Butterfly
1 Uma manchete à mesa do café
Notas iniciais
Segunda-feira, sete horas da manhã.
Deitado de costas sobre o colchão da cama, com o corpo todo espichado em meio àquele emaranhado de lençóis, Ben observava o teto branco de seu quarto ser tomado aos poucos pela luz amarelada do sol que se erguia no céu através das persianas de sua janela. O despertador ainda não havia tocado, e, como sempre, o silêncio reinava em sua casa àquele horário — quebrado apenas pelo som do ventilador no criado-mudo misturado ao cantar tímido dos passarinhos na rua, em especial o casal que fizera um bonito ninho na árvore próxima à sua janela. Ben os vigiava sempre que podia; sentia-se responsável pelos ovinhos quando os pássaros saíam. Isso porque Botas, o seu gato, já sabia da existência das criaturinhas por ali e seu instinto de caçador sempre acabava falando mais alto que a fofura felina.
Por falar nele, lá estava o gato, deitado no murinho da janela com os pelos laranjas meio dourados pela luz vinda de fora, e a cauda peluda balançando sutilmente enquanto ele observava atentamente os passarinhos pelo vidro. Dormira, como sempre, ao lado do dono, e agora, como o rapaz, aproveitava os momentos de delicioso silêncio da manhã. Gostavam ambos daquela paz. Pena que sempre durava tão pouco.
O despertador tocou finalmente — sete e meia. Mas nem seria preciso: no andar de baixo, já se ouviam murmúrios aparentemente nada contentes, como sempre também anunciando o horário. Ele soltou um suspiro ao bater no despertador e parar com seu barulho, e preparou-se mentalmente para encarar a vida em sociedade. Conseguiu sentar-se, escorregando as mãos lentamente sobre o rosto. Alguns metros à sua frente, Botas observava sua movimentação em paciente silêncio. Foi o impulso final para que o moço levantasse de vez e fosse começar a se arrumar para ir à escola.
— bom dia, gato. — cumprimentou, espreguiçando-se ao se levantar. O bichano encarou-o prensando os olhinhos como resposta. — ainda não se conformou que não vai pegar nenhum passarinho? Aposto que já os matou milhares de vezes em sonho, não é?
Aproximou-se para lhe afagar a cabeça, ao que o animal correspondeu ronronando manhosamente. Aquela inocência toda pouco combinava com o olhar assassino que passara aquele tempo todo fixo sobre os pobres bichinhos do outro lado da janela.
O rapaz rumou para o banheiro, bocejando alto enquanto jogava a toalha de qualquer jeito sobre os ombros. Despiu-se e deixou a água morna do chuveiro terminar de despertá-lo. Saiu pouco depois, secou-se preguiçosamente para vestir o uniforme azul e branco do colégio. O gato já não se preocupava com ele, ocupado com seus planinhos de caça que infelizmente nunca se realizariam.
Foi só quando ouviu o rangido da porta se abrindo que o bichano ergueu-se, espreguiçando brevemente as patinhas peludas. Correu num pulo para as pernas do dono, já envoltas nas calças jeans, onde esfregou o corpinho amorosamente antes de descer as escadas para a sala praticamente desfilando. Para trás, o garoto terminava de jogar as alças da mochila sobre os ombros antes de fechar a porta atrás de si. Soltou um suspiro, passou a mão pelos cachos ainda molhados do cabelo e lembrou-se mentalmente de que estava tudo bem — isso sempre o ajudava a acreditar mais nisso.
Desceu as escadas ouvindo aumentar a conversa enérgica do casal no andar de baixo. Encontrou-os à mesa do café; o homem, cujos cabelos grisalhos deixavam-se à mostra atrás do jornal, fingia não ouvir a mulher reclamar de sua incompetência como companheiro. Vez ou outra retrucava, breve e ríspido, deixando a entender que era superior demais para se envolver numa discussão daquelas.
— Geraldo. — a mulher gritou finalmente ao se flagrar discutindo sozinha, num lampejo de fúria. — não se faça de surdo, Geraldo!
— bom dia, mãe. Bom dia, pai.
Ela calou-se imediatamente ao ouvir a voz arrastada do filho. Esfregou as mãos no avental, nervosa e envergonhada, olhando para o chão insistentemente. Então virou-se novamente para o fogão, agarrou o cabo da panela onde terminava de fritar os ovos, e olhou por cima dos ombros para o garoto que terminava de puxar uma cadeira para sentar-se.
— bom dia, querido. — disse, assumindo um tom de voz suave. — fiz uns ovos para você, já estão saindo, tá bom?
Ele balançou a cabeça afirmativamente, olhando em seguida para o pai à outra ponta da mesa. Este pareceu adivinhar que estava sendo observado, pois abaixou o jornal até a altura do queixo e o lançou um daqueles sorrisos acolhedores que pareciam pedir desculpas silenciosamente.
— bom dia, filhão.
