Burning High
9 s02e02- Entrando num Aperto II
Notas iniciais
O bipe regular das máquinas que eu estava conectada se tornaram insistentes o suficiente para me prender a consciência de maneira que dormir não seria mais uma opção.
Minha cabeça parecia leve, e eu não sentia movimento de nenhum dos membros, e meus olhos resistiam a se abrir.
Num primeiro momento, parecia que eu encarava o Sol diretamente em seu esplendor, então o foco das imagens me mostrou uma lâmpada num teto branco tedioso. Definitivamente um hospital.
De um lado um aparelho monitorava meus batimentos e reações, e do outro de um suporte pendia um saco de soro, pingando lentamente em um tubo que estava conectado ao meu braço. Que exagero, foi só um corte na cabeça, certo?
– Bem vinda de volta.
A voz me atraiu atenção para a figura que passou despercebida por mim antes. Estava sentado numa poltrona ao lado da porta do quarto, com uma perna engessada do joelho para baixo, dobrada sobre a outra de maneira natural e sem esforço, e um livro agora fechado largado em seu colo. A capa marrom já gasta e desbotada em tantas partes tinha letras vermelhas no alfabeto russo.
Seu cabelo estava preso em um elástico firme, deixando todo seu rosto livre para ser observado. Tinha olheiras, cansaço exposto livremente, mas a expressão de ternura era o que mais me atraiu o pensamento, como algo que não cabia dentro da pintura de Dimitri Belikov.
Passei a língua pelos lábios ressacados e testei o movimento de meus dedos da mão e pernas. Tudo parecia retornar lentamente, provavelmente por culpa das drogas que eu estaria recebendo.
– O que você está fazendo aqui, camarada?
Ele se levantou balançando a perna imobilizada como se nada o estivesse impedindo de movimentar. Quando caminhou até minha larga cama hospitalar, pude notar que ele apenas estava mais lento e gingando seus passos com mais força, e tive a impressão que era apenas pelo motivo do gesso fazer com que suas pernas tivessem alturas diferentes. O fato de que deveria estar gravemente ferido parecia não ter entrado na mente do tenente. A física se dobrava as vontades desse homem, não o contrário.
– Lissa estava aqui o tempo inteiro, e como eu havia saído para dar uma caminhada, disse que poderia ficar de olho em você para que ela pudesse ir para casa descansar...
Ele ignorara o tom que usei na surpresa de vê-lo no meu quarto vigiando meu sono induzido a drogas, e derramou meticulosamente água de uma jarra em um copo que estavam sob uma mesa de cabeceira, me estendendo o líquido que já continha um canudo dobrável para que eu não precisasse de esforço monumental para beber.
Eu estava realmente com sede, mas depois de duas sugadas senti como se não fosse o que eu queria. Meu desejo estava em um hambúrguer duplo com extras nas fritas, e um copo grande de Coca. Consequência da alimentação por soro, eu culpei.
– Quanto tempo fiquei apagada?
Estiquei o braço com o copo quase cheio da água, e ele apenas me olhou torto não aceitando recebê-lo de volta. Eu conhecia aquele olhar. Rhea Dragomir me dirigia um muito similar quando eu empurrava o brócolis pro canto do prato. Trazendo o canudo novamente à boca bebi todo o restante do líquido, até que o ato de sugar pelo canudo produzisse um som rouco típico. Suguei por mais dois segundos perpetuando o barulho irritante, apenas para provar meu ponto, e finalmente devolvi o copo vazio para o homem. Quando ele aceitou e se virou de lado para mim para depositá-lo novamente na mesinha, resisti a vontade de mostrar-lhe a língua.
– Cerca de doze horas, os médicos retiraram seus medicamentos depois de terem certeza que não havia problemas internos com o ferimento. Eu falei que era desnecessário, que isso não era nada e você tinha cabeça dura.
Há! Dimitri fazendo piadinhas de mim. Eu devo estar endo ilusões provocadas pelos remédios, isso sim.
Foi então que notei a questão crucial na situação ali, e quando dei voz a minha indignação, o desgraçado teve a cara de pau de rir abertamente para mim.
– Hey, como é que você é atropelado por um caminhão, e eu que acabo presa a cama de um hospital?
Quando seu sorriso finalmente cedeu a seriedade, já não era mais o Dimitri durão do quartel.
– Você bateu a cabeça feio, Rose, permitiu que sangrasse e ficou zanzando por aí como se fosse invencível...
– Salvei sua vida nesse meio tempo... – O interrompi, e ele pareceu desgostoso daquele detalhe.
