Burning High
21 s03e01 - Dlyavas
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Após o breve contato com o papel que pareceu me atingir como uma descarga elétrica, tentei enfiar novamente o recorte no bolso da calça do homem. O fato de estar com os dedos tão perto da braguilha do jeans azul-claro e poder notar agora, melhor do que nunca, o contorno do tecido ao redor do meio das pernas, que evidenciava o conteúdo relaxado dentro dele, me fez tremer e suspirar. Acabei por esbarrar minha mão “sem querer” ali, apenas para gemer com o breve contato com o pedaço macio que estava dentro. Só uns centímetros, só um pouquinho e eu poderia fazer mais do que sentir pelo tecido o seu membro…
Oh, Rose, controle-se e acabe com isso, seria uma péssima hora para Dimitri acordar e te pegar praticamente estuprando ele.
Com uma resolução fraca, enfiei com a ponta dos dedos o papel para dentro do pequeno bolso e me afastei rapidamente como se estivesse levando choques. Com um suspiro de alívio e uma careta de vitória não tão doce assim, voltei a cobri-lo com o cobertor, podendo, agora, analisar sua figura escancarada em meu sofá. Não pude evitar rir de como seus pés ficavam para fora do móvel, que não grande o suficiente para acomodar todo seu tamanho, ao mesmo tempo em que tentava enfiar uma almofada sob sua cabeça para igualar a altura e evitar que ele acordasse com torcicolo. Pronto, isso era tudo que eu poderia fazer, se ficasse mais tempo nessa sala, acabaria realizando tudo que estava passando pela minha cabeça agora. Uma dica: envolvia ato sexual ilícito com uma pessoa fora das capacidades de consentimento.
Recolhi o tapete e coloquei um balde em frente à cabeça de Dimitri, caso as coisas piorassem no meio da noite. Pela quantidade de álcool que ele consumira, seria uma loooonga viagem de volta a terra da consciência para o russo.
Após um banho relaxante, tudo que eu poderia fazer era dormir, sem tentar pensar no homem que estava na sala da minha casa. Mas essa era a coisa em tentar não pensar em algo. Você precisa pensar nela para não pensar nela. Complicado.
Ao acordar a luz que fugia das cortinas permitia notar que já deveria ser próximo das dez horas da manhã, quando o Sol batia contra minha janela diretamente naquele lado do prédio e aquecia o meu quarto de maneira que seria insuportável continuar dormindo sem refrigeração. A maneira sutil de a natureza me dizer “levanta essa bunda da cama, preguiçosa”.
Me levantei, espreguicei e me arrastei ao pequeno lavabo conjunto ao meu quarto. Vestia uma calça de pijama solta que era adequada na noite passada, com o clima frio, e uma camiseta velha e larga que caía sobre meu corpo com a figura do Mickey estampada (e já apagada) na frente.
Prendi meu cabelo problemático com uma volta no elástico, o deixando meio solto, meio preso, meio caído, com fios saltando nas mais diversas direções. A minha prioridade agora era me alimentar, já que nem uma porção de fritas pude aproveitar ontem no bar.
Enquanto me encaminhava para a cozinha escovando os dentes com uma mão e coçando o cabelo desgrenhado com a outra, iria terminar de escovar os dentes enquanto tirava o leite e o cereal para meu café. Totalmente desleixada, eu sei, mas essa sou eu.
Eu tinha certeza que estava esquecendo-me de algo, mas por mais que eu me esforçasse, não conseguia lembrar. E esse cheiro delicioso vindo da sala impedia que eu me prolongasse pensando nisso.
Quando alcancei a entrada do corredor para a sala de estar, conjunta com a cozinha do apartamento, congelei no lugar como se meu cérebro tivesse levado curto.
Dimitri. Dimitri na minha cozinha. Dimitri na minha cozinha sem camisa. Dimitri na minha cozinha sem camisa fazendo omelete.
