By your side
10 How do you think I feel?
Notas iniciais
Como você acha que eu me sinto?
O medo rapidamente transpareceu para o sentimento de surpresa quando Syo reconheceu a pessoa a sua frente, mas nem por isso seu nervosismo diminuiu.
— Natsuki...? O que você está fazendo aqui? — ele sussurrou tão baixo quanto um cochicho, demonstrando claramente estar perplexo com a presença do outro ali.
— Ah, então é mesmo você Syo-chan~!
— Shh! — Syo se aproximou dele com o indicador à frente dos lábios. O seu maior receio era que alguém tivesse ouvido aquela declaração, o que o fez se certificar imediatamente se não havia ninguém por perto. Por sorte só estavam os dois ali, e assim que concluiu aquilo, ele puxou o mais velho pelo braço até ficar um pouco mais distante do banheiro — Vem comigo.
— Hmm, por que você está sussurrando? — Natsuki perguntou no mesmo tom que Syo, porém mais curioso, se curvando em direção a ele, enquanto achava um pouco divertido falar daquela maneira.
A última pessoa que Syo precisava encontrar numa situação como aquela era justamente Natsuki. A maior certeza que tinha era que o outro não iria desgrudar dele e o pior é que em menos de uma hora ele precisava reencontrar Adachi para finalizar as fotos. Só de pensar que o mais velho, com certeza, iria acompanhar a sessão, fora o suficiente para fazer suas bochechas corarem momentaneamente.
— Olha... — ele olhou ao redor mais uma vez antes de continuar a falar — Eu não posso ficar falando, porque se descobrirem que a Yui é um cara, a empresa vai ter problemas. Então não me chame de Syo-chan, ok?
Ele explicou apressadamente pelo receio de ser flagrado por alguém. Não foi preciso muito para Natsuki entender que o companheiro estava ali à trabalho, por isso ele assentiu e decidiu que iria fazer o possível para ajuda-lo, ainda mais agora que ele estava ansioso para presenciar a sessão de fotos daquele dia.
— Mas... — Natsuki hesitou por um breve momento — Yui-chan você está aqui sozinha?
— Não, não. — ele balançou a mão em meio à resposta — A minha maquiadora está no banheiro, só que ela está demorando muito e... Eu não quero entrar lá.
Natsuki riu ao ver como o outro ficou sem graça sobre o assunto.
— Neste caso, por que não damos uma volta? — a pergunta foi recebida com um silêncio acompanhado do olhar de “Você está falando sério?” do baixinho — Não se preocupe~ Se nós andarmos aqui por perto, você irá vê-la quando ela sair.
Syo ponderou por um momento, mas não demorou muito para ceder a proposta de Natsuki. Se seria apenas uma caminhada perto do banheiro ele não via mal algum, até porque era melhor do que ficar plantado ali esperando.
O vento que soprava as folhas secas das árvores normalmente tornaria o cenário um tanto melancólico. No entanto, por estarem caminhando lado a lado, a queda das folhas completava a aura romântica que os rondava. Querendo ou não, aquela atmosfera deixava Syo cada vez mais ansioso, principalmente com o silêncio forçado entre eles. O que aumentava ainda mais a tensão é que ele tinha quase certeza que estava meio corado e que Natsuki havia percebido, uma vez que ele podia sentir o olhar terno do outro sobre si.
Depois de apertar os lábios, Syo murmurou, mantendo seus olhos para o horizonte — ... O que foi?
— Bem... Sabe, eu realmente queria muito poder andar de mãos dadas~
A declaração do mais velho quase que conseguiu atrair o par de olhos azuis para si. Natsuki achava que eles podiam aproveitar a ocasião, mesmo que fosse apenas por poucos minutos. Não era sempre que eles tinham a chance de desfrutar de um momento juntos sem se preocupar com a opinião alheia; apesar de que o único que realmente fazia alguma questão de ser discreto quanto ao relacionamento deles era Syo.
Uma leve insegurança beliscou o pequeno, que olhou para o banheiro procurando discretamente pela figura loura, mas sem sucesso de localiza-la. Ele ouviu um “Por favor~?” naquele tom aveludado que fez seu coração bater mais rápido, ousando espiar com o canto dos olhos a expressão do outro que se revelou chorosa.
Foi um erro. Mesmo Syo sabendo que o olhar triste e pedinte que recebia era puro apelo emocional, ele acabou estendendo minimamente a mão para Natsuki, jogando os olhos para o lado oposto. Era difícil resistir.
