Butterfly
2 Thalia
Notas iniciais
~ Alguns meses atrás...
Era quinta-feira de manhã. Sentados sobre a grama do campus, conversando animadamente entre si enquanto relaxavam sob a fraca luz do sol que escapava sobre as nuvens, um grupo de amigos aproveitava o intervalo entre as aulas para jogar conversa afora. Eram quatro: três garotas e um rapaz, que tinha sobre as pernas os cabelos lisos de Thalia, em quem fazia um cafuné carinhoso. As outras duas terminavam de rir do ar bobamente apaixonado com que a amiga em questão acabava de falar sobre um rapaz em especial.
— vocês são horríveis. — esta bufou, cruzando os braços. Virando o rosto, pôde notar que o amigo lutava para conter um sorrisinho de dó. — até tu, Marcos?!
— me desculpa mas logo você, mulher toda empoderada, a fim de um boy lixo desses? Pelo amor da minha nossa senhora das trouxas, viu?
As duas riram ainda mais, enquanto a morena sentava-se para cruzar os braços e lançar-lhes seu melhor olhar de repreensão.
— ah, vocês não prestam mesmo. — concluiu, meneando a cabeça. — também não conto mais nada.
— deixa de besteira, Thay. — uma das moças, a de fartos cabelos cacheados, conseguiu enfim parar de rir, encarando a amiga com sua melhor expressão de compensação. — mas convenhamos que estar a fim do Gusta é basicamente assinar seu atestado de trouxa.
— e se eu estiver disposta a assinar?
— miga, não cai nessa. Ele é o maior pegador do colégio, aquilo ali não é cara de se ter compromisso. — reforçou a outra.
— bom... — a garota inclinou o rosto com um sorrisinho adorável, ares sonhadores. — eu acredito em alguns clichés, sabe? E se eu for a garota certa? Aquela por quem ele, o garoto pegador, se apaixona de repente e resolve largar essa vida de mulherengo para se dedicar apenas a ela?
— ih, temos que cortar a Netflix dela! — Marcos encarou as amigas, sério. — o catálogo de comédias românticas não está fazendo muito bem pra essa cabecinha.
— a Netflix E os sites de fanfic! — concordou a cacheada.
E Thalia apenas meneou a cabeça, ignorando as risadas que voltavam dos amigos ao seu lado. Deitou-se de costas na grama, suspirando, e cruzou os braços relaxadamente atrás da cabeça. Aquele dia estava lindo — lindo como todos os outros desde que um certo rapaz, de pele bronzeada e sorriso faceiro, a elogiara com todas as letras quando a flagrou tocando teclado sozinha na sala de música.
— além de bonita desse jeito, é muito talentosa. — ela ouvira naquele dia, e levara um susto. Voltando-se para a porta da sala, o flagrou encostado ao batente, o corpo levemente inclinado e os braços fortes cruzados sobre o peito. Em seu rosto, aquele sorriso largo e sugestivo capaz de derreter qualquer garota na face da Terra. Céus, como ele era lindo!
— ahn... obrigada. — ela sorriu para o recém-chegado, toda sem jeito. — nossa, você me deu um baita susto, pensei que estava sozinha nessa parte do prédio.
— poxa, desculpe. Eu sou tão feio assim?
"Tá de brincadeira?" Ela reagiu prontamente em pensamento, mas, é claro, aquelas palavras não estiveram nem perto de chegar à sua garganta. Não queria parecer uma desesperada diante dele. Logo agora que ele finalmente parecia ter notado a sua existência após quase um ano o paquerando em segredo! Aliás, isso era algo de que ela não se orgulhava nem um pouco. Era árdua defensora de que as garotas podem e devem tomar a iniciativa numa paquera, caso queiram. E ela queria, queria mesmo ter toda essa coragem que pregava por aí. Mas fazer o quê se toda a sua autoconfiança simplesmente desaparecia quando o assunto era Gustavo? Ele tinha o dom de transformá-la na criatura mais tímida do universo com apenas um olhar. E que olhar...
