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20 Capítulo 20
Espero o Nathan em frente à porta da alô bebê.
- Isso é seu. – ele me entrega a sacola.
- Obrigada. – sorrio- Pode me fazer um favor?
- Qual?- ele me encara.
- Pode me comprar um milk shake?- sorrio meiga.
- Tudo bem, não demoro. – ele saí andando.
O que adianta ele ir e eu ficar sem dinheiro?
- Nathan, pode me deixar um cartão?- falo alto.
Ele para e me encara.
- Pra quê?
- Para se eu quiser comprar mais alguma coisa. – sorrio torto.
Tipo uma câmera...
- Tome. –ele me entrega e diz a senha em voz baixa.
- Obrigada.
Assim que ele desaparece no corredor, corro para a loja.
- Em que posso ajudar?- o menino atrás do balcão me encara.
Tenho certeza que ele é nerd, usa uma blusa com o emblema da loja, um óculos quadrado, cabelo quase tijelinha e algumas marcas de espinha no rosto.
- Eu queria a Nikon da vitrine. – sorrio.
Ele me encara por alguns segundos.
Estou com alguma coisa no rosto? Tirando os machucados...
- Você é a Cassandra né?- ele diz ainda me encara.
- Sim, da onde você me conhecesse?- franzo o cenho.
As pessoas estão me reconhecendo muito fácil ultimamente.
- Estudamos o colegial inteiro juntos, fomos do mesmo grupo de estudos.
Estreito os olhos. Não consigo lembrar quem é esse menino, muito menos das pessoas que já estudaram comigo.
- Desculpa, mas eu não lembro. – falo meio envergonhada.
- Não tem problema, ninguém se lembra de esquisitos. – ele sorri.
Sinto um remorso por não me lembrar dele, deve ser ruim.
- Vou pegar a sua câmara. – ele sai de trás do balcão.
Meu deus, agora isso não vai sair da minha cabeça até eu lembrar do nome dele ou me lembrar do grupo de estudos. Merda, eu e minhas teimosias.
Compro a câmara e saio de fininho, olhando em volta para ver se acho o Nathan em algum lugar. Não deve ser difícil, ele é o mais estranho, bipolar, teimoso, orgulhoso, lindo e perfeito que pode ter aqui.
Sento em um banco em frente à loja que comprei a câmara e escondo a sacola embaixo dela. Como vou fazer para ele não ver a câmara?
Não demora muito para ele aparecer caminhando todo estiloso até mim com o copo de milk shake, mas não estou com vontade de beber.
- Aqui. – ele senta ao meu lado e entrega a câmara.
Coloco o copo em meu colo e agradeço por ter colocado calçã jeans, pelo menos esconde a brutalidade dos hematomas dela.
- Vamos fazer o quê?- encaro-o.
- Quer comer alguma coisa?- ele me encara.
- Sabe, não estou mais com vontade de tomar isso. – balanço o copo.
Expira cansado.
- Eu peguei a maior fila. – ele resmunga.
- Então bebe você. – entrego o copo pra ele.
- Tá bom. – ele pega o copo e dá um longo gole.
- Eca. – faço uma careta.
Milk shake de chocolate se for tomado muito devagar ou com goles muito longos se torna enjoativo.
- Não quero mais. – ele faz uma careta.
- Rá! Eu sei de tudo.
- Cala a boca. – ele revira os olhos.
- Não revire os olhos para mim Nathan Frost, eu sou a autoridade aqui. – faço cara de nervosa.
- Desculpa senhora, eu esqueci que assinamos um contrato onde eu tenho que obedecer você. – ele sorri.
- Acho bom. – faço pose de autoridade- Agora levante.
- Não abuse. – ele ri e levanta, me levando junto.
- Eu preciso mandar às vezes. – resmungo- Só você manda em mim.
- Eu?- ele diz perplexo- Eu posso até tentar, mas você é orgulhosa e bate de frente, sempre.
Obrigada orgulho por existir.
- Mas seria chato se eu fosse submissa, eu seria uma tonta e obedeceria você, nunca íamos brigar e também você ficaria enjoado de mim como ficou do milk shake.
Ele concorda.
- Você é estranha. – ele ri.
- Não sou não, você que é. – fico emburrada.
