Nathan vota a dormir, continuo deitada ao lado dele olhando pela janela e viajando no imenso mar azul.

Vejo uma pequena luz no meio do mar se aproximar cada vez mais da casa, ao longe parece inofensiva, mas será que é mesmo?

Levanto com cuidado da cama e coloco a blusa do Nathan e procuro no guarda roupa uma calcinha, porque odeio usar calcinha que já foi usada, no entanto eu acho uma cueca box do Nathan. Coloco-a e saio do quarto.

Acompanho a luz pelo vitro da escada e pela parede de vidro da sala, ela chega à casa e para. Fico perto da porta da sala e olho pelo pequeno pedaço de vidro que mostra um pedaço do jardim. Tem movimento do lado de fora da casa, gostaria de ter visão noturna.

Vejo vultos de um lado para o outro, até a porta abrir e eu levar um susto, suprimo um grito. Naomi me encara da porta.

- Ah, é você. – falo aliviada.

- Esperava alguém?- ela franze o cenho.

- Não. – sorrio- Apenas queria saber o motivo do movimento lá fora.

- O Leo estava me esperando. – ela entra- Precisa de algo?

- Não.

Percebo que ela carrega uma maleta preta grande e aparenta ser meio pesada.

- Sabe onde é o seu quarto?- encaro-a.

- Não se preocupe. – ela vai até a cozinha e coloca a maleta em cima da pia.

- Onde estava?- sento na bancada.

- Serviços para o Nathan. – ela diz simplesmente.

- Que tipos de serviços?- debruço no balcão.

Naomi não é especialmente empregada do Nathan, ela apenas faz trabalhos à parte, então ela não precisa guardar segredo de ninguém.

- Procurando pela Victoria, descobrimos uma nova organização do Muller. – ela diz ainda de costas pra mim.

Franzo o cenho. Organização?

- Ele conseguiu novos empregados e criou um novo grupo. – ela esclarece.

- Então isso explica os rapazes que nos atacaram no porto, né?

- Sim, ele está investindo em jovens. – ela abre a maleta.

Consigo ver as famosas facas dela.

Ela as retira da maleta e pega uma garrafa, consigo ler no rotulo “glutaral”.

- Pra que serve?- comento.

- É para esterilizar e desinfecção das lâminas. – ela diz com naturalidade- Posso ser assassina, mas cuido bem dos meus instrumentos.

- Só para garantir um corte melhor?- rio.

- Sim. – ela parece rir.

Ela pega uma bacia e enche daquele liquido da garrafa e coloco as facas lá dentro.

- Agora terão que ficar durante oito horas ai. – ela se volta pra mim.

Encaro seus olhos escuros.

- E o bebê?- ela inclina a cabeça.

- Hum... Bem... Acho que sim. – sorrio.

- Onde está Nathan?

- Dormindo. – sorrio torto- Está muito cansado.

Eu sei muito bem por que. Coro.

- Certo, quando ele acordar, peça para vir falar comigo. – ela saí andando e para ao meu lado- A Vic pode estar perto.

Arregalo os olhos.

- Onde?- falo exaltada.

Ela dá de ombros e saí caminhando pelo corredor escuro, sumindo.

Abaixo a cabeça e encaro o mármore do balcão. O Muller criando um novo grupo de mafiosos, a Vic está perto. Isso parece ter uma ligação, insignificante, no entanto, tem.

Encaro minhas mãos apoiadas no balcão e logo em seguida a bacia que contém as facas da Naomi, depois encaro o corredor escuro e sei que no final dele tem uma porta, atrás dela há armamentos pesados e mortais, além de drogas. Será que aqui, uma criança consegue ter uma infância normal?

O reflexo do Nathan vem como o exemplo mais cruel de todos, o trauma que ele carrega na alma pode nunca mais ser curado, nem tratamentos médicos podem trazer a cura do meu menino de olhos azuis, muito menos essa pequena criança.

Suspiro.

Levanto do banco e apago a luz da cozinha, caminho no escuro até o sofá, deitando com certo esforço. Encaro a escuridão que me abraça e encolho-me no sofá. Apenas sinto dó, dó da criança que vem, dó de mim, dó do Nathan e dó da vida.

- Cassandra.

Escuto uma voz ao longe me chamar, é uma voz conhecida, mas não consigo responder como se o meu corpo não fosse o meu ou como se eu não o comandasse. Fico muda, apenas apreciando a voz.

- Cassandra.

A voz fica mais perto, embora eu tente responder e esteja gritando por dentro, não omito nenhum som.

Uma mão toca em meu ombro e eu desperto em um pulo, sentando no sofá. Estou suando frio e meu corpo está tremulo.

- Você está bem?

Olho em volta e vejo o Nathan, acho que não era um sonho, devia ser ele me chamando.

- Sim. – forço um sorriso- Por que saiu da cama?

- Não estava lá, então resolvi vir te procurar. – ele senta no sofá- Por que você saiu?

- Vim ver a Naomi chegar. –suspiro.

- Tenho que falar com ela. – ele murmura para si, embora eu consiga escutar.

- Ela queria mesmo falar com você. – afirmo.

Ficamos em silêncio.