Ainda estava pensando na melhor resposta para aquela brincadeira dele, uma resposta que não fosse nem muito inocente nem muito atirada, quando ele virou o rosto na direção do corredor, parecendo ouvir alguém o chamar. Então, a lançando um último sorriso, murmurou um "a gente se vê" e desapareceu pelo interior do colégio.
Droga, Thalia! Por que tão lenta?!
Desde então ela não tinha mais dúvidas: estava completamente apaixonada. E dane-se se estar gostando dele aparentemente ia de encontro a boa parte dos seus ideais feministas. Lembrava-se daqueles olhos atrevidos e esverdeados a espreitando de longe, daquele sorriso de moleque travesso que ele exibia sempre que a flagrava o observando às escondidas... E dane-se também o fato de que ele já saíra com pelo menos metade das meninas da sua turma da escola, isso fora os beijos que a própria Andréa, sua amiga de cabelos cacheados, já admitira ter trocado com ele uma vez ou outra numa festinha qualquer. "Gostoso, mas muito galinha" ela comentara um dia sobre a tal ocasião, com uma careta de deboche evidenciada nos cantos dos lábios entortados para baixo "não vale a pena".
Mas quem disse que Thalia ligava?
Acreditava no amor. Acreditava em romances dignos de comédias românticas, de clichés de livros adolescentes, de novelas mexicanas até. Por que não acreditar que poderia acontecer com ela? Podia até soar meio ingênuo para as outras pessoas, mas ela gostava de pensar que acreditava nesses pequenos milagres porque seus próprios pais haviam sido protagonistas de um: um típico amor à primeira vista. Eles pegavam o mesmo ônibus todos os dias na época em que a mulher fazia sua faculdade de veterinária e o homem trabalhava num banco.
Ele apaixonou-se por ela. Esperava todos os dias ansiosamente pelo momento em que a veria subir no ônibus, ajeitando os cabelos curtos bagunçados pelo vento, procurando na bolsa o cartão de passagem. Então ela sorria para o cobrador, desejava-lhe um bom dia, e acomodava-se numa das poltronas no meio do ônibus. Um dia, aquele rapaz tímido e desengonçado finalmente criou coragem e sentou-se ao lado dela. Puxou conversa, um tema qualquer, nossa como está chovendo hoje, não? Ela sorriu, concordou. Sim, nossa, como chove! Por incrível que pareça a conversa fluiu naquele dia, e nos que viriam depois. Resultou num encontro. E num namoro. E num casamento. Por fim, seus frutos foram duas belas meninas, que cresceram muito amadas numa família bastante unida.
Bom... pelo menos até a morte do pai. E Thalia definitivamente nunca iria aceitar aquele padrasto que a mãe lhe arrumara. Nunca.
Ainda deitada na grama, a morena suspirou, mas dessa vez não de paixão. Lembrava do pai. Ele sentado ao seu lado no banquinho do teclado, guiando suas mãozinhas, naquela época tão pequenas e gorduchinhas, sobre as teclas moles e barulhentas do instrumento. Do, Re, Mi, Fa. Ele cantarolava as notas com ela, sorrindo, elogiando a cada vez em que ela tocava uma escala sozinha.
— essa é a minha curuminzinha! — ele ria, brincando com a maneira que os familiares da sua esposa chamavam a menina. Eles eram indígenas, descendentes de uma tribo do interior do Brasil. Thalia puxara totalmente à família da mãe.
E ela gostava daquele sorriso. Gostava das aulas de música, todas as tardes após a escola. Gostava de ouvi-lo chamar pelo apelido, dos beijinhos de boa noite, da sua voz cantarolando as próximas notas.
Por que ele tinha que deixá-la?
— ei, amiga. — a voz de Gio, uma de suas amigas, a que usava óculos de aro redondo e fino, a despertou dos pensamentos. — não olhe agora, mas o seu "príncipe" está vindo aí.
