Já devem ser umas três horas da manhã. Estou na cozinha- claro, depois de testar todas as portas que se encontram trancadas, sentada em uma cadeira confortante e apoiando meu cotovelo na mesa de madeira a minha frente.

O ocorrido com o doutor ainda está na minha cabeça, me atormentando. Sinto-me culpada, mesmo que não tenha sido eu que disparei o gatilho ou que se livrou do corpo, mas por uma parte foi culpa minha.

Percy está em meu colo, recebendo caricias e ao mesmo tempo me acalmando.

A luz da cozinha ascende, me deixando sega por alguns segundos. Pisco varias vezes me acostumando com a luz branca do ambiente. Vejo Nathan me encarar com espanto.

- Por que não está no quarto?- murmura ele.

- Sem sono. – respondo, com a voz meio melancólica.

- Está com dor?- ele encara o meu gesso.

- Não. – murmuro.

Ele contrai os lábios e vai até a geladeira, não sei o que ele pega, mas é de vidro. Será que é cerveja?

Senta de frente comigo e passa uma garrafa, então percebo que é coca naquelas garrafas de vidro. Ficamos nos encarando. Ah! Como eu desejo saber mais sobre ele. Seus olhos azuis tem contraste com a luz da cozinha e ele está simplesmente lindo.

- Por que não tira o boné?- murmuro ao perceber isso.

- Eu gosto mais do meu boné. – ele sorri.

- Do que seu próprio cabelo?- inclino a cabeça.

- Meu cabelo é muito bagunçado.

- Desculpa típica. – murmuro sorrindo.

Fico encarando a tampa da garrafa, como se eu fosse abrir com a força de meu pensamento.

- Eu abro. – ele pega a garrafa de novo e abre na beirada da mesa, não sei como.

Depois me devolve com mais uns de seus sorrisos irônicos.

- O quê? Eu sei fazer coisa melhor do que abrir uma garrafa.

- Ah, eu sei disso. – ele ri.

- O que está fazendo acordado?

- Resolvendo umas coisas pra hoje de tarde.

- Que coisas?- faço uma cara meiga.

- Coisas minhas. – ele fica sério.

Reviro os olhos, não vou discutir- pelo menos não de madrugada.

Uma dúvida vem em minha mente. Será que ele já ficou com alguma das meninas da casa?

Sinto o meu rosto queimar só de pensar isso e acho que ele nota.

- O que foi?- murmura ele.

- Nada, só uma dúvida. – sorrio.

Ele faz um gesto com a cabeça para eu continuar.

- Assim... Você já ficou com alguma menina dessa casa?- acho que fico mais corada.

Ele franze o cenho, como se recordasse algo.

- Não.

- Então por que elas estão aqui?

Ele dá de ombros.

- Eu costumava ficar, mas parei com isso.

Franzo o cenho.

- Por quê?- murmuro.

- Por que eu comecei a focar em coisas mais importantes. – ele é direto.

- Hum... Por que elas ainda estão aqui?

- Por causa do Leo, do Alek e também dos meus negócios de fora.

Rá! Já sei que negócios são esses.

- E o Lucas?- murmuro.

- Por que quer saber dele?

- Sei lá, ele tem uma cara de quem pega todas.

Nathan gargalha e me pego admirando sua risada.

- Mas ele não pega.

- Ele é gay? E você também virou?- pergunto hesitante e ele engasga.

- Claro que não! Ninguém é gay aqui.

Sorrio e coro só pela audácia de minha pergunta.

Termino de tomar minha coca, enquanto Nathan me observa impassível e pensativo. Como eu queria ler pensamentos.

- Você tem namorado?- balbucia ele.

- Se eu tivesse, eu não estaria aqui agora.

- Por quê?- agora é a vez dele perguntar sobre mim?

- Porque ele já ia mandar a policia atrás de mim, já que faz um ou dois dias que desapareci.

- Mas ele não ia te achar aqui.

- Ah, cala a boca e não estraga a minha ilusão.

Ele sorri e concorda.

- Devemos sempre conversar de madrugada. – murmuro.