Um perfeito e sereno sorriso desenhou-se no rosto de Natsuki e só então ele gentilmente apoiou sua mão sobre a dele, encaixando as mãos e entrelaçando os dedos. De certa forma ele se sentia culpado, mas logo aquele sentimento era sobreposto pela felicidade de estar com o baixinho.
— Yui-chan, as suas mãos são realmente pequenas e parecem tão delicadas~ Igual a de um violinista. — Natsuki roçou o polegar dele sobre o de Syo e manteve seus olhos fixos nos do outro.
Antes de poder manifestar sua vergonha que já estava marcada claramente em seu rosto, Syo avistou um pequeno grupo de estudantes que passavam por perto e que pareciam ter diminuído o passo propositalmente. Com tantas coisas para falar, ele fala justo isso e agora? Normalmente aquela sentença soaria como uma simples comparação. No entanto, talvez devido às circunstâncias, ele interpretou aquilo como se Natsuki estivesse declarando para “Yui” os sentimentos dele pelo violinista.
Com uma brisa que bateu contra eles, ambos tiveram sua atenção atraída para os céus graças ao número de folhas que foram erguidas a ele. Parecia a cena de um filme. O fluxo de tudo ficou devagar e o único som audível era das folhas secas que caíam sobre o chão e o gramado.
— Eu gostaria de poder ficar com você assim para sempre. — Natsuki anunciou, ainda vislumbrado com o cenário de outono que se fazia à sua frente, e depois de um breve silêncio, ele olhou para o pequeno e apenas mexeu os lábios, dizendo silenciosamente “Syo-chan.”.
Syo não podia falar, e mesmo se pudesse, talvez não conseguiria com toda aquela sensação que queimava e transparecia sobre suas feições, mas ele apertou a mão de Natsuki gentilmente. Era uma forma de dizer que ele também queria aquilo. Justamente em momentos como aquele, ele percebia o quanto o amava.
Com o rosto transbordando de sentimentos, Syo fez mais uma ronda com o olhar em direção ao banheiro e ao ver que o resultado ainda era o mesmo, ele puxou Natsuki para trás de uma velha e larga árvore.
Natsuki estava confuso com a ação repentina, porém, antes que pudesse perguntar algo, ele viu Syo inspirar bem fundo como se estivesse se preparando para algo, e então viu aquelas duas pequenas mãos envolverem seu rosto, guiando-o para baixo até que seus lábios se encontrassem com os rosados dele.
Em nenhum momento, os dois desviaram seu foco para outra coisa que não fosse o olhar do outro. O simples roçar de lábios teve sua separação não muito depois, embora ambos demostravam não querer se distanciar mais do que o necessário. Não foram preciso palavras ou sinais para que um entendesse o que o outro estava querendo dizer.
Natsuki apoiou sua mão sobre uma das do companheiro e a acariciou ternamente. Aquela situação o lembrava tanto do dia em que Syo havia se declarado para ele. A forma como ele teve a iniciativa do beijo, o olhar inseguro e apaixonado que recebia, e sobretudo, aquelas mãos pequenas em seu rosto. Talvez pudesse ser algo normal para outros casais, mas para ele, essa sequência sempre terá um significado especial. Muito especial.
Syo notou que Natsuki estava lentamente diminuindo a distância que havia entre eles, porém antes que pudesse continuar a desfrutar daquele momento, ele ouviu passos apressados sobre o gramado ficando cada vez mais alto e quando olhou, se assustou ao ver que era ninguém mais, ninguém menos, do que Kotomi correndo em direção à eles.
Imediatamente Syo se pôs entre Natsuki e Kotomi, sinalizando para que ela parasse; o que não teve muito efeito quando ela chegou aonde eles estavam.
— Ei, você!
Kotomi apontou para Natsuki, uma vez que Syo a impedia de se aproximar dele, e isso a irritou de certa forma. Ela achou que o modelo estava protegendo o estranho numa tentativa de evitar problemas. Ele podia ser alto – bonito, charmoso e entre outros detalhes –, mas não era assim que as coisas funcionavam para ela.
— É melhor não tentar nenhuma gracinha com a nossa modelo ou eu faço um escândalo aqui e te denuncio por abuso, entendeu? — ela apontou para o logo da Re Angel costurado na camisa que usava, numa maneira de conscientizar o jovem com quem ele estava lidando.
