Notas iniciais
"Um Estranho" Por mais fantasioso e clichê que seja, é pura verdade quando dizem que quando você menos espera, algo acontece e você se vê feliz.

Deixei que meus pulmões se enchessem com o ar daquela cidade. Vi todas aquelas pessoas passando, algumas falando no telefone, outras entrando em táxis, todos com uma expressão de que sabiam exatamente para onde estavam indo. Imitei da melhor forma que pude e fui até um dos táxis vazios.

— Hookipa ana! — o senhorzinho sorriu para mim. Parecia novo, mas seus cabelos eram grisalhos, tinha marcas de expressão por todo rosto e deduzi que eram efeito de ser a pessoa alegre que parecia. — Vou colocar suas coisas no porta malas e logo em seguida partimos. Pode ir entrando e se acomodando!

Ele abriu a porta para mim e eu entrei. O painel do carro era totalmente decorado, tinha até uma daquelas menininhas havaianas que rebolam conforme o carro se movimenta, como as que vemos nos filmes. Ele entrou no carro e se virou para mim.

— E então, qual o endereço?

— Esse aqui — entreguei-lhe um papelzinho com o endereço do hotel. — Fica muito longe?

— Um pouquinho só, mas eu te dou um desconto. Parece nervosa, sua primeira vez no Havaí? — ele deu partida no carro e seguimos o trajeto até o hotel. Sempre que conversávamos ele me olhava rapidamente pelo retrovisor.

— Sim... — larguei tudo por esse lugar. — pensei um pouco e corrigi — na verdade, tudo me largou e eu vim para cá.

Ele sorriu com brandura.

— Me parece Pele. — ele me olhou rapidamente.

— "Pele"? Como assim? — indaguei.

— Pele, Deusa dos Vulcões. Antiga lenda, ela se mudava bastante. Sempre que sentia vontade. Se mudou tanto que criou ilhas novas por precisar de espaço. — ele estreitou os olhos. — kupuna wahine sempre me dizia para tomar cuidado com as velhas, "uma delas pode ser Pele!"

— Acredito ser nova para ser Pele — sorri.

— É, sim — ele riu também e manobrou o carro para estacionar. Olhando pela janela, vi a fachada do hotel em que me hospedaria. — Mas nunca se sabe, vai que a Mãe das Lavas decidiu se tornar mais jovem! Com certeza escolheria uma aparência como a sua.

— Agradeço, eu acho — ri e desci do carro. Ele tirou minhas bagagens do porta malas e levou-as até mim. Paguei a corrida e me despedi, agradeci pelo trajeto e pela conversa agradável. Ele me desejou uma boa estadia e partiu.

Fiz o check-in e subi para o quarto onde ficaria, não era um hotel muito luxuoso, por isso o quarto era pequeno, mas nada que incomodasse. Arrumei minhas coisas, tomei um banho e coloquei um pijama. O sol se punha do lado de fora, a vista da sacada era espetacular.

Liguei a pequena televisão que havia no quarto e entrei embaixo nas cobertas. Não conseguia acreditar que eu estava realmente ali. Parecia um sonho! Longe das amarras e do julgamento de todos, me sentia livre e confortável. Mudar me fez bem até agora, vamos ver mais para frente. Quem sabe sinta a necessidade me mudar novamente no futuro? Lembrei da conversa com o taxista. Me peguei rindo da suposição que ele fez, eu como "deusa da lava".

Acabei adormecendo enquanto assistia a algum programa sem graça que passava na televisão. Acordei cedo no outro dia, mesmo sem querer. Me arrumei e desci para o lobby.

— maikai kakahiaka! — a recepcionista do hotel me cumprimentou. — Em que posso ajudá-la?

— Bem, eu não conheço nada daqui... gostaria de dar uma volta primeiro, para conhecer.

