- Eu não quero ir. – falo convicta.

- Desculpa mocinha, mas hoje você não tem querer. – ela adentra na casa e caminha até o meu quarto.

Ei!

- Pode falar para o Nathan que eu não vou. – teimo.

- Não foi ele que mandou a gente aqui. – Lucas acompanha a Naomi.

Em menos de meia hora, minhas coisas já estavam no carro deles e eu tive que inventar uma boa desculpa para o Enzo entender o motivo da minha ida.

- Onde é sua casa?- encaro a Naomi.

- Em São Paulo.

Graças a deus um lugar que eu conheço.

A VIAGEM não é muito longa, talvez pelo fato que eu dormi o caminho inteiro. A casa da Naomi fica no City América, meu antigo bairro de infância.

Lucas para em frente a casa e começa a tirar as minhas coisas junto com a Naomi, a casa é branca, na frente possui um pequeno jardim e uma rampa para a garagem, a porta da frente é duas folhas. Adentro na casa, que é bem espaçosa e confortável e por incrível que parece, não tem nada que lembre que ela é japonesa, tirando os quadros.

- Qual o problema?- Naomi passa por mim.

- Eu pensei em algo mais japonês. – sorrio de canto.

Ela sorri e começa a levar as malas para o andar de cima, Percy se enrola em minhas pernas e mia. Abaixo com cuidado e pego-o no colo, continuando a observar a casa.

Até que um gato gigante aparece, ele deve ser do tamanho de um cachorro médio ou até maior, dá três vezes o Percy.

- Ah, essa é a Mai. – Naomi aparece na escada- Ela é dócil.

- Até engolir o Percy. – comento- Que raça é?

- Savannah. – ela continua descendo.

- Bom meninas, já vou indo. – Lucas aparece na sala.

Viro devagar e o encaro. Solto Percy no chão e me aproximo dele, querendo ou não, ele é meu amigo, ele se importou comigo e fui atrás de mim.

- Obrigada. – murmuro.

- Não tem que me agradecer, eu não fiz nada. – ele sorri de canto.

Aquiesço.

- Tchau.

- Tchau. – sopro as palavras pra fora.

Assim que ele saiu, volto a encarar a Naomi.

- Relaxa, só vai ficar aqui até o Muller ficar quieto, depois pode ir viver sua vida. – ela diz de prontidão.

- Tudo bem. – murmuro.

Ligamos a Tv e basicamente todos os noticiários estão mostrando a “revolução brasileira”.

- Demorou. – Naomi comenta.

Sorrio.

- Quer comer alguma coisa?- ela me encara.

- Não, já jantei. – sorrio.

Ela concorda e continua vendo Tv, enquanto eu observo a gata dela.

Será que minha convivência com uma assassina profissional será boa?

**

Dormi no quarto de hospedes, que realmente é meio luxuoso para tal, antes de dormir mandei um e-mail para o Igor avisando onde eu estaria hoje e para ele não se preocupar comigo.

Acabei de fazer uma descoberta incrível, a Naomi tem a mesma sala que o Nathan tem na casa da ilha, mas ela já fez um tempo de medicina.

- Está passando mal?- Naomi aparece no cômodo, me assustando.

- Não, aqui me lembra a sala da casa da ilha. – comento.

- Ah, eu que montei aquela sala, pode ser isso. – ela diz simplesmente.

- Por que tem uma aqui?

- Eu costumo me curar sozinha, sem ir para hospitais, apenas em casos muitos graves. – ela caminha pelo local.

- Já chegou ater ferimentos graves?- inclino a cabeça.

- Não. – ela diz baixo- Sou forte demais para me importar com simples ferimentos.

Será mesmo?

- Mesmo a morte da sua mãe?- cruzo os braços.

Ela respira fundo.

- A morte da minha mãe apenas me fortaleceu e não me enfraqueceu, o Nathan é uma prova viva disso, a perda de quem amamos nos fortalece mais e nos faz ver a vida de um modo único, onde se você é fraco será apenas presa e não o predador.

— Eu não vi assim com a morte dos meus pais. – murmuro.

- Então você é fraca. – ela me encara.

- Não sou fraca. – falo ríspida.

- Então por que é tão indecisa?- ela diz certa de algo.

- Olha aqui- paro de falar antes que saia merda.

- Viu. – ela diz triunfante- É fraca.

- Não sou fraca. – falo nervosa.

- Por que briga com o Nathan?

- Porque... – pensa Cassandra.

Ela me encara e encaro o chão em busca de uma resposta.

- Por que ele nunca vê o meu lado da coisa, sempre é o lado dele. – praguejo.

Naomi balança a cabeça negativamente.

- Já vi o Nathan com muitas mulheres antes de você e posso garantir que você foi a que teve mais respeito dentre todas.

Falando nisso...

- Onde estão as prostitutas dele?

- Ele as mandou embora, estava com o corpo todo queimado e feio, não seriam mais útil. – ela diz fria.

Nossa, então quando elas perderam utilidade foram despachadas para bem longe dele.

