Termino de beber água e volto para a sala, retomando o assunto com o Igor. Até que a campainha toca...

Abro a porta e a Vic voa em cima de mim, me abraçando e começando a chorar.

- Calma. – abraço-a forte- Vai ficar tudo bem.

- Não, minha mãe me falou coisas que nunca imaginaria que saíram de boca dela. – ela diz entre o choro.

Encaro a porta e vejo o Alek, ele não parece nada bem.

- Entra. – murmuro.

Ele passa por mim em silêncio, com certeza não é aquele Alek que eu conheci um dia.

- O que eu faço?- Vic se afasta de mim.

Respiro fundo.

- Ele vai assumir?- murmuro.

- Vou. – Alek responde.

- Então tenha o bebê. – tento ser o mais direta possível.

Vic enxuga as lagrimas.

- Você poderia ser mais sensível, garanto se você tivesse gravida do Nathan não iria gostar. – ela diz meio sentimental.

Concordo.

Ela me encara mais observadora.

- Você pintou o cabelo?

- Faz tempo. – rio.

- E fez tatuagem?- ela diz perplexa.

- Sim... – murmuro- Algum problema?

- Nathan exerce forças sobre você. – ela sorri e caminha até a sala.

Por mais incrível que parece, ela vai direto para o Alek, abraçando-o e ficando em silêncio.

- Bom, eu já vou indo. – Igor levanta.

Aproveito e não fecho a porta.

- Tchau, a gente conversa outro dia. – murmuro.

Abraçamo-nos rápido e ele sai, assim que viro, sou vitima do olhar mortal do Nathan. Estufo o peito e caminho até o casal.

- O que decidiram?

Alek respira fundo.

- Vou assumir o bebê e vamos tentar ver se rola algo mais além do namoro.

Massageio minhas têmporas, tenho a leve impressão que a Vic pode correr o risco de ser mãe solteira.

- Que merda hein... – murmuro.

Vic concorda comigo, porém continua em silêncio.

O silêncio domina o local, todo mundo encara uns aos outros e tenho medo de encarar o Nathan.

- Você vai à festa?- Alek encara Nathan.

- Sim. – ele diz frio- E você?

- Vou ficar com a Vic.

- Se quiser, pode ficar aqui no meu apartamento. – opino.

- Obrigada. – Vic murmura.

- O quarto de hospedes está aberto. – falo gentil.

Vic solta de Alek e caminha até o corredor, mas antes para de frente comigo e afaga o meu rosto. E logo Alek a segue para o quarto.

Ela não está bem, não está sorrindo, não está falando, quer ficar longe de todos, está pálida e deprimida. A Vic não é e nunca mais será a mesma...

- Por que está assim?- Nathan me tira dos devaneios.

- Não vê como eles estão?- aponto para o corredor.

Ele dá de ombros.

- Estão assim porque quiserem, pois hoje não tem mais desculpa para gravidez...

- Erros acontecem. – rebato.

Ele abre a boca para argumentar, porém a fecha logo em seguida.

Um celular toca e percebo que é o do Nathan, encaro-o.

- Sim. – ele diz sério- Quando? ... Hoje?!... Claro, vão na frente e mande o endereço por mensagem.

Ele desliga o telefone e me encara.

- Achamos o Muller. – ele diz antes mesmo da pergunta se formular em minha mente.

- Onde?

- Em um armazém afastado da cidade.

- O que ele está fazendo lá?- franzo o cenho.

- Recebendo carga roubada, armas. – ele caminha pelo corredor.

- Vocês vão lá?- ando atrás dele.

- Sim. – ele continua andando e para em frente à porta do quarto de hospedes- Alek precisamos ir. – ele diz perto da porta.

- O Alek não pode ir.

Nathan me encara.

- Esse é o trabalho dele, ele tem que ir. – Nathan diz sério.

- Não, o trabalho dele agora é ajudar a Vic. – retruco.

Nathan respira fundo.

- Fique quieta.

Bufo.

A porta abre e Alek nos encara.

- Eu não posso ir Nathan. – murmura ele.

