto se trocava, ele pôde ouvir um dos funcionários apressando Kotomi para que ela terminasse de arruma-lo; aparentemente devido à pressão do curto prazo, todos estavam mais agitados. Somente depois de colocar alguns pequenos acessórios e pôr o cachecol vermelho por cimas das longas mechas loiras, é que ele teve autorização de Kotomi para sair da sala.
Assim que retornaram ao estúdio, eles se depararam com Adachi, notando que ele carregava uma mochila consigo.
— O carro já está lá embaixo nos esperando. — Adachi avisou fazendo um pequeno sinal com a cabeça em direção à porta que liderava a saída do estúdio — Yui eu explico os detalhes da sessão de hoje no caminho. Agora vamos porque tempo é o que menos temos.
Syo em primeiro instante se sentiu um pouco confuso, mas logo aquela sensação se transformou em insegurança acompanhada de um nervosismo extremamente desconfortável. E então tudo virou de cabeça para baixo de repente. Sair em público vestido daquela maneira – independentemente do quão bem “disfarçado” de Yui pudesse estar – não era algo que ele contava fazer no curto tempo de trabalho à Re Angel.
Antes achava que o único obstáculo do dia seria apenas conseguir tirar boas fotos, agora era isso somado aos olhares alheios e tamanha exposição entre as pessoas. Se ele queria dizer um “desculpa, mas não vai rolar” ali? Com certeza. Poder se trocar e voltar para o dormitório, enquanto tentava esquecer toda àquela experiência de Kosoba Yui? Sem sombra de dúvidas. Mas se ele podia fazer de todos seus pensamentos seus atos era outra história.
O motorista que estava no carro foi apresentado mais tarde como o assistente de Itsuki. Syo ficou um pouco mais aliviado pelo fato de que quem o acompanharia naquele dia seria Adachi e Kotomi, graças a pouca afinidade que tinha com ambos ele podia afirmar que uma baixa porcentagem de seu nervosismo foi neutralizada.
— Nós temos pouco menos de duas horas e meia para concluir a sessão. — Itsuki anunciou ao olhar o relógio de pulso que marcava 14:40h, enquanto afivelava o cinto — O local é um parque há 15 minutos daqui. Esse é um horário com pouco movimento, por isso acredito que não teremos muitas dificuldades por lá.
Não havia muito que ser explicado e isso ficou claro para Syo quando Adachi disse: “É a mesma coisa que uma sessão no estúdio, só que ao ar livre.”. O fotógrafo apenas deu alguns conselhos de comportamento e avisos sobre como lidar com pessoas inconvenientes.
— Yui você não pode falar com as outras pessoas, ok? — apesar da intenção de Adachi ter sido alertá-lo, o tom de suas palavras soou mais como uma imposição — Para os nossos consumidores, e todos que estarem ao nosso redor, você é uma garota. Se alguém ouvir a sua voz, você será exposto no mesmo segundo, e isso significaria um problema para nós.
E para mim também. Syo comentou para si próprio. Talvez ninguém o reconheceria, apesar de ainda haver o risco de alguém reconhecer sua voz, porém que a imagem da Re Angel seria marcada pelo ocorrido era um fato. E mais uma vez o peso da responsabilidade da própria imagem crescia em seus ombros.
— Finja que está sem voz ou que é mudo, o resto a gente cuida. — Adachi deu ombros casualmente se recordando, sarcasticamente, de curiosos que às vezes eram atraídos pelas modelos; podia-se dizer que ele fazia da ocasião um entretenimento.
Quando chegaram ao parque, ele estava como o esperado, quase não avistavam pessoas ao redor e o tempo estava tão claro quanto num dia de verão, apesar de estar mais frio. Devido à experiência, Itsuki já tinha algumas referências de onde poderiam começar a sessão, por isso ele guiava os três pelo local.
Sair do carro vestido daquela forma já havia sido um grande desafio para Syo, porém não maior do que sair andando por aí. Era extremamente constrangedor. E se alguém o reconhecesse? “Integrante do Starish é flagrado travestido em um parque.”, esse e outros tipos de manchetes começavam a bombardear seus pensamentos, causando calafrios e piorando a própria ansiedade.
A primeira foto não foi tão difícil de ser tirada como ele achava que seria, isso talvez porque antes ele se certificou que não havia ninguém por perto. A sensação de estar sendo observado ficava lhe rondando mais do que quando uma criança quando quer algo. Não dava para se acostumar com o nervosismo que parecia não ter fim. Cada olhar que cruzava com o seu passava a sensação de que eles podiam ver quem que estava por trás do traje, era uma sensação sufocante que lhe apertava o coração. A princípio, ele achava que podia estar estranho, até começar a ouvir alguns elogios de longe, aquilo o ajudou aos poucos.