– E pôs a própria em pior situação. Poderia ter sido muito mais grave, poderia ter graves sequelas cerebrais... – Eu inchei o rosto como um sapo, pronta para discutir com ele na situação como uma criança teimosa, mas ele me cortou de maneira rápida e suas próximas palavras me fizeram perder a motivação de contrariá-lo.
– Mas aprecio a iniciativa e a coragem, é esse tipo de reação e pensamento altruísta que espero de alguém em meu esquadrão...
– Eles vem primeiro...(They come first) – O completei, citando o lema do nosso quartel, e Dimitri apenas balançou a cabeça em concordância, retornando para sua poltrona e sua amada literatura.
– É claro que agiu precipitadamente e se pôs em perigo de maneira desnecessária... – Ele sempre tinha que ter a última palavra?
– Se tem alguém que pode sair de uma situação dessas em condição melhor do que o socorrista, é o rambo russo... – Resmunguei baixo, mas ele claramente me ouviu, pois me encarou com uma sobrancelha erguida e eu me peguei rindo sozinha da piada.
Enquanto ele abria o livro na página que estava com um marca-texto improvisado de um guardanapo, a porta do meu quarto se abriu e dali entrou um Adrian saltitante e um tanto equilibrista, tendo em um braço um urso gigante de pelúcia branco segurando um coração, no mesmo punho a corda de um balão colorido de ar comprimido que tinha os dizeres “Fique boa logo”, e no braço oposto uma caixa de bombom redonda. Ponto para o loiro. Na falta de um BigMac, chocolates serviria.
– Como está a heroína do 51?
Só depois de entrar e largar seu urso num canto da cama sob minhas pernas rendendo um gemido meu, ele se virou e notou Dimitri já em possessão da única poltrona dali.
– Tenente...
– Ivashkov...
Os dois se cumprimentaram de maneira distante e formal, e o mais velho fechou novamente o livro se erguendo.
– Já que tem nova companhia, vou retornar ao meu quarto, antes que a enfermeira ache que fugi e chame Chefe Kirova para me arrastar de volta. Ela não gostaria disso.
Tenho certeza que não. Sem mais palavras o russo se retirou e Adrian fechou a porta logo depois, soltando um suspiro como se dividir o ar com o outro fosse esforço demais.
– O que foi isso? – Perguntei já com as mãos em uma trufa da caixa de Adrian.
– Ele não ficou de acordo com minha liderança no acidente, e acha que fui imprudente e inconsequente por deixar que você fizesse o que foi treinada para fazer.
Ele também pegou um bombom da caixa, e eu bati em sua mão o fazendo derrubar o doce.
– É meu.
– Egoísta. Pois bem, mudando de assunto... Você vai estar bem para o baile no final do mês, certo?
Soltei um urro animalesco do fundo de minha garganta ao me lembrar que depois de tudo teria que ir a uma festa. Com Adrian.
– Eles não podem querer continuar com isso depois de tudo, certo?
– É claro que sim, irão homenagear o paramédico que morreu. E nós ganharemos medalhas. – Ele pareceu parar para pensar no que havia dito, franzindo sua testa numa tentativa de identificar algo que eu não havia notado também.
– Acho que isso era para ser surpresa.
Adrian e suas conexões familiares.
Permaneci em observação por mais 24 horas no hospital, mas apenas receberia permissão para retornar ao trabalho em três semanas. Nesse período todos do quartel visitaram. Mason e Adrian vieram juntos no outro dia. Christian também veio me ver, embora tenha desconfiado que ele esperasse encontrar Lissa. Estava com a perna engessada e havia recebido alta no mesmo dia. Eu e Dimitri não tivemos essa sorte, embora ele não tenha mais me visitado no dia posterior.
Até Kirova me visitou, embora sua expressão parecesse demonstrar que estava ali contra a própria vontade, ou talvez essa simplesmente fosse a sua cara sempre.
A equipe de Stan também vieram nos ver no hospital, fazendo bagunça e trazendo flores e mais balões. Quando finalmente deixei o hospital, meu quarto parecia um salão de festas.
O período fora do trabalho foram torturantes. Se resumiam a acordar, malhar, comer e voltar a dormir.
Até que o dia do baile estava chegando, e Lissa parecia que seria quem receberia a medalha, de tão afoita que estava em decidir roupas. Aparentemente Christian não perdeu tempo e a convidou como sua acompanhante. Como ele dançaria com a perna engessada eu ainda não tive uma visão, mas ao menos poderia considerar que ele se comportaria melhor sem a chance de poder fugir correndo de mim caso magoasse minha amiga de novo.
Eu permaneci com meu vestido preto de costas a mostra, singelo mas de tecido capaz de abraçar meu corpo e fazer os homens desejarem que fossem eles. Certo, eu provavelmente estou exagerando no quão bem fiquei na produção para o baile. Ou não, vendo agora o rosto de Adrian ir de branco para vermelho para branco novamente. Não preciso ser uma telepata para saber o que esta passando na cabeça dele agora.
