Burning High
8 s02e01 - Entrando num Aperto I
O zumbido em volume máximo nos meus ouvidos foram a primeira indicação de retorno da minha consciência. Estava difícil abrir os olhos e focar no que estava a minha frente, tudo estava turvo e cinza, como se estivesse debaixo d’água tentando olhar o céu. Aos poucos os sons venciam o barulho interno da minha cabeça, e eu ouvia sirenes, gritos e buzinas vindo de todas as direções.
Quando finalmente meus sentidos começaram a ser interpretados corretamente pude notar que estava sendo arrastada para longe do local da batida, minha cabeça latejava e um líquido frio corria do lado esquerdo. Quando meus dedos tocaram o ferimento, pude notar que estava sangrando levemente do topo da cabeça.
Depositada contra o asfalto mais distante da catástrofe pude ver quem estava me carregando. Seus cabelos cor de fogo e seu rosto pálido corado que eu tanto considerava infantilmente belo, agora estava coberto de sangue, cinzas e graxa, e seus olhos castanhos estavam apertados entre as pálpebras exibindo cansaço e preocupação.
– Bem vinda ao mundo dos vivos, Rose. Estava realmente preocupado com você parada no meio da gasolina e fogo...
– Mason, o que aconteceu...?
– Um caminhão desgovernado nos pegou, Rose... – Ele hesitou um momento, analisando meu rosto e condições, deixando transparecer sua preocupação e desconforto na maneira com que franziu a testa.
– Tá feia a coisa, Rose... A ambulância foi destruída, um dos paramédicos... – Ele balançou a cabeça, como se a ação pudesse expulsar pensamentos indesejados.
– Christian fraturou a perna. Adrian e Eddie estão tentando manter a situação sob controle até as ambulâncias e o esquadrão do Stan chegarem.
Soltei uma gargalhada sem humor, mas ela ficou entalada na minha garganta logo depois.
– Temos que esperar a ajuda do resgate...
Mason então aliviou as rugas na testa e se permitiu sorrir com a piada sem graça. Nesses momentos é uma das poucas coisas que podemos fazer. A comédia de uns é a tragédia de outros, não é?
Quando meu cérebro pareceu analisar as informações, notei que um nome não havia sido fornecido no relatório do ruivo.
– E Dimitri... Tenente Belikov?
O sorriso do garoto se desfez imediatamente e foi substituído por um movimento contorcido dos lábios. Eu via pela maneira que seus olhos tremulavam aguados que não era nada bom.
– Ele está preso nas ferragens, debaixo do caminhão... Ainda não conseguimos chegar nele.
Meus olhos se arregalaram e eu tentei me erguer do chão somente para sentir uma pontada na barriga, e ser parada pelas mãos firmes do bombeiro ruivo, impedindo que eu me erguesse. Eu tinha que me por de pé e ajudar... Dimitri impediu que eu estivesse na rota direta do caminhão, eu que deveria estar presa debaixo dele agora. Mas se tinha alguém que podia sobreviver a isso, eu tinha certeza que era Dimitri. De onde essa confiança vinha, eu não saberia indicar, mas estava ali, gritando para mim que ele estava vivo e bem, só precisando de uma ajuda para sair dessa situação para voltar a me atazanar com ordens de limpar o banheiro.
– Você teve uma pancada feia, não deve se mexer até ser analisada por um paramédico, Rose...
Meus dedos agarraram o casaco grosso de proteção do ruivo e o puxaram próximo para mim. O material estava quente e chamuscado, assim como o meu estava nas pernas. Eu deveria estar realmente perto da gasolina em chamas.
– Temos um dos nossos preso embaixo de um caminhão e tudo isso está prestes a explodir. Não existe uma alma aqui que vá conseguir me manter fora da diversão, bombeiro Ashford.
Ele pareceu não se mover com minha tentativa de ameaçá-lo, e já estava tentando me empurrar de volta ao chão quando a voz de Adrian foi ouvida, do outro lado da situação toda que estava a estrada.
– Ashford, traga sua bunda magra aqui!
Contrariado e dividido em continuar cuidando de mim e atender o chamado de Adrian, ele se levantou no chão e dirigiu onde os restantes dos bombeiros pareciam tentar controlar a gasolina e chamas.
No momento que ele virou as costas eu já estava me erguendo novamente, sentindo a forte pontada como se uma faca dentro de mim estava tentando cortar para fora. Talvez uma ou duas costelas quebradas, mas agora não era o momento de pensar nisso.