A jovem senhora aproximou-se então com a frigideira quente, despejando os ovos no seu prato e em seguida no do mais novo com um sorriso parecido ao do marido. Foi à pia, guardou a panela, e enfim juntou-se aos outros dois à mesa, onde comeu sem vontade e sem ânimo para erguer a cabeça ou falar coisa alguma. Ben a imitava, lançando breves olhadelas para a matéria em destaque no jornal aberto que escondia as feições do patriarca. A manchete, mesmo em letras garrafais, estava impossível de ler graças ao papel dobrado bem ali — mas a fotografia, ocupando boa parte da página, era difícil não reconhecer, mesmo que não conhecesse a garota que sorria nela. Ele a via todos os dias quando caminhava para dentro da escola, fixada no quadro de avisos, no muro de entrada, em vários corredores que davam para as mais diversas salas. E, sobre todas elas, sempre escrita a mesma palavra em letras enormes e vermelhas: DESAPARECIDA.
Teve vontade de perguntar o porquê daquela foto estar na manchete do jornal, já que fazia um bom tempo que a moça em questão não era vista, de modo que as grandes mídias já haviam até mesmo cansado de dar atenção ao seu desaparecimento. Podia ser até que tivesse passado algo em algum telejornal, mas ele não assistia televisão já há alguns anos. Chegou a ensaiar a pergunta, mas a tensão daquele silêncio durante a refeição fez as palavras morrerem antes mesmo que chegassem à sua garganta.
Tudo bem. Que lhe importava mesmo aquela história toda?
— não esqueça de comprar a ração do Botas quando voltar, está bem? — a mãe o lembrou, ao vê-lo levantar-se da mesa após terminar de comer. Ele confirmou com a cabeça enquanto corria para escovar os dentes no banheiro próximo à escada. — e não saia correndo feito um desesperado pelo meio da rua, tome cuidado com os carros!
— ele não é mais nenhuma criança, Laura. — o homem resmungou.
— pelo menos algum de nós tem que demonstrar que se importa com ele.
Geraldo apenas entortou o canto do lábio, contrariado com a alfinetada. Ouviu passos rápidos saindo do banheiro e abaixou o jornal a tempo de ver o rapaz à porta da sala, enfiando os pés nos tênis enquanto tinha já uma mão na maçaneta.
— tome cuidado. — recomendou, ao que o filho respondeu erguendo o polegar antes de fechar a porta atrás de si. Olhou então para a esposa, frio e superior com sua demonstração de preocupação com a cria. Chacoalhou o jornal e voltou a ignorá-la.
*********
Ben chegou ao colégio no horário de todos os dias, que era alguns minutos antes do toque que avisava aos alunos o início das aulas. Era uma instituição que funcionava como escola pela manhã e universidade durante a noite, o que explicava o fato de ser tão ampla tanto por dentro quanto por fora. Algumas mesas e bancos de pedra estavam dispostos pelo campus de entrada à disposição dos alunos, e foi num desses bancos, que ficava de frente para um mural de avisos, que Ben sentou-se assim que desceu do ônibus.
Ele jogou a mochila de lado, pegou seu caderninho de desenhos, lápis e borracha, e cruzou as pernas sobre o banco para observar a movimentação dos estudantes pelo campus. Não que quisesse ver algo ou alguém em particular; na verdade, queria apenas ver. Ser uma espécie de espectador, uma terceira pessoa, uma criatura sem corpo e sem vontades vivendo apenas para observar o mundo se desenrolar à sua volta. Gostava de assistir. Ainda não tinha ânimos nem vontade para participar.
Até porque, participar de quê?
Tudo parecia ter uma história, algo legal ou no mínimo interessante para contar. Tudo. Menos ele. E, sinceramente, se tivesse também algo para contar sobre a própria vida, ele mesmo seria o primeiro a não se interessar.
Já que teria que se aguentar por toda a eternidade, aproveitava ao máximo os momentos em que podia fugir de si mesmo. Esquecer da própria existência, de tudo que lhe dizia respeito. E, no momento, não podia haver jeito melhor de fazer isso que se distraindo com a movimentação tranquilamente caótica dos estudantes pelo pátio de entrada da escola.
A brisa agradável da manhã terminava de secar seus cabelos castanhos ainda meio úmidos, e foi para aproveitar essa sensação de frescor que o jovem fechou os olhos e deixou-se respirar em paz enquanto uma música qualquer tocava em seus fones. Sentia-se livre. Livre daquele clima denso da sua casa, daquelas brigas e discussões sem fim, daquele sentimento de angústia sufocante que sempre tinha ao ouvir o mínimo de barulho vindo do andar de baixo. Não entendia como seus pais conseguiam chamar aquele inferno de amor.
