- Pode falar. – encaro-o.

- Preciso que seja particular.

Claro que não!

- Esse quesito é impossível. – sorrio cínica.

- Eu posso torna-lo possível. – ele diz sério.

Estreito os olhos e recuo um passo.

Ícaro ou John agarra em meu braço e começa a me arrastar pelo corredor. Debato-me, só que ele aperta mais e faz meu braço formigar.

- Eu sei andar sozinha!- praguejo e puxo o meu braço.

- Não perguntei. – ele continua me arrastando.

- Me solta!- grito.

Ele ignora o meu grito e me joga para dentro do escritório, cambaleio até a mesa, onde me apoio e mantenho as pernas firmes.

- Precisamos falar sobre o bebê. – ele senta na cadeira em frente à mesa.

Sento de frente com ele, com certa distancia da mesa e dele. Encosto no encosto da cadeira e inclino pra trás, sempre mantendo meus olhos fixos aos movimentos deles.

- Ícaro eu vou matar você!- escuto o grito do Nathan da sala.

Estremeço e tento me manter firme.

Ícaro revira os olhos e respira fundo como se já estivesse acostumado a esse tipo de ameaça.

- O que quer me falar?- vou direto ao ponto, meio grossa.

- Certo. – ele me encara- Quero que suma daqui.

Arregalo os olhos.

Ele pensa que é quem para mandar em mim?

- Não. – encaro-o cínica.

- Acha que é quem para dizer “Não” pra mim?- ele me encara sério.

- Sou a Cassandra e você?- digo irônica.

- Pare de ser idiota menina. – ele bate na mesa, quase me fazendo cair da cadeira- Isso aqui não é para uma menina como você.

Fico em silêncio.

- Você não sabe como corre risco de vida ficando ao lado do meu filho, ele não é uma pessoa, Cassandra. – ele diz mais calmo.

- Então ele seria o quê?

- O Nathan é um monstro, movido à vingança. Ele não aceita o que eu fiz com ele no passado, ele guarda rancor e isso o corrói por inteiro e o torna esse ser horrível que ele é.

- E você acha que é o que?- encaro-o irônica- Você que o tornou assim.

- Sim, eu sei disso. – ele passa a mão no cabelo- Só que o Nathan é exceção, ele literalmente é perigoso se comparado a mim.

Sinto uma dor no peito.

- Ele mata qualquer um para chegar ao lugar desejado, passa por cima do que for e isso pode ser algo mortal. – ele diz encarando as próprias mãos- Como pai dele, admito que tenho medo dele, é como se ele fosse um demônio encarnado em uma pessoa, ele gosta de ver o sofrimento da pessoa antes da morte como se isso aliviasse a culpa que ele carrega nos ombros.

Minha frequência cardíaca caiu, fico estática encarando o homem a minha frente a agora não sei mais em quem acreditar. No pai ou no filho, isso é um caso grave, se o pai dele tem medo dele quer dizer que realmente ele pode ser perigoso ou Ícaro está me atingindo com uma chantagem emocional.

- Nathan é um animal primitivo, não um humano racional. Ele carrega sangue de pessoas inocentes nas mãos e uma alma condenada no corpo. – Ícaro continua- Ele não é um príncipe encantado, uma pessoa que pode ser amada ou ter amigos, não pode ter respeito ou poder, ele não merece ninguém, muito menos você e nem citarei essa criança que vai nascer.

- Por que diz isso do próprio filho?- balbucio.

- Eu já vi esse filme Cassandra, eu já fui igual ele e também já amei uma mulher como ele ama, mas a vida que levamos nos impede; máfia ou amor. E certamente eu escolhi a máfia, agora a escolha dele será a mesma.

- Você não o conhece tão bem para dizer isso.

- Eu o conheço melhor que todos aqui e fiz o que fiz para lhe ensinar a viver, mas não tenho culpa se ele carrega rancor por isso. – Ícaro diz simplório.

Expiro forte e me ajeito na cadeira.

- Tenho um conselho; Não tenha essa criança, fuja e viva a vida como uma pessoa normal e não entre nessa desgraça, pois é um caminho sem volta.

