By your side
7 A new star is born?
Notas iniciais
Nasce uma nova estrela?
Syo não se lembrava, e muito menos fazia ideia, de como foi parar naquele tipo de situação. Isso é mau... Muito mau, mas ainda assim... Já havia perdido as contas de quantas vezes só nos últimos cinco minutos ele tinha pensado em voltar atrás. Os estalos produzidos por aquele beijo sufocante somado a pressão que o corpo do mais velho exercia sobre o seu contra a parede aumentavam freneticamente a sensação que ardia por debaixo de sua pele. Isso, combinado com os agitados movimentos em sua boca tomava-lhe não só os pensamentos, mas também o pouco do fôlego que mal conseguia manter, sem mencionar que a firmeza com que seus pulsos eram segurados apenas instigava mais o sentimento proibido de desejar mais e mais daquela situação.
O contato entre os dois só foi rompido porque Syo – depois de quase esquecer – realmente precisava de ar, porém, não bastou cinco segundos para que seus lábios fossem novamente roubados com urgência.
— Sats... Mhn...
A repentina invasão não deu a mínima chance para que Syo – que estava totalmente entorpecido pelos atos de Satsuki – apartasse o contato, embora certamente, mesmo se tivesse a oportunidade não o faria; ele estava completamente preso à língua do outro. Syo estremeceu singelamente ao sentir o tatear nada sútil que descia sobre sua camisa, trancando a respiração quando aqueles dedos adentraram suas vestes inferiores.
Por mais que soubesse o quanto errado aquilo era, ele não conseguia contrariar aquele intenso par de olhos esverdeados que o fitava sem desviar sua atenção por um milésimo sequer. Syo se via como um vaso translúcido, do qual Satsuki podia ver claramente tudo o que fluía dentro dele. Ver todos os pensamentos impuros e desejos que confinava nas profundidades de sua alma. A conclusão que havia chegado não era lá a mais sensata, mas a verdade era que... Bem, ele não impediria o que estaria por vir; até porque a condição de querer já não se aplicava mais ali uma vez que seu membro já respondia por ele em como aquilo acabaria.
Conforme o assédio que Syo sofria por parte de Satsuki tomava proporções mais intensas e estimulantes, os joelhos do pequeno ameaçaram fraquejar por um momento. No entanto, antes que ele pudesse cair sobre as próprias pernas, Satsuki agilmente envolveu um de seus braços na altura das coxas dele e puxou o corpo do loiro para si, fazendo com que – mesmo um tanto desajeitado – Syo se sentasse sobre seu antebraço.
Satsuki rapidamente o levou para o primeiro móvel que pudesse servir de apoio que estivesse mais próximo de si. Os objetos que estavam sobre a mesa foram empurrados sem cuidado algum para o chão, livrando assim a superfície de qualquer obstáculo que pudesse vir a atrapalhar. Syo não esperava de forma alguma que Satsuki iria ser cuidadoso, mas a impaciência que ele demonstrava lhe caía aos olhos quase como um desespero latente, instigando-o timidamente a desejar capturar os lábios do mais velho mais uma vez; e ele talvez até o teria feito se Satsuki não tivesse começado a lhe despir assim que o pôs sobre a mesa. Tudo estava se desenrolando rápido demais e Syo sentia-se quase que perdido em meio a tudo aquilo.
— S-Satsuki... na me—
Sua frase fora interrompida pelo firme segurar de seu membro.
— Shh, fique quieto e apenas me deixe comer. — declarou abocanhando logo em seguida a ereção do violinista, lhe arrancando um gemido contido.
~ ♫ ~
Quando os primeiros raios de sol bateram contra as pálpebras de Syo, os quais foram mais desagradáveis do que normal, ele se viu forçado a abrir os olhos e piscou algumas vezes atordoado. Foram praticamente dois minutos inteiros encarando o típico teto bege enquanto repassava as imagens que ainda estavam frescas em sua memória. Ah... merda... embora ele tivesse dirigido aquela palavra pensando primeiramente porque não acreditava ter tido outro sonho erótico com Satsuki, ele também se lamentou por ter sido interrompido bem na melhor parte.