— Ah, sim! — ela me entregou um panfleto e indicou um pequeno mapa que vinha desenhado nele. — Vê essa estrelinha no mapa? É o hotel, onde você está agora... nesse pequeno mapa você pode encontrar o caminho para diversas lanchonetes e restaurantes. Temos também a direção para as melhores lojas e agências bancárias. Caso de perca, procure seguir o caminho até a estrelinha e estará aqui novamente.

Acenei e com um sorriso agradeci a ajuda. Resolvi ir à uma pequena lanchonete ali perto para poder comer alguma coisa antes de ir para a praia. Queria conhecer logo o motivo desse lugar ser paradisíaco, aposto que as praias são lindas.

Enquanto andava percebi o quão leve me sentia, sorri para quem passava e eles me sorriam de volta. Em nenhum momento desde que cheguei me senti sozinha ou com medo de que algo me acontecesse, me surpreendi com o quão confortável eu estava em ficar sozinha. Claro, sentia falta dos meus pais e do meu irmão, sinto falta da minha melhor amiga e vizinha, Katie, e de seu gato idiota que não me deixava dormir em paz. Sinto falta de várias coisas, mas não via outra opção senão essa loucura de jogar tudo ao alto e recomeçar a minha vida do zero.

Ainda perdida em meus pensamentos sentei em uma das mesinhas de uma charmosa lanchonete. Pedi o especial da manhã e aguardei. Prestei atenção nas pessoas que comiam ali, a maior parte adultos e idosos, todos pareciam contentes.

Comi sem pressa e passei o resto da manhã na praia. Sentei na areia e deixei que as águas molhassem meus pés. Consegui finalmente começar a leitura de um livro que já possuo há quase 5 anos e observei o horizonte.

Tirei aquela manhã para mim e à tarde passeei pela cidade em busca de agências bancárias. Saquei um pouco de dinheiro e fui até as imobiliárias: não posso ficar naquele hotel para sempre, o primeiro passo grande que tenho que dar rumo à independência total é bancar meu primeiro apartamento. Mas essa tarde só daria uma busca por cima, peguei dezenas de panfletos e anotei sites para acessar mais tarde. Tenho em mente mais ou menos como quero que meu espacinho seja, mas também não vou ser muito exigente.

Voltei para o hotel e enquanto procurava pela minha chave no corredor, ouvi gritos cada vez mais altos. Uma voz feminina e outra masculina se tornavam mais e mais altas e vinham de um dos últimos quartos do andar.

Tentei não prestar atenção pois eles pareciam só discutir, mas logo uma figura saiu pela porta de onde toda a confusão parecia acontecer. Era um rapaz alto, de moletom e com o cabelo bagunçado. Da porta surgiram roupas e calçados, chaves, um celular e uma carteira. Todas essas coisas bateram nele e, mesmo se esforçando para pegá-las, muitas delas caíram no chão. Continuei ouvindo uma voz masculina gritando mesmo depois que a porta estava fechada e percebi que não era o rapaz do corredor que participava da discussão, e sim alguém que estava dentro do quarto.

Ele se abaixou pra pegar suas coisas e me parecia surpreendentemente tranquilo. Fiquei tão presa ao que havia acabado de acontecer que acabei deixando cair todos os panfletos e papéis que havia recolhido durante o dia. Xinguei baixinho a situação e tentei recolher tudo o mais rápido possível, até aquele momento o rapaz ainda não tinha notado minha presença. Quando levantei a cabeça, ele me olhava.

— Pelo jeito as coisas não estão muito boas para você hoje — ele disse e se aproximou com um dos panfletos na mão. Recolheu alguns mais e me entregou.

— Pois é — respondi, juntei todos desajeitadamente embaixo do meu braço e peguei a chave do quarto na bolsa. — Mas se isso fosse uma competição, você com certeza ganharia.

Ele riu e balançou a cabeça, concordando. Eu destranquei a porta e a empurrei com as costas, ficando de frente para ele.

— Até mais. — Acenei com a cabeça — obrigada pela ajuda.

