Burning High
20 s02e12 - Fantasmas do Passado
Retornávamos do atendimento com os ânimos de certa maneira renovados. Christian batia com as mãos nos joelhos fazendo o ritmo para alguma música atual, enquanto Adrian cantava e dirigia, até Dimiti pareceu sair de seu torpor melancólico entre chamadas, e fazia o refrão junto com eles.
Eu apenas observava aqueles que se tornaram minha família em tão pouco tempo. Com exceção de Lissa, eu não tinha nada próximo daquilo e todos eles haviam ganho um lugar especial na minha mente. Até Christian. Bom, talvez não Christian…
Quando alcançamos a estação, Christian que estava sentado ao meu lado pulou numa pressa incomum para fora, me jogando para trás de volta ao banco, fechando a porta atrás dele logo em seguida. Definitivamente, não Christian!
– Cachorro! — Gritei pela janela enquanto tentava abrir novamente a porta da cabine, ouvindo as risadas do moreno desgraçado que entrava no prédio.
Depois de finalmente conseguir pular do caminhão para o chão, sendo aparentemente a última, larguei o uniforme superior, como o casaco e a calça antichamas, as botas e o capacete no chão, ao lado dos outros já enfileirados.
Alcancei Adrian um minuto depois parado no corredor e parecia que todo o quartel estava agrupado ali, eu não conseguia passar ou enxergar o que estava lá na frente, então tive de perguntar a Adrian, escorado a parede com cara de quem preferia limpar banheiros a estar ali. Apesar da feição entediada do loiro, imaginava que seria algo importante para reunir todos os membros do quartel.
Eu tentei pular, passar por baixo, me enfiar no meio, mas os homens que estavam a minha frente não pareciam inclinados a me dar espaço, já estando eles exprimidos ali. Quando nada mais adiantou e a voz que vinha lá da frente chegava a mim distorcida e abafada, como um sussurro, me virei para Adrian, que agora parecia dormir contra a parede, e o cutuquei o suficiente para que ele quase caísse com a surpresa do toque. Eu iria rir se a curiosidade não estivesse dominando toda minha capacidade de processamento.
– O que está acontecendo? O que estão falando?
Adrian se focou em mim depois do susto inicial, claramente contrariado pela minha escolha em lhe chamar atenção.
– Estão anunciando o novo membro da equipe… Para a vaga…
– …do Mason… — O loiro assentiu com a cabeça e me observou com interesse, analisando minhas reações. Eu mesma não sabia o que sentir sobre isso. A equipe precisava de um novo membro, mas parecia tão cru e rápido jogar outra pessoa no lugar dele, o substituindo como se ele não fosse grande coisa.
– E quem é que vai substituir? — Adrian apenas me dera um de seus sorrisos de criança descobrindo o esconderijo dos doces e eu soube que coisa boa não viria.
– Isso, pequena, terá que descobrir sozinha.
Claramente eu não iria ter nada mais do homem, que estava se divertindo as minhas custas.
Aproximei-me empurrando as primeiras fileiras de pessoas a minha frente, alcançando a metade da concentração, sem chances de avançar mais. Agora ao menos eu via a ponta da cabeça de Kirova passando seu recado lá à frente, mas da pessoa que estaria ao seu lado, eu não conseguia ver nada.
Pulei uma vez e as cabeças mais altas a minha frente me impediram de ver. Parecia que havia mais pessoas do que o convencional no quartel e todas amontoadas no mesmo lugar para me irritar.
Na segunda vez que pulei, pegando impulso e conseguindo atingir uma altura maior, pude ter uma visão do rosto do garoto que estava ao lado da Chefe, sendo apresentado a casa. Oh shit.
Soltei uma exclamação ainda no ar e quando aterrissei, não voltei para o mesmo lugar em que havia pulado, mas sim perfeitamente sobre o pé do bombeiro ao meu lado, que urrou e amaldiçoou ao ar, recolhendo o pé e tentando movê-lo em maneira circular para tentar passar a dor. Quando estava de volta a segurança do chão, encarei o homem em quem pisei. Ele era da equipe de Stan e agora me encarava com os olhos cheios de fúria, eu apenas sorri torcendo que ele não guardasse rancor. Muitas das cabeças viraram para mim, curiosas com a bagunça, mesmo que Kirova não tivesse parado de falar com a interrupção. Do fundo eu podia ouvir a gargalhada de Adrian, se divertindo com minha desgraça. Eu me vingaria disso mais tarde, agora eu precisava sumir de fininho. “Fora da visão, fora da mente”, dizem.