- Como não?- Nathan diz nervoso.

- A Vic é um assunto mais importante agora. – ele dá de ombros.

Nathan passa a mão no cabelo e resmunga algo.

- Eu vou no lugar do Alek.

- Claro que não. – Nathan me encara- Quer levar um tiro?

- Eu já levei mesmo. – levanto minha blusa e mostro a cicatriz do tiro- E eu sei usar uma arma agora.

Ele respira fundo e parece vencido.

- Tudo bem, vamos logo. – ele passa por mim.

- Tchau Alek. – sorrio e começo a seguir o Nathan.

Estamos no carro e Nathan não parou de falar no telefone, agora diz respeito da Mariana. Seguimos para uma estrada sentido interior de São Paulo e parece que estamos perto do armazém.

- Que merda. – Nathan resmunga.

- Qual o problema agora?- encaro-o.

- A Mariana está com eles.

- Pelo menos vão ter um momento juntos. – sorrio.

Ele revira os olhos.

- Eu não quero nenhum laço com ela. – ele diz ríspido- Ela poderia voltar da onde veio.

- Isso pareceu um trava língua. – contraio os lábios.

Ele ri.

De repente, ele faz uma curva e entra em uma estrada de terra. Agora só vejo mato, árvores e casas bem pequenas e humildes.

- Estamos chegando?- murmuro.

- Sim. – ele diz baixo.

O armazém já vai aparecendo, mas ainda falta um pouco para chegar lá. Nathan para o carro e desce, faço o mesmo.

- O que foi?- o sigo até o porta-malas.

Ele abre o compartimento e retira de lá um colete e algumas armas.

- Se a policia te para na rua você vai preso, sabia?- encaro o porta-malas cheio de armas.

- Eu sempre saio depois. – ele sorri- Tome. – me entrega o colete.

- Não preciso disso. – resmungo.

- Precisa sim.

Reviro os olhos e coloco o colete, me sinto gorda naquilo. Ele me entrega a arma e voltamos para dentro do carro.

NATHAN está falando com o Leo e com o Lucas. Estou encostada no carro sendo encarada pela Naomi e encarando a Mariana.

- O Nathan não gosta muito de mim, né?- ela diz baixo.

- Vocês têm pouca convivência juntos, deviam parar para conversar. – sorrio torto.

- Espero que isso aconteça mesmo.

- Ele é meio difícil de lidar, mas com o tempo você acostuma. – me sinto muito importante falando isso, até parece que o conheço há anos.

Lucas faz um sinal e nos aproximamos deles.

- Prestem bem atenção. – Leo nos encara- Lá dentro não vai ser admitido nenhum erro, pois qualquer um poder ser um erro fatal.

Estremeço.

- Atire apenas quando for necessário. – ele me encara.

- O quê?- encaro-o.

- Nada. – ele sorri.

Nathan carrega as armas e nos entrega, antes de entrarmos no armazém, retiro o colete e os sigo em ultimo.

O lugar é tipo um estacionamento de shopping vazio e abandonado. Têm alguns carros pretos ali, que deduzo ser do Muller e um caminhão descarregando caixotes, as armas.

Nos aproximamos até um segurança notar nossa presença e suspender tudo.

- O que faz aqui Frost?- o homem encara o Nathan mortalmente.

- Assuntos com o Muller. – Nathan não demonstra receio nenhum do homem.

Segundo depois, um homem de certa idade, cabelos grisalhos e olhos mel escuro sai de um dos carros, usa um terno preto e está sorrindo triunfante.

- Sabia que iria aparecer. – ele encara Nathan.

- Muller. – Nathan diz em desprezo.

- Você parece com o seu pai, sabia disso?

- Não me compare á ele. – Nathan diz sério.

- Estou certo que você é muito melhor que ele, pois possui sangue frio nas veias. – Muller sorri torto e Nathan fica tenso- Afinal, que cria mataria a própria criatura que lhe deu a vida?

Do que eles estão falando?

- Não a coloque no meio disso, eu não sou o culpado. – Nathan diz exaltado.