Syo virou o rosto ainda que sonolento, avistando Natsuki dormindo tranquilamente agarrado à pelúcia do Piyo-chan no outro lado do cômodo. Só depois de ter certeza absoluta que era o único acordado ali ele ergueu o lençol o suficiente para olhar as próprias calças e se certificar de que nenhum acidente havia acontecido; por sorte estava tudo como deveria estar. Um suspiro aliviado, mas igualmente desesperançoso o deixou conforme ele voltava a se ajeitar sob as cobertas. Os sonhos onde Satsuki aparecia e lhe atacava tinham ficados bem mais frequentes, e honestamente, ele já havia perdido a conta de quantas vezes aquilo já tinha acontecido só no último mês.
Fazia dois meses desde que Syo e Natsuki começaram um relacionamento. A rotina entre os dois não se diferenciava muito de antes, exceto que agora, a aura irradiante de ternura de Natsuki estava no mínimo cinco vezes maior, segundo o ponto de vista de Syo.
Mesmo sendo de conhecimento geral a regra sobre “nada de romance”, Natsuki não fazia tanta questão de esconder todo afeto que sentia pelo pequeno, principalmente em público. Se aquilo atraía olhares suspeitos? Não apenas olhares, aparentemente o buraco se mostrou muito mais embaixo quando Syo voltou a usar o twitter, e que claro, Natsuki fez o mesmo.
Twitter, uma rede social comumente usada por diversos artistas a fim de manter uma relação mais próxima com os fãs. Com o sucesso do debut do Starish, o diretor, com toda sua ênfase, recomendou que eles se mantivessem ativos nessa rede; Saotome comentou algo sobre o marketing do grupo e a importância da interação com o público.
Em um dia aleatório, Syo casualmente olhava suas mentions depois da aula e seus olhos bateram direto em um tweet que comentava algo sobre o bromance entre ele e Natsuki. Claro que ele preferiu fingir que não havia lido nada, mas olhando melhor, aquela foi apenas uma mention entre muitas; inclusive alguns tinham citações sobre os tweets que Natsuki fazia para ele. Não havia conteúdo ofensivo, os tweets se dividiam entre: comentários normais de fãs, embora uns mais eufóricos e outros mais tímidos; ilustrações ou comidas estilizadas feitas por elas; perguntas sobre o gosto deles; e por fim, ele e Natsuki. O engraçado foi mais tarde descobrir que algumas das autoras daquelas mentions eram estudantes da própria Academia – e que aparentemente fantasiavam a relação deles, bem, não era como se elas estivessem erradas – e Saotome pareceu não se incomodar com essa parte visto que os lucros e a popularidade deles apenas subiam de maneira bem positiva.
De qualquer forma, sempre que Syo tinha daqueles sonhos nunca conseguia pegar no sono de novo, até porque só de existir a possibilidade dele se deparar com a continuação do mesmo o fazia se desprender da cama rapidamente. O desânimo lhe bateu forte quando viu os ponteiros do relógio indicando que havia desperto pouco mais de quarenta minutos mais cedo do que o habitual.
~ ♫ ~
— Esfriou mais um pouco de novo... — Syo murmurou para si mesmo seguido de um suspiro.
Vermelho, amarelo e marrom. As cores do outono já haviam tingido completamente boa parte das árvores contidas nos arredores da Academia, não levaria mais do que alguns dias, talvez no máximo uma semana, para que o verde das folhas restantes se rendesse às cores da estação. A primeira semana de outubro ainda se encontrava em um clima caloroso e ameno, apesar de estarem alguns graus abaixo da temperatura ambiente; provavelmente se a regra contra o romance não existisse, haveria dezenas de casais aninhados abaixo das árvores fazendo bom uso da paisagem.
