A areia está grudando nos meus pés, causando coceira. Algumas pessoas da praia me olham torto, talvez pelo ocorrido no deque ou porque estou sem blusa.

O que o Nathan falou ainda me fere até a alma e continuo a pensar se ele tinha razão em fazer um aborto. Essa criança já passa por muita coisa sendo um pontinho, imagine quando já estiver no mundo.

- Cassandra!- escuto a voz do Nathan de longe.

Paro e cerro o punho, ele não passa de um idiota frio.

Começo a correr, tropeçando nos meus próprios pés e afundar os meus pés na areia.

- Vá embora!- grito de volta.

Ele não responde, olho para trás por cima dos ombros e vejo que ele também está correndo, aumento o esforço da corrida e a respiração começa a ficar pesada de novo.

- Cassandra!- ele grita de novo.

Suspiro e tento correr mais rápido, meu pé afunda em um buraco e eu caio, rolando na areia.

Nathan chega mais perto e toca em meu braço gentilmente.

- Não toque em mim. – praguejo- Não!

Ele arregala os olhos e se afasta.

- Você não merece nada de mim. – levanto e retiro a areia do meu corpo.

- Cassandra eu não pensei no que eu estava falando. – ele começa a se explicar.

- Não se explique!- grito- Nem um animal desmerece o filho igual você faz.

Ele passa a mão no cabelo e olha em volta.

- Se você tem raiva, desconte em mim e não em um ser que nem ser formou ainda.

- Você já viu o exemplo de pai que eu tive?- ele pragueja.

Franzo o cenho.

- Você já viu como o meu pai é, já viu como a minha infância foi, como quer que eu reaja com isso?- ele me encara.

- Nathan, isso é diferente. – abaixo o tom de voz.

- Não!- ele fala mais alto- Eu vejo nessa criança o que eu vivi, o que eu sofri, o que eu sou agora. – seus olhos brilham.

Ah, eu tinha me esquecido disso.

Em parte ele tem razão, o medo que ele tem de ser igual o pai dele, o que ele vivenciou na infância e os traumas que ganhou pode sim acontecer com o meu bebê.

- Mas você não é igual o seu pai. – me aproximo dele.

- Você não o conhece para julgar, apenas me tem como exemplo. – ele rebate.

Encaro-o com compaixão.

De fato ele realmente tem medo de se tornar o pai e isso pode realmente causar certo problemas.

- Sabe- murmuro-, se continuar assim, ficará pior aqui. – coloco a mão em seu cabelo- Você tem que se libertar disso Nathan, quanto mais pensar nisso, pior você ficará.

Ele arregala os olhos.

- Eu gosto de você pelo o que você era, mas agora você está caindo pra mim, está me deixando com medo e deixando eu me afastar de você.

Seu rosto fica desfigurado, ele fica tenso e silencioso.

- Não fale que goste de mim. – murmura ele.

Dou um soco no peito dele.

- Dá pra parar com isso, merda?- praguejo.

Ele franze o cenho.

- Tudo bem, eu fugi de você, foi um momento de fraqueza, loucura, eu estava com medo de você me deixar e arranjei um jeito de me enganar. – explodo- Mas mesmo você me ameaçando e quase me agredindo, eu voltei pra você Nathan, voltei porque eu a... Gosto de você. – encaro-o.

- Quando você sumiu, eu pensei que nunca veria você. – ele afaga o meu rosto- E quando eu te achei, tinha essa... Essa criança junto, eu entrei em pânico. – seus olhos entristecem.

Mordo o lábio inferior.

O motivo do comportamento dele era apenas medo? Medo de ser igual o pai, medo do filho dele crescer igual ele e medo de me perder.

- Agora começamos de novo. – sorrio.

Ele ri.

- Não dá mais pra começar do começo. – ele encara a minha barriga e seus olhos parecem um pouco mais felizes.

- Isso é apenas negócio a parte. – pisco pra ele.

Ele ri.

Voltamos para o porto, um pouco mais calmos. Creio que agora eu o entendi, eu sei de uma coisa; quem não entende um simples olhar, tampouco entenderá uma longa explicação. São os olhos azuis a explicação de todo e não o comportamento do Nathan, a dor que os olhos azuis carregam são o motivo de todo isso.

Ah, Nathan...

**

Já estamos na mansão, Nathan se trancou no escritório com o Lucas. Alex está na cozinha conversando com Leo. Por que com ela o Leo tem o maior papo?

A Tv está o maior tedio, não acho um canal que preste agora e não tenho ninguém para conversar comigo.

- E ai gatinha. — escuto uma voz familiar.

Olho para o encosto do sofá e vejo o Alek.

- Oi. – sorrio.

- Por que está tão emburrada?- ele franze o cenho.

- Não estou.

Na verdade, só estou meio confusa em relação ao caso chamado Nathan Frost.

