Já faz mais de uma hora que eu estou aqui sentada, encarando o mar e escutando o barulho forte das ondas no rochedo da casa. Sinto-me extasiada agora, é como se eu estivesse boiando na água, em completo silêncio e pânico.

- O que ele falou pra você?- alguém fala comigo.

Olho para o lado e vejo o Nathan.

— Nada de especial. – sorrio de canto.

Ele senta ao meu lado.

- Se não fosse nada, você não teria ficado assim.

- Por que você é assim?- encaro-o.

- Assim como?- ele franze o cenho.

- Tão frio e assassino?- comento bem baixo.

Ele respira fundo e encaro o mar.

Fico em silêncio assim como ele, o único barulho entre nós são as ondas, o vento quente batendo em meu rosto, ressecando a minha boca e levando a minha coragem embora.

- O que o seu pai falo é algo bem importante, Nathan. – continuo.

- Sabe, um dia eu fui um cara sentimental e preocupado com quem estava a minha volta. – murmura ele- Eu sabia valorizar as pessoas a minha volta por não querer seguir o exemplo que o meu pai me deu.

Encaro-o firmemente, tentando captar qualquer expressão confusa ou mentirosa.

- A Isabela me ajudou nisso, ela me ajudou com máfia quando eu comecei e então ela ficou grávida, eu me senti culpado, mas eu irei continuar com aquilo e foi o que aconteceu. Ela me ajudou até onde pode e depois em continuei sozinha, no entanto já estava grande e rico na máfia- ele me encara- O bebê nasceu e aquilo foi algo bom na minha vida, nunca me senti assim. Depois de cinco meses, eu me envolvi com um tráfico de drogas e prejudiquei as vendas de um mafioso mais poderoso que eu.

Meu coração bate acelerado e minha respiração fica descompensada.

- Então ele começou a me caçar, pedi ajuda para o meu pai, pelo menos para tirar a Isabela e o bebê daquele meio, eu nunca o encontrei e comecei a me virar sozinho, só que eu não podia governar a máfia e protege-los. – ele continua- A invasão começou e eu tinha que tira-los de lá, mas quando eu cheguei, ela já estava morta.

Mordo o lábio inferior.

- Aquilo foi pior do que ser caçado e fui assim que ele me ensinou a ficar no meu lugar. – ele diz em lamento.

Suspiro e abraço meus joelhos.

Realmente isso foi bem marcado pra ele, bem pior que o Adolf foi pra mim e ele tem motivos sérios para fazer o que faz.

- Por que o bebê não foi uma ameaça naquela época?- murmuro.

- Eu não era tão grande como eu sou agora, então minha hierárquica era mais fraca e nenhum me enxergava como me enxergam agora. – ele sorri.

- Por isso que você não gosta do bebê agora? Por que isso te fez sofrer no passado?- balbucio.

- Cassandra, eu não é que eu não gosto dele, eu gosto. – ele me encara- Só tenho medo de passar por tudo aquilo de novo e você é mais importante do que a Isabela foi.

Me sinto culpada por meio que acreditar no Ícaro e ter até o intuito de deixa-lo aqui, agora eu sei realmente o que aconteceu e o quão sofrido ele pode ser.

- Eu poderia ter ficado mais tranquila com isso se você me explicasse e me falasse das coisas. – murmuro.

- Quem cala, consente. – ele sorri.

Balanço a cabeça negativamente e sorrio.

- Você já foi a um psiquiatra?- encaro-o.

- Você é minha psiquiatra. – ele ri.

Ainda bem que eu sou uma ótima ouvinte e sei debater quando necessário.

Levanto com cuidado e o encaro, ele faz o mesmo. Voltamos para dentro da casa.

Tenho pena do Nathan agora, eu sei como é perder uma família de modo tão trágico e eu acho que não conseguiria seguir em frente se tivesse passado pelo o que ele passou.

- Quer ir dormir?- ele vai até a escada.

- Não estou com sono.

- Quer fazer o que então?

- Qualquer coisa. – dou de ombros.

Ele ri e vem até mim.

- Para de pensar demais. – ele coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.

- Não tem como não pensar perto de você.

Ele inclina a cabeça pra frente, meus lábios hesitam pelos deles e não sei se estou totalmente concreta sobre a nossa relação, mas não consigo fazer nenhuma objeção contra isso.

Seguro em sua blusa e puxo-o para mais perto de mim, consigo sentir seu cheiro novamente e ter seu corpo quente no meu. Meus lábios encostam aos dele, inicio o beijo calmamente, deixando a meu pânico e o meu medo de lado.

Me afasto dele tento recuperar o fôlego, quanto mais eu me evolver com ele, menos eu consigo pensar sobre as circunstâncias a minha volta. Uma questão ainda me assombra; Quem é o Nathan? O menino que o Ícaro descreveu ou o meu menino dos olhos azuis?

- Como eu faço para te entender, Nathan?- encaro-o.

Ele suspira.

- Não há como me entender. – ele sorri.

- Tudo tem um entendimento. – rebato.

- Então ache o meu. – ele faz um gesto com as mãos e depois sorri.

Dizem que a matemática é uma ciência exata, onde tudo tem uma resolução e lógica no mundo. De fato o Nathan é um problema sem solução, uma anomalia para a ciência, um ser primitivo em questões de lógico em entendimento, um animal em extinção mental, o menino de olhos azuis. Então, por mais de tudo, creio que não serei capaz de deixa-lo ou julga-lo como o Ícaro faz, não sou tão sangue frio em abandonar alguém sem ressentimento algum, eu não sou forte o suficiente para isso, talvez um dia eu seja forte o suficiente para entender o fenômeno Nathan, mas agora eu só preciso achar o problema que o gerou assim, eu serei a lógica dele.

Voltamos para o quarto e deitamos. Sei que ele não está dormindo, pois eu também não consigo dormir depois de tudo isso.

- Eu gostei da cama. – murmura ele.

- Que bom. – murmuro.

- Também gostei das suas fotos.

Sinto o meu rosto esquentar e quero afundar o meu rosto do travesseiro.

- Não tinha nada pra fazer. – sussurro.

- Mas eu gostei. – ele se mexe na cama- Faz tempo que eu não tiro fotos.

- Desde quando?- encaro-o.

- Muito tempo. Eu tirava mais fotos quando eu era criança com a minha mãe. – murmura ele.

Acho que posso ter uma ideia do que se passa por ele, Nathan já teve tantas decepções na vida e a maior delas foi o amor, algo que sempre o feriu como fere qualquer um, porém o dele foi um sentimento que tirou tudo, a mãe, a suposta namorada e filho.

- Por que você não conta o que você sente?- murmuro.

- Simplesmente porque os meus pensamentos são a única coisa que me pertencem e nunca irão me magoar de verdade.

Somos dois.