Ele segurou a porta aberta para que eu pudesse despejar tudo em cima da cama. Voltei para a porta e ele ainda estava lá.

— Vai ficar aí o dia todo? — perguntei sorrindo. Ele parecia constrangido e olhou apreensivo para o final do corredor onde ainda se podiam ouvir os gritos do casal.

— Eu estava pensando... sei que somos completos estranhos — Não estava gostando do rumo daquela conversa. — Mas será que você não poderia me fazer companhia essa noite? Algumas coisas minhas ainda estão lá no quarto dos dois malucos e precisava voltar mais tarde pra pegar.

— Não sei se é uma boa ideia — me encostei na porta — como você mesmo disse, somos completos estranhos.

Ele riu, mas insistiu.

— Por favor, a gente pode ir em um restaurante aqui perto, dar uma volta e depois, quando te deixar aqui, as coisas aqui do lado já vão ter esfriado e eu vou poder pegar minhas coisas. O que acha?

Ele me olhou com uma expressão de súplica, não havia percebido até então, mas seus olhos eram castanho-claros com alguns pontos esverdeados. Pensei em recusar a oferta, mas se eu realmente queria mudar, teria que me arriscar em todo o tipo de circunstância. Decidi aceitar.

— Tudo bem, então. Me espera lá em baixo que vou me arrumar, tirar a areia do corpo e colocar uma roupa mais tranquila.

— Tá, mas... não precisa se arrumar muito — ele apontou para o moletom que vestia — tenho certeza de que comigo vestido assim, não vamos à nenhum lugar muito chique.

— Isso é ótimo. — sorri, e brinquei antes de fechar a porta. — Estava mesmo querendo estreias meu pijama novo.

Pela expressão estampada em seu rosto vi que, por não me conhecer nada bem, não tinha certeza se eu estava brincando ou não.

— Te vejo lá embaixo! — ele gritou pela porta como se soubesse que ainda estava encostada do outro lado.

Enquanto me arrumava, tentava imaginar como seria minha noite. Além de me divertir, estava realmente esperando que ele me contasse o que é que havia acontecido no quarto ao lado e o que ele tinha a ver com aquela história toda.

Antes de sair me vi repensando se aquilo teria sido uma boa. Eu não fazia ideia de quem ele era, não sabia sequer seu nome e mesmo assim aceitara sair com ele.

Recentemente descobri tantas coisas novas sobre mim que seria bom dar uma variada e conhecer mais sobre outra pessoa, foi esse pensamento que manti em minha mente enquanto descia para encontrá-lo. Ele se levantou, me olhou de cima a baixo.

— E então, como estou? — dei uma voltinha. — Dentro do requisitado?

— Perfeita — ele fez positivo com as duas mãos e me deu o braço para que eu o acompanhasse.

— Para onde vamos? — perguntei enquanto saíamos do hotel. — Ainda vamos naquele tal restaurante do qual você falou?

— Acho que seria uma boa ideia, mas não agora. Quer dizer, está com fome? — balancei a cabeça negativamente, comi algumas bolachas que realmente me deixaram satisfeita hoje à tarde. — Então vamos para o centro, lá decidimos o que fazer.

Assenti e tentei passar a impressão de que sabia para onde estávamos indo. Por mais esquisita que tenha sido nossa apresentação, nossos repentinos planos e todo o resto, eu estava com um sentimento agradável em relação à ele. Parecia ser um menino bom, não ia me surpreender se virássemos verdadeiros amigos depois dessa noite um tanto quanto inusitada.

— À propósito, meu nome é Sarah. — me apresentei. — Sarah Cozzi.

— Muito prazer, Sarah. Pode me chamar de Vitor. — E como se lesse minha mente, disse — Sinto que essa será uma ótima noite.

Notas finais
Capitulo um pouco mais compridinho, mas espero que gostem. Ainda estamos na introdução, conhecendo Sarah e descobrindo-a junto com ela mesma. Comentem o que acharam e recomendem a história! Obrigada! Até o próximo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.