Notas iniciais
P.O.V Nathan

Acordo com o meu celular tocando, mal consigo abrir os olhos.

Olho para o visor e o número é desconhecido, como todos.

- Alô?- sento na cama.

- Nathan?- era a voz da Cassandra.

- Fala. – afirmo a voz.

O que a japonesa quer essa hora da manhã? Já mandei todo o equipamento dela e o pagamento adiantado, já falei que ela não precisa ficar com a Cassandra, o que ela quer a mais?

- A Cassandra teve o bebê e foi para o hospital. – ela diz calma- Acho melhor você vir pra cá, a coisa tá feia.

Dou um salto da cama.

- Hospital? Que merda que aconteceu Naomi?

- Vem pra cá. – ela desliga na minha cara.

Atrevida. Tenho que cortar as assas dela, senão, daqui a pouco ela que vai estar mandando em mim.

Troco de roupa bem rápido e corro para a garagem, sem antes acordar os marmanjos. Pego a chave do primeiro carro que vejo, que é justamente do meu preferido, o SRT Viper. Ribeirão Preto fica a duas horas da capital, só porque eu quero chegar rápido.

Meu celular toca de novo...

- Fala.

- Onde você está indo?- dessa vez é o Leo.

- A Cassandra foi parar no hospital e parece não estar bem, estou indo lá. – falo indiferente.

- Você falou que não ia mais falar com essa moça. – ele diz sério.

Reviro os olhos.

- Eu faço o que acho certo. – desligo.

Tinha me esquecido que eu disse aquilo e eu deveria cumprir o que eu falei, mas também eu prometi a ela que eu voltaria para resolvermos nossa relação complicada, que eu acho que não tem mais solução nenhuma.

Minha sempre vangloriou tanto o amor, se referindo a melhor coisa do mundo e a coisa mais linda, só que ela acabou morrendo por causa disso, e eu? Apenas me fodo toda hora que amo alguém, simplesmente não tenho vocação alguma para ser carinhoso ou amoroso com alguém, sou um assassino frio e calculista, sou uma pessoa orgulhosa e não tenho submissão a ninguém.

**

Finalmente cheguei à capital, agora terei que ligar para a japonesa para saber em que hospital levou a Cassandra.

- Fala. – ela diz séria.

- Finalmente você atendeu a porra do celular, onde você está?

- No shopping. – ela diz irônica.

- Em que hospital?- sou ríspido.

- Sírio Libanês.

- Já estou chegando. – desligo.

Vai dar a maior confusão para eu pagar o hospital com dinheiro sujo, terei que abrir uma conta falsa, ou melhor, o Leo.

ENTREGO a chave para o manobrista e vou direto para a recepção, onde uma mulher de certa idade me atende.

- Queria saber da paciente Cassandra. – murmuro.

Hospitais não são um local muito agradável de visitar ás vezes, sempre tem aquela questão de; se está aqui é porque está na pior e talvez tenha uma segunda chance.

- Qual o sobrenome dela?- a mulher diz com uma voz nasal irritante.

Encaro-a fixo, tentando buscar a informação. Caralho, eu esqueci o sobrenome dela.

- Creio que seja a única Cassandra daqui. – sorrio irônico.

- Eu preciso que o senhor dê o sobrenome dela, são as regras. – ela sorri cínica.

- Esqueci. – falo petulante- Pode me liberar agora?

Ela batuca os dedos no balcão e me encara tediosa.

De fato, Cassandra é a única com esse nome por aqui e a única da lista do computador dessa mulher, por que ela não me libera?

- Sou visitante. – comento.

- Eu sei. – ela diz obvia.

- Então me dá logo o selo de visitante e me deixa ir embora. – praguejo.

Ela arregala os olhos.

- Se continuar com esse comportamento, terei que chamar os seguranças. – a arrogância nela é palpável.

- Olha aqui senhora, minha namorada acabou de dar entrada no hospital junto com a filha, eu preciso saber como ela está e a senhora está agindo de má vontade. – rosno.

Ela me encara com a mão apoiada no queixo, sem demonstrar nenhuma feição.

Meu deus do céu, minha paciência já esgotou com essa mulher, não quero cometer atos “errados” aqui, mas está quase impossível.

- Ele está comigo. – Naomi aparece ao meu lado.

Assombrações aparecem, ainda bem.

A mulher pega um crachá com o rotulo de “visitante”. Naomi me guia até o elevador.

