Burning High

7 s01e07 - Não desafie o Universo


O protesto insistente de meu despertador já era um detalhe comum na minha nova vida trabalhando como bombeiro em... Onde eu estou mesmo?

Minha cabeça se ergueu três centímetros do travesseiro de espuma de silicone, e o esforço monumental me rendeu um breve momento onde o teto parecia girar sem piedade.

Ah sim... São Vladmir, no interior do estado de Montana. A três horas do fim do mundo, duas esquinas após aquele lugarzinho onde o sacana chifrudo perdeu as botas.

Não, não estava de humor, e o meu turno começaria em uma hora. Se eu estava assim depois de só beber dois drinques, me pergunto como está Lissa... Oh, não, Lissa. Ela teria que me levar para o quartel hoje, já que minha moto ficou na garagem quando fui sequestrada pelos meus colegas de trabalho. Sem chances disso acontecer agora.

Quando meus pés tocaram o chão aquecido do apartamento e meu corpo tentou assumir uma posição ereta, tudo voltou a girar e eu caí de volta na cama com uma maldição presa entre os dentes. Tive que tentar duas vezes mais até alcançar o banheiro. O que diabos Adrian deixou colocarem naqueles drinques? Pensando bem, acho que não quero saber... A água fria terá que me despertar para o trabalho, e rezar para que não ajam exames surpresas para os bombeiros hoje. De tempos em tempos fiscais surgiam no posto para examinar todos para drogas e outras substâncias. Vai saber o que está correndo no meu sangue agora... Eu realmente preciso fortalecer minha resistência a álcool. Ele perde todo o charme quando você bebe o suficiente para receber uma medonha ressaca mas não o suficiente para ficar feliz.

Com uma torrada na boca e o celular no ouvido, fui jogando meu material para a bolsa de ginástica e conferindo se tudo no apartamento estava pronto para a minha partida.

Lissa resmungou um pouco na minha terceira tentativa de acordá-la e eu não tinha mais tempo para brincar.

As chamavas para o ponto de taxi caíam após a primeira chamada. Grande. Era de madrugada e eles apenas faziam corridas nesse horário com agendamento. Tenho que me policiar para não pensar muito alto que as coisas não podem ficar pior, porque o universo tende a tomar isso como desafio.

Com todas as boas opções esgotadas, temos que partir para as não tão boas, certo?

E é por isso que estou parada em frente às portas do apartamento esperando para Adrian me buscar para o turno.

Lembra sobre más opções e sobre desafiar o universo? Pois é, eu vou lembrar-me disso mais vezes até o fim do meu dia.

Adrian dirigia um Viper moderno fechado de pintura esportiva vermelha e preta, e embora seu exterior fosse impecável, o interior fechado estava impregnado com o cheiro de seus cigarros e bebida, e eu encontrei pelo menos três cinzeiros usados e colocados em pontos estratégicos, todos ao alcance da sua mão enquanto dirigia.

Viajando o breve caminho –breve ao menos quando se está num carro que desliza a 130 km nesta estrada- com a janela aberta, e o vento gelado no meu rosto, Adrian se pronunciou pela primeira vez.

Senti sua falta na festa...

– Lissa não estava se sentindo bem, e considerando como acordei hoje, foi melhor ter saído antes que o álcool me fizesse dançar nua em uma mesa...

Sua resposta foi uma risada que ele tentou segurar acabando soando como se estivesse engasgado, e pela maneira que seu lábio tremia curvado para cima deixava claro que ele estava imaginando essa exata cena com detalhes impróprios.

Adrian, cuida a rua!

Sua atenção voltou para frente rapidamente a tempo de corrigir a rota do carro que começava a invadir a pista contrária, e por alguns segundos o único barulho dentro do carro era gerado pelo vento. Porém não demorou muito para o loiro retomar sua linha de pensamento.

O baile anual dos bombeiros será no final do mês...

Huuum... – As árvores que passavam rapidamente do lado de fora me cobravam a atenção, e eu procurava as pequenas exibições de vida noturna no bosque na lateral da estrada. De vez em quando um par de olhos pertencentes a uma raposa ou algum outro animal pequeno me dedicavam uma breve atenção. Adrian dirigia tão rápido que não era realmente possível distinguir tudo que estava lá fora.

Você gostaria de ser minha acompanhante?

Me ajeitei melhor no banco de couro legítimo do veículo fazendo um som de plástico de esfregando, e permaneci ponderando na oferta.

Agradeço a oferta, eu gostaria muito...

Seu rosto se iluminou com um sorriso genuíno como uma criança que acabara de abrir um presente no natal e descobrir que era o que mais queria.

Felizmente a garagem estava vazia e ninguém testemunhou nós chegando juntos para o turno, e eu me dirigi para a entrada do prédio sem perder tempo. Adrian enrolou algum tempo na garagem fingindo fazer algo, para entrar depois de mim.

Após passar meu cartão-ponto na máquina com dois minutos para o início do turno, tudo que eu queria fazer era poder guardar meu material e fingir que hoje vai ser como outro dia qualquer nesta cidade pacata. Sem estresse, sem chamadas... Sem Kirova.

