By your side
6 Memories
Notas iniciais
Memórias
Eu sou Satsuki, a outra personalidade de Natsuki.
Eu vivo no lugar mais profundo do coração dele, num lugar onde tudo que se há ao redor são o breu e o silêncio absoluto, porém mesmo sob essas condições eu sei de tudo que acontece com ele.
O Natsuki é fraco. Ele não confronta os próprios problemas, além de sempre guardar seus sentimentos negativos para si. Por essas e outras razões eu preciso protegê-lo. Ele sempre deseja ajudar àqueles que precisam, sempre sendo gentil com todos ao sendo redor e mostrando um sorriso mesmo quando no fundo ele está machucado. O Natsuki é bondoso demais, e, justamente por ele ser assim, muitas pessoas tendem a se aproximar dele; pessoas como aquelamulher.
Devido ao trauma causado por aquela experiência amarga, ele passou a ser inseguro de si próprio e a confiar mais nos outros, mas hoje, com a companhia daqueles que ele chama de amigos, sua autoestima melhorou. No entanto, mesmo tendo melhorado, seu coração ainda é frágil; basta sua confiança ser traída e ele regredirá tudo novamente. Logo, por mais que essas pessoas sejam algo que ele considere importante eu não baixarei a minha guarda a elas. Nunca.
Um erro meu pode significar mais uma experiência dolorosa para ele.
As pessoas se aproximam das outras com algum interesse, por conta disso eu devo afastar qualquer um que possa significar uma ameaça para o Natsuki, independente de quem seja. Fazer com que as mulheres recuassem nunca foi um problema, basta um ato ousado ou um pouco de agressividade e logo elas sentem medo e fogem. É simples e fácil. O mais irritante é que todas sempre vestem a mesma expressão patética e quase sempre usam as mesmas sentenças falsas; é óbvio a intenção delas. Mesmo que o Natsuki não perceba a intenção dessas pessoas não importa, porque eu estarei lá para afastá-las e evitar que ele sofra novamente. Afinal, essa é razão da minha existência. Esse é o porquê dele ter me criado. Eu sou aquele que conhece ele melhor do que ninguém, sou aquele que pode protegê-lo de tudo. Se houver algo que ele não possa fazer, eu farei por ele.
Eu sou a sombra dele.
Apesar de todos os meus cuidados, as coisas acabaram por seguir um rumo que eu não esperava. Os fatos começaram a surgir um atrás do outro, desencadeando situações e consequências das quais eu jamais poderia imaginar; ao menos não na ordem em que se sucederam. “Como foi que a situação chegou a esse ponto?”, é algo que ultimamente venho a me perguntar com mais frequência, embora parte seja minha culpa por não ter intervindo quando tive chance. A fonte de todo o problema? Uma palavra: Chibi.
Tudo começou há pouco mais de dois meses se não me engano.
Natsuki e seu péssimo hábito em ter fortes afeições por coisas pequenas e fofas. Eu achava que aquela mulher, Haruka, poderia vir a ser um problema, visto que ele estava se apegando de mais a ela, além de que ela era parecida com a ex-professora dele, porém seu apego ao Chibi era tão grande quanto.
A partir daqui os fatos começaram a ruir. Certa vez eu reparei que ele estava pesquisando sobre relações homossexuais e de fato, eram... muitas coisas que ele estava a ver; eu dispenso meus comentários sobre o que vi. Na época, não achava que ele estaria envolvido com a razão do tema, logo preferi não comentar, porém fiquei a observá-lo atentamente durante aqueles dias. Se eu soubesse que aquilo seria o começo de tudo eu o teria impedido ali mesmo. Depois daquele dia Natsuki não voltou a procurar mais sobre o assunto e foi de certa forma um alívio para mim, um alívio falso que foi exposto no momento em que ele se masturbou no banheiro chamando pelo nome daquele pirralho...
Eu estava determinado em agir para ter certeza de que o Chibi não pudesse vir a se tornar uma ameaça maior, mas aquilo não foi necessário. O comportamento de Natsuki não mudou, ele não tentava nada e suas ações eram simplesmente as de sempre.
Nada mudou porque ele temia a rejeição. Ele não suportaria que o Chibi o detestasse ou se afastasse dele, por isso ele manteve aquele sentimento em segredo, nunca cruzando o limite que ele havia imposto para ele mesmo. Heh, irônico, mas graças ao problema de estima dele a situação nunca atingiria um problema maior. No entanto, mais uma vez a droga do destino mostrou o quão errado eu estava.
Tudo virou de cabeça para baixo naquele dia chuvoso durante a semana da entrega da composição. O impacto daquela música sendo reproduzida pelo rádio foi tão forte quanto à sensação que Natsuki sentiu ao ser traído pela própria professora. Dor, angústia, tristeza e desespero. No exato momento em que ele havia reconhecido aquele ritmo, os sentimentos emergiram agitadamente fazendo com que seu coração se fechasse e por consequência me levando a assumir a linha de frente enquanto ele procurava um refúgio seguro em meio à escuridão. Não pensei duas vezes em eliminar rapidamente o que causou tudo aquilo, e mesmo depois de feito minha raiva não passava.
