Buscando o Crescimento — e imi ana i ka ulu ana
1 Pakele kuka
Notas iniciais
"Família,
Juro que não esperava que tudo acontecesse de uma vez. Acho que ninguém espera, na verdade. Não vou entrar em detalhes por enquanto, não quero assustar ninguém (acho que isso é uma desculpa pra encobrir o fato de que não estou pronta para falar sobre o que houve), mas quem sabe um dia.
Pergunta rápida: já passou por algum momento da sua vida em que você olhou ao redor e simplesmente não entendeu o que estava acontecendo? Muitas pessoas lidam com esse sentimento de confusão de uma forma muito tranquila, quisera eu agir assim. Meu palpite é que meu cérebro não estava preparado pra lidar com tanta coisa de uma vez só então ele decidiu não lidar com mais nada. Meigo.
Mesmo tendo odiado a reação dele perante tantos problemas, acredito que tenha sido necessário. Se não fosse por ele, eu não teria ido para o hospital, logo, não teria passado tanto tempo pensando em como eu precisava de uma mudança radical, logo, não teria organizado um plano pra deixar tudo pra trás e consequentemente mudado de país. É complicado de entender, eu sei. A única coisa que eu quero que saibam é que: eu cansei. Não é drama, não é frescura. Preciso ir atrás de mim e, por mais clichê que soe tudo isso, preciso me encontrar e me descobrir. Preciso ir sozinha.
Vou ficar bem, mando uma carta quando me sentir pronta. Não vou levar nada comigo, apenas meu dinheiro e minhas roupas.
Amo vocês.
Sarah.
P.S.: cuidem do gato da Katie, ele entra no meu quarto lá pelas 2am e só sai se abrirem a janela. "
Deixei a carta juntamente com meu celular e minhas chaves de casa em cima do balcão, do lado da porta. O relógio marca 8:30am, todos já saíram de casa. Juntei todas as minhas roupas, tudo coube em duas malas. No dia anterior abri uma conta no banco e depositei todo o dinheiro que eu vinha guardando para o casamento. Todo o dinheiro que recebi de parentes e amigos e todo o dinheiro que recebi vendendo os presentes juntos deram uma quantia assustadora. Só de pensar que tudo isso seria gasto com um cara que não ligava pra nada disso e com uma "eu" totalmente iludida com a imagem de casal perfeito que criávamos me dá arrepios e me deixa com vontade de por todo o meu café da manhã para fora, de um jeito não muito bonito.
Chamei um táxi e fui até o aeroporto. Comprei a passagem que havia reservado e despachei minhas malas.
"Atenção! Entrada de passageiros autorizada para vôo de número 0751, com destino à Honolulu, Havaí. Porta de embarque D3", uma voz feminina anunciou nos auto falantes, "repetindo: entrada de passageiros autorizada para vôo de número 0751, com destino à Honolulu, Havaí. Porta de embarque D3"
Um homem sentado próximo à mim se levantou, pegou sua mala de mão, respirou fundo e se dirigiu às escadas que levavam ao portão. Olhei para os lados, algumas pessoas já se levantavam, abraçavam alguém e iam pelo mesmo caminho.
Respirei fundo, olhei para baixo e me vi repassando todos os problemas que poderiam ocorrer e me impedir de fazer essa viagem. Tateei meu bolso, mas logo me lembrei que meu celular estava em casa. Que ideia idiota essa, e se eu passar por alguma emergência, como vou avisar minha família? E se toda esse plano de "recomeço" for na verdade uma loucura sem tamanho e eu esteja entrando numa cilada sem volta? Se eu correr ainda consigo chegar em casa antes de meu irmão encontrar o bilhete... talvez seja melhor mesmo.
Me levantei e caminhei em direção contrária ao do portão de embarque. As portas automáticas da saída de abriram, mas eu não consegui ir adiante.
Sim, posso estar cometendo um erro horrível ao ir embora. Sim, posso estar prestes a jogar uma vida segura ao lado de quem amo no lixo por nada e, sim, ir para um país totalmente novo pra mim é uma loucura sem tamanho. Mas eu nunca vou saber se vai dar certo ou não se não tentar. Preciso ir para o Havaí.
Dei meia volta e embarquei no avião. Não lembro muito dessa parte, estava tão nervosa que quando sentei no meu lugar já não respirava direito. Alguém me perguntou se eu estava me sentindo bem e a única reação que tive foi um sorriso de orelha à orelha.
— Estou prestes a mudar completamente minha vida... — Olhei pela janela e vi a cidade em que eu nasci, cresci e vivi ficando cada vez menor, vi todas as minhas decepções ficando cada vez menores e sendo cobertas por nuvens brancas. Percebi que aquilo jamais poderia ser um erro, já estava me sentindo melhor e maior do que tudo que havia passado. — Estou me sentindo incrível.
A mulher do meu lado sorriu, disse que estava voltando pra casa, e havia acabado de passar pelo que eu estava passando. Segurou minha mão, apertou um pouco e depois soltou.
— Te desejo toda a sorte do mundo!
Agradeci e olhei pela janela novamente. Todos os meus medos e inseguranças já haviam ficado para trás e agora o que me tomava conta era o desejo de mudança. Estou ansiosa para ver o que vai acontecer agora que estou completamente sozinha. Nunca me senti melhor, mais independente.
Depois de algumas horas a aeromoça me acordou, a mulher que antes havia conversado comigo não estava mais no assento ao meu lado. A aeromoça me pediu para afivelar os cintos e me preparar, íamos aterrissar dentro de 15 minutos.
Meia hora depois me vi do lado de fora do aeroporto de Honolulu, me vi sozinha, mas feliz. Completamente extasiada com a ideia de que daqui pra frente era só eu e minhas escolhas. Não vejo a hora de começar a realmente viver a minha vida.
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