O silêncio reina entra nós. Mas prefiro esse silêncio à raiva e os gritos que sempre dirigimos um para o outro. Tenho que reconhecer que às vezes eu sou teimosa, mas ele que me trouxe pra cá sem perguntar minha opinião.

- Cassandra... – ele sussurra o meu nome.

- Sim?- encaro-o.

- Você já sentiu medo?- ele me encara.

Franzo o cenho e tento buscar logica no que ele está falando.

- Sim, todo mundo tem uma hora.

- Quando você sentiu?- murmura ele.

- Quando eu acordei na sua casa com você me encarando, quando brigamos, quando você matou... Enfim, toda hora que estou ao seu lado.

Ele tem uma expressão confusa, até parece triste.

- E você?- murmuro.

- Muitas vezes, por isso aprendi a atirar.

- E também tenho medo de que as pessoas a minha volta sofram, por isso tento garantir segurança para todos. – continua ele.

Ah, então é por isso que o Leo anda armado.

- Você devia procurar um tratamento médico. – murmuro.

- Conversar já é o suficiente. – ele dá um sorriso torto.

- Se você falasse mais sobre você e o que te deixa tão fechado, talvez fosse melhor conversar mesmo. – resmungo.

- Eu tenho os meus motivos para ser assim. – ele se defende.

- Eu sei, mas quero entender por que esconde isso de todo mundo. – encaro-o.

- Por que eu não quero sair falando dos meus problemas ou resmungar toda hora. – ele rebate.

- Está falando que eu resmungo toda hora?- cerro os dentes.

- Se entende indireta. – ele dá de ombros.

- Olha aqui, pra começo de conversa você que me trouxe pra cá, então me deixa resmungar!- minha voz vai aumentando, até se tornar quase um grito no final.

Ele me encara sério e levanta do sofá.

- É melhor você ir dormir, está ficando agressiva.

Mordo o lábio inferior com muita força, me segurando para não voar em cima dele.

- Acho que não dá para conversar com você. – vou procurar Percy.

- Digo o mesmo. – ele rebate.

Respiro fundo e pego Percy da poltrona.

- Você tem sorte. – resmungo.

- Do que? Viver com você?

- Sabe Nathan. – viro e encaro- Eu tinha uma vida antes de vir para essa merda, era feliz no meu apartamento, recebendo cartas da minha avó, vivendo com o meu dinheiro- as lagrimas brotam em meus olhos.

Ele me encara, ainda sério.

-Então você chega e me sequestra, me traz para um lugar que nunca vi na vida e ainda quer que eu esteja feliz?- não consigo segurar o choro- Eu tenho sentimentos Nathan, eu não sou fechada como você ou obediente como as meninas, não consigo escutar sem me defender, se me quer feliz e sem resmungar, me deixe ir embora.

As lagrimas caem, cortando minha face e mostrando a agonia que sinto no momento. Não sinto mais raiva do Nathan ou qualquer outra coisa, apenas tenho medo de estar aqui, medo de estar com ele.

- Você me entede agora?- falo com a voz falha.

- Desculpa, eu não queria te fazer chorar. – ele se aproxima.

- Não encoste em mim!- falo alto em meio as lagrimas- Não encoste.

Ele recua.

Dou as costas e começo a subir as escadas, olhando os degraus de mármore, as lagrimas escorrendo até meu queixo e a tristeza que bate em mim.

- Cassandra. – sinto alguém segurar meu ombro.

Ergo o olhar e vejo Lucas com cara de sono.

- O que o Nathan fez pra você? Ele bateu em você?

- Não fisicamente. – fungo- Eu quero ir embora.

Ele me encara meigo e enxuga minhas lagrimas com o polegar.

- Vem cá. – ele me puxa para o final da escada- Você não tem que ligar para o Nathan.

- Como não ligar? Ele não liga para o que eu sinto Lucas, ele quer que eu seja alguém que eu não consigo ser, não consigo fingir ser feliz, não aqui.

- O Nathan não liga pra ninguém.

Tento controlar o choro.

Sem pensar duas vezes e o abraço, talvez fosse isso que eu precisasse, conforto. Ele fica retribui o braço e beija o topo de minha cabeça.

- O Nathan nunca encostaria um dedo em uma mulher, muito menos em você. – murmura ele.

- Por que muito menos em mim?- ergo o olhar para o dele.

- Eu não sei explicar, é melhor deixa-lo explicar.

