Fico encarando o telefone como se com o meu olhar ele tocaria novamente, mas o pior é que toca.

- É melhor responder agora. – praguejo.

- Cassie?

Franzo o cenho.

- Quem é?

- É o Igor. – escuto ele rir- Está tudo bem?

- Sim, acho que estavam me passando trote. – resmungo.

- O seu bebê é menino ou menina?- ele muda de assunto.

- Menina, por quê?

- Nada. Valeu. – ele desliga, na minha cara.

Reviro os olhos e volto para o sofá, onde acabo cochilando.

**

Acordo com um cheiro ótimo de comida, meu estomago ronca e eu vou levantando aos poucos. Esfrego os meus olhos e encaro a porta da cozinha.

Em passos vagarosos chego ao cômodo que exala um cheiro ótimo, vejo o Igor em frente ao fogão e uma linda bagunça o cerca.

- Que lindo. – falo irônica.

- Não... Desculpa. – ele sorri de canto.

- Pelo o quê?- ergo uma sobrancelha.

- Por te fazer acordar e pela bagunça. – ele encara o fogão.

- Não foi nada. – aproximo-me dele- O que está fazendo?

- Uma receita que a minha mãe me ensinou. – ele mexe a panela com carne dentro.

- Carne de panela?- encaro-o.

Ele ri.

- Talvez.

- Posso ajudar?- pego uma colher.

- Não. – ele a retira da minha mão.

Batuco os dedos no mármore da pia enquanto eu o observo cozinhar.

NUNCA MAIS irei subestimar o Igor, ele sabe cozinhar perfeitamente, melhor que eu.

- O que foi?- ele me encara terno.

- Hein?- tento disfarçar algo.

- Está quieta e fechada nos últimos dias, quase nem fala.

Olho para outro lado.

- Às vezes parece que eu estou aqui, pareço estar viajando entre o presente e o passado. – murmuro.

- Saudade. – deduz ele- De quem sente saudade?

Abro a boca para falar, mas algo dentro de mim impede.

- Ninguém, acho que os acontecimentos passados me marcaram muito. – encaro-o.

- Também. – ele concorda.

- Vou dormir. – levanto da cadeira.

Igor segue meus movimentos com os olhos, sem dizer uma palavra sequer.

- Boa noite. – inclino um pouco o corpo pra frente e beijo a bochecha dele- O quarto de hospedes está arrumado.

Ele aquiesce.

Caminho até o quarto, sendo seguida pelo Percy. Tomo uma ducha rápida e coloco um pijama de calor.

Me deparo em frente ao espelho, escarando minha barriga. Ergo a camisa e deixo minha barriga desnuda, sinto um chute. Rio.

- Você não é muito de chutar, né?- passo a mão em minha barriga e sinto outro chute.

É algo tão estranho, demonstrando que eu não só apenas uma, que eu estou gerando uma vida e um amor incondicional, creio que seja capaz de ultrapassar os limites da física.

- Como você quer ser chamada?- encaro minha barriga pelo espelho- Eu ainda não tenho nenhum nome em mente.

Ela certamente irá precisar de um nome.

Escuto o carro de o Igor ligar, creio que ele não pode dormir aqui hoje. Arrumo minha blusa e vou para a cama.

Já está meio difícil achar uma posição confortável, sem que eu me sufoque. Encaro a janela ao meu lado e consigo escutar o barulho dos grilos, parece ser até calmamente.

Até que escuto uma batida forte na porta, paro por um momento, o barulho se repete mais três vezes. Levanto da cama e por onde passo acendo uma luz como criança com medo do escuro. Paro em frente a porta da sala e encara-a, o barulho se repete, pode ser o Enzo.

Abro a porta devagar e vou vendo uma silhueta de um garoto, até a abrir totalmente e me deparo com o Lucas. Meu coração só falta pular pra fora.

- Lucas!- exclamo sem reação.

- Que bom que você está viva. – ele respira aliviado.

- Quê?- indago.

Ele entra e fecha a porta, trancando-a.

- Estava tudo mundo achando que você ia morrer. – ele diz me encarando.

