Burning High

19 s02e11 - A Primeira vez é inesquecível


O caminho até o carro de Dimitri foi silencioso e pesado, os passos dele batendo contra as poças acumuladas da neve que se desfazia em outro período de inverno que estava indo embora.

Na segunda vez que a água embarrada jorrou contra minhas pernas nuas, minha paciência disse adeus junto com meu bom senso. Eu não faria nada se ele não me tratasse como uma adulta e colega ao invés de uma criança que aprontou algo.

Calma lá, camarada. Está tentando arrancar meu braço? Tá quase conseguindo.

A força da minha parada o fez sacudir e voltar um passo até se dar conta de que eu havia plantado meu pé e não moveria mais.

Rose, eu só quero te levar para casa, por favor.

Porque eu não posso ficar e me divertir um pouco? Acabei de levar porrada, preciso beber.

Porque você acabou de levar porrada — OK, o motivo dele estava certo, mas é obvio que eu não admitiria isso. Eu precisava descansar, sim, mas ninguém disse que eu precisava estar disposta a isso.

A festa lá dentro mal começou e eu quero aproveitar… A não ser que tenha algo melhor em mente em uma festa particular… — Eu devia estar realmente alcoolizada, pois um calor incomum (mesmo estando perto do Russo) envolvia minha pele que recebia a brisa noturna me dando calafrios. Minhas mãos foram para o peito do homem, tocando o topo do tronco e descendo até o abdômen, oh, eu poderia ir mais baixo… Mas nesse momento ele agarrou minhas mãos e as segurou para cima para evitar que eu voltasse a atacá-lo como uma Ninfomaníaca. Droga! Acho que acabei de provar o ponto dele.

Na verdade ela já está acabando e, de qualquer maneira, você não vai voltar — Sua mão escorregou pelo meu corpo e se fechou em meu braço novamente, deixando uma estranha sensação de formigamento pelo caminho.

Me levando novamente pelo braço de maneira delicada e forte ao mesmo tempo, não dando chances de escapatória, nos dirigimos ao estacionamento. Eu já via seu Mustang a distância.

Droga Dimitri, você é um porre. E não no bom sentido.

Muito obrigado.

Eu disse não num bom sentido! — Ele abriu a porta e me empurrou para dentro, fechando-a num baque seco logo em seguida. Parece que o cavalheirismo frio do Coração de Gelo tem limite também.

O resto da viagem foi naquele silêncio constrangedor como quando dois amigos estão afim um do outro, mas ninguém dá o primeiro passo. Só que no meu caso, eu estava emburrada de braços cruzados tendo de suportar a tortura da viagem. Eu totalmente poderia aproveitar a visão de Dimitri tocando com precisão o câmbio de marcha, ou como os músculos de sua coxa se movia por debaixo do pano da sua calça quando ele acelerava ou freava. Ou ainda como o cabelo comprido caía em pedaços quando ele olhava para os lados ao passar por um cruzamento… Tudo isso poderia amenizar minha irritação se não fosse… O som absurdo que saía de seu rádio. Aquilo era um toca-fitas? E de que ano era essa música?? Certamente não depois de eu ter nascido.

É sério isso, camarada?

O quê? — Ele nem tirava os olhos da estrada. Melhor assim, eu podia admirar seu físico sem ser notada.

Tem alguma música de depois que o Muro caiu? Essa está arranhando meus ouvidos.

Minha mão estava indo em direção ao aparelho para avançar a fita quando ele dera um tapa na minha mão em pleno ar. O queeeee?

Meu carro. Minhas regras. Minhas músicas.

Fala como se eu tivesse tido escolha — Novamente na minha postura defensiva, com os braços cruzados, passei a olhar a paisagem urbana fora dos vidros do carro. Eu nunca havia notado o quão demorado poderia ser atravessar a cidade e ir para meu apartamento.

Mas, como tudo na vida, o passeio acabou e Dimitri matou o motor quando seu carro escorregou para o portão do apartamento.

