Nathan continua me abraçando e eu estou a beira do sono, mas continuo firme tentando me concentrar nele. Parece que sou capaz de sentir a dor dele, parece que eu vivi o que ele viveu e em parte, os dois sabem como é perder uma mãe.

- Você sabe onde ele está?- murmuro cautelosa.

Ele aquiesce.

- Já mandei o Leo atrás dele, espero que o achem.

- Você não quer ir atrás dele?- franzo o cenho.

- Tudo o que eu mais quero é nunca mais olhar na cara do meu pai. – ele diz entre dentes.

Respiro fundo. Por mais que eu sempre amei o meu pai, agradeço por não poder mais olhar pra ele.

Sinto as lagrimas se acumularem em meus olhos.

Por qualquer diferença que eu e o Nathan temos, a dor que sentimos pode ser a mesma, a dor de ter um pai como o que temos, a dor de perder a pessoa que você mais ama, o receio da vida e o jeito de nos esconder em de nós mesmo.

- Nathan. – retiro suas mãos de minha cintura- Eu preciso tomar banho.

Ele passa a mão no rosto e concorda.

Vou até o banheiro. Tomo uma ducha rápida e morna, me enrolo na toalha e me encaro no espelho, coisa que faz certo tempo que não faço.

Meu cabelo cai em lindas e perfeitas ondas acobreadas sobre meus ombros, meus olhos brilham como nunca e preciso tomar sol.

Sinto um mal estar repentino, como se estivesse tonta. Ando pra trás e sento no vaso sanitário, passo a mão no cabelo e concentro minha visão no piso do banheiro.

Assim que a tontura passa, levanto com cuidado e caminho até a porta. Encaro Nathan na cama e caminho até o armário, pego meu pijama e começo a me trocar, ignorando o Nathan no quarto.

Viro e o encaro.

- Você está bem?- ele me encara.

- Sim, por quê?

- Está pálida. – ele senta na cama- Tem certeza que está bem?

- Só estou com fome. – sorrio torto.

- Então vou pegar comida pra você. – ele levanta da cama.

Deito logo em seguida, estou meio enjoada. Acho que a comida da faculdade não me fez bem.

Nathan demora uns 15 minutos na cozinha, começo a achar que ele fez alguma merda. Quando penso em levantar ele aparece na porta.

- Achei que tivesse acontecido algo. – murmuro.

Ele sorri tímido.

- Bem, talvez. – ele ri.

- O que você fez?- entorto a boca em reprovação.

- Eu sujei um muito de coisa e queimei o fundo da sua panela. – ele diz baixo e senta ao meu lado.

Respiro fundo.

- Você vai arrumar todo. – murmuro.

- Sim, mesmo a panela. – ele ri.

Reviro os olhos.

- O que você fez para dar tanto trabalho?- pergunto curiosa.

- Hum... – ele encara o prato- Omelete, arroz, salada e alguma coisa. – ele ri.

- Nossa, se nem você sabe o que fez, terei surpresas na hora de comer. – sorrio.

Ele ri e me entrega o prato.

- Não vai comer?- encaro-o.

- Estou sem fome. – ele deita ao meu lado e liga a tv.

Até que o Nathan não é tão mal na cozinha quanto eu esperava que fosse. Após eu comer, ele levou o prato pra cozinha e ficamos assistindo um seriado que eu não sei o nome.

A comida em meu estomago está embolada, me dando enjoos fortes. Estou duvidando muito que se vier, não vou conseguir chegar no banheiro.

- Nathan, o que você colocou na comida?- sento na cama e coloco a mão na barriga.

- Hum... Os ingredientes que se coloca para fazer a comida. – ele diz se aproximando- Por quê?

- Estou passando mal de novo.

- Quer tomar remédio?

Rio. Ele está parecendo criança quando vê a mãe doente.

- Do quê está rindo?- ele diz com uma voz levemente infantil.

- De você. – sorrio.

Ele sorri.

- Tem remédio da gaveta embaixo do micro-ondas. – levanto.

- Qual eu pego?- ele levanta junto.

Rolo os olhos de um lado para o outro, tentando pensar em nome de algum remédio.

- Faz o seguinte. – mudo de ideia- Vai na sacada, procura por uma planta que a folha parece ser de veludo, pega uns três folhas.

- E depois?- ele me encara.

- Pegue o coador na cozinha e aquele negocio de fazer caipirinha, está no armário, depois esmague as folhas em cima do coador e dentro de um copo com água. – encaro-o – Entendeu?

Ele aquiesce e vai direto para fora do quarto.

Ainda bem que lembrei disso, foi minha avó que me ensinou a fazer esse “remédio” natura e sempre funciona quando algo não me faz bem.

Espero-o em pé no meio do quarto, até que a náusea vem mais forte, corro para o banheiro e abaixo perto do vaso sanitário, acabo vomitando tudo o que eu comi, acho que do dia inteiro.

Faço bochecho e quando vou sair do banheiro, dou de cara com o Nathan. Ele está segurando um copo com um liquido verde e viscoso.

- Esse negócio é horrível. – ele me entrega o copo.

- Obrigado pelo incentivo. – sorrio.

Pego o copo e tomo coragem. Respiro fundo e começo a tomar o conteúdo dele. O gosto amargo domina a minha boca até o estomago.

Faço uma careta e devolvo o copo pra ele.

- Não bebeu todo. – ele encara o copo.

- Toma você o resto. – resmungo.

Ele revira os olhos e sai do banheiro.

Passo a língua entre os lábios e ainda está com gosto da planta, acho que é boldo o nome dela, encaro o chão novamente e a náusea volta. E mais uma vez, acabo vomitando de novo.

- Merda. – resmungo e enxaguo a boca.

Encaro o espelho e o Nathan está atrás de mim. Grito.

Ele ri.

- Dá pra parar de aparecer do nada?- esbravejo.

- Não tive intenção de te assustar. – ele sorri.

Contraio os lábios e saio do banheiro.

- Passou mal de novo?- ele vem atrás de mim.

- Sim. – murmuro indo pra cozinha.

-Acho melhor ir ao hospital, não acha?- opina ele.

- Não, deve ser só algo que eu comi que não fez bem. – tento passar confiança.

Ele suspira.

- Você que sabe.

- Não confia em mim?- viro e encaro-o.

- Sim, mas você está mal mesmo.

Seus olhos azuis me analisam preocupados.

- Olha, eu sei o que é bom pra mim. – falo firme.

Ele passa a mão no cabelo e não diz nada.

Vou para a cozinha e tomo um copo de água, retirando um pouco o gosto amargo da minha boca.

Só falta eu ficar doente e bem agora, em meio a todas as confusões e a faculdade.