Olhei para os lados com a boca aberta e a escova de dente dentro, conferindo se era a minha cozinha, o meu apartamento.
Aos poucos as memórias dos últimos momentos na noite anterior voltavam sem pressa a minha mente. Ohhh, era isso que eu estava esquecendo…
– Omelete?
Minha cabeça voltou como um chicote para encarar o homem que falava comigo, ao mesmo tempo em que girava a comida na frigideira.
– Huh? — Eu com certeza soava como uma lesada, o encarando com pasta de dente ao redor do rosto e o cabelo parecendo um ninho de passarinho. Oh céus! Eu deveria parecer um animal com raiva!
– Omelete, você quer para o café da manhã?
Saí correndo de volta para o lavado do meu quarto, cuspindo o conteúdo de espuma branca da boca e enxaguando tudo com uma cara horrível. Não havia muitas situações piores em que Dimitri pudesse me pegar do que meus modos depois de logo acordar.
Quando retornei, agora com a boca limpa e o cabelo repuxado o máximo possível sem ter de usar uma hora o preparando, me escorei sob o batente da porta que dava acesso do corredor a sala-cozinha, e o observei enquanto preparava torradas, suco e picava frutas. Ele não parecia o mesmo homem desacordado que caiu no meu sofá na noite anterior, não era justo, ele deveria estar um lixo e não aparentar esse Deus em sua total glória na minha cozinha, preparando comida suficiente para uma família inteira. Ou talvez fosse o que ele comece diariamente, considerando seu tamanho… Hum…
– Então, omelete?
– Sim, obrigada.
Aproximei-me da bancada, sentando em um dos bancos elevados e o observando pelas costas, derramando um novo ovo na frigideira. Ele derramou uma quantidade generosa da mesma garrafa que eu havia retirado dele no bar, deixando que o calor endurecesse a comida. Talvez ele fosse um daqueles tipos de caras: “evite ressaca, mantenha-se bêbado”, isso explicaria como ele parecia tão bem depois da noite patética, como se não sofresse nenhum efeito após encher a cara até quase atingir coma alcoólico.
Eu devia o estar encarando com uma feição estranha, pois quando ele se virou para depositar o prato com a omelete e duas torradas a minha frente, deixou uma gargalhada escapar e me encarou com igual curiosidade.
– O que foi?
– Nada, só estou tentando processar tudo… Como você se sente?
Ele parou por uma fração de tempo, meio incomodado, meio confuso com minha pergunta, mas retornou imediatamente a tarefa de picar um mamão. Ele parecia mais íntimo da minha cozinha do que eu mesma.
– Estou bem, não se preocupe, Rose. Agora coma antes que esfrie.
Colocando um garfo a minha frente ele tentou matar o assunto. Sua cabeça abaixou e o cabelo que estava preso em um rabo de cavalo curto, se soltou na frente, fazendo uma franja cair sobre seus olhos enquanto ele comia lentamente a própria comida. Eu havia resistido a vontade ontem, mas agora com ele acordado, nenhum dilema moral me impedia de ir até ele, exceto a parte que ele é meu superior no serviço, mas eu não iria me preocupar com isso agora, era uma oportunidade única e eu iria agarrá-la.
Descendo do banco, contornei a ilha conjunta da cozinha e o alcancei atrás dela. Ele também havia abandonado sua comida e dedicava total atenção ao meu movimento, virando de frente para mim conforme eu me movia.
Eu parei com nossos corpos já se tocando e ergui a mão para colocar aquela mecha de cabelo atrás de sua orelha, o que me obrigou a esticar os pés para alcançá-lo, igualmente deixando minha cabeça – e consequentemente minha boca — mais próxima da dele.