Syo suspirou em meio ao constrangimento e notou que algumas pessoas os olhavam curiosos. Ele precisava resolver aquilo antes que a situação piorasse, por isso se aproximou de Kotomi tentando acalmá-la.
— Ele é meu amigo, está tudo bem. — Syo sussurrou para a maquiadora que ficou um pouco sem graça após processar a descoberta, abrindo um meio sorriso para o estranho, embora questionava-se agora o quanto ele sabia sobre a identidade de Yui.
Ao ver que o mal entendido havia sido desfeito, Natsuki endireitou a postura e deu um pequeno riso para descontrair o clima.
— Eu sou Shinomiya Natsuki. É um prazer.
— Hidaka Kotomi, o prazer é meu. Ahn... Shinomiya...? — ela se mostrou pensativa por um momento, tendo quase certeza de já ter ouvido aquele nome antes — Ah! Você é o estudante que mandou as fotos da Yui-chan para nós!
— Sim, eu mesmo~
— Nós somos muito gratos por você ter mandado as fotos, principalmente a diretora! Me desculpe pela minha atitude de antes, sabe como é... Muitos homens acabam flertando com nossas modelos e fazem uma confusão, por isso quando não encontrei a Yui-chan e a vi com você me desesperei na hora. — Kotomi deu uma pequena risada esperando que aquilo aliviasse o ocorrido e que o outro não ficasse com uma má imagem dela.
Nos poucos minutos seguintes, Natsuki e Kotomi trocaram algumas dúzias de palavras – as quais Syo não pôde participar por estar restrito devido à presença alheia – e não passou despercebido por nenhum dos três que os dois possuíam muitos pontos em comum. Tanto em opiniões quanto personalidade.
Syo acompanhava a conversa, apesar de nada relevante ser dito. Ao menos, nada que já não soubesse ou já tivesse ouvido, entretanto, isso foi até que o breve tópico do momento ser o evento de Halloween. Ali descobriu que o que Natsuki havia tirado era mascote. Ele precisou de alguns segundos para digerir a descoberta. A primeira imagem que se formou na mente dele foi de um imenso Piyo-chan vagando – e seguindo ele – alegremente pelo evento inteiro; palavras não eram o suficiente para descrever o quanto ele já se sentia embaraçado com a suposta e futura situação. Pensando bem, agora Syo compreendeu o porquê de Satsuki ter mostrado tamanha expressão de revolta na ocasião.
Seguida da informação do sorteio de Natsuki, Kotomi revelou também ser fã do Piyo-chan e ao compartilhar esse fato com os dois garotos, o mascote se tornou a estrela do momento e praticamente ofuscou a presença de Syo, que ficou a princípio, um pouco desconfortável com toda a atmosfera que começava a se formar ali. Era de certa forma... Irritante. E só não foi pior porque Kotomi pediu para tirar uma foto do Natsuki e dele juntos.
Durante a breve sessão de fotos que a maquiadora fazia, Syo olhava para céu procurando qualquer sinal de alaranjado entre as nuvens, mas este não parecia que iria aparecer tão cedo quanto ele queria. Havia diversas razões para ele querer acabar logo a sessão do dia: manter a calma com Natsuki por perto era quase impossível – ainda que ele temia que alguma emoção transparecesse mais do que deveria em seu rosto, seria melhor se ele fosse embora, mas era óbvio que aquilo não iria acontecer –, somado ao fato de que não se sentia confortável vestido de tal maneira em público e muito menos de não poder se manifestar livremente. Mas acima de tudo, seu humor estava indo por água abaixo vendo a aura de ternura que se formava entre os outros dois. Não era ciúmes aquilo. Certo, talvez estivesse um pouco, mas apenas achava que os dois estavam agindo muito próximos sendo que mal haviam se conhecido.
— Prometo que essa é a última, só que... façamos um teste. — Kotomi saltitou em direção à Natsuki e com cuidado lhe tirou os óculos.
Qualquer reclamação que Syo até então tinha fora chutada para longe quando ele viu os óculos de Natsuki nas mãos da loira enquanto ela recuava alegremente sem se importar com a má encarada que recebia. Ela não está nem ligando para olhar do Satsuki, ainda mais parece que está se divertindo! Ele queria que Natsuki fosse embora, mas não no sentido de que Satsuki assumiria o lugar dele. Era o pior cenário possível...
Satsuki começou seguir em direção à Kotomi, e Syo claramente podia dizer que algo bom não iria acontecer, por isso ele interviu e segurou o mais velho pelo braço com um pouco de dificuldade.
