By your side
8 No charm point
Notas iniciais
Sem pontos de charme
Logo após dobrar mais um pequeno pedaço de papel e depositá-lo em uma grande caixa preta ao lado de si, Saotome olhou para a superfície da mesa e reparou que aquele havia sido o último deles. Ele, então, se permitiu afundar as costas no estofado de couro da poltrona, soltando um suspiro aliviado depois de ter finalmente concluído o que havia começado pela manhã.
O relógio agora marcava 14:30.
Só de pensar no evento que se aproximava a expressão indiferente fora lentamente quebrada por um simples sorriso que cresceu em seu rosto até exibir todos os dentes alinhados. O ar travesso que agora se firmou nas feições do diretor, veio acompanhado de um baixo riso sinuoso abafado em sua garganta.
~ ♫ ~
Olhando para o mapa que havia feito no dia anterior, Syo andava em um passo apertado procurando se localizar em meio a um cruzamento. Não era que ele estava perdido, mas sim apenas um pouco deslocado de onde supostamente deveria estar.
O prédio onde a Re Angel se encontrava era próximo da Academia, o que veio a ser conveniente para Syo. Ele não teria gastos com transporte público, entretanto, a caminhada de agora o deixava um pouco preocupado, pois seria extremamente péssimo chegar atrasado logo em sua primeira visita à empresa.
Anteriormente, ele encontrou um taxista que, aparentemente, estava fazendo uma pausa e este lhe explicou o trajeto de bom agrado. O homem ainda veio a lhe oferecer uma corrida, mas ele negou e seguiu as instruções dadas. Se fosse para pagar, teria pagado um ônibus desde o começo,Syo pendulou a cabeça conforme atravessava a rua, não deixando de reparar que o tráfego estava particularmente ruim naquele momento.
Em menos de 15 minutos, ele estava na frente de um grande edifício empresarial cinza com um pequeno logo da Re Angel na faixada. Diferente dos prédios próximos, aquele não continha muitos andares – em uma breve olhada para cima Syo pôde contar cerca de cinco ou seis andares –, além de sua arquitetura ser um pouco mais moderna e igualmente delicada, chamando mais a atenção.
Sem mais delongas, Syo adentrou o prédio e rapidamente verificou o celular enquanto se dirigia à bancada da recepção. Whoa, salvo por onze minutos!Um sorriso emergiu com a boa notícia. Ele logo guardou o celular no bolso e respirou fundo numa tentativa de acalmar a respiração. Assim que chegou à recepção, uma moça de aura séria e profissional – a qual ele automaticamente bateu o olho no crachá que mostrava “Kobayashi Mayumi” – pediu por sua identificação.
— Kurusu Syo. Eu tenho uma entrevista marcada às 15:00. — um pouco de nervosismo acabou transparecendo em suas palavras enquanto ele entregava o documento de identidade, o que provocou um sorriso sem graça.
Após alguns cliques, a recepcionista lhe entregou um crachá juntamente com o documento antes cedido por ele, e apontou o caminho ao elevador.
— 4º andar, segunda sala à direita.
— Ah, obrigado!
Syo curvou-se minimamente e seguiu pelo caminho indicado. Enquanto o elevador não chegava, ele aproveitava para prender o crachá de identificação de “visitante” no colete preto que usava, e dar uma pequena ajeitada em si no grande espelho fixado à parede.
Pessoas de terno iam e vinham – e algumas com um look mais extravagante –, eles passavam por si quase não lhe dando muita atenção. Na verdade pareciam até ignorá-lo. Os poucos olhares que eram atraídos para si, pareciam lhe julgar ou até menosprezar, fazendo os baixos murmúrios parecerem que eram exclusivamente sobre ele. Claro que tudo não poderia passar de uma paranoia.