Ele desceu do carro e fez a volta numa pressa irritante, abrindo a porta e estendendo a mão para que eu fosse capaz de sair do carro rebaixado. É claro que eu não aceitei e me ergui com dificuldade. No impulso exagerado acabei me desequilibrando e indo para frente. Iria provavelmente cair de joelhos se Dimitri não me segurasse. Nosso corpo se conectou de maneira elétrica, com suas mãos em minha cintura me mantendo de pé, enquanto eu vagarosamente me ajeitava erguendo a cabeça. Deveria saber que era esforço inútil, já que eu me tornava gelatina quando ele me tocava. E quando ergui o olhar então, encontrando dois olhos castanhos me olhando tão de perto. Perto mesmo, sua respiração quente batia com força contra meu rosto, e eu notava cada detalhe de sua pele, do branco puro que apenas não alcançava a perfeição por causa de pequenas pintas que circulavam seus olhos de uma maneira encantadora. Dentro de seus olhos haviam movimento e brilho, como um mar revolto, e eu me via afogando, afogando…

Quando ele pigarreou e virou o rosto, pude notar o quão mais próxima eu havia chegado. Minha boca estava a milímetros da sua naquele momento e eu tive de recuar para evitar uma recusa direta de um beijo. Onde eu estava com a cabeça? É claro que eu sabia, naqueles olhos marrons e nos lábios vermelhos.

Dei um passo para trás me afastando do calor de seu corpo que até então eu não havia notado, porque já parecia fazer parte de mim mesma. Eu sabia que tinha uma aparência de dar dó, uma feição contrariada e decepcionada. Eu sabia disso porque era como qualquer mulher estaria após quase beijar Dimitri Belikov. Eu não tinha dúvidas que esse momento seria o mais importante da minha semana. Céus, do mês até.

Bem… Você está entregue. Se cuide, Roza... — Ele levou sua mão esquerda a minha nuca e me puxou para cima, de encontro a seu rosto. Sim… Mais perto… Mais perto… Quando seus lábios roçaram contra os meus, tão macios e convidativos, ele parou. Senti seus lábios tremerem, pois eu estava com meus olhos fechados. Quando sua hesitação durou mais que dois segundos, me forcei a abrir os olhos e encará-lo. Ele parecia dividido e sofria com dois lados que lutavam para controlar suas ações, era claro. Mais um segundo depois e ele ergueu o rosto para depositar um beijo casto em minha testa, mantendo a boca ali. Minha face estava agora contra seu pescoço e o cheiro de sua loção me arrastava para outra realidade.

Ah não, ele não iria escapar assim. Que se ferrem as regras, que se ferre Kirova, que se ferrem qualquer um que quiser nos julgar e atirar a primeira pedra. Eu não acabaria a noite sem ter o gosto de Dimitri em mim.

Aproveitando de seu momento de fraqueza, minhas duas mãos agarraram o colarinho de sua camisa o puxando para baixo em um movimento seco e repentino, sabendo que isso o pegaria de surpresa, mas que ele poderia resistir mesmo assim, considerando seu tamanho e força.

Mas ele não o fez e sua boca se chocou contra a minha como um golpe. Logo nossos lábios se esfregavam como se estivessem em um duelo, os seus partiram-se primeiro e senti a umidade de sua língua roçando ao centro dos meus lábios, sem paciência, demandando entrada. Quando eu finalmente abri minha boca, foi como se eu tivesse levado novamente um soco na cabeça e ido a nocaute. Por trás dos olhos fechados eu via todos os tipos de cores e sentia todas as sensações possíveis.

Ele não estava sendo um amante calmo e centrado, não. Ele estava sendo dominante, tempestuoso e envolvente. Como eu sempre achei que seria. Suas mãos estavam firmes em cada lado da minha cintura e, embora estivessem paradas, eu sentia a promessa das sensações que elas poderiam me causar. No momento, entretanto, me manter de pé parecia ser sua prioridade. Já as minhas mãos, ah elas estavam ativas. Depois de alcançar o objetivo o puxando pela gola, elas foram para a nuca e seus cabelos, puxaram, empurraram, sentiram e gostaram. A sensação era maravilhosa, os fios lisos escorregavam pelos meus dedos e o Russo parecia gostar quando eu o tratava com igual selvageria, por cada vez que eu puxava seus cabelos, ele afundava mais seus dedos na minha carne, me pressionando contra seu corpo duro e malhado.