Quando meus passos me levaram até os três bombeiros restantes, discutindo como proceder para ter mais efetividade no controle das chamas, meus olhos vagaram por tudo ao meu redor, eu girava o corpo lentamente e absorvia as imagens. A estrada parecia ter sido palco de uma batalha épica.As marcas de borracha no asfalto vinha de cima do morro e continuavam numa curva acentuada, passando por onde eu e Dimitri estávamos com o caminhão, e indo além da linha das árvores ao lado da estrada derrubando várias até tombar. O nosso caminhão havia sido amassado na dianteira, empurrado para trás com o choque, mas aparentemente funcional ainda. A ambulância no entanto estava com a metade de trás completamente destruída. O motorista que estava nela e que havia saído do acidente anterior com apenas arranhados agora estava em uma maca dos bombeiros no chão, sendo atendido por um paramédico que tinha a própria cabeça enfaixada. Em um canto da minha visão pude notar um corpo no chão com um pano branco por cima. O outro paramédico, imaginei.
Depois de ter a visão do estrago todo, retornei ao nosso caminhão para conferir Christian, que estava sentado com as pernas esticadas em cima do banco da cabine, com uma tala improvisada prendendo uma das pernas.
Quando me viu, seu rosto se contorceu e seu olhar se fixou onde meu ferimento na cabeça ainda sangrava livre. A maneira que todos olhavam até parecia que meu cérebro estava vazando da minha cabeça.
– Você tá parecendo um lixo, Rose.
– Você também está ótimo, senhor charmoso.
Resisti a vontade de apertar a região da perna quebrada do bombeiro, e me contive a apenas conferir seus vitais para retornar para o grupo de Adrian, Eddie e Mason, que espalhavam terra em certos pontos na estrada com gasolina, e pó extintor em outros. Os esforços pareciam apenas reduzir a velocidade com que o fogo ganhava terreno, e eles estavam claramente exaustos.
Ao me ver mancando até eles, Adrian abandonou a posição e veio até mim segurando os ombros, impedindo de prosseguir.
– Rose, o que está fazendo aqui? Com um ferimento na cabeça, deveria estar parada e cuidando disso, você deveria saber bem.
Ele tentava me girar e me fazer caminhar de volta para o caminhão, como se eu fosse um robô que simplesmente andasse em linha reta e podia ser virado para qualquer direção. Mas eu resisti e mantive minha resolução.
– Estou aqui para impedir vocês de viraram churrasquinho, bombeiro Ivashkov, deveria estar feliz com mais duas mãos para ajudar. E antes que possa tentar me convencer do contrário... – O interrompi com uma mão erguida para calá-lo, já que estava abrindo a boca para provavelmente usar seu tom de bombeiro sênior dando ordem, como havia usado com Mason antes.
– Sou a única com chance de chegar até Belikov e tentar estabilizá-lo para retirar ele sem maiores perigos, acredito que ele já está bastante tempo lá embaixo e sabese-la com qual ferimentos. Então fica quieto e me ajude a salvar a pele do nosso tenente antes que ele também fique assado. Depois podemos usar isso contra ele.
Brinquei no final, e aquilo pareceu derrubar as últimas defesas do homem. Ele também estava claramente preocupado com Dimitri debaixo do caminhão, e sua inabilidade de retirá-lo sozinho.
– É perigoso entrar debaixo do caminhão Rose... e quando estiver lá, não haverá muito que poderemos fazer para te ajudar, estará por conta própria...
– Ainda está falando? Vamos logo com isso Ivashkov, tic, tac, tic tac...
Enquanto ele ainda tentava ter a última palavra na discussão, eu já havia dado a volta e me abaixado do lado do caminhão tombado, vendo onde estava Dimitri e o melhor ponto para entrar. Adrian que ficou para trás bufou e foi buscar um macaco hidráulico e tábuas de madeira para levantar e estabilizar o caminhão. Mason o assistia enquanto Eddie ficou sozinho na luta contra as chamas.
– Vamos tentar fazer isso o mais rápido possível, quando as chamas atingirem o rastro de gasolina, teremos apenas segundos para nos afastar.
Ele posicionou o equipamento para baixo do caminhão e começou a erguer o metal. Entre sons de lataria se retorcendo, pude ouvir gemidos baixos e reclamações no que parecia ser russo. Ele ao menos estava consciente.
– Certo, estou entrando, não deixe essa coisa cair em cima de mim, Ivashkov, ou eu vou te atormentar pro resto da eternidade.
O espaço era tão estreito que eu me arrastava com barriga e bochecha raspando no chão áspero, desviando de pedaços do caminhão que haviam se soltado e estava pendurados apontando para todos os lados. Cheguei em Dimitri só depois de dois minutos no labirinto lá embaixo, e com a mão esquerda que estava para frente do meu corpo girei a lanterna que era presa ao meu uniforme, fortalecendo a iluminação ali. O vago som de metal me deixava apreensiva e claustrofóbica naquela situação, com a sensação de qualquer momento o caminhão ceder e esmagar a ambos debaixo.