Graças àquilo, agora ele encontrava inseguro. Seriam suas roupas ou o nervosismo estava tão na cara assim? Tudo bem que ele não sabia ao certo o que vestir, mas por ser uma empresa de modelos, ele não conteve muito do estilo próprio. Syo confiava no senso de estilo que tinha, por isso, meio que duvidava que suas roupas não fossem o problema.
Com esses pensamentos, ele entrou no elevador, que para seu alívio estava vazio, e apertou o botão para o quarto andar. O fechar da porta caiu pesado em seus ouvidos, provocando um calafrio. Quanto mais ele pensava, mais achava que aquela história não iria dar certo e o pior é que não havia volta; a escolha não lhe foi um privilégio dado desta vez.
O toque polifônico vindo de seu bolso o assustou, fazendo-o rapidamente silenciá-lo. Era uma mensagem de Natsuki.
“Syo-chan você conseguiu chegar sem problemas?
Hm... Você parecia um pouco inseguro hoje de tarde, então aqui vai mais uma vez: coragem~! (´▽` )ノNão deixe a ansiedade e a pressão atrapalhar no trabalho. Você é forte e eu sei que consegue!
Depois me conte como foi, ok? ( ´ ω ` )
Ps: Se puder me traga fotos!♥”
Um pequeno sorriso despercebido se formava no rosto de Syo conforme seus olhos traçavam as linhas do sms, não contendo um baixo riso no término da mensagem. Era realmente difícil continuar bravo com Natsuki daquele jeito, ainda mais quando parte da sensação desconfortável que estava estagnada em seu estomago havia sumido graças às palavras contidas no visor.
O elevador deu uma pequena estremecida ao parar no andar desejado, não dando a Syo muito tempo para responder a mensagem como queria. Antes de seguir para a sala indicada, ele colocou o celular no silencioso e o guardou no bolso.
O andar se encontrava bizarramente silencioso. Não havia vozes, passos, ou qualquer som que pudesse indicar que havia pelo menos uma pessoa trabalhando ali, o que fez Syo pensar se haviam passado a informação errada para ele. Ignorando o fato, ele bateu duas vezes na porta, cuja resposta, surpreendentemente, veio segundos depois.
Uma figura masculina com um ar simpático e descontraído abriu a porta e logo o cumprimentou, convidando-o a entrar. A sala era bem organizada e possuía uma decoração de cativar os olhos, principalmente os quadros com fotografias de modelos em paisagens extremamente belas, apesar de ser nítido todo o tratamento e efeito que aplicaram nela.
— Sente-se, sente-se.
O homem sorridente que aparentava ter uns 27 anos ergueu a mão para a cadeira cromada de tecido branco que havia em frente à sua mesa. Syo assim o fez, não deixando de reparar na aparência do atendente que agora estava sentado do outro lado da mesa.
A barba rala somada aos óculos de armação preta e um alargador de 8mm, além do cabelo castanho escuro modestamente arrumado com um topete apenas deixavam mais claro que se tratava de um hipster. Era permitido ir trabalhar daquele jeito? Ele se perguntava, lembrando que no hall havia visto algumas pessoas com trajes mais informais.
— Kurusu Syo, certo? Eu sou Hanazawa Yuuichi, editor-chefe da Re Angel. É um prazer. — ele estendeu a mão.
Syo abafou a expressão surpresa, que por muito pouco não se mostrou evidente em seu rosto, com um sorriso, segurando a mão e cumprimentando o diretor.
— Ah, o prazer é meu.
Não era só pela aparência, mas também pela forma tranquila como Hanazawa se comportava que Syo nunca diria que aquele homem seria quem ocupava tal cargo na empresa. Ele já tinha ouvido que os critérios assumidos por aquela empresa era um pouco diferente, mas não esperava algo assim.
— Acredito que o Shining já tenha lhe explicado sobre como procederemos com as publicações das suas fotos. Como deve saber a Re Angel é uma revista feminina, trabalhamos com modelos masculinos apenas como complementos em algumas fotos.
