Chegamos ao barzinho levemente cheio. As pessoas falam alto, riem e encontram seus amigos. Sentamos em uma mesa próxima do bar e Vic não perde tempo em pedir uma bebida, porém eu tomo uma limonada suíça, não tenho muita experiência com comida.

- Então Igor, já se formou?- Vic o encara.

- Estou quase. – ele mexe na bebida do copo.

- Em que?- lá vem o estilo analisador de Vic.

- Advocacia e vocês?- ele me encara.

- Acabamos de entrar em medicina. – tomo um pouco de limonada.

Azedo e doce na mesma bebida é a melhor coisa do mundo. É algo viciante...

Vic pediu uma porção de batata frita e a conversa começou a fluir entre nós, embora eu nunca saiba do que eles falavam, minha mente estava vaga, flutuando por ai, talvez procurando pelo garoto de olhos azuis.

- Cassandra. – Vic me chama alterada.

- O que?- disfarço e encaro-a.

- Eu tenho que ir. – Igor levanta.

- Ah claro. – levanto.

Abraçamo-nos novamente e ele se despediu da Vic e foi embora. Sento de frente com ela.

- A fila andou?- ela sorri lasciva.

- Quê?- indago.

- Primeiro era o Nathan e agora o Igor?

- Claro que não!- quase tenho um ataque- Eu não gosto de nenhum dos dois.

- Hum... sei. – ela sorri e toma um gole de sua bebida.

- E o Alek, como está à relação?

Ela engasga.

- Na mesma, saímos às vezes e rola algumas coisas. – ela diz corada.

- Ah. –rio.

Encaro a porta do bar, uma mulher chama a minha atenção. Ela é negra, alta, magra e forte, cabelos abaixo do ombro e olhos analisadores e é bem bonita, porém não vou com a cara dela, tem algo dela que me assusta.

Continuo com a conversa com a Vic, mas não tiro os olhos daquela mulher, até ela aperta algo na cintura e tem uma silhueta bem familiar.

- Peça a conta. – falo rápido.

- Quê?- Vic indaga.

- Peça a conta!- falo um pouco mais séria.

Ela arregala os olhos e chama o garçom, demora uns minutos até ele voltar com a conta, à mulher percebeu e se aproxima devagar da nossa mesa. Assim que a Vic paga, arrasto-a para o fundo do bar, até a porta da cozinha.

- Onde você está indo sua louca?- Vic puxa o braço.

Aperto seu punho e entro na cozinha.

- Vocês não deviam estar aqui!- um homem grita.

Por cima dos ombros, consigo ver a mulher entrar atrás de gente. Começo a correr e arrasto o peso atrás de mim chamando Victória.

- Eu estou de salto. – ela resmunga.

- Corre logo. – digo sem paciência.

Desviamos de panelas ferventes e pratos em bandejas e de garçons desorientados.

- Cassandra está ficando louca?!- Vic grita assustada.

Saio pela porta do fundo e saio em um beco, consigo ver a saída que dá na rua movimentada, volto a correr arrastando a Vic, que não faz nenhum esforço em me ajudar.

A mulher sai logo em seguida gente, e consigo vê-la por cima do ombro, ela está armada. Meu coração vem na garganta e minha respiração fica ruidosa, o pior é que a Vic está comigo. Vai dar merda...

Viramos em uma esquina beco, e alguém me puxa para um canto, não tenho equilíbrio e caio, levando a Vic comigo. A mulher se aproxima e em segundos está no chão, sangue respinga em meu rosto e meu coração para.

- Vocês estão bem?- é uma voz familiar.

Vic suprimi um grito e aperta a minha com força.

Olho na mesma direção que ela e vejo Alek e a Naomi, respiro aliviada.

- Sim. – agradeço em vê-los- Pra quem ela trabalha?

Alek dá de ombros.

- Não é agente do pai do Nathan. – Naomi afirma confiante.

- Então ela é da onde?- franzo o cenho em pânico.

- Vou falar com o Nathan. – murmura o Alek.

Respiro fundo.

- Vocês podem falar o que está acontecendo?- Vic grita.

Naomi estreita os olhos e a encara.

**

Estamos no meu apartamento encarando o surto da Vic em saber a verdade sobre o Alek e sobre o meu sequestro.

- Você foi sequestrada por ele e não me contou?- ela diz passando a mão no cabelo e andando em círculos.

Abro a boca para responder e ela me fuzila com o olhar, fecho-a de novo e fico em silêncio.

- E você?- ela encara o Alek- Por que não me falou?

- Para não causar isso. – ele aponta para ela em seu estado de nervos a flor da pelo.

Ela bufa e cruza os braços. Estou com o estomago embrulhado, só em pensar no que ela pode fazer.

- Minha vontade é ir a policia e denunciar vocês. – ela pragueja.

- Não!- nós três falamos ao mesmo tempo.

Ela para e respira fundo.

Vou na cozinha, preparo um chá e pego um calmante. Volto para a sala e dou a ela.

- Não vou beber nada, não estou nervosa. – ela diz ríspida.

- Vamos pra outro lugar conversar melhor. – Alek levanta e a leva para o quarto.

- Boa sorte. – gesticulo com os lábios sem emitir som.

Ele sorri e continua caminhando.