Adachi percebeu o quão tenso Yui estava e por isso dizia para ele relaxar um pouco, obviamente não tendo muito efeito. Ele ainda não sabia como lidar com aqueles bloqueios do loiro, visto que as soluções eficazes são coisas provavelmente inesperadas, mas apesar do nervosismo, as fotos não estavam ruins, só não estavam saindo no mesmo nível do dia anterior.
De fato, a pressão era persistente, porém graças às belas vistas que Syo tinha no parque, ele se sentia um pouco mais calmo, era em momentos como aquele que Adachi dava mais cliques. “Sorria mais”, “Precisa ser mais feminino” e coisas do gênero eram o que ele ouvia do fotógrafo vez ou outra. Ser mais feminino... Caramba, ele era um cara, um cara com ideais bem másculos. Seu sonho era ser como o Hyuuga, mas agora estava ele ali mais pagando uma de Ringo, sem ofensas.
Após uma hora e meia ter se passado, Adachi anunciou uma pausa.
— Aproveitem o tempo para descansar ou comer algo porque nós retomaremos no pôr do sol. — Itsuki explicou enquanto olhava os céus e pensando em aproveitar o tempo para revisar as fotos, além de dar uma caminhada pelo parque em busca de novos pontos para foto.
— Hmm, mas o pôr do sol vai ser mais ou menos só daqui uma hora, não? — apesar de da dúvida ter soado mais como um questionamento, Kotomi queria apenas se certificar que tamanho intervalo não iria vir a prejudicá-los. Até porque intervalos generosos como aquele não é algo que se reclama.
— Isso ou menos. — ele respondeu — Eu gostaria só de algumas fotos durante ele para fechar a sessão de hoje, por isso não vão para muito longe e fiquem de olho no celular ou no céu. Nós nos reencontraremos aqui.
— Espera, vocês vão se separar mesmo? — Syo murmurou bem baixo depois de se certificar de que não havia ninguém pelas proximidades. O que ele iria fazer ali por uma hora parado e sem poder falar? Sem mencionar que ele estava de Yui.
— Ah, não se preocupe. — disse o assistente de Adachi — Nós sempre fazemos isso em intervalos longos. Eu vou procurar algum lugar para lanchar, o Itsuki provavelmente vai andar por aí e a Kotomi ficará por aqui, jogando no celular. — ele comentou dando um pequeno riso em seguida.
— Ei! — Kotomi riu igualmente, levando na esportiva o comentário — Não se preocupe Yui-chan, eu farei companhia para você. Agora vão vocês dois! — ela ergueu uma das mãos sinalizando como se os estivesse espantando.
Tanto Adachi quanto o assistente logo saíram andando pelo horizonte e não muito depois sumiram de vista. Syo não ficou muito confortável com a ideia de que ele e Kotomi haviam ficado sozinhos, e isso no sentido de que na visão dos outros eram duas garotas meigas sozinhas no meio do parque. As mechas rosadas de Kotomi eram mais do que o suficiente para chamar a atenção dos homens, e o look que ele estava usando não favorecia muito também. Era uma situação complicada. Ou melhor, delicada.
— Então vamos? — Kotomi rompeu o silêncio abrindo o sorriso empolgado para o loiro.
— Huh? Para onde?
— Como para onde? — ela repetiu, erguendo ambas as mãos em meio à dúvida — Olha ao seu redor. Mesmo sendo somente um monte árvores, eu garanto que há muitos cenários lindos por aqui. Principalmente perto do lago.
Syo ponderou por um momento antes de comentar. Não sabia dizer se era pior ficar parado ou sair andando por ai, mas antes que pudesse decidir qual era o menos pior, Kotomi já havia o pego pelo pulso e começado a arrastá-lo por aí. De fato, havia alguns lugares que encantavam um pouco a visão, era bom saber que havia um parque daqueles por perto, porém ao mesmo tempo em que ele apreciava o ambiente, ele igualmente ficava de olho nas pessoas ao redor.
No meio do caminho eles cruzaram por um banheiro, o qual Kotomi quis aproveitar para ir. Ela insistiu para que Syo a acompanhasse lá dentro, mas ele se recusou totalmente a entrar. Não era algo que ele queria fazer ou “aproveitar”, uma vez vestido daquela forma, por isso a esperou do lado de fora.
Bons minutos se passaram e nada da maquiadora sair do banheiro. Será que ela está fazendo isso para ver se eu vou entrar?Foi à primeira coisa que ele pensou depois dela insistir tanto, mas depois a possibilidade de que ela estava fazendo coisas mais... Demoradas veio em seguida. Era melhor esperar.
Foi nesse pequeno – e um tanto demorado – momento que uma mão pousou no ombro de Syo e fez com que seus olhos assustados focassem imediatamente os dedos que estavam apoiados em si. Era a mão de um homem. Mesmo não querendo, e rezando para que Kotomi aparecesse logo, ele olhou para trás e encarou o jovem que estava atrás de si, sentindo um tremendo frio na barriga quando seus olhos se cruzaram.
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