— Satsuki ela é minha maquiadora! — ele murmurou o mais baixo e discreto que pôde, ao contrário de Satsuki que não fez questão alguma de mascarar o tom.
— E eu com isso?
— “E eu com isso” o caramba! Se algo acontecer com ela, quem você acha que vai se encrencar?
Apesar da intenção de Syo ser que iria sobrar para si, “Natsuki” foi quem Satsuki logo pensou. No entanto, mesmo assim, ele não suportava a ousadia e toda a intimidade com que a maquiadora tratava Natsuki, ainda mais agora que ela ficava lhe lançando aqueles sorrisinhos que o tirava do sério.
— Hmm, vocês estão discutindo a pose? — ela riu enquanto enquadrava os dois, imaginando que tipo de conversa estavam a ter — É bom ver que você continua empolgada Yui-chan~
O cenho franzido de Satsuki se ergueu levemente ao ouvir a declaração da maquiadora da Re Angel. Os olhos dele, que momentaneamente olharam para Kotomi, estavam agora sobre Syo novamente.
— Oh-ho, então quer dizer que você anda empolgado com o trabalho, Chibi?
“Não!” era o que ele queria falar, mas um casal estava passando ao lado deles. Assim que o Syo viu o sorriso de canto e insinuante que se formara no rosto de Satsuki, ele logo fisgou os pensamentos do mesmo. Satsuki iria cobrar a aposta dos dois bem ali, e na pior das hipóteses, fazer alguma coisa que o constrangeria, foi o que pensou. Antes mesmo que pudesse reverter a situação, Kotomi respondeu por ele.
— Oh, você não faz ideia! — ela apoiou o rosto sobre a mão, demonstrando algum prazer em relembrar do ocorrido — Logo no primeiro dia ele mesmo se arrumou e fez um show no estúdio! Só não foi maior do que quando ele teve que colocar o sutiã. — um riso foi contido depois dela quase sussurrar a última parte.
Nesse momento, Satsuki olhou para a camisa que Syo usava, reparando que, de fato, havia algum volume ali. Sem pensar duas vezes, ele apalpou o falso peito e o apertou algumas vezes, desencadeando uma reação de surpresa tanto em Syo – que permaneceu estático e completamente corado – como em Kotomi.
— ... B-cup? — Satsuki ergueu sutilmente uma sobrancelha e só então tirou a mão do peito do outro.
Syo não conseguiu reagir. Na verdade, ele não sabia como, apesar de suas bochechas já falarem por si só. A única coisa que ele sentiu foram as pontas dos dedos de Satsuki e nada mais, mesmo tendo visto claramente que seu peito estava sendo apalpado. Ele não entendia como o mais velho conseguia fazer aquilo em público sem demonstrar vergonha ou qualquer traço de inquietação. Tá, eles eram pequenos e falsos, mas não eram tão ruim a ponto de não render nenhuma reação; embora, por um breve momento, Satsuki pareceu de alguma forma desapontado.
Um som de notificação veio do celular da maquiadora, interrompendo o momento e que ao checa-lo, ela pareceu lembrar-se de algo que havia esquecido.
— Ahn, Yui-chan, eu esqueci que tinha marcado de encontrar um cliente aqui para resolver um problema. Eu não sei quanto tempo irá levar, então... — ela se mostrou bem graça, assim como um pouco apressada — Shinomiya, por favor, fique de olho nela! Você pode ir encontrar o Itsucchi sem mim. Se cuidem e não façam mais pervertices em público, ok?
Depois de dar uma piscada, Kotomi correu por uma trilha do parque e sumiu de vista, deixando Syo com uma sensação bem estranha.
— Então vamos? — Satsuki segurou o braço de Syo e começou a puxá-lo.
— I-Ir aonde?
— Para a sua punição, é claro.
A sentença caiu pesada aos ouvidos do violinista. Por mais que ele relutasse, era óbvio que não conseguiria ganhar de Satsuki, sem mencionar que ele estava tentando se livrar daquela situação discretamente; a última coisa que queria era que a polícia aparecesse ali por causa de uma má intepretação.
Quando Syo se deu conta, eles estavam caminhando na rua ao lado da praça. Naquele momento, ele se declarou completamente perdido. Havia pessoas em todos os cantos que ele olhava, não contendo uma brechinha sequer. Ainda que para fechar com chave de ouro a situação, Kotomi havia ficado com os óculos de Natsuki.
