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6 Capítulo 6
Já devem ser umas três horas da manhã. Estou na cozinha- claro, depois de testar todas as portas que se encontram trancadas, sentada em uma cadeira confortante e apoiando meu cotovelo na mesa de madeira a minha frente.
O ocorrido com o doutor ainda está na minha cabeça, me atormentando. Sinto-me culpada, mesmo que não tenha sido eu que disparei o gatilho ou que se livrou do corpo, mas por uma parte foi culpa minha.
Percy está em meu colo, recebendo caricias e ao mesmo tempo me acalmando.
A luz da cozinha ascende, me deixando sega por alguns segundos. Pisco varias vezes me acostumando com a luz branca do ambiente. Vejo Nathan me encarar com espanto.
- Por que não está no quarto?- murmura ele.
- Sem sono. – respondo, com a voz meio melancólica.
- Está com dor?- ele encara o meu gesso.
- Não. – murmuro.
Ele contrai os lábios e vai até a geladeira, não sei o que ele pega, mas é de vidro. Será que é cerveja?
Senta de frente comigo e passa uma garrafa, então percebo que é coca naquelas garrafas de vidro. Ficamos nos encarando. Ah! Como eu desejo saber mais sobre ele. Seus olhos azuis tem contraste com a luz da cozinha e ele está simplesmente lindo.
- Por que não tira o boné?- murmuro ao perceber isso.
- Eu gosto mais do meu boné. – ele sorri.
- Do que seu próprio cabelo?- inclino a cabeça.
- Meu cabelo é muito bagunçado.
- Desculpa típica. – murmuro sorrindo.
Fico encarando a tampa da garrafa, como se eu fosse abrir com a força de meu pensamento.
- Eu abro. – ele pega a garrafa de novo e abre na beirada da mesa, não sei como.
Depois me devolve com mais uns de seus sorrisos irônicos.
- O quê? Eu sei fazer coisa melhor do que abrir uma garrafa.
- Ah, eu sei disso. – ele ri.
- O que está fazendo acordado?
- Resolvendo umas coisas pra hoje de tarde.
- Que coisas?- faço uma cara meiga.
- Coisas minhas. – ele fica sério.
Reviro os olhos, não vou discutir- pelo menos não de madrugada.
Uma dúvida vem em minha mente. Será que ele já ficou com alguma das meninas da casa?
Sinto o meu rosto queimar só de pensar isso e acho que ele nota.
- O que foi?- murmura ele.
- Nada, só uma dúvida. – sorrio.
Ele faz um gesto com a cabeça para eu continuar.
- Assim... Você já ficou com alguma menina dessa casa?- acho que fico mais corada.
Ele franze o cenho, como se recordasse algo.
- Não.
- Então por que elas estão aqui?
Ele dá de ombros.
- Eu costumava ficar, mas parei com isso.
Franzo o cenho.
- Por quê?- murmuro.
- Por que eu comecei a focar em coisas mais importantes. – ele é direto.
- Hum... Por que elas ainda estão aqui?
- Por causa do Leo, do Alek e também dos meus negócios de fora.
Rá! Já sei que negócios são esses.
- E o Lucas?- murmuro.
- Por que quer saber dele?
- Sei lá, ele tem uma cara de quem pega todas.
Nathan gargalha e me pego admirando sua risada.
- Mas ele não pega.
- Ele é gay? E você também virou?- pergunto hesitante e ele engasga.
- Claro que não! Ninguém é gay aqui.
Sorrio e coro só pela audácia de minha pergunta.
Termino de tomar minha coca, enquanto Nathan me observa impassível e pensativo. Como eu queria ler pensamentos.
- Você tem namorado?- balbucia ele.
- Se eu tivesse, eu não estaria aqui agora.
- Por quê?- agora é a vez dele perguntar sobre mim?
- Porque ele já ia mandar a policia atrás de mim, já que faz um ou dois dias que desapareci.
- Mas ele não ia te achar aqui.
- Ah, cala a boca e não estraga a minha ilusão.
Ele sorri e concorda.
- Devemos sempre conversar de madrugada. – murmuro.