Como de costume, Syo saiu da sala de aula e rumou para o dormitório. O ânimo mesclado à euforia tomava conta das conversas que se estendiam pelos corredores da escola, e tudo por conta do anuncio feito pelos professores. O mês mal havia começado e já lhes foi informado que um evento os aguardava na última semana e que para este, deveriam conseguir uma fantasia até lá; obviamente os alunos sacaram que era algo relacionado ao Halloween.
Agora e muito provavelmente pelos próximos dias a academia estaria em alto espírito, principalmente porque todos tinham uma grande expectativa – mesmo que um pouco receosa – sobre o evento criado por Saotome. Foram com esses pensamentos em mente que Syo se aproximava do dormitório. Em algumas semanas a temperatura iria cair ainda mais com a aproximação do inverno, logo ele pensava em algo que não lhe deixaria passar frio. No entanto, antes que pudesse ao menos listar mentalmente quais opções lhe agradariam, uma voz distante que se aproximava chamou sua atenção.
— Syo-chan! Syo-chan!
Natsuki correu em direção à Syo com um largo sorriso notável de longe e ao se aproximar do violinista, ele o ergueu animadamente no ar girando-o duas vezes.
— A-Argh! Natsuki, idiota! Me solta! — ele debatia-se no ar segurando o chapéu com uma das mãos, com receio de que alguém aparecesse por lá e o visse naquela forma constrangedora.
— Haha, desculpe, desculpe ~ — gentilmente ele pôs Syo de volta em contato com o chão, e então um brilho intenso explodiu em seus olhos —É que Syo-chan, eu tenho uma grande e muito boa notícia para te dar!
Natsuki se mostrava tão eufórico que Syo tinha receio de pensar sobre o que seria a tão grande notícia. Tinha quase certeza que seria algo voltado à fantasia do evento de halloween, e se ainda tivesse que chutar, qualquer personagem que era totalmente a seus ideais.
— Que notícia?
Natsuki inspirou fundo, contendo toda a agitação que fervia em si, embora o enorme sorriso que se estendia no rosto dele não diminuía nem um pouco, apenas alimentando a curiosidade que crescia dentro de Syo. Obviamente, ele fez de propósito porque mal podia esperar para ver a reação do loiro, e então repentinamente pôs um fim no suspense.
— Uma revista de modelos quer contratar você para a matéria da semana que vem e ainda colocá-lo na capa da próxima edição!
— Capa de uma revista de modelos...?! — a expressão de Syo por um momento se mostrou incrédula, e embora estivesse tentando se conter, um sorriso meio bobo começava se delinear em seu rosto — Espera... É sério?
A ideia de que em breve estaria na capa de uma revista que logo estaria nas bancas e livrarias apenas agitava a sensação de realização que se acumulava em seu âmago, principalmente porque envolvia moda. Na mente de Syo, os flashs das imagens de capas de revistas que o continham como modelo em diferentes poses sedutoras e descontraídas não deixaram de lhe bombardear, fazendo-o sonhar cada vez mais alto com as expectativas.
— Sim! — Natsuki confirmou notando o ânimo que começava a transparecer no rosto de Syo — A aprovação foi imediata quando eu mandei as melhores fotos que eu tirei de você~
O balde de água fria que caiu sobre Syo não só levou todo seu devaneio de fotos para o ralo, como também sua expressão sonhadora, que imediatamente transpareceu-se para uma incrédula. Por um momento, questionou-se se poderia ter ouvido ou interpretado mal as palavras de Natsuki, mas tinha certeza absoluta de que havia ouvido que as fotos que enviadas e supostamente aprovadas foram as que Natsuki havia tirado dele; fotos das quais certamente ele estava com um vestido. Syo esfregou o indicador e o polegar em seus olhos, soltando um suspiro como forma de manter o mínimo da calma.