Nas minhas costas eu sentia o frio do metal de seu carro, ele havia me guiado e prensado entre o objeto e ele sem que eu notasse, até que os choques de temperaturas começassem a causar algo em mim que eu só conseguia alcançar em meus momentos muito especiais sozinha.

Eu não poderia dizer quanto tempo durou, mas pareceu o suficiente para sentir meu mundo girar ao contrário. Era como se ele tivesse me destruído em pedaços somente com sua boca e me posto de volta como bem entendesse.

Sua respiração estava ofegante e eu senti seu peito reverberar enquanto ele tentava voltar a respirar. Eu não estava diferente. Meu cérebro parecia ter congelado, como se eu só conseguisse fazer uma coisa de cada vez e não soubesse escolher entre respirar, abrir os olhos e admirar um Dimitri bagunçado a minha frente, ou simplesmente voltar a beijá-lo e mandar o mundo esperar.

Ele pareceu tomar a decisão por mim, pois embora seu corpo ainda estivesse perto o suficiente para seu calor passar para mim, suas mãos afrouxaram a minha cintura e eu já sentia a dor pela força que ele usou. Amanhã estaria roxa, tenho certeza. Ele colou nossas testas com certa dificuldade que só agora eu pude notar e não deixar de rir. Ele tinha de dobrar seus joelhos um bom pedaço para que sua cabeça ficasse ao meu nível, mas, no beijo, ele não tivera o cuidado e agora meu pescoço doía por ter ficado inclinado e pressionado por esse tempo.

Sinais da nossa combustão selvagem estava em ambos. A camisa de Dimitri havia perdido o primeiro par de botões e eu não sei como fora capaz de arrancá-los entre o beijo. Seu cabelo estava erguido e bagunçado para todos os lados após eu tê-los puxado sem piedade, como se tivesse apenas acordado. Seu rosto estava corado e seus lábios inchados, eu devo até tê-lo mordido em algum momento, por um pequeno corte se fazia no canto.

Eu imaginava que meu cabelo estaria da mesma maneira. Eu havia perdido o elástico que o prendia e seus dedos ainda passavam pelos meus fios, sentindo-os como eu havia feito com o cabelo dele. Meu casaco estava amassado em todos os lugares e minha pele arrepiada com o choque térmico, como se eu estivesse nua na chuva. Meu corpo pegava fogo em contraste com o clima frio da noite.

Após alguns segundos com nós dois apenas respirando sonoramente, ele cortou o silêncio e se pronunciou, com uma voz tão rouca e um sotaque tão forte, que as sílabas que ele formava pareciam vir do idioma russo.

Oh, Roza… — Mais alguns segundos de silêncio e ele se afastou. Ou melhor, teve que desgrudar meus braços de seu pescoço e segurar meu corpo na distância de seus braços para evitar que eu me esfregasse nele novamente e a brasa pegasse fogo novamente.

Ele se despediu de maneira cuidadosa e esperou que eu entrasse pelas portas de vidro do prédio para partir.

Lá dentro o porteiro me dava o mais amarelo dos sorrisos, e seu olhar brilhante e pervertido me dera a certeza de que ele havia assistido a cena na entrada, de camarote. Eu apenas o cumprimentei com um balançar de cabeça e aguardei o elevador me levar ao meu andar. Com a memória do nosso beijo ainda latente em meu corpo, eu tinha mais o que ocupar o uso do meu cérebro.

Amanhã eu me preocuparia com as consequências do que fizemos. E com a minha vontade de fazer ainda mais com aquele homem.

Cambaleei no escuro do meu apartamento, me esquecendo inclusive onde estava o interruptor de luz.

A maneira como me senti com apenas um beijo não sairia da minha cabeça tão cedo. Como ele foi capaz de me fazer esquecer meu nome com apenas sua língua. E que quando nós repetíssemos, eu iria me desfazer sem nenhum controle sobre mim mesma.

Eu precisaria de um banho antes de dormir e muitas horas de sono para recuperar a energia que Dimitri pareceu roubar de mim.