- Como quiser. – Muller me encara- Nova mafiosa?

Engulo seco e me escondo atrás do Nathan.

Ele dá de ombros e continua encarando Muller, Leo fica um pouco mais afastado de nós, Naomi fica ao meu lado, não vejo os outros.

- O que fiz de errado para ter a sua ilustre presença hoje?- Muller diz arrogante.

- O incêndio. – Nathan diz frio- Vim apenas acertar as contas.

Saio de trás do Nathan, encarando Muller mais de frente.

Alguns seguranças se aproximam, mostrando as armas que tem em mãos. Meu coração está acelerado e minha respiração ruidosa, mal consigo pensar em um jeito de fugir se algo der errado.

Escuto uma arma ser destravada e carregada, olho para os lados, até escutar um disparo, veio de longe. Olho para trás de vejo Mariana, ela que atirou.

Volto a olhar para Muller e vejo um dos seguranças no chão, Naomi me puxa para o lado, me tirando da linha de fogo.

- O que vamos fazer?- ofego.

- O primeiro disparo foi dado, agora atire em todos. – ela sorri.

Em segundos retira suas facas e começa o seu jeito único de matar. Minhas mãos não estão mais tremulas e eu não soam tão frio, mas ainda tenho receio de atirar.

Fico de joelhos para ter uma visão melhor do que está acontecendo, ninguém me notou ainda. Aproveito e começo a atirar nos homens que estão em maior ameaça.

Levanto um pouco e mudo de lugar, tendo melhor visão de onde estão todos e podendo dar cobertura a eles.

Nathan tem um jeito rápido de atirar, não precisa atirar varias vezes contra as pessoas, em um único e certeiro tiro, ele consegue derrubar o adversário, consigo notar também a atenção que seus olhos dão a qualquer movimento novo, como se fossem radares e seu reflexo no gatilho o torna um ótimo atirador.

- Esperta você hein. – uma voz me desperta, assim que olho tem um cara apontando uma arma pra mim, congelo.

Puta merda...

Ele destrava a arma, aproveito a deixa e atiro e pela primeira vez, consigo dar um tiro certo.

Vejo o homem caído no chão, a arma em mim mão e o barulho dos tiros me cercando. Nunca tinha reparado nisso ou não me importava mesmo, mas estou virando um monstro.

Levanto e começo a correr para fora do armazém, ignorando os tiros, os homens de preto correndo de um lado para o outro. Apenas corro para longe dali.

Olho por cima dos ombros e vejo alguns me seguirem, aponto minha arma e começo atirar, sem ao menos mirar neles. Meu coração está batendo tão forte que consigo sentir suas batidas na cabeça. Onde eu estava com a cabeça de querer vir para cá?

Sinto algo quente passar em minha perna, olho de relance para o local e vejo sangue e uma dor aguda se apossar de minha perna.

- Merda. – resmungo.

Viro e começo atirar nos homens, até que um cai com uma faca atravessada no crânio, olho em volta e vejo Naomi. Consigo atirar nos outros dois e por sorte não levo mais um tiro.

- Está bem?- Naomi se aproxima de mim.

Aponto para minha perna.

- Cassandra!- alguém grita o meu nome, levanto a cabeça e vejo mais uns quatro homens se aproximarem.

Naomi pega a faca que atirou e mais algumas de uma malinha em sua cintura e começa atirar perfeita nos homens. Ajudo atirando em alguns que se aproximam rápido, até que a munição de minha arma acaba.

- Corra. – Naomi diz rápido- Cada uma para um lado.

Concordo e começo a correr para a direita e ela para a esquerda. Minha perna não permitiu que eu corresse muito rápido e isso não ajuda muito. Viro em um corredor com uma pequena escada, sem hesitar começo a subir os degraus até chegar a um local que tem vista para o armazém inteiro.

Alguns homens ainda atiram em minha direção, continuo correndo para outra escada. Até sentir uma pancada forte em minha nuca e tudo ficar branca, perco o meus sentidos e meu corpo fica pesado.