Andando para trás devagar, agora com todos abrindo espaço ao redor de mim – porque não fizeram isso antes? — retornei a garagem para dar atenção a minha moto, a fim de ignorar alguns e fugir de outros. Ainda não estava pronta para encarar Jesse. Eu lembrava muito bem agora o que havíamos feito naquela noite e a mistura dele, com Adrian e Dimitri estava fazendo minha mente zunir como se uma abelhinha atarefada tivesse entrado ali e com seu barulho bloqueasse toda minha capacidade de raciocinar. Eu esperava que o garoto pudesse agir de maneira natural e não trouxesse lembranças daquela noite. Mas ao mesmo tempo eu sabia que essa minha esperança era tola, isso e as inúmeras mensagens que ele havia deixado em meu celular durante esse tempo que ficamos separados.
Ou ele não estava me procurando ou estaria ocupado com outra tarefa – e eu torcia para que fosse limpar todos os banheiros, diversas vezes-, pois fui capaz de passar o resto do turno sem cruzar com Jesse. Não tivemos nenhuma chamada, embora a ambulância tivesse saído para atender uma senhora desmaiada em casa.
Uma hora antes do fim do serviço Lissa ligara animada, estando num bar e pedindo minha companhia para encerrar a noite. Apesar do rapel e as emoções no retorno, eu não me sentia cansada e um momento de descontração com os amigos me pareceu uma ideia boa, finalmente. Sem trabalho no dia seguinte, eu poderia até beber um pouco além do mínimo possível para um profissional.
Justamente por isso que agora estou sentada ao lado de Lissa e dois amigos de sua faculdade, apreciando uma cerveja mexicana e ouvindo relatos das experiências hilárias dos universitários. O bar era novo e distante da área principal da cidade, o que me dava maiores chances de não encontrar ninguém conhecido, muito menos do Quartel.
Mas parece que eu não fui a única que teve aquela conclusão, já que pude notar, após virar a segunda garrafa de cerveja uma figura conhecida do outro lado do bar, de costas para mim, entornando um copo de líquido âmbar sem gelo e agarrado a uma garrafa pela metade com o mesmo líquido. Seu tamanho, o espaçamento dos ombros e o cabelo castanho comprido e solto a altura dos ombros, entregava claramente quem se tratava, mas não fazia sentido, como uma peça fora do lugar. Ele estava claramente bebendo mais do que o aconselhado se desejasse evitar uma tremenda ressaca no dia seguinte. E a metade vazia da garrafa e a maneira como continuava a encher o copo, indicavam que não iria parar tão cedo.
Levando minha garrafa de cerveja comigo, me sentei na mesa que só ele ocupava, o encarando e esperando que ele reconhecesse minha presença. Tudo que recebi foi um erguer no olhar, um breve momento e então sua cabeça estava baixa novamente, derramando o uísque de maneira tortuosa, esparramando boa quantidade fora do copo. Quando ele levou novamente à bebida a boca, achei melhor tomar a situação ao invés de esperar que Dimitri falasse algo. Ele claramente estava focado em tentar levar o copo à boca, sem acertar o nariz.
– O que está fazendo, Dimitri?
– BeBenDuU?
Ele me deu um sorriso torto que não tinha nada dos seus raros gestos quentes, o seu lábio superior tremia e o cheiro que me atingiu me deixou na dúvida que aquela era a primeira garrafa que ele entornava.
– O que aconteceu, Dimitri? Você não está agindo normalmente.
– A ViiDa Me AconNnteceU, Rrrrroza.
Quando ele pareceu desistir de servir seu copo e passar a levar o bico da garrafa diretamente à boca, eu a tomei de suas mãos rapidamente, recebendo um rosnado em resposta. Eu não me importava, ele não mostrava capacidade de parar de pé, quem dirá de brigar comigo pela bebida.