- Por quê?- arqueio uma sobrancelha- Estou muito bem.

- O Nathan te mandou embora porque o Muller estava mais perto do que o esperado, nem o Ícaro estava conseguindo segura-lo, por isso o Nathan deixou você ligar para a policia. – ele começa a andar em circulo.

Então o telefonema foi como jogar sangue no mar para chamar um tubarão.

- Como foi provado que você estava na casa de Angra, Muller iria atrás de você, mas com a policia lá ele não poderia se aproximar e então Nathan pode fugir como se você estivesse junto, mas na verdade você foi embora. – ele parece raciocinar sozinho.

O Nathan me deixou ligar para a minha vó e chamar a policia para me tirar da reta do Muller, ele fugiu para forjar uma fuga comigo e o Muller provavelmente foi atrás. Tudo faz sentido agora.

- Onde o Nathan está?- encaro-o.

- Ele está fazendo uma transferência na máfia, não sei para onde vai. – Lucas dá de ombros.

Então ele não volta...

Ele vai fazer uma transferência na máfia, ou seja, vai mudar para bem longe.

- Você faz o que aqui?

- Queria ver com os meus próprios olhos a verdade. – ele diz me encara analítico.

- Como assim?- franzo o cenho.

- Ter a certeza que você e o Nathan não estão mais juntos. – murmura ele.

Sinto uma pressão em meu peito.

- Aquilo não passou de uma síndrome, Lucas. – murmuro.

Ele parece incrédulo.

- Síndrome?-indaga ele- Dá pra ver nos seus olhos que você ama o Nathan.

Balanço a cabeça negativamente.

- Não, isso tudo foi uma mentira. – afirmo.

Lucas passa a mão no cabelo.

- Foi ele que te mandou aqui?- pergunto obvia.

- Não, vim porque quis. – ele diz sem importância.

- Já viu que estou bem. – rebato- O que mais quer?

- Que você acorde. – ele diz ríspido- Desde quando você escuta alguém? Se fosse assim, garanto que o Nathan nunca ia se interessar por você, o motivo de vocês se gostaram é que vocês se entendem sem precisar de um dominante na relação.

Continuo encarando em silêncio.

Ele quer dizer que eu o Nathan só demos certo porque não obedecíamos ou ao outro?

- O problema de vocês é esse orgulho estupido, o orgulho de não saber qual é a hora certa de se redimir- continua ele- Pelo amor de deus, só vocês não enxergam que se machucam para não se machucar?

O que ele fala faz sentido, sempre nos machucamos com o intuito de prevenir isso.

- É complicado. – murmuro.

- Não, não é. – ele diz sério e encara a minha barriga- Tá aí a prova mais concreta.

- Eu preciso colocar minha vida em ordem Lucas, o Nathan não é o centro das atenções.

- Não estou dizendo isso. – ele diz convicto- Estou falando que vocês tomam decisões erradas por bobeiras.

- Minha vida não é bobeira. – resmungo.

- Mas ficar sozinha aqui é, você está na mira do Muller faz séculos. – ele retruca.

Isso é verdade, e quem em garantia proteção era o Nathan, sem se importar com nossas brigas, ele sempre estava lá para a minha proteção.

Agora que estou sozinha aqui realmente corro mais risco do que com o Nathan, mas mesmo assim, eu preciso cuidar de mim.

- Você pode cuidar da sua vida, mas não correndo risco de perde-la – ele diz terno.

Se você soubesse que com o Muller ou não, eu corro o mesmo risco de morrer, não estaria falando isso.

- Eu não posso fazer nada. – ele diz baixo- Mas você pode, só que não faz.

- Preciso de tempo para pensar.

Ele respira fundo.

- Não sei se eu já previa isso, mas me precavi. – ele sorri.

Franzo o cenho.

Ele destranca a porta de novo e a Naomi se encontra lá.

- Irá cuidar da sua vida, mas em segurança. – ele diz firme.

- A Naomi vai ficar aqui comigo?- ergo uma sobrancelha.

- Não, você vai morar comigo. – ela sorri sem mostrar os dentes.

Nossa, por essa eu não esperava, mesmo.