Acordei na manhã seguinte com um travesseiro na minha cabeça. E eu teria continuado a dormir se ele não pesasse contra meu rosto e bloqueasse minhas vias aéreas me obrigando a acordar num sobressalto para tentar respirar.

Lissa estava a porta de meu quarto, me encarando com uma cara de nenhum amigo.

Levanta e desliga essa porcaria, eu não consigo dormir com esse alarme. Eu acho que ninguém no prédio consegue dormir com ele tocando, só você.

Só então eu notei que o relógio digital na cabeceira de minha cama apitava loucamente, um som que agora atingiu meus ouvidos com violência, me prometendo uma dor de cabeça.

Com um golpe pressionei o botão vermelho e o silêncio reinou novamente.

Droga, eu tenho turno hoje, minha cabeça esta explodindo e eu sinto como se não tivesse descansado quase nada, por que será? Ah sim, porque revirei na cama a noite inteira pensando num certo Russo tocando com sua mão forte e possessiva cada canto do meu corpo. Lugares que nenhum outro homem havia tocado antes. A memória do sonho que eu estava tendo justo na parte boa quando Lissa me acordou tornou meu corpo quente novamente, e eu não conseguiria tomar café sem um banho frio antes.

Fui a última a chegar para o turno no quartel, dirigindo com cuidado com minha moto. O degelo permitia que eu andasse livremente pela cidade novamente, sem me sentir como em um filem de apocalipse climático. Mas a água acumulada ainda oferecia perigos, a minha direção e as roupas que vestia. Não iria querer chegar pingando a água e barro para dar desculpas aos outros para me colocarem para limpar o chão. Fora-me prometida uma semana livre de tarefas pela luta e eu aproveitaria cada minuto.

Quando entrei o barulho de panelas batendo e metais caindo e arranhando o chão logo denunciou que a cozinha estava ocupada. Ali Adrian efetuava uma limpeza geral dos utensílios e dos balcões, enquanto que no sofá da área, Christian lia as páginas esportivas do jornal regional.

Quando o moreno ergueu os olhos acima das páginas cinza, sua sobrancelha se ergueu e ele dobrou dramaticamente o periódico para avaliar minha presença, como se fosse algo fantástico.

Você tá com aparência de merda, Hathaway.

Obrigada, Garoto Tocha, não é todos que podem simplesmente botar fogo na cabeça para um look mais moderno.

Até parece que alguém te fez ficar a noite em claro… — Para adicionar pimenta a sua provocação, ele se virou no sofá encarando Adrian, que por sua vez murmurou um “não olhe para mim” e continuou a esfregar um panelão, como se a conversa a sua frente não estivesse acontecendo.

Certo, certo… Todos nós temos nossos dias de cão, Hathaway. A propósito, bela luta. Adorei quando você beijou o chão para adicionar drama. Pareceu tão real, quase me convenceu — E com um sorriso presunçoso ele reabriu o jornal tendo atingido seu objetivo de me irritar.

Me morda, Garoto Tocha!

Jogando o capacete em sua cara eu o deixei na saleta rindo enquanto folheava o jornal.

Hoje seria um dia daqueles, eu estava me consolando quando abri a porta do meu armário e me assustei com o que me encarou de volta pelo pequeno espelho que eu tinha grudado do lado de dentro. Christian estava certo, eu parecia terrível. As olheiras tinham ganho a companhia de um cabelo revoltado e desgrenhado, que negava qualquer tentativa de doma após eu ter retirado o capacete. Parece que eu levei um choque e depois outro só para ter certeza, não duvidaria que seria capaz de atrair papéis ao redor de mim.

Porcaria! Merda! — Bati a porta do armário metálico fazendo todos os que estavam aos lados do meu tremeram.

O que o armário fez pra você? — A voz rouca e arrastada em vogais chegou a mim por trás, como um sopro no pescoço, e como consequência senti-me arrepiar na região. Eu pensei estar preparada para vê-lo novamente, mas oh, doce ilusão. Quando me virei para encará-lo, tudo que pude notar foi as gotas de água que começavam pelos seus fios grudados ao corpo, e desciam pelo pescoço, peito desnudo, abdômen… E finalmente morriam na toalha branca que ele tinha enrolada na cintura de maneira solta.