Nossos olhos se cruzaram e era como aqueles momentos de filme que eu julguei nunca acontecerem na realidade. O mundo ao nosso redor parou e eu poderia pouco me importar com o resto do mundo, quando Dimitri baixou sua cabeça e corpo para que nossos lábios se encontrassem. Ele foi lento e cuidadoso como não fora capaz no nosso primeiro beijo. Tudo iniciou como uma simples e leve carícia, uma singela sensação de algo estranho posto contra meus lábios. Nos movemos apenas depois de vários segundos, como se ambos precisassem se convencer de que estávamos finalmente nos tocando intimamente. Nossos lábios se retorceram e as cabeças penderam para o lado, gerando maior pressão e aumentando a necessidade de contato, em vez de diminuir. A longa mão de Dimitri acabou em minha nuca e eu não teria notado, tão presa na sensação dos lábios, se ele não tivesse puxado meu cabelo preso entre seus dedos, me obrigando a inclinar a cabeça para trás, lhe dando ainda mais domínio graças a sua altura superior. Quando gemi com a atitude audaciosa e mais bruta, o homem aproveitou o momento para invadir minha boca com sua língua, sem esperar permissão, exigindo tudo com dominância. Sua língua encontrou a minha e ambas tomaram uma dança onde ele comandava. Eu me sentia quente em algumas partes do corpo e entorpecida em outras. Eu não sentia minhas pernas e precisei buscar apoio agarrando em seus braços para evitar me derramar pelo chão, mas aquilo não me dava medo ou repulsa, era como algo que facilmente se tornaria minha droga. Beijar Dimitri era tudo que eu imaginei que fosse e ainda mais.
Seus braços, firmes pelos músculos, estavam imóveis agora, me ajudando a ficar de pé. Uma mão em minha nuca e cabelos e a outra em minha cintura, impedindo-me de me afastar. Como se eu fosse querer.
De repente a mão que estava em minha nuca voou para minha cintura, junto com a outra, e eu não tive tempo suficiente para registrar o ato antes que ele me girasse e erguesse com suas mãos firmes em minha cintura, para me depositar sentada sobre o mármore, tudo num movimento fluido.
Seus ataques em minha boca nunca cessaram e agora pareciam ainda mais fortes, quando o beijo era interrompido brevemente para mordidas em meus lábios. Ele controlava a tudo e eu mal tinha tempo e a capacidade de acompanhar suas ações, Dimitri era apenas… Muito. Meu corpo formigava e aquecia, e eu sentia que mesmo com ele entre minhas pernas se pressionando contra mim, não estávamos próximos o suficiente.
Suas mãos agora estavam livres para rumar pelo meu corpo, por cima do tecido das roupas, é claro. Dimitri sempre o cavalheiro. Tsk tsk.
Foi entre um beijo e uma mordida um tanto exagerada, que me abriu um corte, que ouvi um grito vindo do corredor da cozinha.
– Ewwww! Eu faço comida nesse balcão!
Nós dois nos separamos apenas o suficiente para virarmos a cabeça em sua direção e observarmos uma Lissa um tanto enojada à porta. Eu não havia a visto chegar ontem à noite, mas aparentemente ela havia retornado para dormir no apartamento e acabar com meus planos que envolviam um Russo, eu, nada de roupas e qualquer lugar para fazermos nossas sacanagens.
As mãos quentes de Dimitri ainda estavam em minha barriga, me apertando contra ele, como que receoso em me soltar.
Como não havia muitas chances de podermos continuar com Lissa nos flagrando, eu o empurrei com as mãos sobre seu peito, sentindo seus batimentos sob a pele e a maneira como seu peito definido se movia com a respiração rápida. Ele estava tão afetado quanto eu com o nosso pequeno jogo e, se isso não fosse necessário para saber, quando escorreguei para baixo, me esfregando com forca contra seu corpo, no caminho pude sentir em primeira mão a extensão da situação de Dimitri. A frente de suas calças jeans não o deixava negar, um volume começava a se formar e estava pressionado contra meu abdômen, prometendo o que logo poderia ser meu. Nunca seria rápido o suficiente, porém, e certamente não seria agora, com Lissa ainda nos encarando irritada e esperando que finalmente nos separássemos.