De alguma forma, Syo conseguia imaginar aonde aquela conversa iria parar.
— Nós nunca trabalhamos com crossdressers antes por critério da empresa. No entanto, suas fotos chamaram não só a minha atenção, como a da diretora da revista, e preciso dizer que ainda estou surpreso. — ele abriu o sorriso acenando algumas vezes com a cabeça — O que quero dizer é que ninguém, absolutamente ninguém, fora desta empresa pode saber sobre a identidade por trás de Kosoba Yui. Shining conversará com o estudante que enviou as fotos, então não precisa se preocupar.
— Certo.
Syo concordou, pensando por um momento no quanto àquela história de manter uma identidade secreta iria dar certo. Seu receio não era de não conseguir manter o segredo, mas sim da pressão e situações perigosas que ele poderia vir a se deparar graças a ele.
— … Ahn, Hanazawa-san? — Syo indagou com um meio sorriso sem graça quando percebeu que estava sendo firmemente encarado por um par de olhos que expressavam expectativa.
— Oh. — Yuuichi piscou abruptamente e riu casualmente em seguida, como se só tivesse percebido agora o que estava fazendo — Desculpe, é só que eu não consigo deixar de associar você à “garota” nas fotos.
Hanazawa parecia ainda querer continuar o comentário, mas sua atenção foi atraída para porta que se abriu no canto da sala, a qual ligava a outro cômodo.
— Ei, Yuu a cafeteira quebrou de novo. — reclamou a voz que veio da porta num tom de como já estivesse cansado daquilo.
Quem apareceu agora era um jovem cujo cabelos eram escuros como a noite e bem bagunçado. Aparentemente era mais novo que Hanazawa e, diferente dele, emitia um ar de não ser do tipo que se socializava muito.
— Ah, Itsuki bem na hora! Esse é Kurusu Syo, nossa Kosoba Yui.
— ... Prazer. — Syo forçou um sorriso e acenou com a mão, ainda um pouco sem graça com a forma que foi apresentado.
Itsuki observou Syo em silêncio por não mais do que três segundos e voltou os olhos para Hanazawa; seu olhar claramente dizia “Ah, tá. Grande coisa.”. Nada ele disse, a não ser um simples acenar de volta para o loiro.
— Kurusu, esse é Adachi Itsuki. Ele será seu fotógrafo. — Hanazawa anunciou, causando agitação no interior de Syo.
Fotógrafo? Estava mais do que na cara que Adachi não havia ido com a cara dele e ainda assim o colocariam para trabalhar consigo? Aquilo era um tiro no pé! Na verdade, muito mais do que isso porque, se ele falhasse, Saotome iria cair matando em cima de si. Hanazawa não demonstrava nenhuma intenção de mudar de ideia e Itsuki permaneceu indiferente.
— O estúdio já está pronto. — o fotógrafo sinalizou com o polegar em direção à porta de onde havia vindo — E não se esqueça da cafeteira.
— Claro, claro, não me esquecerei. — Yuuichi sinalizou positivamente com a mão enquanto Itsuki retornava ao trabalho, voltando a atenção para Syo em seguida — Venha, vou lhe mostrar o estúdio.
Hanazawa guiou Syo até a sala ao lado, revelando um grande espaço repleto de equipamentos fotográficos e stands separados para fotos, juntamente da presença de quatro funcionários e três modelos que estavam trabalhando ali no momento.
— Hoje você fará uma sessão experimental. — Yuuichi declarou para Syo, levando-o em direção até uma moça de cabelos louros com mechas rosadas — Essa Kotomi, assistente de maquiagem e figurino. Ela lhe ajudará a se arrumar para sua sessão.
— Oh~ Então você é a Syo-chan? Que fofo! — ela apoiou o rosto em uma das mãos com um enorme sorriso no rosto — Muito prazer!
— O prazer é meu. — Syo sorriu meio sem jeito.