E mais uma vez me deparo com a maldita escolha, no entanto dessa vez é séria, Ícaro faz acusações rígidas sobre o filho, coisa que creio que ninguém falaria ou saberia disso e pelo o que eu entendi, Nathan carrega um feito bem pesado do passado.

- Uma vez eu vi mãe e filho caírem por causa da máfia, inocentemente tiveram a vida roubada por isso e não gostaria de ver isso se repetir. – continua ele- Não com a mesma pessoa.

Sinto um vácuo passar pelo o meu corpo, ele se refere a morte da mãe do Nathan?

- Não entendo. – inclino a cabeça.

Ícaro respira fundo.

- O Nathan foi irresponsável uma vez e engravidou uma moça, igual fez com você, com o começo na máfia, as coisas pra ele eram bem corridas e perigosas, a menina não se importou e seguiu com ele, vendo-o o crescer nisso. A criança nasceu e ele parecia um idiota pela criança.

Tenho vontade de chorar. Quer dizer que ele já passou por isso?

- Estava tudo indo bem, até que ele se mete em merda, como sempre, e acaba gerando uma guerra com outro mafioso da região, ele me pediu ajuda, a menina e a criança não podiam ficar naquele meio, mas eu cheguei tarde demais. – Ícaro diz em lamento.

Apoio minha cabeça nas mãos e começo a chorar. Isso tudo não passa de uma farsa onde eu pensava que podia ser esperta.

- O pior, é que eu acho que foi ele que atirou. – Ícaro levanta.

- Como eu sei que tudo isso que você falou é verdade?- enxugo as lagrimas.

- Olha, acredite se quiser, não estou te obrigando a acreditar em mim, apenas quero lhe deixar ciente de onde está se metendo agora. – ele diz me encarando com compaixão- Posso ser um cara horrível pelo o que eu fiz no passado, mas jamais busquei por vingança para justificar os meus atos.

Fico encarando-o estática na mesa. Ele dá a as costas e saí do escritório.

Realmente ele tem razão, a vingança é a degradação do ser humano, um ato baixo e desleal, tirando que foi isso que matou os meus pais.

Saio um pouco depois do Ícaro, ele está na sala, de costas para o corredor e encara o Nathan. É como se fosse atrito contra atrito, duas bombas nucleares prestes e explodir no mesmo lugar, dois assassinos com a mesma vítima; o passado. Mas na verdade não passam de um pai e um filho.

- Pense muito bem, Cassandra. – Ícaro diz sem me encarar- Uma escolha errada pode acarretar o pior erro da sua vida.

Como se eu já tivesse cometido esse erro.

Continuo parada no corredor e nesse momento não sei onde concentrar meus pensamentos e sinto saudades da minha casa de verdade, onde a minha avó e o Perseu estão agora.

Ícaro coloca a mão no ombro do Nathan e o encaro em lamento, logo em seguida se retira com seus seguranças com o maior estilo e segurança de si mesmo, sinto-me como se uma parte de mim estivesse ido também e tenho receio que ela não volte mais pra mim. Mas que parte é essa?

Nathan caminha até mim preocupado.

- Você está bem?- ele me encara.

Ergo a mão e faço um sinal para ele ficar em silêncio.

- Eu preciso pensar. – começo a andar.

- O quê ele te falou?- Nathan franze o cenho.

- Nada que eu não desconfiava. – digo em lamento.

Ele dá espaço pra mim e eu sigo em direção da porta, saindo da casa e me isolando em qualquer canto. Sento no gramado e olho para o mar que hoje está idêntico ao céu, escuro e sem qualquer iluminação.

Seria o Nathan aquele menino que Ícaro descreve? Eu não o vejo assim, pra mim é como se estivessem relatando outro menino ou eu sou absolutamente muito sega.

Logo eu, a pessoa mais indecisa do mundo, terei que fazer as escolhas mais complicadas e basicamente o Ícaro deixou bem claro isso.

Agora a questão é; como fazer a escolha de um modo correto e racional? Tento em vista os dois pontos críticos e os dois pontos verdadeiros?