Escolhi uma roupa descente, uma regata rosa e um shorts jeans um tanto curto. Fiquei no quarto, com a cabeça encostada na grade de prisão.

Quem diria uma menina tão certinha igual a mim, estar presa. Minha avó teria um infarto se soubesse onde sua única neta está agora, no meio de prostitutas e sequestradores estranhos. Gostaria ao menos de saber por que eu estou aqui ou que negócio é esse que eu estou envolvida.

Percy está deitado na cama, todo largado e tranquilo. Pra ele não importa onde estiver, se tiver uma cama e uma lata de atum, está tudo ótimo.

- Cassandra?- alguém entra no quarto.

Ergo o olhar para a porta e vejo o Nathan.

- Você comeu?- ele entra no quarto.

- O que lhe interessa se eu comi ou não?- sou ríspida.

- Estou sendo legal, gostaria que fosse também. – ele diz paciente.

- Pois é, mas “legal” não está no meu vocabulário agora.

Ele passa a mão no rosto e respira fundo.

- Você comeu?- ele pergunta novamente, menos paciente.

- Sim. – falo alto e grossa.

- Quem te deu comida?

- O Lucas.

- Por que não foi a Melissa?- ele parece nervoso.

- Porque não.

Sinto-me como uma criança teimosa e mimada.

- Precisamos conversar. – ele senta na minha cama.

- Fale...

- A sua herança está em um banco aqui?

- Que?- falo alto em espanto.

- Sua herança, está em um banco aqui ou de fora?

Pra que ele quer saber da minha herança?

- Eu não sei.

- Como assim não sabe?- ele levanta o tom de voz- Tem que saber!

- Não tenho não! E nem você tem que saber!

- Cassandra, estou tentando ser legal com você, mas é difícil.

- Eu não pedi para você ser legal comigo, muito menos trazer-me pra essa prisão. – rebato.

A irritação de nós dois é palpável, se eu ainda tivesse forças, eu bateria nele, mas eu prezo muito a minha vida.

Ele passa a mão no rosto novamente.

- Olha, eu só preciso saber disso. – ele abaixa o tom de voz- Está em um banco aqui no Brasil ou do exterior?

- Eu não vou falar!- grito.

Fuzilamo-nos pelo olhar. Ele está irritado agora, tem a mandíbula trincada e seu olhar está escuro.

Prendo a respiração para esconder meu medo e adrenalina.

- Não vai responder?- ele me encara ainda irritado.

- Não.

- Então vai ficar trancada aqui o dia inteiro. – ele sai do quarto.

- Você não tem o direito de fazer isso. – avanço sobre ele nervosa.

Ele fecha a porta na minha cara e consigo escuta-lo tranca-la, dou um soco forte e vejo estrelas. Meus ossos parecem estar quebrados e minha mão começa a latejar novamente, pequenas lagrimas escorrem pelo canto de meus olhos e eu ajoelho no chão.

Se o sistema vai ser bruto, então assim será. Ele acha que por que manda nas meninas e nos seus “capangas”, vai poder mandar em mim. Ah, ele está muito errado, ele vai ver quem é a Cassandra que ele resolveu sequestrar.

Volto para a cama e deito ao lado de Percy, que me encara sem entender nada.

É tão bom encara-lo, me dá mais força para continuar e me deixa mais confiante, como se esse olhar falasse que eu sou forte o suficiente para encarar o Frost psicopata que me sequestrou hoje ou ontem.

**

Estou sem comer desde ontem à tarde, quando aquele imbecil resolveu me trancar aqui. Posso morrer, mas nunca vou falar onde está a minha herança, meu pai trabalhou muito para eu deixar esse play boy idiota pegar tudo sem mais nem menos.

Tomei uma ducha rápida e coloco uma roupa de frio. O dia amanheceu nublado e chuvoso.

Estou debaixo das cobertas, afagando o Percy e escutando meu estomago roncar cada vez mais alto.

O ódio em mim é muito grande, tenho vontade de cometer um ato de violência contra o Nathan, mas sou muito boa para fazer isso. Quero esfregar a cara dele no chão e depois pisar em cima.

A porta abre, me encolho debaixo no edredom e não quero saber quem é.

- Trouxe comida pra você. – é a voz do Nathan.

Não respondo.

- Você aplicou sedativo nela?- uma voz desconhecida fala.

- Claro que não, ela estaria morta agora.