— Neste caso, estarei pegando ele para mim agora, Yuuichi! — Kotomi anunciou sem esperar a resposta do diretor e puxou Syo pelo braço para a sala dela, ignorando o ar confuso que o rondava.
A sala em que se encontravam era repleta por kits e maquiagens, além de muitos espelhos e roupas. Syo não sabia dizer, mas talvez, aquilo seria um exemplo do que chamam de bagunça organizada.
Kotomi fez Syo se sentar em uma enorme e confortável cadeira e curvou-se em direção a ele, o observando com os olhos verdes brilhando; do ponto de vista dele, parecia que ela iria atacá-lo a qualquer momento.
— Meu Deus, você é muito fofo!
Syo achava que Kotomi e Natsuki eram parecidos em alguns aspectos, não só fisicamente, mas como de personalidade, sendo difícil dizer se aquilo era bom ou ruim para ele. Ele observava a sala através do espelho enquanto era meticulosamente maquiado pela assistente, principalmente nas roupas que havia atrás de si. Era estranho olhar o próprio reflexo e ver as transformações que seu rosto sofria pouco a pouco com os cosméticos. Era quase assustador. Começava a pensar como as mulheres aguentavam fazer aquilo todo dia. Base, pó, cílios postiços e outras coisas que não sabia definir o que era.
— E pronto! — após uma última pincelada sobre uma das maçãs do loiro, a assistente ficou-o fitando continuamente.
Um baixo ruído estranho vindo da maquiadora após ela ter olhado para seu rosto pôde ser ouvido por ele. Quando se olhou no espelho, viu melhor cada detalhe da maquiagem delicada e suave que lhe foi aplicada, e só acreditava que era seu rosto porque havia visto o processo de tudo.
O traje que Kotomi entregou para Syo não o agradou; era um vestido rodado marrom com detalhes e renda em tom de creme. Que raios de roupa é essa? É para eu vestir isso mesmo? Caramba, isso aqui tem mais babado do que as coisas que o Natsuki me traz! EMesmo sendo difícil, ele tentou disfarçar os pensamentos enquanto se trocava em um canto reservado como provador na sala. A questão não era só os babados carregados, mas o corte da roupa também não era algo lhe descia bem, sem falar que o estilo que não condizia com outono, mas quem era ele para discutir aquilo.
Se a maquiagem havia o surpreendido, sutiã era algo que ele não sabia classificar. A princípio Syo ainda tentou colocar sozinho, mas não importava o que fazia, algo parecia não estar certo. Algo não, praticamente tudo. Foi extremamente embaraçoso, mas no final só conseguiu pôr com a ajuda de Kotomi, que se surpreendeu achando que ele já sabia como por um.
A longa peruca loira levemente ondulada foi o que lhe poupou de passar por mais constrangimento, uma vez que já sabia como colocar. Assim que saiu do provador, ele foi surpreendido pela jovem novamente.
— Kyahh~! Yui-chan, não se mexa! — Kotomi logo levantou o celular e tirou euforicamente inúmeras fotos dele — Por Deus, você é um trap perfeito! Ahhh, eu quero te levar pra casa~! — ela gesticulava intensamente as mãos, se contendo para não tocar no violinista que a olhava assustado.
Trap? Parece ser um elogio, mas também não parece... Isso tá muito estranho.Primeiro um editor-chefe hipster, depois um fotógrafo que não havia gostado dele e agora uma maquiadora louca. Aquilo podia ficar mais estranho ou pior? Pensando bem, podia, então ele guardou aquele comentário bem no fundo para que não viesse a acontecer.
Assim que Syo saiu da sala de maquiagem, os olhares foram diretamente atraídos para si como se ele estivesse nu, o que causou certo desconforto. Não via o porquê da surpresa, ele não estava lá tão diferente de como ficava nas fotos que Natsuki tirava, exceto pela maquiagem e a roupa estranha que lhe dava desconforto.