O que, obviamente, eu não deixei acontecer. Dimitri apenas ergueu o tronco se endireitando, isso já era distância suficiente. Ele encarou Lissa brilhando com um sorriso que era tão raro, quanto encantador, e pude notar que Lissa ficou tão afetada quanto eu ao encarar aquele Russo seminu cozinhando.
– Ovos, senhorita Dragomir? — Demorou alguns segundos para Lissa resistir ao transe, balançando a cabeça e voltando a encarar Dimitri com os olhos nublados. Ele já tem dono, Lissa!
– Quê?
– Gostaria de omelete para o café da manhã?
Ele repetiu e ela finalmente pareceu reconectar as sinapses do cérebro, podendo se comunicar de volta com seu corpo.
– Não… Eu só como frutas pela manhã.
Ela contornou o balcão se sentando a frente de nós em um dos bancos elevados, decidida a não nos encarar novamente.
Por mais que fosse irritante, eu precisava sair do caminho para que ele continuasse seu preparo. Ao virar para sair, senti a mão do homem se chocar com força contra meu traseiro e causar um alto estalo. Não pude evitar um pulo na reação com o contato e mordi o lábio para evitar um pequeno grito. Ele realmente me dera um tapa??? Como se não tivesse feito nada, ele retornou a sua tarefa demonstrando uma intimidade com a cozinha que eu falhava em ter. Ele sabia melhor onde as coisas estavam do que eu em algumas manhãs.
Minha bunda ainda ardia quando me sentei ao lado de Lissa, que já estava com sua tigela servida de variadas frutas em cubos, salpicadas com granola, enquanto esperava que Dimitri terminasse a nossa comida.
O homem só podia ser bipolar. Todo o momento, até ontem, ele não fora muito além do usual frio e distante, e um tanto quanto irritante. Dizem que pessoas lidavam com o luto e a perda de alguém de maneiras diferentes, mas esta era, até agora, a maneira mais estranha que já vi. A fachada de “tudo está bem, eu estou bem” já seria estranho sem a cena de ontem. Ele claramente não estava lidando com a situação de maneira saudável, pensando bem, eu tinha dúvidas que ele estaria lidando com a situação de qualquer maneira. Mais parecia que ele estava em estado de negação e isolamento, o primeiro estágio de acordo com Elisabeth Kübler-Ross em seu livro “On Death and Dying”. A pessoa não está pronta para lidar com o fato da morte de alguém querido e evita de toda maneira a existência dessa verdade. Já passava de o que, dois anos desde que aconteceu?
Meu pensamento foi interrompido quando um prato surgiu a minha frente. Além de duas omeletes cujo aroma continha levemente o cheiro da bebida alcoólica, tiras de bacon fritas estavam ao lado, juntamente com um tomate picado. Típico café da manha americano, coisa que eu não fui capaz de ter durante todo o tempo na Califórnia, minha alimentação lá fora precária, isso quando eu comia.
Lissa havia se retirado para o quarto levando a tigela com ela, deixando novamente apenas eu e Dimitri, que havia se sentado no outro lado usando o balcão da pia, o que o deixava de frente para mim. No entanto comíamos num silêncio incomodo entre nós, como algo entre nós que estava a níveis explosivos. E não era a libido.
Após comermos e lavarmos a louça — parênteses aqui: nos molhamos e sujamos metade da cozinha jogando água um no outro -, o celular do russo tocou gritando uma música que, com certeza, fora gravada antes da era digital. Enquanto ele guardava a louça seca nos armários, eu fui resgatar o aparelho que estava enterrado debaixo da almofada do sofá. Quando olhei o visor não pude evitar uma careta retorcida ao ver o nome. “Chefe Kirova” piscava na tela, enquanto ele continuava a tocar. Bem, pelo menos ele não tinha posto nenhum apelido meloso para o número dela, isso seria constrangedor.