- Depende, às vezes você comete loucuras que nem um camicase louco cometeria. – ele me encara.
Uma delas foi se apaixonar por você...
- Eu vivo intensamente. – rio- Nathan eu comprei um negócio pra você, mas promete não olhar até chegarmos a casa?
- Tudo bem, mas você comprou aqui?- ele me encara.
- Sim, por quê?
- Você só está com a sacola da loja de bebê. – ele sorri.
Puta que pariu a sacola com a câmara!
Saio de perto dele e começo a correr, com certa dificuldade, até o banco onde eu estava e graças a deus a sacola ainda estava lá.
Respiro aliviada e pego-a.
Sinto um mal estar, um pressentimento ruim, olho em volta e vejo as pessoas andando e olhando vitrines normalmente, até que vejo um rapaz no final do corredor, cabelos castanhos bagunçados, silhueta alta, possui boa forma. Ele caminha na minha direção, porém parece não me notar aqui, assim que ele passa a cerca de uns cinco metros de mim, consigo ver seu rosto, olhos mel e uma cicatriz pequena da testa.
Aquela cicatriz me lembra de algo no passado, uma pessoa. Minhas pernas fraquejam e meu coração dispara sem controle, é ele... Adolf.
Algo encosta-se ao meu ombro, levo um susto e olho pra trás, vejo o Nathan me encarar confuso.
- Está tudo bem?- ele me encara.
Meus olhos ardem e tenho vontade de chorar, aquilo está voltando para a minha mente de novo, isso não pode... O que ele faz aqui?
- Me leve embora daqui. – murmuro.
Ele continua a me encarar sem entender nada, mas obedece ao que eu peço, por um súbito e profundo momento, a felicidade some do meu corpo e desaparece do ambiente a minha volta.
JÁ ESTAMOS em casa, especificamente no sofá. Os irmãos Frost estão no escritório, trancadas e sei que falam do que ocorreu com a Alex e eles podem até ter em mente quem é o chefe dela. Minhas suspeitas dizem Muller, mas eu não sei ao certo.
- O que você comprou?- Alek puxa assunto.
- Roupas para o bebê. – encaro-o.
Ele não é o mesmo...
- Me desculpe. – murmura ele.
- Desculpar do que?- franzo o cenho.
- Pela Alex, ela nunca foi boa influencia, no entanto eu não imaginava isso dela. – ele encara o chão.
- O ser humano e o ser vivo mais complexo do mundo. – sorrio- Ninguém iria imaginar.
Ele aquiesce.
- Sinto falta do Lucas e você?- tento continuar com outro assunto.
- Mais do que eu esperava. – ele sorri- Tenho falado com ele.
- Como?!- me animo.
- Pelo celular, ele me liga ás vezes ou eu ligo pra ele. – ele comenta.
- Você pode ligar para eu falar com ele?- encaro-o com esperanças.
- Claro. – ele tira o celular do bolso.
Sorrio feito uma idiota, irei conversar com alguém descente.
Ele coloca na chamada e me entrega.
- Lá fora o sinal é melhor. – ele sorri.
Caminho para fora da casa e fico aguardando...
- Alô?- ele diz sonolento.
- Lucas?- sorrio.
Não, o Nathan.
- Cassandra?
- Hum... Sim, é que eu estava com saudades de você.
- Ah, nossa. – ele parece surpreso- Como vão as coisas com você?
Eu devo falar da irmã dele?
- Olha, é meio chato eu falar isso... – murmuro.
- Pode falar.
- A Alex era a espiã que passava informações sobre o Nathan para fora e ela me deu uma boa surra. – murmuro.
Ele fica mudo.
- Lucas, você ainda está aí?
- Sim. – ele diz baixo- Você se machucou muito?
- Não muito, mas estou com belos roxos. – murmuro.
- Ela está aí?
- Claro que não, né? Senão o Nathan já teria matado ela, o Adam a deixou fugir e agora eles estão rastreando ela para saber quem é o chefe dela.
- Menos mal. – ele suspira.
- Como está indo a missão?- mudo de assunto.
- Estou tendo ajuda e parece ser fácil.
- Quando volta?- encaro o mar batendo no rochedo da ilha.
- Talvez ano que vem. – murmura ele.
- Ano que vêm!- exclamo.
Isso parece o fim do mundo, não sei por que.