Natsuki obviamente percebeu que o mais novo parecia desapontado, mas ele imaginava a razão: provavelmente Syo teria pensado em alguma revista de moda masculina e estava com altas expectativas sobre isso. No entanto, até mesmo Syo havia concordado em raras ocasiões que a foto havia ficado boa, mesmo depois voltando atrás com suas palavras.
— Qual é o nome da revista? — Syo perguntou num tom neutro enquanto observava Natsuki que mantinha o sorriso no rosto.
—É a Re Angel.
Re Angel?! Só pode ser brincadeira… Sério mesmo? Syo estava perplexo com a revelação por dois motivos. Primeiramente já pelo nome da revista, esperava pelo menos algo não tão... feminino; e segundo porque a Re Angel é uma das revistas mais populares entre o público da moda, eles são conhecidos por serem rígidos com a aceitação de novas modelos e pela qualidade do trabalho deles. Infelizmente, ele não sabia se ficava satisfeito ou chateado com aquilo. Na verdade, “frustrado” seria a melhor palavra que se encaixaria ali.
Por mais boa que tivesse sido a intenção de Natsuki ou a oportunidade, Syo não aceitaria aquele tipo de trabalho, até porque era totalmente o oposto do que ele imaginava para si próprio. Antes que ele pudesse pensar nas palavras para recusar a tão grande notícia de Natsuki, um riso peculiar e extremamente familiar ecoou pelas paredes do hall em que ambos estavam.
Foi com uma pequena explosão no ar seguida de acrobacias bizarras que Saotome, flexivelmente, pousou no chão e ergueu-se cheiamente de estilo, surpreendendo Syo e Natsuki.
— HA HA HA HA, Mister Kurusu!
— Diretor?! — Syo se espantou a aparição de Shining.
Não importava quantos meses se passavam, era impossível se acostumar com as entradas exóticas de Saotome. E algo que ninguém entendia era como um homem sem nenhuma boa condição física aparente conseguia se mover de forma tão ágil e energética.
— Eu ouvi a grande notícia, assim como recebi uma ligação dessa empresa desejando seus serviços. É uma oportunidade grande e brilhante!
O pronunciamento de Saotome surpreendeu ambos, mas certamente mais Syo, que não esperava que ele estivesse escutando ou tivesse conhecimento algum sobre o fato. Syo ainda tentou se manifestar quanto às palavras de Shining.
— A-Ahn, diretor, sobre esse trabalho eu—
— Você vai aceitar! — Shining logo o interrompeu, mantendo as mãos na cintura.
A reação de surpresa veio tanto de Syo quanto de Natsuki. Syo franziu o cenho, demonstrando a desaprovação quanto à afirmativa de Saotome, e este ignorando a expressão do aluno permitiu que um pequeno ar de seriedade tomasse suas feições.
— Essa é uma empresa que possui vínculos com a Academia, por isso, não é questionável a aceitação desse trabalho. É indiscutível!
Syo engoliu seco com o argumento de Saotome, não ficando nem um pouco a vontade ao saber que sua opinião era algo irrelevante naquele assunto. Embora não pudesse negar, ele tinha de pensar em argumentos para debater Shining e convencê-lo a desistir da proposta, mas infelizmente não conseguia pensar em nada.
— Os termos já foram discutidos com a Re Angel e o seu pseudônimo já foi decidido. Miss Kosoba Yui! — Shining declarou, tirando uma foto do bolso do casaco, que era na verdade uma impressão de uma das fotos que Natsuki havia enviado à empresa, e a ergueu para Syo, provocando perplexidade misturada à vergonha no rosto do violinista — Mas lembre-se que é de suma importância não deixar que descubram sobre sua verdadeira identidade fora do trabalho.
Quanto mais Syo tentava imaginar aquele cenário, mais catastrófico ele se assumia em sua mente, e as palavras de Saotome apenas jogavam suas esperanças de que aquilo não poderia ser pior cada vez mais para abaixo do chão. Antes, ele conseguia ver claramente seu futuro em um filme onde estava lado a lado com Ryuga ou até mesmo em capas de revistas, agora tudo estava nebuloso à sua frente. Mesmo vendo que Syo estava contrariado com a decisão, Natsuki, por dentro, estava se empolgando sem parar com a ideia, deixando-se quase levar pela imaginação.