“Você... Não me machucaria. Natsuki não faria isso...”
É verdade que o Natsuki realmente nunca teria coragem de machuca-lo, mas eu não sou o Natsuki. Além que pensar que eu não iria ataca-lo por esse motivo é idiotice pura, ouvir aquelas palavras realmente me tiraram do sério. Eu quis muito quebrar algum osso dele para baixar aquela bola toda, mas se eu o fizesse Natsuki apenas pioraria, por isso tive de me conter e não pude fazer nada além de pressioná-lo.
Foi preciso uma longa conversa com o Natsuki para que ele se recuperasse do choque depois de ouvir a “Satsuki” no rádio. Eu me ofereci a ir à aula no lugar dele, mas ele recusou. Mesmo estando melhor, ele não queria conversar com ninguém e assim saiu rapidamente da sala no termino da aula, seguindo para o dormitório e se trancando no banheiro, onde tentou se acalmar. Depois de refletir muito e de dizer palavras de encorajamento para si próprio, Natsuki conseguiu tomar coragem para sair de lá e nesse exato momento ele ouviu novamente aquele maldito ritmo.
Só podia ser palhaçada. Aquele maldito moleque definitivamente estava implorando para que eu acabasse com ele. Natsuki nada conseguiu fazer a não ser chorar contidamente em meio às memórias e sentimentos que atravessavam seu corpo como disparos. Eu queria sair e pôr um ponto naquela história ali mesmo, mas Natsuki não me permitiu e disse que ficaria bem. Bem? Eu posso sentir o que ele sente, e mesmo que não pudesse eu poderia claramente dizer que ele não ficaria bem tão rápido e isso apenas se confirmou quando ele permitiu que o Chibi entrasse no banheiro. No entanto, ali ele fez algo que eu nunca imaginaria que ele faria. Ele começou a revelar o que houve no passado.
Por quê? Por que ele estava revelando tudo aquilo para o Chibi? Só de pensar no assunto já o machuca profundamente. Não era preciso ele contar tudo para aquele pirralho. Quanto mais o Natsuki prosseguia, mais a dor lhe corroía e por mais que eu pedisse que ele parasse, ele continuava a abrir mais e mais dos fatos até que uma hora seu coração não aguentou e fechou-se instintivamente. Uma chance perfeita.
"Não machuque o Syo-chan, por favor... Eu... apenas preciso de um tempo... Não o culpe Sacchan, ok...?"
Não o machuque? Não o culpe? Não brinque comigo.
Lá estava o Natsuki, indo para trás novamente chorar em meio ao nada, e ainda sequer me respondia. Eu dei o aviso, não dei? Ótimo. Então eu poderia esmagar aquele moleque ali mesmo, machuca-lo o suficiente para fazê-lo aprender a entender as minhas palavras. Eu dou duro para manter tudo mais fácil e sólido o possível pro Natsuki e então aquele fedelho simplesmente vem e dança em cima de tudo, ferrando com tudo o que fiz e ainda acha que pode sair ileso? Não me faça rir... Mesmo que o Natsuki venha a me odiar, eu vou afastar qualquer um que venha a machuca-lo ou que represente uma ameaça, e esse Chibi já foi longe demais.
A expressão de espanto dele em me ver mesmo com os óculos nos rosto foi impagável. O medo e o desespero transbordando por aqueles olhos e o tremor de seu corpo... Que aquela sensação marcasse a alma dele para que então ele nunca mais se aproximasse do Natsuki.
Foi uma perseguição irritante a partir do momento em que ele conseguiu sair do banheiro. Eu podia sentir meu sangue ferver a cada vez que ele relutava, me fazendo desejar por minhas mãos naquele pivete e dar a maior lição que ele teria na vida dele. Quando o Chibi parou e virou-se para mim finalmente achei que iria poder saciar minha vontade de acabar ele, porém errei meu golpe pelo simples fato de que por pura sorte ele caiu sobre o meu peito. Antes que eu pudesse lançar tudo o que se acumulou devido àquela brincadeira estúpida de pega-pega e dar pelo menos um soco dele, a forte palidez, a respiração desordenada e o fato de que ele segurava o tecido sobre o peito desesperadamente, me impediram. Havia algo errado ali. Por mais que eu falasse as coisas tudo o que ele fazia era ficar me olhando, o que de certa forma me irritou, e então simplesmente do nada ele desmaiou, parecendo piorar dali em diante.
Quando eu disse que os fatos desencadearam situações e consequências das quais eu jamais poderia imaginar, eu me referi principalmente a esse evento, que foi outra coisa que mudou tudo. Se o Chibi não tivesse tocado aquela música, se ele não tivesse desmaiado, se o Natsuki não estivesse no banheiro, nada do que aconteceu dali em diante teria acontecido. O presente atual nunca existiria.
