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23 Capítulo 23
Uma claridade forte me obriga a abrir os olhos. Pisco algumas vezes até minha visão ficar mais focalizada.
- Nathan?- esfrego os olhos.
Ele ainda está deitado na cama e parece estar sorrindo.
- Por que a felicidade?- murmuro sonolenta.
- Nada. – ele dá de ombros.
- Vou tomar banho. – sorrio e levanto da cama.
O meu banho demora um pouco pelo simples fato de minha revisão de tudo o que aconteceu nos últimos dias. Ainda não sei o que eu sou aqui e prefiro assim.
Saio do banheiro o Nathan já não está mais no quarto, é estranho, mas tudo bem. Coloco uma roupa confortável e desço, todos estão na sala.
- O que houve?- pergunto da escada.
Eles parecem não me escutar, aproximo-me da sala e entro no meio da roda.
Congelo assim que vejo uma foto minha na Tv. Puta que pariu...
- Mas... Mas o que é isso?- gaguejo.
- Acho que sua avó fez a denuncia do sequestro. – Naomi comenta.
- Depois de tanto tempo?- balbucio.
- A policia é meio lenta. – Alek ri.
Concordo.
- E agora?- encaro o Nathan.
- Se eles só publicaram agora, vai demorar mais um mês para começar a interrogar as testemunhas e depois mais um mês para começar a investigação, claro, se eles não arquivarem o seu caso. – ele diz sem muito interesse.
- Acho que com a minha avó em cima, eles não fariam isso. – deduzo.
- Não é a sua avó que manda lá. – Nathan sorri triunfante.
Idiota.
- Mas mesmo assim vamos tentar anular a sua existência. – ele pisca pra mim.
- Como?- cruzo os braços.
- Oras, com o jeito Nathan. – ele sorri e saí andando.
Não sei como eles vão fazer para me encobrir aqui, será bem difícil, ninguém consegue tirar uma pessoa da existência do nada, eu tenho registros em um monte de lugar, principalmente na obstetra, então eles terão que fazer mágica.
Só sinto remorso pela minha avó, ela deve estar muito mal. Tenho que tentar falar com ela de algum jeito, qualquer jeito.
- Nathan. — chama-o.
— Fale. – ele me encara.
- Eu quero falar com a minha avó. – falo firme.
Ele me encara pasmo como se não acreditasse em mim.
- Não pode, eles podem rastrear o celular.
- Mas eu preciso falar com ela. – teimo.
- Em uma hora mais agradável.
Respiro fundo.
Sou a pessoa mais azarada do mundo, quando os problemas estão acabando, chegam outros a todo o vapor e acabam fudendo com tudo.
- O Nathan tem razão. – Naomi fica ao meu lado- Se o caso já foi para a polícia, eles devem ter grampeado a casa inteira da sua avó e o seu apartamento, é melhor você continuar inativa.
Odeio quando o Nathan tem razão.
- Tudo bem. – murmuro.
Vou até a cozinha e faço um lanche natural para eu comer, enquanto observo o movimento pela casa.
Posso perceber que a minha será apagada daqui pra frente, nada de Cassandra.
**
Digamos que ninguém jamais teve uma vida tão parada quanto a minha. Quase não pude deixar minhas digitais pela casa que já era motivo do Nathan dar à louca.
Minhas consultas eram feitas em casa com um médico conhecido e parece que ele não vai contar nada, e eu até sei por quê. Gostei de ficar em casa pelo simples fato do Nathan ficar comigo aqui e participar de algumas sessões de ultrassom, daquele jeito dele, mas participou.
- Você não acha estranho?- encaro a Naomi.
- O quê?- ela ergue uma sobrancelha.
- Ter um ser humano crescendo em outro. – encaro a barriga, já bem visível.
- Que bom que é um ser humano. – ela diz sarcástica.
- Queria que fosse o quê?
- Sei lá, agora está na moda ter vampiros e alienígenas. – ela ri.
- Tem vistos muitos filmes. – sorrio.
Ela concorda.
Minha barriga já está muito grande para eu ter uma boa posição sentada, deitada ou fazer qualquer coisa, chega até ser cansativo.
- O seu médico chegou. – Alek entra em casa seguido do doutor.
- Oi. – sorrio.
Ele acena com a cabeça.
- Vou chamar o Nathan.
Ando vagarosamente até o escritório e bato na porta. Abro e encaro o Nathan.
- O doutor chegou. – murmuro.
Ele respira fundo e levanta.
Subimos até o quarto, onde eu deito na cama e o doutor arruma os equipamentos.
- Já dá pra saber o sexo do bebê?- comento.
- Bom, você já passou dos quatro meses e mais ou menos aí que já dá para saber. – ele me encara enquanto arruma o ultrassom portátil.
Tomara que seja menino.
Depois de arrumar tudo e começar o ultrassom, o único som do quarto era o coração do bebê. Meus olhos estão fixos ao Nathan, que permanece de costas para nós, encarando a janela. Inconveniência pura.
- Menina ou menino?- comento.
O doutor sorri e encara o monitor.
- Será que ele vai deixar ver hoje?- ele encara a minha barriga.
- Torço que sim.
Ele concorda e continua mexendo.
Não sei se é porque estou muito ansiosa para saber sobre o sexo, mas está demorando demais.
- Parece que vocês terão uma menina. – o médico comenta.