- Por que tanto tempo?- me acalmo.
- O quê eu faço aqui é algo complicado, então talvez demore. – ele diz paciente.
- Mas Lucas, eu não posso ficar tanto tempo sem falar com você, tudo bem que a gente quase nunca se fala direito, mas você é o único que me entende aqui. – falo cabisbaixa.
- Se eu pudesse, me teletransportar apenas para ficar com você, só que eu realmente não posso.
Suspiro.
Quando a questão sou eu, ninguém pode ajudar.
- E o seu baby?- ele muda de assunto.
- Está aqui. – falo sem interesse.
- O Nathan está reagindo bem a isso?
- Do jeito dele.
- Sei...
Ficamos em silêncio.
- É... Quando você ligar para o Alek, pede pra falar comigo. – falo rápido demais.
- Tá.
- Então, tchau. – desligo.
Acho que estou com problema, eu desliguei na cara sem motivo algum, problema cerebral, só pode.
Entro em casa de novo e Nathan ainda não saiu do escritório. Suspiro. Vou até o Alek e entrego o celular.
- Obrigada. – murmuro.
Ele sorri e não diz nada.
Subo as escadas com cuidado e vou direto para o banho, parando no quarto apenas para pegar meu pijama. Em uns 10 ou 15 minutos já estou na cama encarando o teto no escuro. Parece que o Nathan vai demorar em sua pequena reunião com o Adam.
Nesse instante minha mente vaga até o Lucas, o que será que ele está fazendo agora? Deve estar me amaldiçoando por desligar na cara dele, supostamente ele está pensando em mim e duvido que o Nathan esteja.
Viro de lado e encaro o travesseiro vazio ao meu lado, sinto-me como um pote vazio ou uma fotografia sem cor, ele me deixa tão confusa, no shopping parecíamos um casal normal e agora um casal divorciado. Não sei mais o que fazer para o Nathan voltar a ser meu, só acho que essa criança nos afasta cada vez mais...
Encaro as sacolas no chão e vejo a sacola da câmera, levanto e pego-a, abrindo-a e retirando a câmera. Já que eu ainda não entreguei pra ele, vou quebrar o meu tedio.
Fico em frente ao espelho, deixando a minha barriga amostra, tiro varias fotos seguidas, fazendo caretas aleatórias. Irei fotografar todos os meses de gestação agora, para ver o meu progresso, se é que ele existe pra mim.
Então um foco de luz passa por minha mente e me lembro do menino do shopping, a replica adulta do Adolf. Não posso estar confundindo, nunca irei confundir a cicatriz que eu deixei no rosto dele e o pior é que eu gostaria de estar errada agora.
- Cassandra?- alguém entra no quarto.
- Sim. – abaixo minha blusa.
É só o Adam.
- Você está bem?- ele franze o cenho.
- Aham, por quê?
Ele balança a cabeça e depois sorri.
- O Nathan já está vindo.
Ele tem mais problema que o irmão.
Sorrio.
Adam me encara hesitante, mas não diz nada.
- Quer falar alguma coisa?- encaro-o curiosa.
- Não. – ele passa a mão no cabelo- Já vou indo.
Assim que ele saí, tromba com o Nathan na porta.
- Por que está segurando uma câmera?- ele me encara.
- Surpresa. – sorrio.
Ele franze o cenho.
- Eu vejo muitas fotos em seus ambientes particulares, então achei que gostasse de tirar fotos. – mordo o lábio.
Por favor, aceite.
- Eu gosto de tirar fotos, mas não precisava comprar uma câmera. – ele sorri.
- Só aceite. – entrego-a pra ele.
- Obrigado. – ele observa a câmera.
- De nada. – sorrio- Só não olhe as fotos que eu tirei, não tinha nada pra fazer.
Ele ri.
- Tudo bem.
Vou até a cama e deito, me cobrindo por inteira. Escuto seus passos pelo quarto, até a porta do banheiro fechar.
Suspiro e me encolho na cama.
ACORDO com o Nathan se mexendo na cama, parecendo uma criança.
- Nathan para. – resmungo.
- Shh. – ele diz se levantando.
- Aonde você vai?- sento na cama e esfrego meus olhos.
- Escutou isso?- ele fica em silêncio e encara a porta.