— Está decidido então! Seu compromisso com a Re Angel é amanhã às 15:00. Não se atrase!
Saotome lançou uma última risada antes outra pequena explosão ocorrer onde estava e desaparecer. Estranhamente, para Syo, aquele riso mais pareceu o prelúdio do caos que lhe aguardava daquele dia em diante.
~ ♫ ~
Assim que Natsuki fechou a porta do quarto, ele se deparou com Syo alguns passos a sua frente com os braços cruzados e com os olhos de reprovação para si. Talvez ele já soubesse o que iria ouvir ali, mas nem por isso se desfez do sorriso contido que parecia ter se fixado em seu rosto.
— O que foi Syo-chan?
— “O que foi Syo-chan?” o caramba! Você sabe muito bem o que é! — Syo suspirou pesado, revirando os olhos — Natsuki, por que é que você foi mandar fotos minhas para uma revista?! Ainda mais pra Re Angel!
Por melhor que tivesse sido as intenções de Natsuki, a fúria de Syo não diminuía nem um pouco. A sensação foi de uma apunhalada pelas costas que só de pensar fazia seu sangue subir a cabeça. No fundo, ele sabia que deveria esperar esfriar a cabeça para conversar ou que deveria tentar manter o mínimo do nível da calma. No entanto, o sentimento de irritação havia chutado seu bom senso pelas portas dos fundos.
— Bem... Eles diziam ter na última edição as modelos mais fofas da região e mesmo todas sendo realmente meigas, nenhuma delas era mais do você, Syo-chan, por isso eu mandei.
Natsuki estava um pouco sem graça, visto que Syo não estava nem um pouco contente com a surpresa, mas nem por isso deixou de transmitir a boa aura otimista. Ele achava que aquela era a chance perfeita para que todos pudessem ver o quão fofo Syo ficava naquelas roupas, e era a mais sincera verdade quando disse que nenhuma das modelos se equiparava a ele, embora aquilo não pareceu fazer muita diferença para Syo.
— Natsuki... Aquelas fotos eu só deixo elas serem tiradas porque é você! Eu não quero ter que ficar me vestindo daquele jeito para outras pessoas!
Syo agora ficou em silêncio, observando a expressão que se formava no rosto de Natsuki. Quando se deu conta do que havia declarado, seu ar de sermão logo se dissolveu, cedendo espaço para que o corar discreto começasse a invadir suas bochechas, o que o forçou desviar os olhos de Natsuki. Antes que pudesse se recompor ou reclamar mentalmente da situação, ele foi tomado por um forte abraço dado por Natsuki.
— Wah~ Syo-chan isso foi tão fofo! — Natsuki deu um pequeno beijo sobre os fios loiros bagunçados de Syo, que lançava protestos a ele — Eu lamento por não ter avisado você antes... Mas prometo ir aos ensaios com você, se isso ajudar ~
Syo tentava escapar dos braços de Natsuki, mas sem muito sucesso. Natsuki, pelo visto, não entendeu nada do que ele havia dito, fazendo-o voltar a ficar irritado. A questão não era sobre o mais velho estar presente ou não, e sim que muitas outras pessoas estariam ali, outras pessoas o veria daquele jeito, e isso era o que mais lhe incomodava. Aquele era um lado dele que era para ser mantido entre ele e Natsuki e ninguém mais; agora até Saotome tinha em mãos uma foto sua.
— Natsuki eu disse pra você me soltar!
Durante a relutância de Syo, um dos braços deles acabou por bater no rosto de Natsuki e derrubar os óculos dele no chão. Graças a isso ele havia se livrado dos braços que o prendia, entretanto agora era fuzilado pelos olhos furiosos de Satsuki.
— Chibi... — um rosnado veio do mais velho.