– Meus olhos estão aqui em cima, soldado.
Seu rosto se ergueu feito um chicote, e ele assumiu uma postura firme e ereta, como que em continência, mas sem a mão na testa.
– Você está linda, Rose. Quem precisa ir a um baile chato? Poderíamos ficar aqui em sua casa. – Ele abriu seu sorriso que pingava charme e promessas promíscuas, e que eu tenho certeza que derreteria qualquer outra garota no instante. Não eu.
– Boa tentativa, Ivashkov. Mas estamos atrasados. Lissa já foi com Christian, e ele tem uma perna engessada!
Disse enquanto equilibrava a bolsa e as chaves do apartamento para trancar a porta.
– Minhas intenções são puras, pequena, e sua vontade é meu comando.
Como o perfeito cavalheiro que eu sabia que ele não era, me ofereceu o braço para que eu segurasse enquanto me dirigia ao elevador e para o carro dele. Ele vestia o traje formal dos bombeiros, o que o havia lhe rendido pontos importantes no quesito apresentação. Era azul marinho com uma única listra dourada nas mangas indicando patente. No ombro esquerdo o brasão do quartel bordado em branco e vermelho, e no peito do lado direito o distintivo de bombeiro brilhava em contraste com o tecido escuro. Uma gravata preta sob camisa branca encerrava a produção do uniforme, que ainda tinha os detalhes de patente e outros espalhados pelo casaco.
Quando adentrei no ginásio do colégio da cidade, transformado em salão de festas para o evento, notei que a maioria dos homens presentes vestiam trajes semelhantes, embora claramente de outras casas de bombeiros e cidades.
Adrian me conduziu a concentração de mesas reservadas ao nosso quartel, onde todos os bombeiros já pareciam presentes com seus acompanhantes.
As mesas eram redondas com seis lugares, e eu fui posta na mesma em que Kirova, Dimitri e Adrian repartiam. Maravilhoso, essa noite promete, refleti no silêncio que se deu na nossa aproximação, com Dimitri levantando-se para nos cumprimentar. Ele me encarou por dois segundos inteiros como se tivesse esquecido o que iria fazer, para retornar aos sentidos e buscar minha mão para beijá-la de maneira que fez a cor voltar as minhas bochechas. Ele apenas sentou-se novamente após estarmos acomodados, e Kirova apenas balançou a cabeça para nos reconhecer. Animação não parecia forte daquele lado da mesa.
As palavras trocadas foram poucas e curtas, e claramente a tensão entre o tenente e Adrian permanecia forte.
Kirova trouxe um homem de meia idade como acompanhante, embora Dimitri se encontrasse sozinho até o momento.
– Eu disse que estávamos atrasados.
Sussurrei no ouvido de Adrian, que apenas apertou minha mão sobre a mesa tentando me confortar, enquanto virava o rosto para entregar a resposta em outro sussurro.
– Atrasados não, pequena, apenas fazendo uma grande entrada.
E Adrian sendo Adrian. Nesse momento Dimitri se ergueu novamente, e ao notarmos o motivo todos tivemos de nos erguer para cumprimentar a recém chegada. A reconheci da festa de aniversário de Christian, quando estava sentada com Dimitri em uma íntima conversa.
– Natasha Ozera, tia do Christian. – Adrian assoprou em meu ouvido enquanto a mulher alta cumprimentava Kirova e seu par primeiro. Era estava deslumbrante, com seus longos cabelos negros presos em um coque do qual fios fugiam e balançavam ao redor de seu rosto de pele clara. A cicatriz de queimadura* que cruzava um lado da face parecia não lhe incomodar, pois ela usava maquiagem leve e exibia seus traços com certo orgulho. Seus olhos eram azuis claros como os de Christian, e exibiam um ar de nobreza e superioridade. Quando nos sentamos novamente, me encolhi na cadeira acolchoada e recebi um braço de Adrian sobre meus ombros, considerando que estaria com frio.
– Me sinto um patinho feio no meio dessas mulheres...
Imaginei não ter sido ouvida por Adrian com minha voz baixa, pois ele estava chamando um garçom para servi-lo com um copo de uísque. Quando ele se virou com o objeto de desejo em sua mão direita, um sorriso brincava no canto de seus lábios, lhe dando a aparência de criança arteira que tanto cativava.
– Nenhuma mulher aqui chega aos seus pés, Rose, e nenhuma carrega minha atenção como você.