Nossa, eu jurava que seria um menino, mas portanto que venha com saúde.
Nathan não esboça qualquer reação, continua uma estatua longe da gente.
- Está tudo bem com a garotinha de vocês. – ele levanta- Só que terei que passar uma dieta para você.
Suspiro.
Odeio dietas...
- Preciso que você se alimente exatamente com base na pirâmide alimentar, consumindo mais os da base a os do ápice. Não poderá comer nada com muito sal, isso pode agravar ainda mais a sua hipertensão, quero também que coma três porções por dia de laticínios. – ele diz sério.
Terei que anotar isso.
- Se eu não me alimentar corretamente, pode causar algum risco?- balbucio.
- Sua gravidez já é um grande risco, mas podemos evitar complicações desnecessárias. – ele sorri.
Concordo.
Se eu não posso passar por muito estresse, como terei um parto normal? Já que é o mais recomendado.
— O meu parto... Como será feito?- murmuro.
- Como todos obstetras que conheço indicam parto normal para jovens como você, seria o correto eu fazer igual, mas a pressão alta pode interferir nisso, então acho melhor fazermos uma cessaria.
Graças a deus! Eu odiaria ficar sofrendo durante horas em uma cama, sem ninguém poder me ajudar concretamente, já que minha dor é algo bom.
Abaixo minha blusa e levanto com a ajuda do médico.
- Tome. – ele me entrega um cartão.
- O quê é isso?- franzo o cenho.
- Mandaram para você. – ele se dirige a porta- Tchau.
- Tchau. – eu e Nathan falamos em uni som.
- O quê é?- Nathan se aproxima de mim.
- É meu. – puxo o cartão pra mim.
Ele revira os olhos e depois ri.
- Me deixa ver. – ele faz cara de coitadinho.
- Você não me deixa ver suas coisas. – rebato e caminho até o banheiro.
Fecho a porta e tranco, Nathan fica batendo do lado de fora, simplesmente ignoro-o.
Abro o cartão e começo a ler...
Querida Cassandra,
Sei que não tivemos um conhecimento favorável um do outro, pelo menos de minha parte.
Quero lhe agradecer por ter aparecido na vida do Nathan, depois de tantas decepções sofridas, achei até que Nathan seria um caso perdido. Creio agora, que com você, ele será pelo menos um pouco mais feliz.
Estou aqui para qualquer pedido de ajuda, por isso estou oferecendo o doutor Marcos, já que você está sendo procurada pelo país inteiro (não se preocupe, Marcos não ousaria abrir a boca para falar nada de vocês).
É como um agradecimento de minha parte, não fique irritada comigo ou com o Nathan. Isso é apenas um presente que o avô dá ao seu neto(a).
Ícaro.
Fico estática encarando a carta, quer dizer então que o doutor, Marcos, não está recebendo suborno do Nathan? Foi o Ícaro que o mandou aqui, e o Nathan aceito!
Abro a porta e encaro o Nathan.
- Você sabia que o seu pai mandou o Marcos aqui?- ergue uma sobrancelha.
- Sim, eu que pedi. – ele sorri.
- Por quê?- balbucio.
- Uma vez eu não consegui proteger quem eu amava porque eu achava que eu seria bom o suficiente para isso, mas hoje não cometerei o mesmo erro.
Nossa! Isso é como se fosse uma declaração de amor.
- Obrigada, mesmo. – sorrio.
Sinto um farfalhar em minha barriga, nada que eu já não tivesse sentido nos meses atrás, mas agora parece estar mais forte. Um chute.
Estremeço.
- Está tudo bem?- Nathan franze o cenho.
- Sim, já senti isso antes. – sorrio torto.
- O quê?- ele inclina a cabeça.
- Isso. – puxo a mão dele e coloco-a em minha barriga.
Ele fica lívido e tenso. Essa talvez seja a primeira vez que ele coloca a mão na minha barriga.
- Viu, ela não morde. – sorrio.
Ele sorri tímido.
- Mas ainda sim- ele retira a mão-, acho isso muito estranho.
Respiro fundo.
Quando o Nathan vai perder esse ar de infantilidade e focar que realmente, depois de tudo isso, ele vai ser pai?! Até o Ícaro já reparou isso, menos ele. Tudo bem, ele sofreu uma vez com isso, eu também já sofri com o amor e cá estou eu a amar novamente.
- Cresça Nathan. – balanço a cabeça negativamente.
Ele revira os olhos.
- Aonde você vai?
- Em lugar nenhum. – caminho até a porta- Talvez conversar com a Naomi ou com o Lucas.
Ele vem atrás de mim e me encara.
- Problema?
- Não. – ele ri- Não posso mais olhar para você?
- Não. – saio andando.
- Credo, como você é chata. – ele resmunga.
- Estou grávida, me respeite. – falo da escada.
- Ainda tem ouvido biônico. – ele fala mais alto.
- Cala a boca seu infantil. – falo alto.
Escuto ele rir.
Ele não passa de um idiota.
- Olá grávida. – Adam me encara.
- Oi. – sorrio.
- Até que você está elegante para uma grávida. – ele me analisa dos pés a cabeça.
- Que bom, mas me sinto como um botijão de gás. – rio.
Ele ri.
- Por uma boa causa. – ele me ajuda a terminar de descer a escada.
Talvez.
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