- Isso nunca vai acontecer. – murmuro.

- E talvez seja melhor assim.

- Hein?- ergo uma sobrancelha.

- Vai dormir.

**

Uma claridade forte me força a abrir os olhos, a luz matinal está de frente comigo. Levanto com dificuldade e caminho até o banheiro, tomo uma ducha rápida e escolho uma roupa agradável, uma calça jeans e uma blusa de crochê rosa, prendo o meu cabelo em um rabo de cavalo e me encaro no espelho. Estou pálida.

Passo a mão no rosto e dou um sorriso.

Saio do quarto e não encontro ninguém no corredor, desço a escada e vejo Percy comendo alguma coisa. Desde quando ele sabe abrir porta?

Não vejo ninguém em casa, vou até a porta da sala, está trancada, a porta da cozinha também está assim.

- Tem alguém em casa?

O eco corre pela casa e ninguém responde.

Tem uma porta perto do escritório do Nathan aberta, caminho hesitante até lá. Abro-a até o fim e noto uma escada, talvez seja o porão.

Procuro o interruptor e ascendo a luz, desço com cuidado, a escada é de madeira, as paredes ainda de concreto e é meio frio aqui em baixo. Quando termino de descer, estou em um lugar grande, tem uma parede com alvos em círculos e em formas de pessoas, vários armários e caixas. Aproximo-me de um armário e abro, encontro armas.

Faço a mesma coisa em uns três e encontro a mesma coisa, também a coletes a prova de bala, munição de todo o tipo, granadas e roupas estranhas.

Minha palpitação está fora do normal. Será esse o outro negocio dele?

Viro para voltar para o andar de cima e dou de cara com o Nathan, grito.

- Quer me matar?- ofego.

- O que faz aqui em baixo?- ele parece irritado.

- A porta estava aberta e não tinha ninguém em casa, resolvi ver o que era. – dou um sorriso amarelo- Por que tantas armas?

- Além de exportar mulheres, exporta armas e vendo nacionalmente.

- E ilegalmente. – acrescento- Da dinheiro?

- Mais que mulheres. – ele sorri- E também da menos trabalho.

- Sei, quem te fornece?

- Outros mafiosos e até mesmo policias.

- Policias?- não consigo conter o espanto na minha voz.

- Policias não precisam necessariamente serem bons, existem os corruptos.

- Hum... E você sai ganhando no negócio?

- Lógico Baby, eu faço um preço muito mais em conta do que quando compro.

- Não entendo disso, mas ok. E o que mais te dá dinheiro?

Ele respira fundo.

- Também vendo drogas. – fala de uma vez.

Mordo o lábio inferior.

- Mas não é drogado?

- Não preciso ser drogado para vender. – ele ri.

- E parece que deu certo esse seu negócio. – olho em volta.

- Muito certo. – ele concorda.

- Agora vou voltar lá pra cima. – caminho até a escada.

Subo o mais rápido que conseguido, não sei se é impressão minha, mas ele parece estar mais liberal hoje e menos tenso.

Saio do local e caminho até a sala, até sentir uma mão forte segurar o meu braço.

Paro e viro, encarando os olhos azuis de Nathan.

- Cassandra eu...

- Eu quero te pedir desculpas. – interrompo-o.

- Por quê?- ele ergue uma sobrancelha.

- Não devo me intrometer na sua vida pessoal, todos nós temos conflitos internos.

- Estou aliviado que entenda. – ele sorri.

Dou um sorriso torto.

- Também queria pedir desculpa, eu fui rude com você, deve ser horrível passar pelo o que você está passando. Tentarei ser o melhor possível.

- Agradeço. – sorrio abertamente.

Será que o Nathan pensou sobre o ocorrido de madrugada e agora quer compartilhar algo comigo?

- E prometo tentar responder da melhor forma possível suas perguntas um tanto pessoais.

Sorrio feito o gato da Alice e me aproximo dele.

Ele fica visivelmente tenso, ignoro e o abraço.

- Sem brigar?­- murmuro ainda o abraçando.

- Sem brigar. – ele concorda e retribui o abraço.

- Vai me contar algo?- falo esperançosa.

- Não.

Reviro os olhos.

- Vou precisar de sua ajuda?- ele se afasta de mim.

- Em que?

- Em um assassinato. – ele vai direto ao ponto.

Meu coração para e minha respiração fica ruidosa.