Ele entra em uma sala e tranca a porta atrás de si. Parece mais um escritório.

- Você é surda?- ele pragueja.

Viro rapidamente, encarando-o e tento decifrar o que ele está pensando.

- Por quê?- me faço de desentendida.

- Não sabe como me deixou nervoso quando saiu correndo. – ele diz com os dentes cerrados.

- Ah, desculpa se eu quero apenas fugir daqui!- agora é minha vez de praguejar.

- Cassandra, você é tão... – ele franze o cenho- É melhor você ficar mais na sua.

Inspiro forte.

- Não! Não vou abaixar a cabeça, não pra você!- explodo.

Ele arregala os olhos azuis, mas logo depois fecha a cara.

- Não quero machucar você. – avisa, sua irritação é palpável.

- Não precisa!- rebato- Olhe para minhas mãos, já é culpa sua!

Ele cerra os dentes e me encara. Minha palpitação volta ao máximo, minha respiração fica ruidosa.

- Quando me falaram de você, não imaginei que fosse tão teimosa.

- Quem falou de mim?

- Não interessa, estou puto com você. É melhor isso não se repetir.

- Desculpa, não prometo nada. – cerros os dentes.

Ele se aproxima de mim e estende a mão.

Engulo seco, mas obriguei-me não recuar.

Ele passa seus dedos calejados pelo o meu rosto e eu recuso o toque, virando o rosto. Sua mão vai até o meu cabelo, entrelaçando os dedos e puxando gentilmente para baixo, me fazendo tombar a cabeça pra trás e encara-lo mais intensamente.

- Não fui ao seu apartamento atoa. – murmura ele.

- Foi por que quis.

Ele sorri petulante.

- É só um aviso Baby, é melhor andar na linha.

Mordo o lábio inferior fortemente, segurando qualquer objeção que tenho. Não duvido muito que ele bateria em mim se eu continuasse a critica-lo.

- Estou com fome. – tento mudar de assunto.

- Vou pedir para a Melissa preparar algo para você comer. – ele solta o meu cabelo e se afasta.

Respiro fundo, ótimo, distância.

- Mais um deslize... – ele deixa a frase no ar e me faz ter arrepios.

- Eu sei. – corto-o.

- Pode ficar com o seu gato. – ele se finge de gentil.

- Achou que ele iria ficar com você?- pergunto irônica.

- Poderia virar comida para os meus cães.

- Idiota!- rosno e ele me encara sério. Ops.

Ele destranca a porta e me dá passagem, saio em passos largos e as meninas ainda estão lá.

- Estão encarando o que?- falo grossa.

Elas me encaram com desdém e riem de algo, logo em seguida saem andando.

- Cassandra. – alguém chama meu nome docemente.

Olho para trás por cima dos ombros e vejo o menino que me barrou na porta.

- Sim?- forço um sorriso.

- Tem certeza que você socou a porta?- ele se aproxima de mim.

- Sim. – ele está insinuando o que?

- O Nathan não tocou em você?- ele me encara preocupado.

- Tocou, mas não do modo agressivo. – franzo o cenho.

- Ótimo. – ele sorri- Sou Lucas.

- Cassandra. – estendo a mão pra ele.

- Não precisa ser formal. — ele ri.

- Ótimo, por que eu não pretendia ser.

Andamos um pouco até a sala, onde sentamos no sofá.

As garotas estavam na cozinha, bebendo algo alcoólico e rindo como se a vida fosse carnaval.

- Quem são elas?- murmuro para Lucas.

Ele olha de relance pra elas e depois me encara de novo, com um sorriso no rosto.

- São as prostitutas da casa.

Arregalo os olhos, mas me contenho.

- O Nathan também as sequestrou?- balbucio.

- Sim, mas elas já tinham o cafetão delas, o Nathan só fez um favor.

Reviro os olhos, até parece que o Nathan é bom.

- Elas vão ficar aqui?- murmuro.

- Geralmente o Nathan vende-as para bares e casas de prostituição no exterior. – Lucas sussurra.

- Pelo dinheiro?

- Sim, isso dá dinheiro. – ele concorda.