– Rose... Não deveria estar aqui... Sua cabeça... – Sua voz era rouca e cansada, como se estivesse lutando para permanecer consciente, e perdendo.
– Porque todos estão falando isso hoje? Minha cabeça ainda está presa ao resto do corpo, camarada, o resto é detalhe.
Toquei a mão em seu punho que estava a minha frente, e conferi seu pulso com calma, só depois me permitindo observar com mais atenção seu corpo. Com exceção da sujeira por ter sido arrastado no asfalto e terra, o único problema era sua perna esquerda, presa em um metal que lhe trespassou a coxa o pregando ao chão.
– Certo, boas e más notícias. A boa é que você vai viver. A má é que você vai viver.
Um sorriso mais natural surgiu em meus lábios, e Dimitri espelhou minha expressão, se permitindo sorrir um pouco. Definitivamente bateu a cabeça, também.
– Não pense que isso vai te livrar da limpeza que fugiu, Dragomir.
Eu soltei um urro de indignação, e nesse momento Adrian enfiou a cabeça para dentro do caminhão tombado gritando e pedindo por um relatório da situação.
Depois de gritar de volta resumindo o que eu havia visto, me virei e ajeitei onde estávamos, encarando o perfil do russo ao meu lado, o fazendo companhia num silêncio cúmplice. Ele havia abandonado o sorriso e estava sério novamente, respirando com clara dificuldade por causa da dor. Sendo testemunha em seu momento tão vulnerável, me pergunto se ele sentia medo do que poderia acontecer. Se iria morrer, se iria viver e se recuperar para o trabalho... Nesse instante notei como ele nunca demonstrava fraqueza ou dúvidas, medo ou hesitação. Ele era o nosso líder, não tinha o direito a exibir pensamentos que pudessem atingir nosso time e a moral. Naqueles instantes entre as respirações entrecortadas que ele dava, pude ver o homem por trás da máscara, o humano debaixo do bloco de gelo. Ele carregava o peso de tantas coisas, e ainda assim continuava trabalhando focado em salvar vidas, entrar em casas em chamas e ficar no caminho de caminhões para salvar outros. Meus devaneios foram quebrados quando ele voltou a falar, a incerteza palpável no tom de voz.
– Quão ruim está?
– Hm...?
– Minha perna... Vou perdê-la...?
Minha testa se enrugou nas dúvidas sobre aquela questão. Ele estava a beira de morrer debaixo de toneladas de metal, e se importava era se teria uma perna boa para voltar a trabalhar? E o que eu deveria responder a isso? Nada muito positivo poderia sair começando com “Sua perna foi empalada por um cano do caminhão...”
– A não ser que esteja considerando carreira como jogador profissional, nada a temer, camarada...
Menti, e senti minha mentira vir a superfície com meu sorriso fraco. Se ele notou a clara falta de informação, não insistiu no assunto, apenas devolveu um sorriso apenas com os lábios esticados, e balançou a cabeça para cima e para baixo da maneira que conseguia no pequeno espaço em frente ao seu rosto.
– Obrigado...
Seu agradecimento me surpreendeu a ponto de considerar uma concussão além dos ferimentos claros, mas a voz de Adrian do outro lado me roubou a atenção. Stan havia aparentemente chegado com três ambulâncias, e iríamos poder tirar Dimitri agora, e as chamas estavam controladas. Já não era sem tempo, meu corpo estava duro e minha mão esticada sob o corpo de Dimitri para pressionar seu ferimento na perna. Me dei a pequena liberdade de sentir seu corpo e músculos debaixo dos panos enquanto usava a desculpa de conferir outros ferimentos. Não era de ferro, afinal, não é? E eu provavelmente não teria uma oportunidade dessas de novo em anos.
Logo o caminhão voltou a ser erguido, lentamente, e eu passei uma corda por debaixo dos braços de Dimitri, me arrastando de costas para encarar seu corpo e ajudar a movimentá-lo debaixo, até estarmos com parte para fora do caminhão e sermos puxados por braços fortes. Dimitri foi posto em uma maca e a equipe de Stan com os restantes da nossa ainda de pé comemoravam o último resgate. A limpeza ficaria com eles. Eu estava sorrindo e me erguendo do chão quando as vozes começaram a ficar incoerentes e distantes, minha visão se perdendo como se uma névoa me rodeasse. Eu senti o impacto do meu corpo contra o chão duro, e distantes vozes gritando meu nome, se distanciando cada vez mais, até não ouvir mais nada...
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