Nada adianta ficar com remorso agora, já aconteceu mesmo.

Sento no pequeno sofá que tem ao lado da cama, apoio meus braços em meus joelhos e fico observando-a em silêncio, coisa que eu devia ter feito há muito tempo, em vez de ficar batendo de frente e dando sempre razão a mim.

- Nathan. – Naomi abre a porta- Venha.

Ergo uma sobrancelha.

- Anda. – ela diz ríspida.

Levanto devagar e caminho até a porta, com os olhos fixos em qualquer movimento da Naomi em minha frente. Ela saí de perto da porta e segue até o final do corredor, fecho a porta e caminho em direção a ele, com certa distancia.

Naomi para enfrente ao elevador e paro logo ao lado dela. Encaramos mais uma vez a porta do elevador em silêncio.

Tenho vontade de sair correndo daqui e me exilar em qualquer lugar do mundo, deixando a dor me corroer, no entanto existe outra parte de mim me mandando ficar e enfrentar tudo isso de frente, pois, mesmo ela estando em coma, ainda precisa de mim e eu dela.

O elevador chega, entramos juntos. Ela aperta o botão para o quinto andar e continua em seu silêncio mortal e sinistro, que me causa calafrios, assim como a Cassandra quando discutia comigo e depois me ignorava.

- Venha. – Naomi sai do elevador às pressas.

Tenho que apressar o passo para conseguir segui-la e então ela para enfrente a uma janela de vidro.

Me aproximo devagar e paro ao lado dela, olho através do vidro e vejo varias incubadoras com bebês pequeno ou grandes, magros ou gordos. Mas por que estou aqui?

- Na terceira fileira vertical, a terceira incubadora. – Naomi comenta.

Sigo com os olhos o que ela falo e me deparo com um bebê médio e em peso considerável, está com um tubo no nariz e uma tala na mão esquerda ligada ao soro e outros coisas, porém ele é diferente dos outros, não se mexe, fica parada com a cabeça virada para o lado.

- O que tem ele?- encaro Naomi.

- Ela. – ela me corrige- Essa bebê é a sua filha, Nathan.

Engulo seco.

Minhas pernas ficam bambas e me apoio no vidro. Aquela coisa pequena e frágil é minha filha? Ela parece tão mal, está em um estado deplorável e ainda não entendo como uma coisa minúscula assim causou tanto estrago assim.

- Ela está bem?- murmuro.

- Nasceu prematura, é normal isso acontecer em gravidez de hipertensão arterial, então ela ficará ai durante uns meses para se desenvolver como um bebê normal. – Naomi diz olhando para os bebês.

- Por que ela não se mexe?- balbucio.

Ela dá de ombros.

Espero que ela não tenha nada.

Desencosto do vidro e volta caminhar em direção do elevador quando a Naomi me para.

- Sim?- encaro-a por cima dos ombros.

- Aonde vai?- ela franze o cenho.

- Vou voltar com a Cassandra, não tenho nada pra fazer aqui. – me solto.

- Como assim? E a sua filha?

- Minha ajuda aqui não serve para nada e eu não vou ficar vigiando um ser prematuro. – falo ríspido.

- Sua sorte é que a Cassandra está em coma. – ela balança a cabeça negativamente.

Dou de ombros.

Volto para o quarto em que a Cassandra está e sento no sofá novamente. O único barulho ali são os dos equipamentos até que meu celular começa a tocar.

- Sim?- sussurro.

- Você já chegou?- é a voz do Leo.

Justo com quem eu queria falar.

- Sim, já faz um tempo. – encaro o chão.

- Como ela está?- ele parece muito preocupado.

- Mal. – respiro fundo.

Ele fica em silêncio.

- Preciso de um favor. – vou direto ao assunto.

- Fala.

- Quero que abra uma conta aleatória em qualquer banco e transfira as despesas do hospital para lá e assim que ela sair daqui, delete essa conta e não deixe nenhum vestígio. – falo firme.

- Tudo bem, te ligo quando tudo estiver pronto. – ele diz com a maior responsabilidade.

- Ok. – desligo.

A imagem da bebê ainda está na minha mente, o jeito como ela está incuba e abandonada ali como se fosse “mais uma”.

O medo toma conta de mim de novo, eu não posso perder as duas ou uma, tenho que ter as duas. Eu já perdi uma vez e não posso perder de novo.

Mas essa bebê trouxe tanta briga e desgraça para a minha vida e de todos que fica meio difícil de gostar dela como um dia eu gostei do outro, no entanto eu sou o pai dela e terei que honrar isso, mesmo contragosto.

Passo a mão no cabelo e deixo-as na nuca, abaixando a cabeça.

Por que minha vida não é normal como a de todos? Ah, meu pai é o Ícaro e eu sou da máfia.

Escuto batidas na porta, a doutora abre e me encara.

- Podemos conversar?- ela sussurra.

Levanto e vou à direção dela.

- Sobre?- saio do quarto e fecho a porta.

- A sua filha.

Lá vem bomba...

- Bom, a menina é prematura e com qualquer bebê prematura permanecerá na U.T.I até uma melhora relativa. – ela começa a caminhar.

- Por que ela não se mexe?- encaro-a.

Ela ri.

- Bebês prematuras só dormem, ela irá começar a se mexer apenas depois de algumas meses. – ela sorri.

- Por que os outros se mexem?- franzo o cenho.

- Porque eles nasceram normal e tiveram algum problema grave que os levou para lá, como; má formação de um órgão, falta de glicemia ou qualquer outro.

Aquiesço e volta a encarar o corredor.

- Ela pode ter problema no futuro?- balbucio.

- Na lógica, ela terá sim, torcemos para que não sejam graves.

Contraio os lábios.

- E a Cassandra? Ela pode acordar cedo?- encaro-a.

Ela fica com a feição triste.

- O caso dela é mais grave, darei no mínimo uns meses até ela acordar.

Se isso acontecer.

- Tenho que atender uma paciente. – ela coloca a mão em meu ombro e saí andando.

Massageio minha testa. Como vou fazer agora?

Não posso garantir segurança para as duas aqui, o Muller com certeza vai vir atrás dela e não confio em hospitais depois do episodio da Vic. Tenho tantos problemas sem solução alguma...

Meu celular toca de novo...

- Sim?- atendo meio melancólico.

- Nathan, é o Lucas. – ele parece exaltado.

- Problema?- arqueio uma sobrancelha.

- Sim, o Muller invadiu a casa da praia e as entregas para a Colombia ainda estão lá.

Ah, puta que pariu.

- Já mandaram alguém pra lá?

- Sim, o Leo e o Adam. – ele respira no final da fala.

- Então venha pra cá você e eu vou pra lá. – falo firme.

- Não, eu posso ir. – ele teima.

- O Muller é assunto meu, Lucas. – falo sério e desligo o telefone.

Vou até o elevador e volto para o térreo. Já está na hora de acabar de uma vez com a geração Muller na minha vida...