Dimitri tomou o celular da minha mão com cuidado e, se sentiu alguma ansiedade ao ver de quem se tratava, não demonstrou. Apenas virou as costas para mim e atendeu a ligação com uma voz mais baixa e reservada. Aquela foi a minha deixa para retornar ao meu quarto e tomar um banho para me preparar para o dia de folga. Embora por dentro eu fervesse com a vontade de tirar satisfações quanto ao relacionamento que ele tinha com a mulher, como se eu tivesse algum tipo de domínio sobre ele. Mas eu sabia que uma atitude infantil como aquela apenas afastaria mais Dimitri, havia momentos em que era preciso crescer e agir com a responsabilidade que o mundo exige de todos. É chato, eu sei, mas faria isso por ele.
Quando retornei a sala ele estava sentado sobre o sofá, já vestido da melhor maneira possível, após todos os acontecimentos, enfiando seu par de coturnos pretos no pé, aparentemente pronto para fugir da minha casa enquanto eu tomava banho. Totalmente compreensível, meu sexappeal é assustador.
– Hey camarada, tem condições de sair por aí?
– Agradeço ter cuidado da minha retaguarda ontem, Rose, mas tenho coisas para resolver — Ele já havia se levantado e ia em direção ao balcão da ilha da cozinha onde suas chaves estavam. Para seu azar eu era mais rápida e ágil, e meu braço alcançou o molho de objetos metálicos antes dele.
– Acho que precisamos conversar Dimitri. Suas atitudes ontem foram no mínimo preocupantes e ignorar não vai fazer o que for que está te incomodando ir embora.
Ele afundou de volta ao sofá, emburrado feito uma criança sabendo que ia levar bronca. Suas mãos se esfregavam na cabeça, como se o ato organizasse seus pensamentos a força. Por um momento, ele ergueu a cabeça com um olhar irritado, prestes a dizer que aquilo não era da minha conta, mas logo depois a expressão se foi, dando lugar a um homem com olhar perdido.
– Eu não saberia por onde começar, Rose… É como se tudo em minha vida saísse do lugar e nada dá certo… — Ele suspirou, parou de bagunçar os cabelos longos e soltos, erguendo o rosto para me encarar. Eu já havia sentado na poltrona ao lado do sofá gigante, querendo lhe dar certo espaço e confiança para continuar.
– … E não é como se eu sentisse que merecesse que as coisas dessem certo… O motivo pelo qual vim para cá… As coisas não deram certo onde eu servia.
Deixei que ele continuasse quando estivesse pronto, sem interromper, apenas mostrando que eu ficaria ali por ele. Eu já sabia da história, ou pensava saber, mas não revelaria essa parte. Deixaria que ele contasse, quando estivesse se sentindo bem para isso. Com paciência o observei tomar algumas respirações até voltar a falar. Sua voz tinha perdido o tom sexual e predador que eu sempre associara a Dimitri. Era agora um fio de som de alguém que parecia se agarrar com todas as forças a uma corda para evitar que se afogasse. As memórias eram claramente vívidas e sofridas para aquele homem e enquanto ele precisasse de mim eu estaria aqui por ele. Como amiga, irmã, colega, amante. O que for que ele precisasse, eu seria.
– Minha irmã servia no mesmo quartel… Uma noite, fomos chamados para um incêndio em uma residência. A informação inicial era que a casa estava vazia, mas quando chegamos, um casal estava desesperado tentando entrar na casa… Seu filho estava dentro com a babá. Eu me deixei levar pela situação, pela chance de salvar os dois e permiti que a equipe de resgate entrasse, sabendo no fundo que o incêndio estava muito avançado e era perigoso entrar. Eu não pude salvá-los… Eu saí, mas minha irmã… Ela estava logo atrás de mim… Mas tudo estava em chamas. — Ele baixou a cabeça e a escondeu nas mãos, eu aguardei o momento, caso ele quisesse chorar ou precisasse simplesmente respirar depois de revelar aquilo. Quando ele a reergueu, com os olhos vermelhos e molhados, mas sem lágrimas, continuou.