Thalia então sorriu ainda meio saudosa, sentando-se. Bastou ver o jovem que dominava seu peito, porém, para o coração voltar a agitar-se descontroladamente.
Gusta caminhava em direção ao corredor de entrada do prédio, a mochila pendurada nos ombros, uma das mãos enfiadas desleixadamente sobre o bolso da frente da calça. Seus cabelos bastante cacheados, num castanho cor de caramelo, tornava-se quase dourado sob o sol, e seu sorriso de menino brilhava ainda mais. Ela observou, quase que em câmera lenta, a maneira com que ele caminhava de modo despreocupado, fazendo voar o casaco levinho que sempre usava sobre o uniforme, os olhos emprensadinhos com uma risada que ele dava para alguém à sua frente. Olhos que, de repente, pousaram nela. Uma piscadela fez seu peito arder em brasa.
Puta merda. Que cara era aquele?!
— caralho, ela tá caidinha mesmo! — a voz do Marcos soou de repente. Thalia virou o rosto a tempo de ver os amigos esboçarem expressões de reprovação.
— ai, me deixa!
— poxa, Thay... — Gio lamentou. — você bem que podia ser mais realista pelo menos, né? Escolher um cara menos nada a ver pra cair de amores.
— ah é? Tipo quem? — ela perguntou em deboche, cruzando os braços.
— ah, sei lá... — a moça correu os olhos pelo campus. De repente, um sorriso travesso surgiu em seus lábios ao avistar um moço que caminhava mexendo distraído no celular, a alguns metros. Indicou-o com o queixo. — tipo aquele ali.
O quarteto voltou-se então para o rapaz em questão, que seguia caminhando um pouco mais atrás do Gusta. Estando assim tão próximo ao garoto mais cobiçado do colégio, ele formava um contraste interessante, quase ridículo até: era muito mais baixo que o bronzeado, menos corado, menos musculoso, menos expressivo. Os poucos sorrisos que exibia eram carregados de ironia — isso sem falar que ele era conhecido (ou desconhecido) no colégio justamente por ser bastante introvertido, quieto, até antipático, sempre rabiscando o que quer que fosse pelos cantos. O único com quem ele parecia ter uma amizade mais profunda era o Gusta, e o porquê ninguém sabia ao certo. Eram tão diferentes!
Thalia torceu o nariz ao ver o garoto guardar o celular no bolso, os fones enfiados nos ouvidos, e seguir caminho com aquela cara de quem comeu e não gostou. Ao seu lado, os amigos riam baixinho.
— ah, vocês estão zoando com a minha cara! — exclamou, voltando-se para eles. — sério que querem me jogar pra aquele esquisito do amigo do Gusta?
— Ben.
— quê?
— o nome do esquisito é Ben.
— que seja. — ela ergueu-se, pegando a mochila e jogando-a sobre os ombros. Com um sorriso, completou. — pois fiquem com ele pra vocês, e façam bom proveito.
— ah, pronto! — Gio gargalhou.
— eu hein! Tá amarrado em nome de Duny, Alex e Honey! — Marcos completou, rindo.
Ela virou-lhes as costas e seguiu rindo para a sala de aula, ouvindo ainda os protestos dos amigos atrás de si, jogando o tal pretendente de um para o outro aos risos.
*******
Mais um dia letivo chegava ao fim para os alunos daquela escola, que agora saíam alvoroçados pelo corredor e se dispersavam animadamente pelo campus de entrada. A maioria estava acompanhada dos amigos, rindo, conversando, caminhando para os pontos de ônibus ou para qualquer que fosse o seu destino a partir dali. Vários carros e transportes escolares estavam estacionados aos arredores, esperando alguns dos jovens. De longe, acompanhando a movimentação, alguns poucos zeladores suspiravam por ter finalmente seu momento de descanso daqueles pestinhas.