Sinto alguém sentar na cama, perto de meus pés. Encolho-me mais.

- Cassandra... – é o Nathan- Você tem que comer.

- Tinha que ter pensado nisso ontem. – murmuro.

Não tenho força pra gritar com ele.

Ele puxa o edredom, revelando o meu rosto.

- Tem que comer. – insisti.

- Não. – firmo mais a voz.

Olho pelo quarto e vejo o menino de ontem, acho que é Leo o nome dele. Ele está segurando um revolver, meu coração para.

- Por que está armado?- encaro-o.

Ele sorri e balança a mão que segura à arma.

- Nada, é só minha companheira.

Encaro o Nathan e ele não parece muito bem.

- O que foi?- dirijo a palavra pra ele.

- Nada. Como está a sua mão?

Encaro minhas mãos, ainda estão roxas e doloridas.

- Bem. – minto.

- Me deixe ver. – ele se aproxima.

- Não. – me afasto.

Ele estreita os olhos e segura o meu pé, me puxando para mais perto.

Me debato e rolo, deitando em cima de minhas mãos. Ele segura os meus ombros e me vira de novo, sentando em cima de mim, uma perna de cada lado do meu corpo.

- Você vai me quebrar no meio. – arfo.

- Fique quieta. – ele pega a minha mão.

Ainda estão inchadas e roxas, algumas partes sangram. Mas não estão tão doloridas.

- É melhor leva-la no médico. – Leo diz meio distante de nós.

- Também estou achando. – ele contrai os lábios- Consegue mexer?

Concordo com a cabeça.

- Está muito dolorido?- Leo me encara.

- Não, dá pra viver. – forço um sorriso.

- Então vamos fazer uma compressa de gelo. – Nathan diz em sussurro.

- Por que está tão preocupado comigo brutamonte?

Escuto Leo engolir a risada e se afastar de nós, Nathan me encara mortalmente.

- Estou querendo ajudar. – cerra os dentes.

- Não preciso de ajuda, não dá sua.

Ele balança a cabeça negativamente e continua vendo minha mão, noto que a porta ainda está aberta. Minha chance.

Viro para o lado direito, caindo da cama junto com o Nathan, Leo toma um pequeno susto e se aproxima de nós. Levanto rápido e corro para a porta, mas algo segura o meu pé e eu caio de cara no chão, em cima das minhas mãos.

Escuto o estralo vindo delas e uma dor horrível, lagrimas brotam em meus olhos e dou um grito contido.

Leo me encara com os olhos arregalados.

Trinco os olhos segurando as lagrimas, mas é inevitável chorar. Dou um soluço forte e desabo. Colocando pra fora o medo, a dor, o pânico e a raiva que sinto no momento.

- Cassandra, o que foi?- Nathan está me encarando.

- Você quebrou minha mão. – falo com a voz chorona.

Ele encara o Leo de relance, o mesmo não faz nada, então Nathan se aproxima de mim e me pega no colo.

- Me solta. – rosno.

- Não. – ele diz paciente- Vou chamar um médico.

- Se minhas mãos não doessem tanto, eu ia bater muito em você.

Ele ri.

- Ok senhora durona.

Ele junta as minhas pernas com força, me impedindo de chuta-lo e segura o meu ombro com delicadeza, como se eu fosse um bebê.

- Eu odeio você. – murmuro.

- Não é novidade. – ele sorri petulante e desce as escadas.

As meninas estão na sala e nos encaram com espanto, Nathan não dá atenção pra elas e me deita no sofá. O sofá é macio e espaçoso, é de cor branca.

Fungo e coloco minha mão em cima da barriga, Nathan se afasta, falando no celular.

- O que houve?- uma das meninas pergunta curiosa.

- Não é da sua conta. – Leo responde ríspido- Ela é assunto somente do Nathan.

- Ai quanto amor. – umas delas sussurra.

Observo as grandes janelas da sala e vejo árvores do lado de fora, acho que estou no campo.

- Cassandra você está bem?- é uma voz familiar.

Ergo o olhar para o encosto do sofá e vejo o Lucas.

- Sim. – minto.

- O que houve com a mão?- ele aponta com o queixo.

- Acho que quebrei. – dou um sorriso amarelo.

- Ela tentou fugir e o Nathan segurou o pé dela, ai ela caiu em cima da mão. – Leo explica melhor.

Reviro os olhos e volto a encarar a janela.