Sento na poltrona e encaro a Naomi, sinto uma vontade imensa de perguntar sobre ele, sobre o meu garoto de olhos azuis.

- O Nathan está sentindo a sua falta. – murmura ela.

Congelo.

- Como você sabe?- tento não parecer muito interessada.

- Está estampado na cara dele, nem imagina como ele chegou em casa aquele dia que você foi embora. – ela diz reflexiva.

Me sinto bem em saber que ele sente a minha falta.

- Nunca vi o Nathan daquele jeito. – ela me encara- Acho melhor vocês conversarem.

Sinto um calafrio e de repente vem um estalo em minha mente.

- Minha vó!- levanto em um salto do sofá.

- Vó?- Naomi franze o cenho.

- Eu tinha que vê-la hoje. – corro para o meu quarto.

Tomo um banho rápido, coloco uma roupa apresentável e volto pra sala.

- Você pode ficar aqui e cuidar da Vic?- encaro a Naomi.

Ela acena positivamente com a cabeça. Pego a chave do meu carro novo e vou direto para a garagem. Minha vó me deu o melhor presente que já pude ter, um Optima da KIA.

Arranco para fora do estacionamento e anda acima da velocidade permitida até chegar em um café bem charmoso. Logo que saio do carro, vejo minha vó.

Ela é bem mais baixa que eu, usa cabelo em estilo chanel loiro, seus vestidos antigos e chiques.

- Oi vó. – sento na cadeira a sua frente.

Ela sorri.

- Pensei que não viria. – ela aperta a minha mão.

- Eu nunca iria deixar você. – sorrio gentil.

Ela termina de tomar seu café.

- Quer comer algo?- ela oferece seu o cardápio.

- Eu já almocei. – agradeço.

Ela sorri e termina de comer.

- Sabe, sei que pode não ser agradável, mas gostaria de ver a sua mãe. – ela diz baixo.

Sinto uma vontade de chorar repentina.

- Claro. – murmuro.

Ela deixa o dinheiro na mesa e avisa o garçom. Ajudo-a levantar e caminhamos até uma floricultura lá perto. Minha vó compra um boque de rosas brancas, pelo o que me lembro, eram as preferidas de minha mãe.

Voltamos para o Optima e eu sigo o caminho que a minha dita bem devagar, contando os mínimos detalhes.

Me lembro muito bem da ultima vez que estive aqui, eu tinha oito anos. Não entendi porque eu não podia ver meus pais, porque eles estavam naquela caixa de madeira. Mas a realidade bateu na porta e eu nunca mais quis voltar lá.

Paro no estacionamento do cemitério e desço, minha vó na frente e eu sigo vagarosamente atrás dela. Segurando-me para não chorar ou sair correndo dali.

Os túmulos vão ficando cada vez maiores e mais decorados, mausoléus de mármores gigantes. Sinto calafrios e gostaria de não estar aqui. Subimos uma pequena colina e paramos em frente a um mausoléu duplo, onde indicavam os nomes de minha mãe e de meu pai.

O choro fica preso em minha garganta e sinto minhas pernas moles, o tumulo está cheio de folhas e sujo. Meus olhos ficam mareados e meu coração dispara, faz dez anos.

Dez longos anos que eu não vejo os meus pais, que eu não venho aqui, que eu tento fazê-los participar da minha vida como se fossem vivos.

Minha vó coloca o buque em um lugar reservada para isso, junto com uma carta e depois começa a murmurar coisas. Me afasto lentamente, não gosto de vê-los ali e lembrar de como eram antes da morte, é de sofrer até a morte.

Caminho observando os túmulos que não parecem acabar mais, que parecem brotar do chão. Abraço o meu próprio corpo. Algo me chama a atenção, uma pessoa deitada em um tumulo, observando o nada. Será um mendigo?

Aproximo-me com cautela, como quem não quer nada e posso observar melhor. É apenas um garoto, deve sofrer do mesmo mal que eu.

- Não tem medo de cair?- murmuro.

- Se eu cair fará o um bem para a humanidade. – ele diz baixo.

- Não diga isso. – balbucio.

Ele suspira.

- Sabe, fazem sete anos que a minha mãe morreu e eu perdi totalmente o rumo da minha vida. – murmura ele.

- Fazem 10 anos que a minha morreu... – murmuro baixo- E eu tento de toda a forma não fazer isso participar da minha vida.

Ele concorda.

- Mas é meio complicado, a mãe é algo que se tem que zelar. – murmura ele- E nem isso eu soube fazer.

- Dizem que a gente só dá valor quando se perde, pois ai a gente sente falta. – me aproximo.

Ele concorda e vira para me encarar, quando entro em choque.

Os olhos azuis... Ataque cardíaco.

- Nathan. – sussurro sem ar.

Ele levanta rápido do tumulo.

- Cassandra. – ele diz em espanto- Eu não sabia...

- Relaxa. – solto o ar.

Seus olhos estão mareados. Olho para o tumulo e vejo o nome escrito em bronze “Nathalia Frost”.

- Frost é da sua mãe ou do seu pai?- tento mudar de assunto.

Ele sorri e passa a mão nos olhos.

- É da minha mãe.

Me aproximo devagar dele e o abraço.

- Desculpa, eu acho que exagerei. – murmuro.

- Quem pede desculpa sou eu, nunca deveria ter falado aquilo. – ele beija o topo da minha cabeça.