— por que não se separam então? — ele perguntara uma vez ao pai, quando acordara mais cedo que o costume e o flagrou dormindo no sofá da sala. Havia ouvido toda a briga durante a madrugada mas, tentando se acostumar com aquilo, havia preferido enrolar o rosto no travesseiro e se obrigar a dormir.
O homem sorrira tristemente antes de responder, todo embrulhado nos lençóis.
— não é tão simples assim... — disse sonolento. — apesar de tudo, nós nos amamos demais. Esses desentendimentos... eles são coisas que infelizmente fogem do controle. Quando vemos, já foi. Você entende, não é?
Não, ainda não entendia. Mas para não tornar aquilo mais constrangedor para o pai, que era homem de pouco falar sobre sentimentos, disse que sim.
Abriu os olhos após alguns intermináveis minutos, sentindo ainda a brisa envolver sua pele. Aproveitou a sensação agradável para abrir o caderninho e pensou no que desenhar, estava há um tempo já em bloqueio criativo e desesperava-se para pôr qualquer rabisco que fosse sobre o papel. O canteiro de flores amarelas? Não, não queria desenhar flores. Aquele rapaz no skate? Não... A paisagem do campus? Já havia desenhado isso uma vez. Corria os olhos ao redor ainda procurando inspiração quando seus olhos fixaram-se por acaso no quadro de avisos alguns metros à sua frente. Vira algo colorido ali. Não sabia bem o quê, mas havia visto.
Ergueu-se, fechando o caderninho distraidamente, e caminhou lentamente até o mural. Alguns panfletos de jogos, atividades acadêmicas e avisos da direção estavam fixados com tachinhas sobre a estofa amarronzada, mas sabia que não havia sido nenhum deles que chamara sua atenção — nenhum tinha aquela cor vibrante que lhe fisgara os olhos agora há pouco. Parou a alguns centímetros do mural, na direção de onde pensara ter visto aquilo. Porém, no lugar do que esperava, viu aquela foto, aquela mesma foto em manchete no jornal do dia, naquele mesmo panfleto de pessoa desaparecida.
Ainda não convencido de que sua imaginação lhe pregara uma peça, Ben encarou a garota da foto, que exibia um sorriso vivo e alegre comprimindo os olhinhos. Os cabelos, tão pretos e escorridos, escorregavam sobre seus ombros enquanto uma franja descansava sobre sua testa de pele amarronzada. Tinha traços nitidamente indígenas. Mas... alguma coisa nela fazia o rapaz ter a certeza arrepiante de que estava sendo observado... pela fotografia?
Ergueu então uma sobrancelha, debochando do próprio pensamento e sorriu de si mesmo enquanto lia as informações de descrição que a família, desesperada, mandara escrever nos panfletos. Ela desaparecera há alguns meses após voltar da escola, numa quinta-feira, vestida num delicado e simples vestido rodado. Como características de reconhecimento, haviam adicionado à descrição que a jovem possuía uma tatuagem de borboleta próxima à nuca. Ele sorriu meio insensivelmente ao imaginar alguém encontrando a menina na rua e dizendo: "hey, deixa eu ver se você é mesmo a garota que desapareceu, vira as costas aí e levanta o cabelo pra eu ver se tem tatuagem". Cada ideia!
Meneou a cabeça e estava pronto para voltar ao seu banquinho quando, com o canto dos olhos, notou aquela cor vívida que havia o levado até ali. Voltou o rosto bruscamente para o mural e enfim a viu, pousada sobre a foto da jovem desaparecida: uma borboleta. Uma linda borboleta amarela, graciosamente abanando as asinhas em detalhes de preto e dourado. Ben piscou, admirado por aquela bela criaturinha. Em ocasiões normais torceria o nariz ao notar que se tratava de um simples inseto voador, mas aquela ali era de uma beleza simplesmente impressionante. Estava ali a musa perfeita do seu desenho.
Mal ergueu o caderninho, porém, a borboletinha pareceu assustar-se e levantou voo. Alarmado, ele tentou agarrá-la no ar — mas já era tarde. Ela já se afastava, brilhando maravilhosamente sob a luz do sol da manhã. Ben piscou, frustrado e sem reação, dando outra olhadela para a foto que até então servira como apoio para o bichinho. Sentiu-se novamente vigiado. Aqueles olhos fixavam-se nele, seguiam-no, enxergavam e liam claramente sua alma. Um arrepio desagradável escapou pela sua espinha.
"Eu hein." pensou ao lembrar novamente da manchete no jornal, voltando para buscar sua mochila quando ouviu o toque da escola com uma careta de desaprovação. "tomara que já tenham notícias sobre essa menina e tirem essa foto sinistra daqui."
E a notícia realmente veio, alguns minutos depois, quando estavam todos já nas suas salas de aula agora por algum motivo bem mais calados do que o normal. Os auto-falantes soaram a voz metalizada do diretor convocando todos os estudantes para uma reunião especial na quadra atrás da escola.
A notícia chegada demorara, mas era também a última.
Ela estava morta.
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