Depois de acionar a direção da escola, uma ambulância veio levar o Chibi para o hospital. Lá, eu descobri que ele tinha arritmia. Quando Natsuki percebeu o que havia acontecido e que estávamos no hospital ele ficou realmente irritado comigo. A situação piorou quando nos notificaram que o quadro do Chibi estava muito instável e que ele poderia não sobreviver. Natsuki ficou em choque. Nesse momento, eu comecei a perceber no quão frágil era a situação em nos encontrávamos. O peso da culpa apenas aumentava nos ombros de Natsuki enquanto ele não conseguia conversar com o Chibi. Devido às circunstâncias, eu preferi não falar nada, já que sabia melhor do que ele de quem era a culpa de tudo aquilo.
Quando ele finalmente conseguiu ver o Chibi, ele me atirou para o meio da conversa para eu pedir desculpas. Eu não iria pedir desculpas, mesmo tendo prometido para o Natsuki. Para começo de conversa, se o Chibi tivesse ouvido o meu aviso e ficado longe do assunto desde o começo nada disso teria acontecido. Ele era culpado da própria situação.
Em meio nossa conversa algo me veio em mente. Se ele sobrevivesse ainda haveria chances de que ele pudesse vir a perguntar ao Natsuki algo sobre o caso da ex-professora dele, uma vez que a conversa sobre o tema foi interrompida. Eu não posso permitir que ele fique tocando nesse assunto muitas vezes; o Natsuki não é forte o suficiente para isso, além que, uma vez que o Natsuki estava a gostar dele seria bom que ele não ousasse cometer o mesmo erro daquela mulher. Obviamente, pela cara dele, ele não entendeu minha mensagem, mas tanto faz. Eu o avisei, é o que importa.
Com o processo da cirurgia iniciada, tanto Natsuki como o irmão gêmeo do Chibi ficaram nervosos, mas pelo menos um serviu de apoio para o outro. Uma coisa eu pude concluir, os dois Chibis são gêmeos até na idiotice. Eu não podia fazer nada além de esperar junto com eles o resultado; tinha de estar preparado para acolher o Natsuki caso a notícia fosse ruim e para dar um jeito no médico incompetente que não se esforçou o suficiente para salvar o Chibi, mas felizmente a espera foi recompensada com uma boa notícia.
Natsuki ficou impaciente para querer ver logo o Chibi. Eu podia imaginar, talvez, como ele estava se sentindo, porém não conseguia entender o que ele via naquele tampinha tsundere, escandaloso e prodígio em idiotice. Talvez eu nunca vá entender mesmo.
Para finalizar os fatos, como se todos os problemas enfrentados até agora não fossem o suficiente, o Chibi beija o Natsuki e diz em alto bom tom que ama ele.
...
Eu não sabia desde quando ou como ele passou a ter esse tipo de sentimento pelo Natsuki, nem porque veio à tona assim tão de repente, mas o Natsuki ficou muito feliz com a declaração do Chibi. Extremamente feliz. Eu não tinha aprovado nada, mas devido à cirurgia dele eu preferi esperar ele se recuperar o suficiente para não ter um ataque quando eu fosse tirar aquela história a limpo.
Isso sem falar que por diversas noites ele vinha a minha cama, tremendo como se estivesse com medo, pedindo para dormir junto. O que ele era? Uma criança de 5 anos? Desde que ele acordou do hospital ele estava muito estranho, seu comportamento, às vezes, eram suspeitos demais, mas de qualquer forma, não iria doer deixar ele ocupar metade da cama e sendo eu que estava ali. Ele não ousaria fazer nenhuma gracinha.
As coisas só foram esclarecidas na viagem de premiação do Saotome. Um sonho, huh? Não parecia que ele estava mentindo, mas ainda assim era algo fantasioso demais para acreditar. Àquela altura eu não poderia simplesmente afastá-lo do Natsuki, não quando o Natsuki se considerava uma das pessoas mais sortudas deste mundo, mas ainda assim eu precisava ver o quão sério o Chibi estava sendo a respeito daquela história toda.
Antes mesmo de que eu pudesse ter a chance de conversar com ele, a questão foi respondida; da maneira mais bizarra possível, mas foi. Em uma das noites ele e Natsuki fizeram sexo. Mais uma vez eu dispenso comentários.
Eu nunca pensei que isso aconteceria enquanto eu ainda estivesse aqui e menos ainda que seria dessa forma. Digo, não esperava que ele iria fazer logo com outro homem, mas o que importava era que ele estava feliz. Eu pude sentir que o Natsuki conseguiu dar um grande passo em relação aos problemas dele e foi aí que conclui que talvez o Chibi poderia ser o que o Natsuki precisava para dar os outros passos por si só.
Pouco mais de dois meses se passaram e continuo a me manter atento com tudo ao redor do Natsuki e observando as ações do Chibi. Nada mudou muito desde então. Os dois mantém sua relação em segredo na academia, tirando sempre proveito quando estão a sós; nada muito diferente de um casal normal.
Notei também que desde então o Chibi passou a tentar se aproximar de mim, não sei com que intenção, mas é divertido provoca-lo, ele reage da mesma forma que as outras mulheres. De qualquer forma, não é bom deixar ele se apegar de mais a mim, ou isso causará problemas no futuro.
No ritmo em que as coisas estão indo, o dia em que o Natsuki se tornará a pessoa que ele almeja ser chegará, e nesse dia, nossos caminhos se separarão.
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