Desperto com um barulho no quarto. Que horas eu dormi?
Abro os olhos com dificuldade, minhas pálpebras estão pesadas demais, o ambiente está escuro, o que não ajuda muito. Focalizo minha visão na porta do banheiro e vejo que a luz está acesa, creio que o Nathan esteja lá.
Levanto devagar da cama e encaro a janela a minha frente. Já está entardecendo, o céu ganha um misto de laranja e rosa e o mar está sereno.
A porta do banheiro abre e vejo Nathan sair do banheiro com o cabelo molhado.
- Acordou?- ele me encara.
Sorrio sonolenta.
- Quer comer alguma coisa?- ele se aproxima.
- Vou tomar banho. levanto da cama.
Caminho até o banheiro com cuidado, minhas pernas estão moles por conta do sono.
**
As semanas passaram muito rápido, Alex consegue me deixar cada dia mais enojada. Leo vem me ajudando com as buscas da Vic, assim como a Naomi em terra firme. Nathan está um pouco melhor comigo, tenhamos evitado muitas brigas com origem de Alex. E cada vez estou mais apaixonada por esse pontinho na minha barriga.
- Srtª. Frost. a enfermeira me chama.
Levanto da cadeira e caminho até a sala, seguida por Nathan.
A sala é pequena e escura, com muitos equipamentos e um pequeno monitor no alto. A uma cadeira que me lembra um pouco a do dentista
- Deite-se. ela aponta a cadeira.
Deito na cadeira e encaro o Nathan, hoje será o primeiro ultrassom do bebê. A enfermeira saí da sala e logo a médica entra.
- Olá. ela sorri.
- Oi. murmuro.
- É o primeiro ultrassom?- ela encara Nathan.
- Sim. respondo.
- Tudo bem. ela senta ao meu lado e começa a mexer em umas gavetas.
Levanto a minha camisa até a barra do meu sutiã, minhas mãos suam frio e meu coração está acelerado. Encaro o Nathan e ele está impassível encostado na parede.
Algo gelado envolve o meu ventre, sinto arrepios e me mexo na cadeira. Ela liga um monitor que parece com um minicomputador e pega um objeto ligado a ele, o mesmo é comprido e tem a ponta arredondada.
Não demora muito e eu já consigo escutar o coração do meu pequeno pontinho, ele bate tão rápido quanto o meu. Sorrio igual o gato da Alice e encaro o Nathan, o sorriso some do meu rosto.
O exame termina e o meu pontinho está saudável, só tenho que tomar cuidado com minha pressão.
- O que foi?- murmuro para o Nathan quando saímos da sala.
Ele dá de ombro.
- Nathan. repreendo-o.
- Eu só não gosto disso. ele encara a minha barriga.
Sinto uma pontada no peito.
Ele parece não notar o meu estado e continua andando para o estacionamento, meus passos ficam lentos e pesados, assim como a minha mente agora. Será que realmente o aborto é a saída para isso?
Entro no carro em silêncio e assim permaneço.

NÃO DEMORAMOS para chegar no porto, Nathan deixou o carro em um estacionamento do local. Não deixo de notar a lança andando em alta velocidade perto do porto, exibindo sua potencia e o motorista, todos os banhistas saíram da água e observam de longe. Caminhamos para o deque de madeira, ao lado dele tem um barco maior e mais bonito que outro.
Nathan continua calado e pensativo, resolvo não comentar nada. Caminho ao seu lado com a cabeça baixa, encarando os meus dedos das mãos.
Ele para e eu trombo com seu braço esquerdo.
- Desculpa. murmuro.
- Sh. ele olha pros lados e pego no meu braço.
Franzo o cenho. O que está acontecendo?
Vejo a lança parar no final do deque e alguns caras saírem dela. Nathan aperta o meu braço, meu coração dispara e eu seguro no braço dele. Um dos homens caminha até nós e então consigo escutar um barulho opaco perto de nós, olho em volta e vejo um buraco circular na lateral de um dos barcos perto da gente. Nathan me empurra para o lado e acabo caindo na água.
A água gelada vai abraçando o meu corpo com voracidade e eu afundo, batendo a cabeça em um barco.
O fôlego me falta e faço esforço para voltar à superfície, puxando o ar pra dentro novamente. Nado para baixo do deque de madeira e pelos vãos de cada tabua, consigo ver os pés dos homens e o Nathan logo na frente, meu coração bate tão rápido como na hora do ultrassom, a adrenalina substitui o meu sangue nas veias e não consigo respirar direito.
Começo a nadar por baixo do deque em silêncio, consigo escutar os tiros e os gritos de algumas pessoas da praia, apresso um pouco o nado, quando sou levada para o fundo de novo.
Abro os olhos debaixo da água, o sal faz os mesmo arderem, embora eu consiga ver alguma coisa; tem alguém segurando em meu pé e me levando para baixo. Grito e as bolhas escapam.
Balanço o meu pé e sinto-o livre, começo a subir novamente mais rápido, a pressão no peito aumenta, a ansiedade pelo ar me corrói e meu coração bate mais rápido.
Estou a um palmo da superfície quando sou puxada de volta para baixo. Não!
Mexo os meus pés com força, tentando atingir aquele que me puxa de volta, quando em um impulso estou na superfície. Puxo o ar afobada e olho em volta, não estou mais debaixo do deque.
- Nathan!- grito e olho em volta- Nathan!
Ainda consigo escutar os tiros e os gritos das pessoas, mas não sei onde eu estou.