— Aqui está, Itsucchi~ ele é todo seu, huhu. — Syo sentiu a mão de Kotomi empurrando-o para frente.
Syo não sabia dizer se Itsuki estava perplexo ou o quê com sua “transformação”, mas estava estampado na cara dele “Mas que é isso...?”, sendo que ele mesmo era o ‘isso’. Definitivamente, aquele trabalho estava longede render boas notícias. Sua vontade mesmo era de cruzar a porta, sair daquela empresa e nunca mais voltar. Quem dera fosse possível.
Ainda com um ar de reprovação, Adachi apontou para um set e pediu para que Syo se posicionasse nele, ignorando completamente os comentários irrelevantes de Kotomi atrás dele. O cenário era completamente branco sem nenhum objeto para interagir, deixando o loiro meio perdido.
— Ahn, que pose eu devo fazer, exatamente?
— Qualquer uma que você se sinta à vontade. — Adachi respondeu erguendo a câmera profissional e enquadrando Syo.
Não havia uma pose que ele pudesse se sentir à vontade. Havia muitas pessoas estranhas o olhando, sem mencionar que o fato de ter um fotógrafo que expressava rejeição por ele não ajudava nem um pouco, mas ele precisava tentar. No final, Syo arriscou uma das últimas poses que havia feito nas fotos de Natsuki: ele entrelaçou os dedos em frente ao corpo e o jogou sutilmente para o lado, mostrando um tímido e travado sorriso.
— Tente sorrir mais naturalmente.
A reclamação veio logo em seguida. Não importava quantas vezes ele aumentasse ou diminuísse o sorriso, ou mudasse a pose, Adachi semprechamava sua atenção em alguma coisa, não dando um clique sequer desde que ele subiu no set. Syo começava a achar que seu fotógrafo tinha preconceito com crossdressers porque não era possível alguém implicar tanto para tirar uma única foto. Até mesmo algumas pessoas desistiram a espera e voltaram ao trabalho.
— Olha... Eu não estou pedindo para que você aja como um modelo profissional, mas seria bom se você pudesse me ajudar aqui Sr. Sem Pontos de Charme.
O comentário do fotógrafo foi recebido com um olhar feio de Syo. Sem pontos de charme? Sem pontos de charme?! Se me falta charme,dá pra me dizer por que me chamaram aqui então?um vulcão entrou em erupção em seu no interior.
— Eu não sei o quanto você usou de Photoshop nas suas fotos, mas nelas você está com uma expressão bem diferente do que você está me mostrando aqui.
A conclusão de Adachi calou instantaneamente o fenômeno interno de Syo.
Claro… Aquilo deveria ser óbvio desde o começo. As fotos sempre foram tiradas para Natsuki e para ele unicamente, era um lado que ele apenas mostrava para o mais velho e que agora tinha que mostrar para Tokyo inteira. Não era para menos que algo estava limitando-o de fazê-lo como supostamente deveria.
A questão era, como ele iria fazer as fotos saírem boas sem ser o Natsuki e ainda mais, sob todas àquelas circunstâncias. Não havia tempo e se ele falhasse no teste, por mais que não fosse um trabalho que lhe satisfizesse, a sombra do fracasso ainda iria persegui-lo. Syo começou, então, a pensar em qualquer solução prática para a situação em que se encontrava.
— Ei, Yui está me ouvindo?
— É isso! — Syo apontou instantaneamente para Kotomi que, em reposta, mostrou uma interrogação para ele e Itsuki — Me dê quinze minutos!
Ele pulou do set e correu em direção a sala onde havia se trocado, procurando entre as inúmeras roupas algo que agradasse seus olhos, parecia algo difícil entre tantas opções. Primeiramente, precisava de uma roupa que fosse confortável e decente, no final ele tirou o vestido exagerado e fez uma mescla de dois conjuntos para usar.