Para pontuar a veracidade em sua declaração, ele inclinou o corpo para mim e falou com o rosto tão próximo que o aroma de canela de seus cigarros se fez forte, e a ponta de seus lábios arranhavam o limite de minha própria boca. Meu coração disparou de maneira que eu podia jurar que ele ouvia os batimentos, pois seu sorriso se alargou e seus olhos brilharam, eu jurava que ele iria me beijar ali e agora, na frente de todos. Grande problemão se ele seguisse esse caminho, mas felizmente ele não tinha bebido o suficiente para ter essa coragem, e retornou a se sentar ereto na cadeira, mantendo o braço sob meus ombros.
Numa rápida avaliação de estragos, Kirova mantinha uma cara de paisagem encarando o palco do ginásio, fingindo não ter testemunhado nada.
Do outro lado Natasha nos olhava sorrindo como se aprovasse a atitude, e do seu lado um certo russo encarava a nós com olhos de pedra, as mãos imóveis sob a mesa e uma postura rígida como se até a própria respiração ele estivesse administrando cuidadosamente.
Para minha felicidade um homem de idade avançada e também trajando as roupas formais com insígnias dos bombeiros, arranhou a garganta no microfone fazendo um som agudo ecoar pelas paredes do local e fazer com que todos os presentes fizessem caretas e tentassem proteger os ouvidos daquela interrupção. Com um rápido pedido de desculpas, ele requisitou a presença dos oficiais, chefes e bombeiros das casas homenageadas, para que viessem até o palco.
Kirova se ergueu com a ajuda de seu acompanhante, e eu notei que o motivo disso era provavelmente seu vestido dolorosamente curto e apertado, como que se espremendo algo lá dentro fizesse as partes boas saltarem para fora. Não deu certo.
Ao seu encalço seguiu Dimitri, e logo depois Adrian me ergueu para que acompanhássemos o grupo até o palco.
Em fileira por ordem de senioridade nossa equipe ficou a frente do palco, ouvindo o discurso do homem que se identificou como o chefe regional dos bombeiros, em seguida Kirova rapidamente parabenizou e glorificou os atos heroicos dos bombeiros da “equipe do Tenente Belikov”, e a cerimônia de entrega de medalhas se seguiu. O chefe presenteou Mason, Kirova entregou a medalha de Eddie e Christian, que bamboleava com uma muleta. Adrian recebeu as honras de Stan, e quando minha vez chegou, como última da fila, meu coração disparou pela terceira vez na noite, ao observar com euforia que Dimitri pegou a caixinha de veludo azul da mesa com medalhas, e marchou até a minha frente, se virando e abrindo a caixa exibindo dentro dela a medalha prateada com fita vermelha e amarela.
– Em honra dos serviços prestados e da demonstração de coragem e cumprimento do dever acima de qualquer diversidade, a cidade de São Vladimir presenteia Rosemarie Hathaway-Dragomir com a medalha de bravura.
Sua voz era firme e direta, e seu olhar parecia me perfurar com tamanha intensidade, mas havia nele um brilho que eu não havia notado antes até o nosso momento no hospital. Havia escondido no mar de profissionalismo que Dimitri nadava, demonstração de carinho e orgulho, como um pai que observa os feitos nobres dos filhos.
Minha mão se ergueu lentamente e trêmula até a caixa, e eu mordia o interior de minha bochecha para evitar sorrir feito uma adolescente tola. Estava fazendo papel de boba, não tinha dúvidas, mas no breve momento em que ele me presenteou pessoalmente o prêmio, ninguém que nos observava parecia valer a pena considerar.
Quando toquei no objeto que não pesava mais que cem gramas, seus dedos se enlaçaram nos meus e apertaram de maneira que Adrian havia feito mais cedo para me confortar, mas que agora tinham um significado muito maior. Ele parecia dizer “eu acredito e confio em você”, na maneira que seus olhos se estreitaram e um sorriso na velocidade dos flashes apareceu em seu rosto. Suas mãos estavam cobertas por luvas brancas aveludadas, e a falta de contato com sua pele me decepcionaram.
Fotógrafos não paravam de disparar suas câmeras para marcar o momento, e só aquilo pareceu nos lembrar da realidade e das centenas de pares de olhos naquele salão.
Tão rápido quanto a cena começara, ela terminara, e agora ele dava um passo para trás novamente exibindo sua postura de oficial responsável, bateu continência lentamente e retornou marchando para seu lugar no início da fileira, enquanto todos os presentes na festa estavam de pé aplaudindo a nós no palco.
Após mais um breve discurso de saidera de Dimitri, pudemos retornar as nossas mesas e a banda tomou conta do palco que antes ocupávamos, começando com músicas animadas para a noite que prometia ainda ir longe.
Fale com o autor