- Por que diz isso?

- Por que até agora a gente não brigo?- respondo em uma pergunta irônica.

- Certo, vou me lembrar disso.

Levanto da mesa e pego Percy do meu colo. Jogo a garrafa no lixo e vou para a sala, sento no sofá e observo a grande janela, está escuro do lado de fora, cenário de filme de terror e a lua está de frente comigo.

- Não vai dormir?- Nathan senta ao meu lado.

Encaro de relance.

- Sem sono, lembra?

- Ah. – ele exclama como se tivesse se lembrado.

- E você?

- Não é cavalheiro deixar uma dama sozinha.

- E desde quando você é cavalheiro?- zombo.

- Shh, não estrague minha ilusão.

Rio. O Nathan não parece ser esse cara frio que fica aqui de dia, ele agora se comporta como um cara da idade dele. É como se na frente dos amigos ele tivesse a obrigação de mostrar ser mais forte e na verdade, ele é apenas mais um.

- Quantos anos você tem?- ele me encara.

- 18 e você?

- 19 pra 20. – nossa ele é novo.

- Pensei que tivesse uns 24... – murmuro.

Ele em encara espantado.

- Tenho cara de tão velho assim?

- Não. – rio – É que o seu jeito parece... – tento me explicar.

- Não sou muito de conversar. – ele confessa.

- Isso não é novidade pra ninguém. – sorrio.

- Eu sei, por isso deixo bem na cara.

- Você é aqueles cães que andam de focinheira, mas na verdade é só pra ter fachada de mal. – reflito.

- Talvez isso tenha sua parte verdadeira, mas todo o cão tem o seu lado dócil e o seu lado predatório.

Ah, anda Nathan, me conte mais sobre você!

- Como assim?

Ele respira fundo.

- Quer ver Tv?- ele muda de assunto.

Concordo com a cabeça. Não estou contente, conversamos e não chegamos a lugar nenhum, ele não dá informações concretas sobre nada.

Mas ainda vou descobrir mais sobre ele, nem que eu tenha que virar essa casa de cabeça pra baixo.

Ele liga a grande Tv de led da sala e começa a passear pelos canais, procurando algo legal passando. Mas o que estaria passando na Tv três e pouco da manhã?

- Acho melhor fazer outra coisa. – murmuro.

- Tem Tv a cabo, deve ter algo.

Ajeito-me no sofá e fico aguardando ele achar algo na Tv.


Depois de uns dez minutos procurando, Nathan cansa de procurar algum programa e desliga a Tv. Estamos nos encarando, sem comentar nada.

- Tire o boné. – peço delicada.

- Não.

Mordo o lábio inferior.

- Por favor. – faço biquinho.

- Por que quer tanto isso?

- Quero ver como é o seu cabelo. – sorrio.

Ele ri.

- Não vou tirar, satisfeita?

Reviro os olhos e respiro fundo.

- Quer fazer o que?

- Nada. – ele diz simplesmente.

- Vai ficar me encarando?- tento ser compreensiva.

- É uma bela visão...

Contraio os lábios e me ajeito de novo no sofá.

- Para de me encarar. – murmuro, sabendo que ele ainda está me encarando.

- Tem olho na nuca agora?- ri.

Rio junto.

- Pergunta infantil. – resmungo, fingindo ter dado importância.

- Você é uma das poucas pessoas que conversa comigo, então se sinta honrada.

- Me sentiria se você me falasse mais sobre você.

Ele fica levemente tenso.

- Não tem o que falar de mim. – a tensão em sua voz é palpável.

Ele parece desconfortável e fica mudo.

Estreguei tudo, como sempre faço.

- Desculpa. – murmuro.

- Pelo o que?

- Sei lá, se estou sendo muito curiosa...

- É normal ter curiosidade, principalmente em relação a mim.

Opa! Como assim?

- Você não vai me falar?- faço cara de anjinho.

- Não, nem adianta fazer essa carinha.

- Estraga prazer.

- Tudo tem o seu tempo... – ele deixa a frase no ar e me dou conta que odeio isso.