– Eu perdi minha pequena irmã, Rose. Eu matei Vik.. Eu… Foi minha culpa.
Quando o momento permitiu, me sentei ao lado dele, pegando em sua mão e a apertando para lhe dar certeza que estava ali.
– Eu sinto muito, Dimitri… O que passei não se equivale ao que aconteceu contigo… Mas sua irmã… Ela morreu fazendo o serviço que amava… Servindo e ajudando aos outros… Tenho certeza que o garotinho que ela tentou salvar, ela deu seu último suspiro para fazê-lo se sentir seguro, e não sozinho e desesperado… Não muda o fato eu sei… Mas ela partiu realizando sua paixão, isso tem de ser um pequeno conforto… Honre a memória dela, mas não se arrependa por ela ter vivido seus sonhos… E eu digo, os sonhos dela, as escolhas dela. Não tem como se culpar pela morte dela, você estava fazendo seu trabalho também. — O encarei enquanto ele erguia lentamente a cabeça novamente, me olhando como quem vê uma pequena luz do fim do túnel.
– Você conhece o Wolverine, do filme dos X-Men? — Ele franziu a testa e permaneceu em silêncio por algum momento e eu pensei que ele não responderia, quando finalmente falou.
– Sim… Eu conheço o personagem dos quadrinhos, Rose…
– Então… Para mim… Um bombeiro deve ser como ele. Apanha, se machuca, às vezes é cortado ao meio… Bem, meu ponto é: você precisa se curar rápido e partir para a próxima. Sofra por um dia, não por um ano. Lamba as feridas e no dia seguinte, se levante como se nada tivesse acontecido e diga “aqui estou eu, para salvar a cidade! Me sigam!”. Nós somos responsáveis por algo muito maior que nós mesmos depois que aceitamos esse trabalho. Por Vik, por Mason, pelos moradores desse fim de mundo chamado São Vladmir… — Nisso ele engasgou uma risada, mas me deixou continuar sem mais interrupções.
– Meu ponto era… Sofra, sim, mas levante no outro dia como alguém digno de ser seguido. Você é o nosso tenente, Dimitri. E Vik está junto com você sempre que passar por uma porta para dentro de uma construção em chamas, sempre que estiver segurando uma pessoa em suas mãos, ela é a força para continuar. Faça com que cada vida que você salva seja um tributo a todos aqueles que deram o maior sacrifício que um bombeiro pode dar.
Após um silêncio calmo e confortante entre nós, quando Dimitri me encarava de outra maneira e parecia ter perdido o olhar de desesperança que estava nele antes, eu limpei a garganta e tentei fazer uma de minhas brincadeiras para tornar o ambiente mais leve.
– Wow, falei tantas coisas sábias agora, minha cabeça cansou, até me sinto como precisasse descansar… O que você costuma fazer nessa data, além de beber até ficar em condição de ser quase atacado e ter uma mulher se aproveitando de sua vulnerabilidade? Whoa, eu falei isso alto?
Dimitri balançou a cabeça concordando e novamente tomou um tempo para respirar e tentar acalmar seus sentimentos. Eu mesma estava uma bagunça e não tinha a bagagem emocional dele.
– Eu visitava o monumento aos bombeiros em Helena* para deixar flores. Vik foi enterrada na Rússia onde minha família vive, é o mais próximo de uma homenagem que eu consigo aqui…
– Pois bem, é só algumas horas de viagem, podemos ir e voltar no mesmo dia. Eu te levo, você não precisa passar por isso sozinho, Dimitri, nunca mais.
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