— Chibi. — Satsuki sussurrou no ouvido do pequeno, prolongando um tanto maliciosamente a pronúncia das sílabas, o que desencadeou uma reação automática no mesmo, onde ele cobriu o ouvido com o rosto completamente vermelho dizendo “Não sussurre no ouvido dos outros assim!” — Oh... Já entendi. Deve ser difícil andar com o salto dessa bota, huh?
Foi bem ali, no meio da rua e sem se importar nem um pouco, que ele pegou Syo nos braços e começou a carrega-lo como uma princesa pelo quarteirão. A princípio, Syo havia petrificado quando se sentiu suspenso no ar, mas então começou a se remexer, xingando o mais velho mentalmente.
— É melhor não se debater muito. Está chamando mais ainda a atenção das pessoas e... Ah, estão tirando fotos. — ele sorriu sarcasticamente — Isso é bom para o marketing, não é, Yui-chan?
O vermelho de raiva se misturou com o de vergonha no rosto de Syo, e ele não sabia se queria enterrar a cabeça no asfalto ou matar Satsuki primeiro. A solução encontrada por ele foi ficar quieto nos braços do outro, dessa forma acreditava que iria diminuir o entretenimento dele.
Na quadra seguinte eles entraram em uma lanchonete e, assim como na rua, atraíram a atenção das atendentes e de alguns clientes que olharam curiosos. A sorte foi que a loja não estava cheia e que não sentaram em um mesa com pessoas por perto. Satsuki pediu dois salgados para eles dois, os quais foram entregues sem demora.
Por mais que Syo sentisse no fundo uma vontade de se aproximar dele, de tentar conhecer o lado “legal e gentil” que Natsuki diz que o outro tem, ele praticamente jogava tudo para o alto quando se deparava com situações como aquela. Sinceramente, ele não sabia dizer se Satsuki fazia de propósito para manter uma distância entre eles ou se era porque ele gostava de chutar o pau da barraca.
“Eu tenho que encontrar meu fotógrafo antes do pôr do sol.” Syo escreveu no celular e mostrou para o mais velho.
— Então é melhor você já ir pensando em como contar sobre a aposta para ele.
O que ele não entendia era porque a tal punição tinha que ser naquele dia e naquele momento. Satsuki sabia muito bem que ele estava no meio do trabalho, só podia estar fazendo por pirraça, foi o que pensou. No entanto, ele agora, também tinha algo que poderia usar contra o outro.
— Ansioso para a fantasia de mascote? — Syo murmurou enquanto sorria travesso, mas quase que se arrependeu quando viu a grande expressão de mau humor de Satsuki — A-A propósito, aonde você foi ontem à noite? — ele tentou escapar do tópico anterior da conversa, enquanto mantinha sua atenção nas pessoas ao redor e aos céus.
— Ameaçar o diretor para mudar o que eu tirei. — ele respondeu depois de hesitar, causando um choque na reação de Syo que ficou em silêncio em meio a perplexidade — É claro que não foi isso, duh. Por que você quer saber? Se bem que... Talvez isso possa te deixar mais empolgado para o trabalho.
— Olha, isso tudo é um mal entendido da Kotomi, ok? — ele sussurrava, tentando não deixar as emoções fazer seu tom se elevar — Em nenhum momento eu fiquei empolgado ou gostei do que estava fazendo.
— Diz a pessoa que está usando um sutiã.
— Isso não quer dizer nada. Eu só consegui ir bem na sessão de ontem porque eu tive que... imaginar o Natsuki no lugar do fotógrafo, tá? — as palavras de Syo quase sumiam no ar conforme ele terminava a frase. Era extremamente embaraçoso para ele admitir aquilo.
Depois de um momento de silêncio, Satsuki se levantou e simplesmente saiu da lanchonete, o que deixou Syo extremamente confuso. Ele só pôde segui-lo depois de ter pago os lanches que mal tocaram, e a essa altura, quando ele saiu da loja, Satsuki já não estava mais em seu campo de visão. Ali ele se questionou se o mais velho havia voltado ao parque ou se retornou à Academia Saotome, não dava para dizer julgando a situação e algo lhe dizia que se ele ligasse, não seria atendido.
Syo optou por retornar ao parque. Com o pouco tempo que tinha, ele não poderia arriscar procurar por aí, ao menos, era o que ele pretendia fazer quando foi surpreendido por dois jovens. Ambos possuíam cabelos castanhos e outras características não muito fortes, assim como as cantadas que eles jogavam para cima de si. Era tudo tão repugnante.