- Mas elas saíram primeiro que eu do incêndio. – encaro a Naomi.

- Por que o incêndio começou pelo térreo, e é lá que fica o quarto da maioria, elas saíram bem na hora em que o fogo estava alto, na hora que você saiu, já havia bombeiros dentro e fora da casa, no entanto você se queimou mesmo assim.

Concordo.

A hora que eu saí tinha mais fumaça do que fogo, mas mesmo assim era um calor infernal.

- Ainda acho que ele não age correto comigo. – volto ao assunto.

- Não leio os pensamentos do Nathan. – ela rebate- Embora dá pra perceber que ele gosta mesmo de você, e não faz o que faz para te machucar.

- Para de defendê-lo, Naomi.

- Não defendo, apenas falo a verdade. – ela retruca.

Passo a mão no meu cabelo e suspiro.

- Quer fazer um ultrassom?- ela muda de assunto do nada.

- Hein?- franzo o cenho.

- Eu acabei de comprar um aparelho novo, queria saber se funciona. – ela sorri.

- Tudo bem, não tenho nada pra fazer mesmo. – dou de ombros.

COMRPOVAMOS que o aparelho da Naomi funciona. Ela foi treinar e afiar suas facas, enquanto eu estou tentando dar um banho no Percy.

- Vai tomar banho no tanque. – o estresse é palpável em mim.

Encho um balde de água quente e tampo o ralo do tanque, despejando a água lá dentro, logo em seguida coloco o Percy e inicio o banho.

A campainha toca e não me sinto bem em atendê-la. Procuro Naomi pela casa, até que a acho no sótão.

- Naomi. – falo assim que entro e uma faca voa em minha direção, só que não tem o formato de uma faca.

Meu coração vem na boca.

- Desculpa. – ela vem até mim.

- A campainha. – ofego.

- Fique aqui, sem dizer uma palavra. – ela ameaça.

Aquiesço.

Ela pega algumas facas e coloca no protetor perto da cintura, depois saí do local trancando a porta. Dirijo-me até a janela que dá na frente da casa e fico nas pontas dos pés para ver o portão.

É uma BMW preta, o teto solar está aberto e percebo que tem uma mulher no volante, com o cabelo preto amarrado em um rabo de cavalo.

Meus pés reclamam pela posição, mas insisto em continuar assim, até que a mulher saiu do carro e consigo identifica-la, é a Vic.

Meu pulso explode e minha respiração falha, abaixo devagar até sentir o chão gelado em meus joelhos.

É verdade o que o Nathan falou, ela está realmente ao lado do Muller e também está atrás de mim, agora como eles me encontraram?

- Cadê ela?- escuto a voz de Vic soar dos andares abaixo.

Naomi não diz nada ou diz muito baixo.

Escuto passos na escada.

- Ela está aqui. – Vic insisti.

- Pode revirar minha casa de cabeça pra baixo psicopata, mas não vai acha-la. – escuto a voz de Naomi.

- Me chamou do que?- Vic parece nervosa.

- Psicopata. – Naomi repete devagar- Já percebeu que está caçando sua melhor amiga?

- Sim, mas estou recebendo muito para isso, muito mais do que irei receber trabalhando uma vida inteira como médica, agora sei por que os mafiosos não largam isso. – ela diz triunfante- Agora onde ela está?

Ela tem uma boa lógica quanto a receber um bom dinheiro, só que não matando pessoas!

Prendo a respiração tentando não causar qualquer misero barulho.

- Se não for embora, irei chamar a policia e não será bom pra você, Victória. – Naomi ameaça com aquele jeito especial dela.

- Nem para você. – Vic rebate- Cuide melhor do Percy Cassandra.

Meu coração para. Puta que pariu, eu esqueci o Percy solto.

- Eu estou cuidando do Percy enquanto a Cassandra está com o Nathan. – Naomi inventa uma desculpa.

- Ah, eles são os casal perfeito. – Vic debocha.

- É mais preferível a Cassandra a você.

Isso aê Naomi.

Não consigo mais reconhecer minha amiga, seu jeito de falar, rebatar, agir e pensar mudaram completa com a máfia, é como se eu fosse uma pessoa totalmente aleatória.

- Eu ainda vou ficar cara a cara com ela, vocês não vão conseguir protege-la por muito tempo. – Vic diz se afastando.

As vozes somem conformo os passos são distanciados, o portão abre e consigo vê-los irem embora novamente.

Consigo me acalmar mais, faz tanto tempo que eu não vejo a Vic e agora me arrependi de vê-la. Escuto a porta destrancar, levanto e fico de frente com ela.

- Está bem?- Naomi me encara.

- Fisicamente. – sorrio sem mostrar os dentes.

Naomi coloca a mão em meu ombro e me encara como se fosse a pessoa mais sabia do mundo.

- A máfia leva aquilo que temos, mas nunca pertencemos e deixa aquilo que pertencemos, mas nunca rotulamos como nosso. – ela diz devagar.

Encaro-a sem saber o que dizer, sou uma analfabeta nesse sentido.