O som da bota de salto baixo que ecoava no set de fotografia atraiu mais uma vez a atenção daqueles ao redor. Lá estava uma pequena figura loira com uma boina creme, desfilando com uma saia preta rodada e uma blusinha branca de manga comprida com laços, acompanhado de uma bota vermelha com cadarços e de cano longo. Desta vez, Syo sentiu uma vibração diferente nos olhares dirigidos a si, uma vibração boa.
Kotomi apontou para Syo e abriu a boca para dizer algo, mas nada saiu. Ela estava surpresa demais para pronunciar algo. Talvez fosse impressão, mas por um breve momento ele notou uma mudança de olhar em Adachi.
Agora vinha a parte difícil: focar na lente do fotógrafo com a mesma expressão que ele mostrava para Natsuki. Syo retomou a posição no set e fechou os olhos por alguns segundos. Precisava esquecer absolutamente tudo que estava ao seu redor, as pessoas e o som. Tudo. E então imaginar que quem estava a sua frente segurando a câmera era Natsuki. Em movimentos delicados, ele assumiu a primeira pose que havia tentado e, quando abriu os olhos, lançou a câmera o olhar e sorriso que era destinado àquelapessoa.
Quando Itsuki viu a cena que estava esquadrada na câmera, se encontrou surpreso, demorando um pouco para pressionar o botão da câmera. Esse cara...Imediatamente, ele começou a clicar inúmeras fotos em diversos ângulos. Syo, em resposta, mudava sua pose em alguns momentos, mas nem por isso perdia o fluxo que a sessão agora seguia.
Yuuichi, quando percebeu que a sessão havia sido retomada, se aproximou e surpreendeu-se com o resultado diante de seus olhos.
— Fui eu quem fiz~ — Kotomi inclinou-se para o editor-chefe.
Depois de alguns minutos, um pequeno sinal ecoou, anunciando o final daquela sessão. Assim que Syo desceu do set ele foi recepcionado por Hanazawa com palmas.
— E assim nasce Kosoba Yui. Estarei lhe esperando na minha sala depois que você se trocar para acertamos os termos do seu contrato. — o editor acenou para Syo.
— Ah, obrigado! — ele agradeceu, ainda estando meio incrédulo por ter realmente conseguido no final.
Mesmo não sendo algo que ele normalmente comemoraria, aquela vitória significou muito para seu pescoço, assim como alguns pontos a mais para sua atuação também. Kotomi ainda teria voado em si se outra modelo não tivesse a chamado.
— Você é um cara estranho... Quer dizer que seu photoshop está nas roupas? — Itsuki indagou um pouco confuso com a mudança de resultado repentina.
— Eu posso não ter nenhum ponto de charme, mas se tratando de estilo eu não perco. — Syo bateu o polegar duas vezes contra o peito.
Uma risada partiu de Adachi com a resposta recebida.
— Você ainda está pensando nisso? — ele suspirou ainda com um pequeno sorriso — Ai, ai... De qualquer forma, você foi incrível ali. Parabéns.
Syo ficou encarando o fotógrafo, repetindo a sentença que há pouco ouvira inúmeras vezes em sua cabeça. Ele ouviu certo? Porque parece que ele recebeu um elogio e não parecia real. Será que ele seria xingado se pedisse para repetir? Talvez, então não arriscaria a oportunidade.
Ele ainda conseguiu trocar meia dúzia de palavras de agradecimento com o Adachi antes da assistente maníaca aparecer e leva-lo de volta à sala dela. Itsuki manteve o foco neles até ambos sumirem de vista.
— Adachi, pode dar uma mão aqui? — pediu outro fotógrafo.
— Já estou indo.
Antes de seguir em direção ao funcionário que o chamou, ele repassou as fotos que havia tirado, observando atentamente uma delas.
— Adachi! — repetiu a voz com urgência.
— Ok, ok. Céus, que desespero. — ele murmurou para si a última parte, desligando a câmera a deixando sobre uma das mesas.
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