- O que você fez com a Cassandra?- fecho a cara.

- O que eu fiz?- ela coloca a mão na altura do esterno e parece pasma- Não fui eu que abandonei uma mulher grávida, não fui eu que não dei apoio na hora precisa, não fui eu que sumi de repente, não foi eu que não a respeitou, não fui eu que a fez chorar, então a pergunta é outra Nathan, O que você fez com ela?

Arregalo os olhos e encosto na parede do elevador.

A Naomi tem certos surtos e acha que é inteligente por ser observadora da vida alheia e dar palpite sobre isso, e eu não sou a causa de tudo isso não, a Cassandra tem problemas no passado que a atingem no presente e gera tudo isso, então nem vem.

- Não ligo para o que você fala japonesa, era você que estava com ela e não eu. – rebato.

Ela respira fundo.

- Aí que está o problema, você não estava lá. – ela retruca.

A porta do elevador abre e ela saiu como o vento do lugar, a sigo em passos lentos e em certas distancia.

Brigar com a Naomi ou mesmo implicar com ela é a mesma coisa que falar com paredes, ou ela não responderá e nem escutará o que você, ou ela irá rebater todos os golpes que você deferir nela.

Naomi para em frente a uma mulher com um jaleco branco, talvez seja a médica.

- Esse é o pai do bebê. – ela aponta para mim.

Sorrio breve para a mulher.

- Bem, podemos conversar a sós. – ela mostra uma porta ali perto.

Aquiesço.

Meu coração começa a bater acelerado, coisa que quase nunca acontece. Será medo da pior hipótese que existir?

Ela senta de frente comigo e me encara terna.

- Pode falar. – murmuro.

- A Cassandra passou por circunstancias fora do normal em uma gravidez e no parto, primeiro por sua gravidez de risco, depois pelo incêndio e depois pelo parto em casa sem anestesia.

Fico paralisado.

Aquela monstrinha foi a origem de tudo o sofrimento da Cassandra...

- Ela sofreu de uma coisa típica, sofrimento fetal, quando o bebê não tem oxigenação necessária, por causa da hipertensão arterial. – ela diz calma.

Já ouvi falar nisso, mas nunca imaginei que a Cassandra poderia sofrer isso, o que me faz ter mais remorso ainda.

- O que não sabemos é porque ela teve a ruptura uterina, ainda estamos investigando isso.

Franzo o cenho.

- O que é isso?- balbucio.

- A ruptura do útero. – ela sorri- Já induzimos uma cirurgia e conseguimos suturar o mesmo.

Respiro aliviado.

- Como ela está?

- Dadas as circunstancia, ela lutou demais e lamento em dizer que ela entrou em coma. – a mulher diz baixo.

Meu peito dói. Coma?!

- Ela vai acordar?- tento ser esperançoso.

- Olha- a mulher diz baixo-, ela pode acordar em meses, anos ou não acordar.

Meu corpo parece entrar em choque.

Ela pode nunca mais acordar, eu nunca mais poderei olhar naqueles olhos castanhos e saber que vai ficar tudo bem, e como eu pude pensar em deixa-la? Sou um monstro.

- Posso vê-la?- balbucio.

- Claro. – ela levanta.

Caminhamos pelo corredor, paramos em frente a uma porta.

- Pode entrar. – ela sorri e saí andando.

Abro a porta e o ambiente está escuro. Engulo seco.

Adentro no local e fico em silêncio, escuto o “bip” dos equipamentos ligados a ela. Fico de frente para a maca e lá está ela.

Com os cabelos castanhos jogados em cada lado do corpo, pele pálida e olheiras, respira calmamente com a ajuda dos equipamentos e parece estar relaxada.

Foi por isso que quis deixa-la, apenas para evitar isso, mas o que adiantou tudo isso? Olhe como ela está agora.

Olho para a sua barriga, agora desinchada e “vazia”. Me dói saber que uma coisinha tão pequena causa um estrago tão grande, um estrago que talvez nunca posso ser reparada.

Me aproximo dela e pego em sua mão, subindo por seu braço, até seu ombro, onde eu paro.

Cassandra...

Afago seu rosto com as costas dos dedos, sua pele continua suave e macia, seu cheiro continua doce, ela continua linda.

A consciência fica pesada demais para suportar, o choro tenta sair e o arrependimento tende a ficar. Eu não estava lá quando ela precisou de mim, na verdade, eu nunca estive.

- Me perdoe. – murmuro.