- Cassandra!- alguém grita de volta.
Olho na direção do grito e vejo o deque novamente, nado de volta e sinto um puxão em minha cintura.
É um homem alto e careca, sua pele é um pouco mais escuro que a minha e seus olhos são negros. Ele solta um sorriso.
Grito e acerto um soco na cara dele, meus dedos estralam e eu consigo nadar de novo.
- Nathan!- grito de novo sem fôlego.
O homem me agarra novamente me levando para o fundo, me debato e algo duro acerta o meu rosto, meus lábios latejam e consigo ver um pouco de sangue na água e o homem. A água impede movimentos rápidos, inclino minha cabeça com força pra frente e acerto o nariz do homem.
Volto pra superfície e nado de volta para o deque e consigo ver o Nathan. Meu coração bate a mil e o sinto sua pulsação em minha cabeça.
Ele me encara e vejo que fica lívido, escuto barulho de motor. Olho para o lado e vejo a lança vir em encontro comigo. Mergulho o mais fundo que consigo e vejo o motor passar em frente as meus olhos. Continuo mergulhando até o deque, onde seguro em um pilar de madeira.
Abraçado ao mesmo, consigo respirar melhor, meus ouvidos estão com pressão e meu coração ainda não desacelerou.
- Não é assim que vai escapar de mim. escuto uma voz grave
Olho para trás e vejo o mesmo homem.
Ah caralho, esse cara não desgruda?
Volto a nadar na direção contraria e ele vem atrás de mim, aumento o nado, mas esse cara parece ser a jato, logo está do meu lado.
- Nathan!- grito antes de receber um soco.
Meu rosto lateja e meu maxilar range, a dor quente se alastra pelo meu corpo, até que retomo a consciência. O homem segura em novamente, antes de qualquer coisa, chuto-o, acertando na barriga, com o impulso me solto e volto a nadar.
Ele segura em minha blusa, que rasga. Continuo seguindo para o final do deque, quando consigo encostar o pé no chão. Corro na água para a areia, só que o chão está cheio de pedras, dificultando a corrida.
O homem se aproxima de mim, meu coração bate forte. Olho pela água cristalina e acho uma pedra meio achatada, abaixo e pego-a.
- Venha aqui. o homem agarra o meu braço.
Viro com força e acerto com a pedra na lateral de sua cabeça, o barulho é forte e agonizante, sinto calafrios passarem pelo meu corpo. Ele continua me segurando, acerto-o mais algumas vezes até ele cair no chão com a cabeça sangrando.
Nesse momento não tenho mais condições de nada, corro para fora da água e procuro a entrada para o porto. Meu corpo está pesado de mais para eu correr rápido, minha está respiração pesada e difícil, e meu coração bate mais rápido.
- Nathan!- grito perto do deque.
Os tiros pararam, escuto barulho de sirene. Não sei se são bombeiros ou policias.
Continuo andando até que o chão fica mais próximo, em minha visão. Coloco as mãos na frente mais não adianta muito, o impacto e forte.
Minha cabeça esquenta e meu rosto começa a queimar, não consigo puxar o ar pra dentro dos pulmões e meu coração bate um pouco mais devagar.
- Cassandra!- escuto a voz do Nathan.
Sorrio. Ele está vivo.
Os passo deles vibram o deque, ficam cada vez mais perto de mim, até que param e consigo ver os olhos azuis.
- Tive uma aula de natação. sorrio.
Ele sorri e abaixa ao meu lado.
- Consegue respirar?- me encara.
- Não. puxo o ar sem sucesso.
- Então pare de falar. ele me encara sério.
Sorrio e esqueço tudo a minha volta.
Eu amo o meu príncipe desencantado.
Sinto seus lábios nos meus doloridos, ele assopra delicadamente o ar, meus pulmões incham, Nathan se afasta e consigo soltar o ar.
Ele repete isso seguido de uma massagem cardíaca, sinto o meu corpo voltar a ser meu, consigo respirar de novo e meu coração vai desacelerando aos poucos.
- Cassandra eu... ele deixa a frase no ar.
- Relaxa. falo ofegante- Nós vamos nos acostumar a viver na adrenalina.
Ele franze o cenho.
- Nós?- indaga.
Passo a mão em meu ventre e sorrio.
- Essa coisa ainda vai matar você. ele diz ríspido.
- Coisa?- franzo o cenho- Essa coisa é o seu filho.
Ele dá de ombros.
- Continuo não gostando dele. ele levanta.
Ele estende a mão pra mim. Ignoro.
Nem que eu esteja morrendo nesse momento, não preciso da ajuda dele. Levanto meio cambaleando e consigo ver a policia entrar no porto e se aproximar de nós.
Nathan pisca pra mim e volta para os policias.
Coisa, como ele pode se referir assim ao próprio filho? Só tenho a lamentar, pois nessa historia, pareço estar sozinha.
Os policias começam a fazer perguntas para o Nathan, o mesmo mostram uma carteira e eles ficam menos autoritários. Uma policial veio até mim.
- A senhorita está bem?- ela me encara.
- Sim. forço um sorriso.
- Conhece aquele homem?- ela aponta para o Nathan.
Se ele não conhece o próprio filho, não o conheço.
- Nunca o vi em minha vida. falo convicta.
- Creio que ele salvou a sua vida. ela me encara.
- Talvez, mas diga obrigado a ele por mim. dou as costas e saio andando de volta para a praia.
Se ele continuar com esse jogo de ignorar o próprio filho, também receberá o mesmo tratamento.