Antes que Syo pudesse escapar da investida, um dos jovens enlaçou o braço com dele e o segurou, e o comparsa fez o mesmo do outro lado, imobilizando-o de forma que mal conseguia relutar. O primeiro instinto que lhe veio foi gritar, xingar, lutar, mas nada daquilo era viável. Se em meio a briga a peruca caísse, seria o mesmo que abrir a boca e discutir com eles. Entretanto, nem por isso ele ficou quieto e, mesmo de mãos atadas, ele tentava se debater enquanto lançava olhares de ódio para os dois que o arrastavam cada vez mais longe do parque.
— Ei, calma, nós só vamos nos divertir um pouco num karaokê aqui perto. — um deles comentou rindo de maneira suspeita.
— Falando nisso, eu não ouvi sua voz ainda. Você tem um rosto tão lindo. — o outro comentou para Syo — Você é estrangeira? Do you speak english?
“Se alguém ouvir a sua voz, você será exposto no mesmo segundo.”
As palavras de Adachi ecoaram num momento de fúria e o impediu no último instante de se manifestar. Tendo a resposta como silêncio e uma má encarada, ambos concluíram que ele devia ser mudo e então se entreolharam com um sorriso como se estivessem se comunicando mentalmente. Um mau pressentimento crescia dentro de Syo, enquanto ele amaldiçoava cada segundo daquela situação.
O que tinha mais cara de sem vergonha começou se aproximar de seu rosto, e sentir a respiração em sua bochecha foi algo tão nojento que ele quase quis dar uma cabeçada bem no meio da cara do indivíduo, e talvez o teria feito se naquele momento alguém não tivesse puxado por trás a gola da camisa dos dois rapazes.
Surpresos, e assim como um pouco nervosos, ambos olharam para trás prontos para xingar quem que fosse, mas ao se depararem com a familiar expressão semelhante a dê um tigre prestes a devora-los, eles petrificaram. Nunca eles esqueceram do jovem loiro que era fã do Piyo-chan e que fez um deles comer embalagem de hambúrguer e o ameaçou a jogá-lo no lixo em seguida. Quando teve oportunidade, Syo olhou para trás e se surpreendeu ao ver Satsuki.
— Se divertindo com o que não é seu? — Satsuki rugiu para os jovens, que assustados, se debateram e sumiram de vista rapidamente.
Um silêncio perdurou entre os dois. A expressão de Syo claramente dizia “Por quê...?” e logo ele rompeu contato visual por estar irritado, ou melhor, frustrado com a situação de há pouco. Sem dizer nada, Satsuki deu as costas à Syo e lentamente começou a caminhar entre a multidão.
A mente do pequeno estava um caos. Tantas emoções, tantas conclusões, tantas confusões... Queria ele poder sentar ali e ficar olhando o céu o dia inteiro sem fazer nada. Ele estava bravo com Satsuki, isso porque foi culpa dele aquilo ter acontecido. Se ele não tivesse sumido do nada a abordagem não teria acontecido. No entanto, o que o mais irritava é que foi ele quem apareceu para ajudá-lo. Não era que ele não era grato, mas só que... Não conseguia deixar de se sentir extremamente bravo com o outro.
Satsuki, ao perceber que Syo continuava parado no mesmo lugar fitando o chão, soltou um suspiro impaciente e caminhou até ele.
— Vai ficar aí parado? Você tem uma sessão, não? — sem esperar por uma resposta, até porque ela não viria, ele pegou a mão do mais novo e começou a guia-lo de volta para o parque.
Durante o trajeto inteiro nenhuma palavra foi dita.
Syo odiava aquilo. Em cada passo dado mais seus olhos se perdiam por aquela alta estatura, e a firmeza com que sua mão era guiada pela do outro apenas fazia com que aqueles sentimentos confusos viessem à tona novamente. Quanto mais ele tentava se aproximar do outro, mais era afastado, e sempre quando ele está longe o suficiente, Satsuki o trazia para perto de si novamente. Será que ele nunca pensava em como ele se sentia com tudo aquilo? Com certeza os sonhos eróticos que tinha também era culpa dele.
Só que agora, seu maior receio era a sensação que oscilava dentro de si. Há momentos em que ele quer matar o mais velho e dar o troco, mas também, há momentos que ele aprecia quando é cuidado e protegido por ele. Como quando estava superando o trauma do sonho que tivera, como agora que tinha as mãos seguradas pelas dele.
Ele temia de estar se apaixonando por Satsuki.
Fale com o autor