- Soube o que aconteceu com a Vic?- encaro-o.

Sou feição se fecha.

- Sim. – ele pula o encosto e senta ao meu lado- Tenho certeza que vamos acha-la.

- Muito confiante. – resmungo.

- Talvez. – ele ri.

O Alek é muito de bem com vida, ele levou uma surra, está todo quebrado e ainda tem animo de sorrir?

- Você e o Nathan não vão bem, né?- murmura ele.

- Não. – confesso.

- Acho que uma criança fará bem a ele. – Alek ri.

Encaro-o irônica.

- Ou não. – ele disfarça.

Levanto do sofá.

- Vou tomar banho. – murmuro.

- Tudo bem. – ele pega o controle remoto.

Subo para o quarto e tomo um banho demorado e bem quente, tive agitação demais para uma gravida.

Encaro o meu braço e vejo a tatuagem, lembro-me de minha mãe. Com certeza ela seria ótima em seus conselhos em momentos como esse.

Termino o meu banho e coloco uma roupa de frio, desço as escadas em silêncio e não vejo ninguém na sala, devem estar no quintal da casa. Escuto uma conversação no escritório do Nathan, mas ele não fala com homens.

Alex...

Caminho lentamente até a porta e coloco o ouvido nela, consigo escutar um pouco abafado.

- Não creio nisso.

- Alex, eu gosto da Cassandra.

- Mentira.

- Olha, eu vou ter um filho com ela, eu ainda estou com ela, o que isso quer dizer?

- Você tem dó de deixa-la.

Dó?! Quem ela é para tirar essas conclusões?

Estou ardendo de raiva.

A porta abre e eu me afasto, e é justo ela que saí de lá.

- Falando da criatura. – resmunga ela.

- Olha aqui. – falo séria.

- Olha aqui você!- ela me interrompe- O Nathan não gosta de você.

- Ah, que dó da loira abandonada. – falo cínica- Só que eu não tenho dó de piranha.

Ela bufa.

- Já me livrei de muitas igual você e com você não vai ser diferente. – bato de leve no rosto dela e saio andando.

Menina despeitosa, se continuar assim, loiras vão naufragar por aí...

Vou para a área da piscina e encontro os meninos dentro da piscina, me aproximo devagar.

- Acha que vai ficar quanto tempo lá?- Alek encara o Lucas.

- Não sei, parece meio complicado. – Lucas diz baixo.

- Nada que você não consiga. – interrompe o Leo.

Do que eles estão falando.

- Oi. – sento em uma cadeira perto da piscina.

- Frio?- Lucas me encara.

Olho para o céu azul e limpo, sorrio amarelo.

- Dentro da casa está frio. –acho uma desculpa.

- Não acho certo o Nathan envia-lo. – Alek continua o assunto.

- Eu quero ter experiência, então é justo. – Lucas protesta.

- A Naomi vai com você?- Leo encara o Lucas.

- O Nathan falou que vou sozinha. – Lucas diz convicto.

- Vai dar merda e eu não vou lá pra Espanha salvar você. – Alek diz irritado.

- Eu não sou igual você. – Lucas rebate.

Alek fecha a cara e saí da piscina.

- Então que se foda. – ele saí andando.

Leo mergulha e saí do outro lado da piscina, deixando eu e o Lucas sozinhos.

- Qual o motivo da discussão?- murmuro.

- O Nathan me deu uma missão importante e perigosa. – ele sorri orgulhoso- Só que o Alek acha que eu não vou conseguir realiza-la.

- Por quê?

- Porque ela é meio complexa mesmo e eu não sou muito experiente. – ele sorri torto.

- É com erros que se aprende. – sorrio.

- Mas eu não gostaria de errar com o Nathan. – ele ri.

Concordo.

- O Alek que diz isso. – rio.

Ficamos em silêncio, um pouco desconfortável.

- Você está bem?- murmura ele.

- Sim, por quê?- encaro-o.

- Sei lá, esses dias você ficou meio quieta no seu canto, eu quase não via você. – ele diz baixo.

Suspiro.

- Estava apenas pensando. – encaro a piscina.

- Você é muito centrada. – ele sorri.

- Isso é bom?- sorrio.

- Depende da situação.

Concordo e volto a encara-lo.

- Quando vai embora?

- Daqui três dias.

Aproximo minha cadeira da dele.

O Lucas é a pessoa mais normal entre eles e a única que eu consigo conversar de verdade, se ele for embora será muito triste.

- Não gosto disso. – murmuro- Queria que ficasse.

Ele sorri.

- Você tem o Nathan. – ele me encara.

- Não é a mesma coisa. – digo baixo- Vocês são diferentes e eu gosto de conversar com você.

- Tem três dias pra isso. – ele ri.

- Colocaremos fofocas em dia. – rio.

Ele suspira.

Encosto minha cabeça no ombro dele e ficamos em silêncio.