- Então vocês vivem disso? Sequestram prostitutas e depois vendem?

Ele gargalha, me seguro para não rir com ele.

- Quase isso docinho.

- Só tem você e o Nathan aqui?

- Não, tem o Leo, o Alek e a Sue.

- A Sue é o que?

- Tipo a governanta da casa.

Concordo com a cabeça e então encaro os meus dedos, lembrando que ainda estou usando minha camisola. Coro.

- Depois peça pra ela algumas roupas. – Lucas parece notar minha vergonha.

- Tudo bem. – ergo o olhar para ele de novo e meu estomago ronca.

- Está com fome?- seus olhos parecem rir.

- Sim.

Caminhamos lentamente até a cozinha, Lucas comenta algo com as meninas. Eu sento nos bancos que tem em frente à bancada e observo o ambiente, elas estão bebendo cerveja e comendo azeitona com outra coisa.

- Ei novata. – uma me chama.

Encaro-a, ela é ruiva, tem olhos verdes e um corpo com belas curvas.

- Sou Melissa. – ela sorri.

- Cassandra. – murmuro.

- Está gostando do local?­- ela se aproxima de mim.

- Não. – contraio os lábios.

- Oras, por que não?- ela sorri

- Porque eu quero saber o motivo pelo qual estou aqui. – murmuro dolorida.

- Todas nós queremos. – ela aperta a minha mão- Foi o Nathan que fez isso?- ela afaga os nós dos meus dedos.

- Não, eu soquei a porta.

Por que todos desconfiam que o Nathan me bateu?

- Ele já bateu em alguém?- balbucio, com medo da resposta.

Ela engole seca e fica tensa.

- Bem, não sei. – sua voz é uma tensão detida – Tenho que ir me arrumar, depois conversamos.

Concordo com a cabeça e ela sai andando.

Lucas volta com um sanduiche natural e um copo de suco de laranja, tudo é bem-vindo.

Estou comendo o meu lanche, enquanto o Lucas come bolachas e mexe no celular, distraído.

- O Nathan já bateu em alguém daqui?- murmuro.

Lucas me encara franzindo o cenho.

- Uma vez. – ele contrai os lábios.

- Foi em uma mulher?- balbucio.

- Não, ele não é tão covarde assim.

Menos mal.

Termino o meu lanche e fico rodando no banco, enquanto o Lucas se distrai com algo no celular.

- Namorada?- falo enquanto rodo no banco.

- Não. – ele diz sem desgrudar os olhos da tela do celular.

- Hum... – continuo rodando até a porta da sala abrir.

Um menino de cabelo castanho claro entra segurando um rifle de assalto, têm olhos castanhos escuros e a pele bronzeada, ele está rindo de algo.

A respiração me falta, eu pensaria que aqui tivesse de tudo, menos armas de fogo.

- Como foi?- Lucas encara o menino.

- Tudo bem, conseguimos vender a carga. – ele vem até nos.

Será que venderam mais uma menina?

Fico em silêncio observando-o, ele é bonito, assim como o Nathan e o Lucas.

- Você é a... ?- ele me encara.

- Cassandra. – falo rápido.

Ele encara o Lucas convicto de algo e diz sem hesitar:

- Rolos do Nathan.

Lucas concorda.

- Certo, vou falar com ele. – o menino caminha até o escritório.

- Esse é quem?- questiono-o.

- Esse é o Leo.

- O que você faz no grupo?- murmuro.

- Faço o que a chefia manda. – ele sorri.

Estou certa que ele fala do Nathan.

Mas quão será o poder desse menino aqui? O que será que o torna tão especial?

Ainda tenho medo dessa casa, mas mais das pessoas que ficam nela. Eles têm armas, eles matam pessoas, eles vendem pessoas. Minhas mãos suam frio e minha respiração fica ruidosa, não sei por que estou com medo agora. Mas estou com muito medo.

- Eu posso ir para o meu quarto?- murmuro.

- Sim. – Lucas levanta- Vamos lá.

Lucas me levou para o meu quarto, me trancando lá de novo. Vou até o armário e noto que Sue deixou umas roupas lá.

Notas finais
Continuo ou está chato?