Engoli em seco e fechei os olhos, contanto até três, esperando que a alucinação fosse embora. Talvez fosse falta de sono, já ouvi dizer que essas coisas causam visões malucas. Não me entenda mal, Dimitri praticamente nu na minha frente, molhado e cheirando a shampoo e sabonete, recém saído de um banho quente fazendo sua pele vermelha parecer apetitosa… Erm… O que eu queria mesmo?

Ah sim, abrir os olhos e ver que foi tudo minha imaginação… Só que não. Quando meus olhos se abriram novamente, ele ainda estava na minha frente… Feito a perdição personificada.

Com uma mão segurando a toalha para evitar a tragédia que seria se ela escorregasse, ele abriu o próprio armário, que era ao lado do meu, retirando roupas de algodão finas e confortáveis… Hum… Será que é isso que ele usa debaixo do uniforme… Foco, Rose!

Com o rosto grudado para frente como se a porta do meu armário fosse a coisa mais interessante no mundo. Se eu passasse mais um segundo observando como o abdômen do Russo formava gomos e uma curva formava um triângulo com alguns pelos que subia por fora da toalha e prometiam que o que estava sendo coberto fazia jus ao apelido “másculo”. Ou talvez fosse meu pensamento desejoso, talvez ele tivesse pinto pequeno… Pffft, impossível.

Ele passou por mim deixando o rastro da junção de todos os seus cheiros que o fazia tão Dimitri, mas antes que seu corpo deixasse meu campo de visão permanentemente, sentia sua mão batendo em meu traseiro, dando um estalo e uma sensação de rápida ardência.

Espero repetir logo a performance de ontem a noite, Roza.

Ohhhh, Rose, se controle. Você está agindo como a adolescente virgem… Que você é.

Eu ainda estava ali feito uma pamonha, mesmo depois de longos minutos depois de ele ter me deixado bamba com tão pouco, sentada e desnorteada no banco do vestiário. Se esse homem não tirasse minha virgindade logo eu entraria em combustão. Eu teria que dar um jeito logo nisso. Só precisaria encontrar uma maneira de me livrar do corpo da Kirova…

Meus pensamentos foram interrompidos com a sirene que gritava pelos alto-falantes espalhados pela base, fazendo as paredes tremerem com seu “iiiiuuu iiiiuuuu”, e das mesmas caixas de som uma voz feminina da central de emergência anunciou “Homem em Perigo”, enquanto eu corria pelos corredores com meu cérebro funcionando no automático.

Quando me dei por conta, já estava com o uniforme, o capacete em meu colo e sentada dentro do caminhão.

Passamos pelo distrito comercial da cidade e paramos em um prédio novo que ainda estava em construção, com partes apenas em reboco e muitas áreas sem as redes de proteção. Um atentado a segurança do trabalho. Alguém claramente estava tentando cortar gastos e tempo no serviço fazendo as coisas pela metade.

E como é a ordem do Universo, onde pode acontecer merda, vai. Não é questão de “se”, mas sim de “quando”.

Um grupo de jovens achou interessante fazer uma festinha na cobertura do edifício de onze andares (uma inovação nesse fim de mundo que era São Vladmir), e esses jovens que já são estúpidos naturalmente, quando bebem, se tornam um perigo para si mesmos e para os outros.

Um dos garotos dançou querendo impressionar uma menina que estava afim desde o início do ano letivo e acabou escorregando na borda e caindo para uma sacada, dois andares abaixo. A estrutura incompleta cedeu e agora ele estava agarrado as barras de ferro. Ou isso foi o que seu amigo desesperado também alcoolizado contou, enquanto aparecíamos no terraço para tirar o garoto caído da enrascada.

A escada não alcançaria com segurança o local onde a vítima estava e a opção era um dos bombeiros descer de rapel e laçá-la com o cinto para que pudesse ser erguida.

Christian já estava se preparando para descer, quando Dimitri o interrompeu. O moreno parecia ser o “especialista” naquele tipo de resgate e a escolha mais lógica. Mas eu descobriria que “lógica” não ia bem com “Dimitri” na mesma frase.