Dês que presenciei o tenente russo da estação com a chefe, os pontos da mulher desceram para dez negativos. Já não era bom antes, sua presença autoritária sempre parecia tentar me rebaixar a insignificância. Não que outros também não fizessem isso.

Todo santo minuto que o russo me avistava, as únicas coisas que saiam de sua boca era “limpe o vestiário”, “organize o estoque”, “esfregue o chão”, bem, vocês pegaram a ideia. Hoje, não seria diferente.

Assim que minha bunda fez contato com o sofá que milagrosamente estava vazio, a figura de dois metros que atormentava meus dias e invadia meu sono surgiu pelo corredor direto do meu campo de visão, trotando com passos pesados e certos, fazendo seu coturno negro arranhar um agudo som contra o chão lustrado. Por mim, só pra deixar claro.

A academia precisa de uma limpeza, Hathaway.

Ele sequer parou para dedicar um olhar que fosse para mim no sofá, indo direto para a máquina de café e servindo sua xícara uma quantidade generosa.

Eu não lhe dei o benefício de acompanhar cada passo seu, mas eu podia imaginar ele agora, levando a porcelana a seus lábios e o líquido obscuro e de aroma único descendo pela sua garganta... É, eu realmente preciso arrumar o que fazer.

Enquanto passava um pano úmido pelos equipamentos da ginástica para tirar a sujeira e graxa em excesso, o alarme soou forte ecoando por todos os cantos do quartel. Hoje começou cedo, pensei com desgosto enquanto jogava o pano no balde num canto da academia e ia para a área dos equipamentos de fogo na maior velocidade possível sem que meu cérebro fosse chacoalhado aquela hora da manhã.

Nos alto-falantes era anunciado com voz feminina um acidente de trânsito na saída da cidade, envolvendo dois veículos com vítimas presas nas ferragens.

Quando alcancei a garagem com meu casaco reforçado balançando no ombro, pude notar Dimitri conferindo as serras e o braço hidráulico do caminhão, e Adrian retirando um cabo de abastecimento de gasolina do mesmo. Todos os outros já estavam dentro da cabine, e partimos para o atendimento na madrugada ainda sem nenhuma presença do Sol.

Ao chegarmos no local, pudemos notar as proporções do acidente. Um dos carros havia saído da pista, passando por cima das barras de proteção e indo de encontro a uma árvore, perdendo boa parte da dianteira no choque. De seu capô fumaça e chamas escapavam pela fresta. Nada bom. O outro carro havia sofrido apenas arranhados na lateral, e o seu motorista estava lúcido do lado de fora, tentando usar um extintor no carro que incendiava.

Dimitri foi o primeiro a sair do caminhão, abrindo a porta com ele ainda em movimento e pulando para fora num movimento único e controlado. Depois de usar dois segundos para analisar a cena, ele se virou para nós que ainda descíamos e latiu ordens.

Ozera, confira o motorista. Ivashkov, traga o braço, Castille a serra. Os outros façam triagem das vítimas.

Enquanto os nomeados executavam as ordens, eu e o ruivo que restaram no grupo fomos conferir o carro em chamas, observando uma cadeira de criança no branco traseiro, com uma menina de aparente três anos presa nela.

Hey, oi, pode me ouvir?

Ela mantinha os olhos abertos e estava tremendo, sem conseguir proferir palavras entre os soluços de choro.

Está tudo bem... Não se mexa, que já vamos tirar você daí...

Ela confirmou com um fraco aceno da cabeça, e voltou a soluçar.

Mamãe... Mamãe... – Sua voz era fraca e falha, e agora ela tentava se inclinar para frente tentando alcançar o banco do motorista.

– Já vamos pegar sua mãe, não se mexa, está bem? Eu vou quebrar o vidro, cubra os olhos... – Ela continuava com seu desesperado chamado, ainda tentando tocar a mulher sentada no assento do motorista, embora o cinto ao redor de seu corpo a mantinha no lugar.

Cubra os olhos querida, já vamos tirar você e sua mãe...

Finalmente aparentando entender minhas palavras, a garota fechou os olhos com força e pôs as duas mãos pequenas em frente do rosto, o cobrindo.

Motorista está preso entre as ferragens, como está a criança? – Dimitri me questionou enquanto do seu lado Adrian e Eddie serravam e puxavam a porta retorcida para dentro.

Em estado de choque, sem aparente trauma. Vou quebrar o vidro.

Anunciei ao pegar um aparelho criado especialmente para a situação, e o posicionei contra o vidro da porta. Ao apertar o botão o pequeno aparelho disparou uma ponta contra o vidro o estraçalhando em sua maior parte, e eu quebrei o restante dos pedaços que fincavam para fora.

Enfiando a mão para dentro fui capaz de abrir a porta e entrei no banco traseiro, parando do lado da menina e conferindo sua cabeça e corpo. De fato, não havia nenhum ferimento visível, e considerando que estava devidamente presa a uma cadeira infantil e cinto de segurança, provavelmente não sofrera nenhum trauma interno.