- Por que diz isso?
- Por que até agora a gente não brigo?- respondo em uma pergunta irônica.
- Certo, vou me lembrar disso.
Levanto da mesa e pego Percy do meu colo. Jogo a garrafa no lixo e vou para a sala, sento no sofá e observo a grande janela, está escuro do lado de fora, cenário de filme de terror e a lua está de frente comigo.
- Não vai dormir?- Nathan senta ao meu lado.
Encaro de relance.
- Sem sono, lembra?
- Ah. – ele exclama como se tivesse se lembrado.
- E você?
- Não é cavalheiro deixar uma dama sozinha.
- E desde quando você é cavalheiro?- zombo.
- Shh, não estrague minha ilusão.
Rio. O Nathan não parece ser esse cara frio que fica aqui de dia, ele agora se comporta como um cara da idade dele. É como se na frente dos amigos ele tivesse a obrigação de mostrar ser mais forte e na verdade, ele é apenas mais um.
- Quantos anos você tem?- ele me encara.
- 18 e você?
- 19 pra 20. – nossa ele é novo.
- Pensei que tivesse uns 24... – murmuro.
Ele em encara espantado.
- Tenho cara de tão velho assim?
- Não. – rio – É que o seu jeito parece... – tento me explicar.
- Não sou muito de conversar. – ele confessa.
- Isso não é novidade pra ninguém. – sorrio.
- Eu sei, por isso deixo bem na cara.
- Você é aqueles cães que andam de focinheira, mas na verdade é só pra ter fachada de mal. – reflito.
- Talvez isso tenha sua parte verdadeira, mas todo o cão tem o seu lado dócil e o seu lado predatório.
Ah, anda Nathan, me conte mais sobre você!
- Como assim?
Ele respira fundo.
- Quer ver Tv?- ele muda de assunto.
Concordo com a cabeça. Não estou contente, conversamos e não chegamos a lugar nenhum, ele não dá informações concretas sobre nada.
Mas ainda vou descobrir mais sobre ele, nem que eu tenha que virar essa casa de cabeça pra baixo.
Ele liga a grande Tv de led da sala e começa a passear pelos canais, procurando algo legal passando. Mas o que estaria passando na Tv três e pouco da manhã?
- Acho melhor fazer outra coisa. – murmuro.
- Tem Tv a cabo, deve ter algo.
Ajeito-me no sofá e fico aguardando ele achar algo na Tv.
Depois de uns dez minutos procurando, Nathan cansa de procurar algum programa e desliga a Tv. Estamos nos encarando, sem comentar nada.
- Tire o boné. – peço delicada.
- Não.
Mordo o lábio inferior.
- Por favor. – faço biquinho.
- Por que quer tanto isso?
- Quero ver como é o seu cabelo. – sorrio.
Ele ri.
- Não vou tirar, satisfeita?
Reviro os olhos e respiro fundo.
- Quer fazer o que?
- Nada. – ele diz simplesmente.
- Vai ficar me encarando?- tento ser compreensiva.
- É uma bela visão...
Contraio os lábios e me ajeito de novo no sofá.
- Para de me encarar. – murmuro, sabendo que ele ainda está me encarando.
- Tem olho na nuca agora?- ri.
Rio junto.
- Pergunta infantil. – resmungo, fingindo ter dado importância.
- Você é uma das poucas pessoas que conversa comigo, então se sinta honrada.
- Me sentiria se você me falasse mais sobre você.
Ele fica levemente tenso.
- Não tem o que falar de mim. – a tensão em sua voz é palpável.
Ele parece desconfortável e fica mudo.
Estreguei tudo, como sempre faço.
- Desculpa. – murmuro.
- Pelo o que?
- Sei lá, se estou sendo muito curiosa...
- É normal ter curiosidade, principalmente em relação a mim.
Opa! Como assim?
- Você não vai me falar?- faço cara de anjinho.
- Não, nem adianta fazer essa carinha.
- Estraga prazer.
- Tudo tem o seu tempo... – ele deixa a frase no ar e me dou conta que odeio isso.
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