Thalia caminhava entre seus amigos na saída do colégio, conversando sobre uma festa do pijama que estavam combinando na casa da Gio para comemorar sua eleição para a presidência do grêmio estudantil — sonho antigo da menina que agora finalmente se tornara realidade. E isso, claro, com grande ajuda da popularidade que alcançara naquele colégio graças ao seu quarteto inseparável. Mais especificamente ainda: graças à Thalia.
A jovem indígena tinha um carisma invejável, além de uma extrema facilidade de comunicação com as pessoas (pelo menos quando essas pessoas não eram o Gusta). Era expressiva, forte, autoconfiante — era livre. Sua leveza e sede de independência era como um imã para boa parte daqueles jovens na fase instável da adolescencia, que atraíam-se para ela como pequenos insetinhos voadores encantados pela luz da lâmpada. Assim, mesmo estudando por ali há apenas um ano, a jovem Thalia era uma das alunas mais populares — e consequentemente arrastava consigo seu inseparável grupinho de amigos.
Naquele início de tarde, porém, a menina falava pouco. Ouvia a conversa entusiasmada dos amigos ao lado marcando o encontro de mais tarde, respondia com um sorriso os "tchaus" de alguns colegas que se despediam ao passar. Por algum motivo, sentia-se estranha, acanhada. Andava pelo pátio sentindo uma estranha sensação de insegurança, como se vigiassem seus passos. Era bem verdade que já há algum tempo não se sentia completamente confortável em alguns ambientes... boa parte por sua culpa, acreditava, já que a maioria de suas inimizades partiam da sua maneira espontânea e às vezes inconsequente de levar as coisas. Mas ali, naquele dia em específico, era incapaz de dizer exatamente o porquê, mas sentia-se ameaçada. Talvez um olhar, uma palavra, um gesto... não sabia exatamente o quê, mas algo a fizera sentir que algo estava errado. Intuição, talvez?
Desconfortável, olhou ao redor. Alguns professores saíam agora pelo portão principal, o diretor supervisionava a saída dos estudantes. De repente, deparou-se com os olhos de um dos zeladores fixos nela e aquilo fez seu coração disparar. Olhou para o outro lado, procurando conforto, e quando voltou-se novamente para ele, ele terminava de molhar as plantas.
"Tudo bem, Thalia, não pira." suspirou, aliviada. "isso é coisa da sua cabeça. Deixa de paranóia, mulher!"
— então, nos vemos às sete? — Andréa perguntou de repente, animada. Os dois amigos responderam prontamente que sim, enquanto a morena parecia distante. — e aí, Thay, marcado?
— ah, sim, sim! — esta tratou de responder, tirando aqueles pensamentos estranhos da sua cabeça.
— ótimo. Não se atrasem, os atrasados ficarão sem pipoca.
Despediram-se então, indo cada um para um lado. Marcos e Andréa iam de transporte escolar, Gio pegava um ônibus algumas quadras adiante, e Thalia seguiria andando pelo caminho de sempre, próximo à praia. Vendo-se sozinha, suspirou, sem entender a própria angústia. Devia ser a TPM chegando. Agarrou a alça da mochila, pediu calma e proteção aos ancestrais, e seguiu para o caminho de casa tranquilizando-se com a imaginação da festinha que participaria à noite. Assim que chegasse em casa iria tratar de escolher seu melhor pijama — seria um alívio passar uma noite longe do idiota do seu padrasto.
Naquele dia, porém, Thalia nunca chegaria em casa. Sua mochila seria encontrada meses mais tarde, completamente encharcada após ser recolhida por um banhista que a encontrou trazida pelas ondas enquanto passeava pela orla da praia. A polícia juntou a nova prova às demais, ouviu novamente as testemunhas e as suspeitas pareceram enfim rumar para o fim do inquérito: a jovem teria, naquele fim de tarde de quinta-feira, posto fim à própria existência.
Fale com o autor