Burning High
1 S01e01 - A Chegada
Notas iniciais
O frio da estação me agredia como uma amante traída. Implacável e imperdoável.
Já havia me esquecido de como a neve se acumulava de maneira irritante, e como o vento era capaz de agredir a pele descoberta do rosto.
Meus últimos cinco anos haviam sido esbanjados na terra do sol eterno da Califórnia, afinal, que lugar melhor para se estudar e viver? Especialmente quando estudar significa treinar entre bombeiros praticamente o dia inteiro.
Após meu último ano na escola surpreendi a todos quando trilhei o caminho para a Academia de Bombeiros da Califórnia. É claro que não era esperado de mim que ganhasse um prêmio de ciência, já que minhas notas na área nunca foram as melhores, porém era notável que todos imaginassem que eu seguisse uma carreira mais... Normal.
Um ano ralando para os exames práticos, e mais dois treinando para a aprovação física, e aqui estou eu congelando a bunda na esquina da rua da cidade.
Logo após me graduar como uma das mais jovens e promissoras almas da academia, surpreendi novamente ao requisitar permissão para ser transferida para duas esquinas após o fim do mundo: Montana.
Desejava estar presente para minha melhor amiga, Lissa, que perdera a família a dois anos atrás. Eles também eram a minha família, afinal me adotaram quando tinha apenas dois anos, tendo sido retirada da guarda da minha mãe, incapaz de cuidar de si mesma. Meu pai, eu nunca soube quem era.
Enquanto estava estudando e treinando, meu pensamento corria para Liss involuntariamente, eu nunca pude visitá-la e tinha poucos momentos na semana livre para ligar e falar com ela. A última vez que a vira foi no enterro. Mas iria remediar tudo a partir de agora, só precisaria...
Meus devaneios foram rudemente interrompidos por um carro passando pela rua perdendo por centímetros o meu corpo, buzinando como se fosse fazer alguma diferença.
Uau, eles já tem carro nessa cidade? Pensei amargurada, dessa vez tentando atravessar a rua com a devida atenção, mas sem necessidade, já que nenhum outro carro parecia circular naquele tempo imprevisível com neve.
Com minhas mãos enfiadas na jaqueta térmica sacudi o corpo para ajeitar a alça da longa bolsa que pesava contra meu ombro, e rumei para um extremo da cidade onde havia recebido indicações que se localizava o meu novo local de trabalho.
Lissa apenas retornaria daqui a dois dias das férias da faculdade, e eu logo começaria um turno. Não havia necessidade de passar antes no apartamento que passaríamos a dividir.
Admito que com meus protetores de orelha, o grosso casaco sintético preto e as calças e botas térmicas, eu parecia mais um pinguim desajustado, encolhida tentando fazer com que a gola da jaqueta cobrisse meu pescoço até o queixo para evitar o vento frio que agora lambia minha nuca.
Não foi difícil encontrar a estação, afinal, era uma das maiores estruturas naquela região da cidade, a três quadras de onde desci do ônibus. Aparentava ter sido um armazém antes de ser transformado em uma base de bombeiros, e toda sua fachada, paredes, telhado e portas estavam pintadas de um vermelho vivo, com o número identificando o determinado quartel de acordo com a organização estadual dos bombeiros. Servíamos a outras duas cidades além desta.
Uma das largas portas de garagem estava aberta o suficiente para eu passar me abaixando levemente, e eu decidi entrar por ela ao invés de tocar a campainha na porta lateral e esperar no lado de fora. Junto com a nevasca.
Uma boa decisão, afinal, pois após passar pelo pesado portão de metal, fui recebida com um calor agradável, indicação que felizmente o aquecimento funcionava na estrutura.
Assim que dei meu segundo passo para dentro da garagem dupla, procurei ignorar meu nervosismo e atentar ao local ao meu redor, deixando de lado alguns homens que estavam conversando de maneira animada ao lado de um caminhão de bombeiros. Mas isso não quer dizer que eles não prestaram em atenção em mim. Após um rápido momento analisando o ambiente, voltei meu olhar para o mais próximo dos homens que estava na roda relaxada que eles formaram, aquele que assim que entrei pousou os olhos em mim com um sorriso que parecia esconder uma malícia. Seus cabelos eram de loiro claro, e seus olhos verdes brilhavam como os de uma criança saboreando sua nova bagunça. Ele cutucou duas vezes o rapaz ruivo que estava ao seu lado, e após este segundo por os olhos em mim com a boca levemente aberta, todos os demais na roda imitaram os dois primeiros e se viraram agora de frente para mim, alguns com olhares curiosos, e outros entediados.
O primeiro se aproximou brilhando seu sorriso de maneira ainda mais forte, o que eu havia imaginado não possível. Seus dentes estavam tão a mostra que eu cheguei a me perguntar se ele não ganhava dores no maxilar por sorrir de maneira tão aberta.
Sua voz era carregada e assim como seus gestos e feições, pareciam ressonar malícia e segundas intenções.
–Olá... Precisa de direções?
E é claro que eles imaginariam que eu era apenas uma mulher perdida e indefesa em busca de ajuda dos prestativos bombeiros da cidade, e eu sabia que deveria me impor ali e agora para tirar essa ideia da cabeça deles de maneira definitiva. Eu estava falhando miseravelmente.
Minha mão remexeu no fecho lateral da minha bolsa de ginástica, vasculhando os documentos que eu desejava, mas que pareciam fugir dos meus dedos, e minha voz exibia a incerteza da situação.
–Não... Eu... Estou procurando pelo tenente Belikov...
Falei enquanto ainda passava a mão pelo compartimento da bolsa, soltando uma maldição por não conseguir encontrar cegamente os papéis que precisava exibir para comprovar minha situação ali.
Eu mantinha os olhos colados nos do loiro como que por magnetismo, enquanto meu sorriso fraco prolongou a frase. Porém no momento que as palavras saíram da minha boca, pude notar o clima na garagem mudar drasticamente, todos os cinco homens da roda a minha frente pareciam parar até de respirar, me encarando agora com olhos intrigados e curiosos. Céus, até pareciam mulheres afoitas para saber da vida do tenente deles, e o que uma mulher fazia o procurando naquele local masculino, sedentos por um pedaço de fofoca sobre o superior.
Após o que pareceu vários segundos no clima tenso que se formava- mas que eu depois tive a ideia de ter sido apenas um momento- ouvi o barulho de metal caindo ao chão e ecoando pela ampla garagem, ao que parecia ser de uma ferramenta, embora o exato local de onde viera o som não fora possível identificar a princípio.
O som de rodas de metal se arrastando no chão também foi ouvida, e debaixo do caminhão a qual todos estavam próximos saiu um carrinho de mecânico seguido por longas pernas... E nenhum dos três anos na academia de bombeiros me preparou para o que veio depois.
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