O mesmo parece durar uma eternidade entre nós, nunca ficamos assim e agora parece uma coisa essencial.

- Quer me falar alguma coisa?- encaro-o.

- Quer que eu falo?- ele sorri..

Dou de ombros.

- Só não quero ficar em silêncio. – rebato.

Ele suspira.

- O silêncio vale mais que palavras. – murmura ele.

- Nunca ficamos em silêncio.

- Eu sei, talvez por isso brigamos demais, temos que aprender a calar. – ele me encara terno, seus olhos azuis em contraste com a luz do ambiente.

Sorrio e olho pra baixo.

- Por que você gosta de mim?- murmuro.

- Como assim?

- Por que gosta de mim? Você tem mulheres muito melhores que eu, tipo a Alex, mas mesmo assim ficou comigo. – encaro-o.

Ele dá de ombros.

Isso foi tecnicamente uma pergunta sem pensar, mas com sentido. Por que em meio a tantas mulheres “maduras”, ele foi escolher a que tinha que morrer? A mais frágil de todas? A virgem bobinha?

- Eu sempre quis saber no que está pensando. – ele comenta.

Sorrio.

- Em muitas coisas ao mesmo tempo.

- Tipo o quê?

Encaro-o.

- Sei lá, muitas vezes não escuto os meus pensamentos e ajo por impulso.

Ele ri.

- Também faço coisas por impulso e não acho que seja aconselhável. – ele me encara.

- Devia ter avisado antes. – murmuro.

Devia ter avisado isso antes de eu me apaixonar por você.

- Sabe- encaro dentro dos olhos deles-, eu já fui uma pessoa mais forte.

- Mais forte?- ele indaga.

- Sim. – afirmo.

- Por que não é mais?- ele me encara com a cabeça inclinada.

- Por causa do Adolf. – encaro o sofá- Era o filho do meu tutor.

Nathan franze o cenho.

- Eu escondo isso de mim mesma, e é meio dolorido sabe, tento pensar em muitas coisas ao mesmo tempo como distração para eu esquecer. – encaro-o novamente.

Ele fita os meus olhos escuros como se fosse as joias mais raras do mundo.

- Ele morou comigo minha infância inteira, consequentemente minha adolescência e isso foi um erro, eu devia ter o mandado embora- aperto minhas mãos-, porém eu não tive a iniciativa.

- O que ele fez?- Nathan franze o cenho.

- Você não entenderia.

- Então por que está falando pra mim?- ele inclina a cabeça.

- Preciso desabafar com alguém e você é o único aqui. – sorrio torto.

Tudo que eu tenho medo se volta no passado, na época em que eu vive com Adolf, quando quase aconteceu o desastre e quando eu ganhei uma cicatriz para a vida inteira, talvez essa cicatriz me impeças de ter uma relação “normal” com o Nathan.

Respiro fundo.

O que adiantou eu esconder de mim mesma? Isso acarretou o meu próprio sufocamento com meus sentimentos, isso gerou mais dor.

- Eu namorei com ele. – murmuro- Namoramos normalmente, como qualquer adolescente.

- E... ?

- Ele queria mais de mais e eu não podia dar, eu não estava preparada para amar daquele jeito, tinha apenas 14 anos.

As lembranças vêm em minha mente, tomando o lugar dos pensamentos.

- Quantos anos ele tinha?- Nathan me encara.

- Acho que... Hum... 17.

- Não precisa continuar. – ele afaga o meu rosto- Afinal, é passado.

Sorrio e me aproximo mais dele.

- Mas isso ainda me atormenta. – murmuro.

E por um momento entendo o Nathan e sei a dor que ele sente, talvez ele sofra de si mesmo.

- É um erro Nathan. – murmuro.

- O quê?

- O que fazemos, não podemos deletar o passado ou tentar esquece-lo. – encaro-o – Isso é o que causa mais dor.

- Por que nunca falou disso pra mim?

- Porque eu não gosto nem de lembrar, imagina narrar a historia outra vez, escondi isso de mim, deletei da minha vida, mas esse foi o meu erro, pois eu acabei me escondendo de meus próprios sentimentos.

Ele não diz nada, apenas me encara como se tivesse entendido a mensagem.

Uma apagão acontece em minha mente, tento esquecer as lembranças mais uma vez, embora elas gritam para sair do escuro.

Coloco a mão na cabeça e suspiro.

Consigo sentir novamente o meu corpo bater contra o chão com força e os vidro cortar minhas pernas, os olhos negros me encarando sérios e possessos, as lagrimas cortando o meu rosto e ferindo a minha alma. O ferimento se formando, onde hoje é apenas uma cicatriz e lembrança quase esquecida e o medo mais uma vez me deixando imóvel e sem reação.

- Não seja igual ele. – encaro os olhos azuis.

- Mas o que ele fez?

- Ele conseguiu ferir uma alma de um modo cruel, assim como você vem fazendo. – levanto do sofá.

Talvez essa lembrança me ajude a enfrentar o que vem pela frente, me mostre que eu ainda sou forte o suficiente para continuar e fraca para desistir, me faça impedir outro desastre, outra decepção.

Mas, por favor, não lembre...