Ele virou-se para mim, enquanto retirava seu capacete, e eu me via admirando como seu cabelo brilhava a luz da Lua Cheia naquela madrugada. Droga, Rose, você está trabalhando, se concentra, tudo bem que aquele cabelo sedoso e longo pareceu seda nos seus dedos horas atrás, mas…

Ouvi estalos perto de mim e quando minha visão se focou novamente ao meu redor, Dimitri estava bem mais próximo, estalando os dedos na frente do meu rosto para me chamar a atenção. Em sua face havia um pequeno sorriso presunçoso, como se ele soubesse o que estava me causando os devaneios. Ou melhor, quem.

Hum, o quê?

Terra chamando Hathaway. Perguntei como foi seu treinamento com rapel na academia.

Hum… bom… — Só que não. Depois de quase cair duas vezes e uma vez realmente cair em cima de meu instrutor, só a ideia de ficar pendurada numa corda, num resgate de verdade, fazia meu estômago revirar. Mas eu não admitiria isso para o Russo, nem ninguém.

Certo, deixe Hathaway descer, Ozera. Ela é mais leve e conseguirá manobrar melhor entre esses ferros e pedaços de construções precárias.

Ele me estendeu um outro kit de rapel que passaria ao redor e o meio das minhas pernas terminando na minha cintura para me deixar firme e em segurança enquanto resvalando pela corda. Eu apenas fiquei encarando o pedaço de equipamento vermelho esperando que ele risse e dissesse “pegadinha”. Ele não esperava realmente que eu fizesse isso, né? Ele está tentando me matar?

Até Christian parecia incomodado com a ordem, mas a acatou sem dar voz as suas dúvidas. Imaginava que todos da equipe estariam com pensamentos semelhantes.

Pode fazer isso ou não? — O tom que Dimitri usou ao balançar o equipamento na minha frente, com aparente impaciência, me fez tomar a decisão. Ele me ajudou a vestir passando o cinto pelas minhas pernas e puxando para cima, prendendo firmemente ao meu corpo. Era uma situação embaraçosa e sendo observada por vários espectadores. Ou talvez eles já estivessem acostumados e era apenas novo para mim, de qualquer maneira, Dimitri ajoelhado a minha frente, com a cabeça tão perto da minha… Ele estava centrado em apertar todas as fivelas e conferir o equipamento, nem ligando para minha situação ali em cima, puxando o ar pelo nariz e soltando pela boca aos poucos para ver se me acalmava. Toda a situação estava me deixando próxima de uma taque de pânico. E o maldito Russo provavelmente nem estava notando minha situação e como aquela ação estava mexendo comigo…

Não, ele definitivamente notou, quando ergueu o rosto para mim com o sorriso mais safado que eu já presenciei na minha vida, me encarando de baixo, com seus olhos brilhando.

Tudo certo, Hathaway. Iremos te descer aos poucos. Tenha cuidado, vá devagar e evite se apoiar na estrutura. Passe o cinto no garoto e nós iremos erguer ele e você. Final feliz. Simples assim.

Fácil pra ele falar. Ele estaria são e salvo aqui em cima.

Trocando meu capacete de bombeiro por um de rapel, redondo, Dimitri fez comigo a última checagem e repetiu as instruções, por final ligando a lanterna acoplada ao equipamento e me guiando para a borda onde eu desceria. Me inclinando para frente eu podia ver as pernas do garoto caído, e ele parecia inconsciente, possivelmente ferido.

Pisando na borda, deixei meu corpo pesar para trás até que estava quase na horizontal caindo para fora, quando dei um pulo e desci um metro colocando meus pés contra a parede e manuseando a corda pelas roldanas do equipamento, descendo centímetro por centímetro com uma calma que não refletia como eu estava por dentro. A sensação era que meu coração estivesse prestes a fugir pela minha boca a qualquer momento. Um vento irritante batia contra mim e gerava assovios agudos, mas pelo rádio preso ao meu corpo eu podia ouvir claramente Dimitri, que organizava a equipe lá em cima que me segurava na eventual perda de controle da corda.