Pedindo ao garçom para chamar um táxi e avisando Lissa do empecilho que eu havia arrumado, levamos o russo para fora e para dentro do táxi, eu e o garçom.
Mesmo depois de cutucar e sacudir o homem, ele não parecia responder as mais simples perguntas, pois estava saindo de consciência ligeiro demais.
– Dimitri, seu endereço, onde você mora?
– JÁáá fAlEIi que Voooocê é bOoNIta, Roza?
Bufei, entendendo que não seria capaz de conseguir nada do homem atirado no assento ao meu lado.
Indiquei meu próprio endereço para que o taxista começasse a rodar e senti quando o russo caiu para o lado escorando sem cuidado a cabeça em meu ombro. Seu cheiro antes tão agradável e envolvente estava agora maculado com o odor do álcool. Seus olhos estavam fechados e a única indicação de que ainda estava consciente era sua mão que girava, cada vez mais devagar, os fios de um pedaço de meu cabelo que havia escapado do coque.
– TãO… BoNiitAaa… que Dói…– E apagou.
Levar Dimitri até nosso apartamento não foi mais fácil, mesmo tendo o taxista e o porteiro o carregando por mim. Quando ele finalmente tombou sobre o sofá, suspirei com o alívio, imaginando que a parte mais difícil havia passado.
Depois de agradecer aos dois homens e dar a ambos gordas gorjetas pelo esforço, fechei a porta do apartamento e me mantive ali escorada contra a madeira por alguns segundos, me impedindo de me virar e encarar o russo desacordado em meu sofá.
O que eu iria fazer? Dar um banho frio estava fora de cogitação, nunca eu seria capaz de levá-lo até a ducha. Um café forte seria outra opção, mas ele estava dormindo, finalmente parecendo se livrar da dor e fantasmas que o assombravam antes. Não tendo coragem de acordá-lo, apenas lhe retirei o sapato e o casaco pesado, colocando suas pernas sobre o sofá.
Ele vestia uma camiseta fina preta colada ao corpo e seu material me permitia ter uma prévia de como era seu físico por baixo.
Meu olhar foi mais baixo ainda, parando sobre a calça jeans que ele trajava de maneira que fazia o meu baixo ventre se retorcer. Mordi o lábio inferior com o pensamento de lhe tirar a calça. Não seria fácil e se ele acordasse, a situação seria constrangedora demais para eu sobreviver. Seria como se eu estivesse a ponto de estuprar o coitado. Mas será que só um pouquinho… Não, não. Só uma casquinha… Não faria mal, certo?
Baixei a mão devagar e comecei lhe tocando o peito. Sentindo como a região era dura e saliente graças aos exercícios, e o calor que seu corpo produzia e passava para minha própria pele, mesmo sob o tecido da camiseta. Descendo mais, a mão viajou pela barriga alcançando o abdômen. Ele era duro e ressaltado, e conforme ia apertando e sentindo seu corpo, pude notar claramente os gominhos que se escondiam ali. Minha mão já demonstrava vontade própria quando ia mais para baixo, quase lá… Quase alcançando o jeans… Quando ele se remexe e solta um murmuro, voltando logo para o sono tranquilo. Mas fora o suficiente para me assustar com a possibilidade de ser pega no flagra. Minha mão voou para junto de meu corpo e eu dei um gritinho agoniado, logo depois me permitindo rir com a audácia que eu havia exibido.
“Ah Rose, você está agindo como uma colegial...” Balançando negativamente a cabeça, joguei o cobertor sobre seu corpo para cobri-lo antes que a tentação retornasse, e ia me retirando para tomar meu próprio banho e tentar dormir. Foi quando notei no chão, ao lado do meu pé, um pequeno pedaço de papel amarelado, um recorte de jornal que eu não lembrava de possuir ali.
Ao recolhê-lo do chão e averiguar do que se tratava, suguei o ar pela boca e soltei um audível “merda”. Era uma reportagem sobre o incêndio que havia vitimado um civil e um bombeiro, Victoria Belikov. Foi a data no topo do papel que me deixou sem chão. Amanhã a reportagem faria aniversario.
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