Faço a mesma coisa. Consigo escutar passos e vozes sussurradas, pela soleira da porta vejo vultos de um lado para o outro quando a porta abre e a Naomi aparece. Levo um susto e suprimo um grito.
- Nathan o Ícaro está ai. – ela diz ofegante.
- Mas o quê?- ele levanta em um salto.
- Calma, ele não veio atacar, veio apenas com seguranças. – ela diz paciente.
- Mesmo assim. – ele levanta.
Faço o mesmo. Meu coração dispara e quase não consigo andar direito.
- Nathan e se for uma armadilha?- balbucio.
Ele dá de ombros.
Encontramos com o Adam e com o Alek no corredor.
- Cassandra – Naomi segura o meu braço-, é melhor ficar aqui.
Encaro-a.
Ela tem razão, ele poder ter vindo por causa do bebê, igual todos vêm, o único problema é que ele é bem mais foda que o Nathan ou qualquer pessoa daqui, mas estou na duvida com a Naomi, ela pode ultrapassar os limites de pessoas fodas.
Meus lábios ressecam e minhas pernas andam automaticamente atrás do Nathan como um cão leal. Acabo ignorando a Naomi e desço com o Nathan.
Adam e Alek descem logo em seguida, encontro o Leo perto da escada e fico ao lado dele, Nathan fica na minha frente e o Adam ao lado dele. Olho de relance para o Leo, que esboça uma feição tranquila.
Não consigo ver direito o rosto do Ícaro ou John. Consigo ver o seu cabelo, tem um tom dourado como o de Adam, só que mesclado com fios brancos, seu maxilar é quadrado e sua pele é clara como a do Nathan, sua musculatura é boa para alguém da idade dele e parece ser alto. Seus seguranças parecem todos igual, usam o mesmo terno, fone em apenas um ouvido, óculos escuro embora seja de madrugada e cabelo cortado em estilo militar, totalmente careca.
Me encolho atrás das costas do Nathan e respiro bem devagar, pareço um animal covarde ou o medo em pessoa, meu corpo está travando aos poucos e meu coração acelerando a cada minuto.
- Esqueceu que eu tenho a chave. – uma voz grave quebra o silêncio do local.
- Não é bem-vindo. – Nathan diz frio.
- Alguma novidade?- o homem diz irônico.
Nathan permanece em silêncio assim como o Adam, parecem dois bonecos manequins que escondem o medo atrás da musculatura forte e da aparência fria, porém seus temores são palpáveis.
Escuto passos se aproximarem da gente, minhas juntas congelam e eu acho que vou vomitar.
- Nathan. – Ícaro parece repreendê-lo.
-Longe dela. – ele diz ríspido.
- Você não dita regras comigo. – Ícaro rebate.
Nathan continua imóvel. Ícaro o empurra com força para o lado, ele cambaleia e um dos seguranças o segura firmemente. Naomi segura em meu ombro e entra no meio de mim e Ícaro.
- Mais um passo e suas tripas serão jogados para os cães. – ela diz com uma voz ameaçadora.
- Achou uma ótima assassina Nathan, com certeza deve ser ótima no que faz. – Ícaro sorri sarcástico.
- Quer fazer um teste?- Naomi o encara.
- Creio que não, acredito que possa me matar antes mesmo de eu sacar meu revolver.
- Então se afaste.
Ele ri sarcástico e balança a cabeça.
Por cima do ombro da Naomi, consigo ver o rosto dele, os olhos são claros, verde.
Então esse é o homem que atormenta o Nathan até a morte, esse foi o homem que transformou o próprio filho em um monstro, esse é o homem que provoca medo no cara mais frio que eu conheço e ele está bem na minha frente.
Eu acho que me perdi na cena, mas quando prestei atenção, Naomi já estava imobilizada pelo Ícaro e sua faca bem longe de suas mãos ágeis.
- Fique longe dela Ícaro!- Nathan pragueja.
Engulo seco e encaro o home a minha frente.
- Finalmente eu te conheci. – ele me encara.
Estufo o peito e prendo a respiração.
- Não está com medo de mim?- ele parece surpreso.
- Não. – sopro a palavra pra fora.
- Ótimo. – ele sorri- Preciso mesmo conversar com você.
Conversar?! Conversar o quê?
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