Quando finalmente alcancei o garoto, poderiam ter se passado vários minutos, eu não tinha ideia, nem pressa para fazer qualquer merda.

Ao observar a situação da vítima, deixei escapar uma maldição e aos meus ouvidos chegaram a voz do Russo.

Hathaway, relatório. Qual a situação?

A vítima caiu sobre uma armação, perfuração na perna esquerda, perda consistente de sangue. Inconsciente.

Do comunicador do rádio Dimitri respondeu, com uma calma que me envolvia aos poucos.

Estamos baixando a serra, depois de cortar o metal, passe o cinto sob os braços dele e prenda ao seu corpo, iremos puxá-los quando estiverem prontos.

Logo a pequena serra elétrica surgiu sendo baixada por outra corda. Pegando-a, posicionei seus dentes contra a base do ferro da armação, a separando da estrutura, mas deixando intacta a parte que atravessara a perna do garoto.

Tentar prendê-lo sem mover desnecessariamente foi mais difícil, e depois de vários segundos suando frio, consegui deixá-lo seguro preso ao meu próprio equipamento de segurança. Ainda não havia sinais de consciência e o sangramento do ferimento parecia ter diminuído.

Eu estava agarrada ao adolescente o abraçando contra meu corpo enquanto a corda lentamente era puxada e subíamos de volta ao terraço.

Girei meu corpo para ficar de costas e evitar que a cabeça do garoto ficasse se chocando com a parede atrás de nós. Neste momento fui compensada com a visão mais magnífica da minha vida. Naquela altura, via a cidade inteira abaixo de mim, florestas e campos ao longe e a lua enorme a minha frente, como se eu pudesse tocá-la se apenas esticasse o braço. Era uma visão que apenas poderia entender quem já a presenciaria. Tranquei a respiração diante da beleza e não deixei a altura, o vento e o balançar da corda me atrapalhar, eu iria adicionar aquela tela a minha memória.

Quando finalmente atingimos o topo do prédio, vários braços nos puxaram e largaram sobre o chão. Logo o garoto foi solto e recebeu os primeiros cuidados para ser transportado ao hospital.

Eu apenas fiquei deitada no chão encarando o céu escuro onde estrelas brilhavam como se não estivessem mais tão distantes de mim.

Ao meu lado uma figura ainda maior do que o normal, sendo observada do ponto de vista do chão, pairou sobre mim.

Então, como foi a sua primeira vez?

Maravilhosa — Não pude conter o sorriso bobo e idiota em minha face e a risada aberta e doce do Russo apenas me fez sorrir ainda mais. Seria loucura dizer que queria fazer de novo?

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Notas finais
Pensaram que finalmente... né? Só que não! BWHAHAHA! Tá, tá... Calma que divagar vamos chegar lá. Devagarzinho pode ser mais gostoso, quem sabe ;3 Então. Atenção, leitoras, comentaristas e fantasmas, amo vocês todas, algumas mais... Mas vamos deixar isso pra lá, mamãe tem notícias novas :3 Primeiro, anunciando que a nova fic que irá ganhar os holofotes depois que BH sair de cena, já está postada, o banner aqui em cima é da fic. Leiam por aqui: https://fanfiction.com.br/historia/646302/OSegurancadaPrincesa/ Espero ver todos os mais assíduos e leais lá também. Ambas serão atualizadas semanalmente salvo exceções que pretendo evitar, mas BH ainda é meu foco, e darei mais atenção a ela se necessário. Ainda tenho muitos anos de vida para escrever SdP Segundo, e mais importante (porque os últimos serão os primeiros) , estou anunciando a parceria com com Roxy, ela irá Betar BH a partir de agora para me salvar de gafes e erros toscos e tornar a leitura de vocês mais prazerosa do que nunca. Uma salva de palmas pra ela que arrumou o cap em tempo recorde para vocês poderem ler nesse dia de chuva (aqui ta chovendo a três dias sem parar, vou ir de bote pra facul). Também a Capatinha, minha querida a qual quase devo a alma (ok, não tanto), que está me aturando e Betando SdP. Agora, todas reclamações de atrasos e erros nos caps devem ir para elas, por favor. Hahahaha É isso, acho, até a próxima queridas.