Olhe para mim, querida... – A chamei enquanto me posicionava no banco tapando seu campo de visão e impedindo que ela visse o resgate de sua mãe no banco da frente. Quando seus olhos azuis se focaram em mim, lhe dediquei um sorriso tentando passar confiança a garota, ao mesmo tempo que soltava o cinto e a liberada da cadeira.

Qual seu nome?

Maggie.

Muito bem Maggie, vamos te tirar daqui e você vai ter um passeio legal na ambulância super especial, que tal?

Quero minha mãe...

A garota protestou após estar livre, mas eu a segurei contra meu corpo e a carreguei para fora do veículo, a tendo em meus braços e impedindo que ela olhasse para trás, para a mãe ainda presa nas ferragens e o veículo em chamas.

Após depositar a menina na maca e passar a responsabilidade para os paramédicos, voltei ao veículo com um extintor em mãos para materiais inflamáveis, observando o trabalho que estava sendo feito para retirar a mulher. Como o pó poderia atrapalhar a respiração dela, não era possível usar o aparelho nas chamas do carro, que agora pareciam aumentar e expandir.

Dimitri gritava ordens e manobrava a porta para retirá-la mais rapidamente, e após ela finalmente ser retirada, notou-se que a maneira que o carro havia se retorcido ao se chocar com a árvore fez com que as pernas dela ficassem presas de maneira pior do que havia se avaliado.

Agora Adrian colocava o braço mecânico dentro do carro ao lado das pernas da mulher, tentando empurrar a concentração de metal amassado para cima para permitir que puxassem ela.

Sem precisar da serra novamente, Eddie agora se deitou no chão e conferiu algo debaixo do carro, gritando em seguida.

Tenente, temos um vazamento aqui!

Não era possível notar o cheiro de gasolina, mas se estava vazando com as chamas consumindo a frente do carro, cada segundo era precioso para fazer o resgate.

Finalmente as pernas da mulher ficaram livres, e Dimitri com a ajuda de Eddie puxaram ela para fora, a colocando em outra maca.

Logo após seu corpo inconsciente ser retirado, dirigi o jato do extintor para o capô do carro, e Christian se uniu a mim duplicando os esforços com os dois extintores, controlando as chamas antes que entrassem em contato com a gasolina.

Depois veio Eddie, direcionando a mangueira do caminhão contra a estrada e o carro, para lavar a gasolina.

Nada mal para o começo do dia, não... – Era Mason, agora do meu lado retirando as luvas grossas junto comigo, e jogando elas para dentro no banco da cabine ao mesmo tempo, como se a ação tivesse sido coreografada.

Nem dá ideia, o Universo pode achar que você quer mais...

Ele sorriu com a minha resposta, e se afastou para ajudar a guardar os equipamentos pesados, e eu assistia a primeira ambulância sair do local levando a menina.

Ela vai ficar ok, respondeu bem aos primeiros exames dos paramédicos...

Eu não precisava virar o rosto para reconhecer quem estava agora próximo de mim. Se sua voz masculina de maneira a despertar calafrios na coluna não fosse suficiente, seu sotaque carregado que parecia travar em consoantes o denunciavam.

O russo estava preenchendo seu questionário sobre o atendimento, escrevendo ferozmente contra a prancheta, como se tudo que fizesse dedicava total atenção e seriedade, até informações escritas num papel.

A segunda ambulância partiu levando a mulher inconsciente, e agora restavam apenas nós e uma ambulância, onde tinha sentado o motorista do outro carro, dando depoimento a um policial e tendo sua pressão avaliada por um paramédico.

Foi então que um som de motor pesado começou a ecoar pela estrada se aproximando rapidamente. Uma sequencia de buzinas longas do caminhão indicavam que algo não estavam certo.

Ouvi claramente Dimitri gritar no meu lado me empurrando contra o caminhão dos bombeiros e quatro luzes fortes surgiram rapidamente contra meu rosto. Após me chocar contra o metal frio do caminhão, não ouvi mais nada.

Notas finais
Sei que alguns devem ter imaginado que morri ou entrei num caso sério de hibernação, mas a questão do meu atraso monumental para atualizar foi uma junção de problemas, que sozinhos não eram grande coisa, mas juntos quase me levaram a loucura. Junto com o período de final de semestre, tive problemas com a rematrícula e o meu financiamento da faculdade... Agora estou de "férias" até início de Agosto, e vocês devem pensar que tenho todo o tempo livre para postar histórias, né? Só que não. Livre dos estudos para mim significa ter que trabalhar na empresa da família, o que me ocupa mais que o período de faculdade, então tenho menos tempo ainda do que normalmente. Por causa disso estarei diminuindo capítulos para tentar postá-los o mais rápido possível. Tenho no meu cronograma da fic dois acontecimentos importantes para cada capítulo, mas estarei dividindo em um para cada capítulo, acredito que vocês prefiram capítulos menores mas mais rápidos do que esperar um mês por um cap inteiro... Enfim, aproveitem, e deixem seus comentários, qualquer erro, perdão, terminei esse agora mesmo e estou postando sem ficar re-lendo... tsc tsc Até a próxima