— A culpa não é minha! — Syo ergueu ambas mãos, como sinal de sua inocência — Eu falei para ele me soltar e não fiz de propósito.
Satsuki lançou uma má encarada à Syo; intencional ou não, o ato do baixinho era melhor que não se repetisse. Ele agachou e pegou os óculos de volta, certificando-se de que estavam inteiros; por sorte, nenhum arranhão.
Os olhos azuis incertos acompanharam a silhueta de Satsuki até a cômoda, observando ele deixar os óculos de Natsuki ali. Pois é, sua relação com ele teve um progresso praticamente nulo: quando ele finalmente achava que as coisas estavam caminhando bem, ele fazia ou falava alguma coisa que zerava todos os pontos que já havia feito com o outro. A culpa não era dele se Satsuki era tão difícil de entender quanto uma mulher naqueles dias.
Syo gostava de sempre deixar bem claro na sua mente que, se ele havia começado a ter sonhos estranhos com Satsuki, era porque o mesmo, do nada, resolvia fazer boas ações; claro que ele fazia do jeito dele. Não importava o quanto Syo tentava dar algo ou expressar sua gratidão, Satsuki sempre o afastava ou negava, usando, como sempre, toda a sutileza que ele tinha com as palavras. Era complicado. Quando percebeu, estava encarando os olhos verdes sérios que igualmente o encarava.
Depois de breve momento, Satsuki rompeu o silêncio do cômodo e deu as costas a Syo.
— Tch.
— Huh? O que foi que fiz?
Satsuki ignorou a pergunta de Syo e se acomodou na cama de Natsuki, continuando a encarar o pequeno com uma expressão não muito amigável.
— Nada.
Syo arqueou uma das sobrancelhas, mas nada disse, apenas continuou a ficar mirando Satsuki. Esse maldito! Está fazendo de novo! Aquele tipo de “nada” já havia sido diversas vezes o prólogo de muitas discussões que eles já tiveram nos últimos tempos. Era sempre assim, ele ficava encarando e qualquer pergunta era “nada” ou negação. Aquilo tirava Syo do sério porque ele sentia como se Satsuki estivesse esperando algo dele, mas ele não falava o quê.
A troca de olhares se estendeu até um momento em que Syo começou a ficar inquieto, e isso era nítido aos olhos de Satsuki. Era irritante ter que ficar ouvindo ele reclamando das coisas que Natsuki fazia para ele, fosse abraço, beijo, roupas, surpresas, tudo. Ele era barulhento demais. Não havia uma razão específica para ele ficar encarando Syo, apenas estava tirando uma com ele. Na verdade, retribuindo a irritação que ele causava através de uma maneira que ele se divertia.
— Quer dizer então que você aprova o que o Natsuki fez? — Syo perguntou repentinamente apertando os lábios, já com receio de que receberia um singelo e seco “sim” ou apenas mais uma carga de silêncio como resposta.
Satsuki demorou um pouco para responder.
— Quero dizer que você reclama e reclama, mas no fundo gosta disso.
A afirmativa causou revolta em Syo, fazendo seu sangue começar a ferver de novo, ele começava a suspeitar que Satsuki fazia de propósito ou que ele era surdo. As palavras subiram por sua garganta, prontas para retrucarem a provocação feita, mas Satsuki foi mais rápido.
— Aposto que em menos de uma semana você estará gostando desse trabalho. — ele declarou a sentença vestindo um sorriso arrogante.
Graças ao momento de fúria, todas as frases entalaram e não se permitiram ser vociferadas por Syo, mas foi melhor assim, ele pensou. Uma aposta não seria uma má ideia, na verdade, era perfeito. Aquela seria a chance para fazer Satsuki ver o quão errado ele estava e lhe pedir desculpas, junto das desculpas de dois meses atrás que ele ainda lhe devia. Um sorriso competitivo desenhou-se no rosto de Syo que até inclinou mais o rosto com o otimismo.
— Apostado.
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